
Agora vai. É o que se depreende ao fim da entrevista do deputado Jovair Arantes ao Jornal Opção, em relação à intenção de finalmente sair candidato a prefeito de Goiânia. Já se vão 16 anos, ou quatro pleitos municipais, desde que o presidente estadual do PTB colocou pela primeira vez seu nome como pré-candidato, sempre ligado ao grupamento político de Marconi Perillo. Em todas as oportunidades anteriores, recuou, atendendo a interesses do mesmo grupo. Agora, cobra a fatura pela fidelidade e desprendimento.
Na verdade, Jovair sabe, no fundo, que não há momento melhor para se inserir como o nome da base aliada: entre todos os possíveis nomes, o único que realmente pode ser considerado como destaque acima do seu é o do senador Demóstenes Torres (DEM), que tem muita coisa a pesar, em termos de voo nacional, antes de se definir por uma aventura municipal, ainda mais correndo o risco de uma derrota — o prefeito Paulo Garcia, natural candidato à reeleição, vem em ritmo crescente nas pesquisas e terá apoio de seu antecessor, Iris Rezende, e da presidente Dilma Rousseff.
No discurso, Jovair mostra convicção e foco de quem já está verdadeiramente no palanque: diz ter soluções para os problemas da cidade especialmente em três pontos — saúde, mobilidade urbana e segurança pública e combate às drogas, área de cobertura, teoricamente, do Estado e da União, mas sobre a qual ele considera que o prefeito deve se ater, por ser o “dono da casa”. Em sua fala ataca gestões, mas nunca gestores. Diz que é sua forma de fazer política.
Atirado à disputa eleitoral, Jovair teve seu nome caçado pela revista “Veja”, em recente denúncia sobre uma suposta propina que teria sido proposta em seu nome a Osmar Pires. O acusador acusou a revista — disse que não falou com a publicação e que usaram seu nome indevidamente. Jovair sabe que o disparo que tentou atingi-lo foi “fogo amigo”. Jovair sabe até o “amigo”. Mas, como bom político, abriu mão do confronto aberto com o rival e acionou as vias judiciais contra o periódico.
Cezar Santos — A cada eleição para a Prefeitura, o sr. se lança como pré-candidato. Quando o processo se afunila, o sr. abre mão. Desta vez é para valer, o sr. será candidato mesmo?
Sim, desta vez será assim. Na política, você não é candidato de si mesmo, é preciso ter uma base, em cima de uma lógica também para sair essa candidatura. Pertenço a um grupo político ao qual historicamente tenho acompanhado. Foi muitos anos comandado por Henrique Santillo [ex-governador do Estado, entre 1987 e 1990]. Hoje ele é capitaneado pelo governador Marconi Perillo. Tivemos um crescimento desse grupamento político graças a algumas renúncias, inclusive minhas. Isso propiciou seu fortalecimento e se materializou em forma de sucesso em eleições em vários momentos. Fui vice-prefeito de Darci Accorsi em 1992 e era candidato natural no lugar dele. Na época tinha até um acordo em relação a isso, mas como estávamos em busca do governo do Estado, meu grupo político me fez vez que a candidatura de Nion Albernaz e sua eleição seriam importante para o projeto de ganharmos o governo. Foi a primeira vez, então, que abri mão da Prefeitura. Naquele primeiro momento, a tese de minha renúncia foi acertada porque Nion ganhou a Prefeitura e Marconi foi eleito ao governo. Depois, fui eleito várias vezes deputado federal e sempre apoiei Marconi a governador. Desde então, quis disputar as eleições municipais de forma sucessiva. Em 2000, Marconi me solicitou que abrisse mão para Lúcia Vânia (PSDB), que era então deputada federal e foi candidata a prefeita, não logrando êxito. Em 2004, eu era candidato e busquei partidos políticos para termos um tempo de TV razoável, mas não conseguimos e apoiei Sandes Júnior (PP), a pedido do grupo. Em 2008, lançamos Misael Pereira (deputado então no PTB) como vice-prefeito na chapa de Pedro Wilson. Sempre com o princípio de que não podemos ser candidatos sozinhos. Diante de toda essa fidelidade que tive esse tempo todo a esse grupamento e partindo agora com um trabalho mais consistente — consegui já dois partidos, PV e PHS, além do PTB, para garantir o tempo na TV —, temos certeza de que podemos dizer que a candidatura, desta vez, é irreversível.
Cezar Santos — O sr. já esteve com o professor Nion Albernaz, que está coordenando esse processo na base?
Já estive com Nion, com o governador Marconi Perillo e também com o prefeito Paulo Garcia, comunicando a ele que sou candidato, apesar de estar na oposição.
Elder Dias — Além da fidelidade já de décadas a ele, Marconi, e ao grupamento, quais outros argumentos o sr. colocaria para convencer o governador a ser o candidato único da base?
Espero convencer não só ele, mas toda a base. O que tenho de mais importante é minha experiência como político e entender que tenho possibilidade de fazer uma grande gestão por Goiânia, seja pelos anos de caminhada, seja pelas portas que posso abrir em Brasília. Mais do que tudo, a lealdade que tenho mostrado deve ser pesada. Na minha vida política sempre fiz assim: cumpri todos os meus compromissos assumidos diante de cada município. Atendi todos os pleitos. Sou uma pessoa de palavra e por isso tenho tido sucesso crescente a cada eleição, saindo de minha primeira eleição à Câmara dos Deputados de 29 mil votos para agora, na última eleição, com 147 mil votos. Essa credibilidade como parlamentar eu terei também como gestor público municipal.
Cezar Santos — Quais seriam as prioridades para a cidade? O que precisa ser atacado hoje e que o prefeito Paulo Garcia, por acaso, não estaria fazendo?
Não é questão de ser Paulo Garcia. Falo isso em todas as entrevistas: Goiânia tem tido a felicidade de ter bons prefeitos, como o próprio Paulo. Mas nenhum ataca os problemas crônicos que a cidade tem. Desde Darci Accorsi, ninguém os atacou de frente e que estão sendo perenizados. Um processo crônico acaba causando consequências sérias. Há três problemas da capital que não são resolvidos: a saúde — e Paulo Garcia é médico —; a segurança pública e o combate às drogas, porque o dono da casa é que tem de bater a mão na mesa e não deixar na mão do Estado ou da União; e a mobilidade urbana, com uma gestão atrasadíssima em transporte coletivo, que é tocada pelos donos das empresas. Com relação a esse último item, Goiânia, sendo uma cidade nova, apresenta problemas de cidades com 300 anos. Minha intenção é apresentar um projeto para resolver essas questões definitivamente e planejar a cidade para os próximos 50 anos, com prioridade aos eixos de crescimento, para que se saiba onde passarão as principais avenidas. Hoje, deixam os loteamentos surgirem na ponta das vias de grande fluxo, inviabilizando a sequência das obras e causando estrangulamentos. No Centro, para sair de lá e ir para Campinas, para a Vila Nova, para o Jardim América, há uma ou duas avenidas apenas como alternativas. Goiânia está parecida com uma pessoa com as veias entupidas. O fluxo da cidade funciona de modo bastante semelhante ao do corpo humano: no caso de Goiânia, as arteríolas não estão funcionando para diminuir a sobrecarga nas veias de grande calibre, no caso as avenidas Anhanguera, T-9, Assis Chateaubriand. Goiânia está enfartada.
Elder Dias — E a questão do transporte coletivo e dos corredores exclusivos?
A priorização do transporte coletivo é zero. Falam, falam, falam e não fazem os corredores exclusivos. Isso é falta de gestão, absolutamente. Seriam necessários corredores para ônibus, táxis e transporte escolar, além das motocicletas. Goiânia tem 800 mil motos. Por que não priorizar um fluxo para elas? Há uma competição desleal entre os diversos veículos. É preciso estudar engenharia de trânsito, mas em Goiânia fazem tudo atabalhoadamente, sem planejamento algum.
Cezar Santos — E o que o sr. critica em termos de saúde no município?
Não é possível continuar com esse modelo de saúde da Prefeitura de Goiânia, que é igual ao de muitas outras cidades, em que cada novo gestor administra com a mesma lógica de seus antecessores e os secretários da pasta repetem o que fazem antes deles. É preciso um choque de gestão, com inovações tecnológicas e capacitação dos servidores públicos. Não dá para o cidadão continuar sendo tão mal atendido como ocorre nos postos de saúde em Goiânia. Como pode ser feito isso? Marconi deu a resposta com o sistema Vapt Vupt. Hoje as pessoas têm dignidade para fazer seu documento de identidade, resolver questões administrativas. Na saúde deveria ocorrer o mesmo, ainda mais porque quem procura por atendimento já está nervosa por estar doente ou acompanhando alguém doente, como um filho, a mãe ou outro parente.
Elder Dias — Mas o serviço de saúde tem complexidades bem maiores do que o do Vapt Vupt, não? Como o sr. pretende mudar esse caos em algo tão especializado?
Não quero adiantar o projeto, pois corro o risco de ser copiado. Mas temos três propostas fantásticas para Goiânia nesses setores que citei. O povo da cidade vai assimilar como sendo dele e vai tomar para si. Os demais projetos, como na área de esporte e de meio ambiente — questão que será bem trabalhada pelo Partido Verde. O que precisamos é apresentar propostas para 20, 30, 40 anos. Quando fui vice-prefeito de Darci e eu era presidente da Comurg, tinha um lixão em Goiânia. Uma vergonha. Fizemos um aterro sanitário que é elogiado até hoje como um dos mais modernos do Brasil. Trouxemos o maior especialista na área que trabalhava no Brasil. Tínhamos duas áreas em vista e ele, de cara, condenou uma delas, na saída de Bela Vista, que tinha uma nascente por perto, e aprovou o local em que está hoje. O que foi isso? Planejamento. Agora, a Prefeitura pegou o mesmo modelo e o ampliou para mais várias décadas.
Elder Dias — Sobre a questão da mobilidade urbana, como seria esse planejamento?
Pense na Avenida Goiás, por exemplo. Para o lado de Aparecida, não dá mais, entupiu tudo. Agora, para o lado norte da cidade, estão deixando adensar de modo aleatório, sem planejar essas vias de acesso.
Elder Dias — Nesse caso, é bom observar que ao norte estão os mananciais, que devem ser preservados e estão sendo, aos poucos, afetados pela urbanização. O sr., como pré-candidato, acha que Goiânia deve crescer para a Região Norte?
Não, não pode crescer. Lá é nossa maternidade de água. Temos de preservar aquele pedaço, até porque é uma região linda, que tem um pouco de verde ainda para oferecer. Temos de criar uma alternativa para parar esse crescimento.
Elder Dias — Mas a especulação imobiliária continua por lá.
Se continua, temos de acabar com isso.
“Cada bairro da capital é quase uma cidade”
Elder Dias — Mas como acabar com isso se as empreiteiras e as imobiliárias são as maiores doadoras das candidaturas majoritárias em Goiânia?
Isso acaba por meio de leis duras e discussão com a comunidade. Até o setor imobiliário precisa entender que Goiânia não pode continuar se “esparramando”. Outra coisa, é preciso acabar com os “paliteiros” na cidade. De repente, se cria uma região sem estacionamento e sem qualquer estrutura cheia de prédios. Fazem restaurantes, hotéis e tudo o mais sem os devidos relatórios. Mais do que o impacto ambiental, é preciso observar também o impacto de vizinhança: é precisa saber se tal comunidade quer uma boate na esquina, um supermercado no quarteirão, um shopping no bairro. Nos Estados Unidos, as grandes lojas de departamento são feitas no subúrbio, não mais no Centro da cidade. Com isso, conseguem organizar melhor a questão do fluxo e da logística. Aqui em Goiânia sabemos de vários empreendimentos comerciais que trouxeram e estão trazendo transtornos para a cidade, como ocorre, por exemplo ao redor do Shopping Flamboyant, com várias lojas grandes. É preciso planejar para 20, 30, 50 anos. Quero planejar uma cidade boa para meus bisnetos. Eu amo Goiânia, meu filho também e minha neta já gosta. Do jeito que vai, porém, ficará tão insuportável que ninguém vai mais querer saber de Goiânia.
Elder Dias — O sr. imagina Goiânia daqui a 50 anos? Como o sr. gostaria que Goiânia chegasse a esse futuro?
Você tem de fazer essa pergunta ao contrário: essa Goiânia, do modo com que está crescendo, é a que queremos para nossos netos? Verdadeiramente não é. Não posso querer uma cidade em que não consigo chegar ao Centro dela. Tem gente que fala que é preciso revitalizar o Centro, mas como, se não é possível ir ao Centro? Os prefeitos que têm ganhado as eleições em Goiânia são prefeitos de uma só cidade. Eu, eleito, penso diferente: são várias cidades dentro de uma só. Cada bairro é praticamente uma cidade. Vou ser prefeito de cada um deles. É preciso valorizar os centros comerciais fora da chamada zona central. Como não conseguem vir mais ao Centro, as pessoas têm a força do comércio em seus bairros, que têm vida própria. Hoje, quem trabalha na zona central tem de acordar uma hora e meia mais cedo, duas horas até, para chegar ao emprego às 8 horas. É o drama que acontece em grau pior com o cidadão de São Paulo, o desespero que é acordar três horas antes para chegar ao serviço, ficando mais tempo no trânsito que no trabalho. Não é justo fazer isso com o povo. A mobilidade urbana está totalmente comprometida.
Cezar Santos — Goiânia “travou”, deputado?
Goiânia infartou, é esse o termo.
Euler de França Belém — É difícil resolver o problema do transporte coletivo, mas não é impossível. O que o sr. propõe para a questão?
O problema é que a lógica aqui está invertida: quem toma conta do transporte público é o dono do ônibus. Não pode ser assim, é uma concessão pública que tem de ser fiscalizada, com regras, normas e horários, com oferta de assentos adequada às pessoas. Outra coisa é que não pode um carro, com uma pessoa só lá dentro, competir espaço com um ônibus que tem 60 pessoas. É preciso priorizar, fazer uma engenharia inteligente de trânsito, envolvendo todos os meios de locomoção — ônibus, táxi, transporte escolar, moto, carro etc. Hoje você pode contar pelas ruas quantos carros têm na rua transportando mais de uma pessoa. Nos Estados Unidos e na Europa, os automóveis com mais gente dentro têm prioridade em relação aos que têm apenas uma pessoa. Não estou dizendo que o automóvel tem de ser discriminado, até porque todo mundo quer ter um carro. Só que se o transporte coletivo for bem administrado e tiver uma qualidade de excelência, a pessoa vai passar naturalmente a andar também de ônibus. Para gerir isso tudo é preciso profissionalismo. Não se pode contratar uma costureira para pilotar avião. A Prefeitura tem feito isso, colocado pessoas que não têm a capacidade gerencial para aquele determinado problema.
Euler de França Belém — Em relação à segurança pública, com que o sr. diz que a gestão municipal deve se preocupar, o que é possível pensar para solucionar o drama?
Não só penso, mas pode ter certeza que vou fazer em Goiânia a maior gestão de segurança pública municipal do Brasil. Há uma séries de cidades pelo mundo que servirão de modelo para o que queremos implementar. E nossa gestão, com controle social, será modelo para todo o País. Os prefeitos ignoraram durante décadas a questão da segurança, como se não fossem responsabilidade deles. É a mesma coisa de alguém que é dono da casa, está vendo que está acontecendo algo errado por lá e deixa mesmo assim. O prefeito tem de ter participação na gestão de segurança e eu vou apresentar a solução para Goiânia.
Elder Dias — Não é errado esse modo de colocar a questão da segurança, como obrigação do Estado e não dos municípios? Como parlamentar, o que o sr. pensa?
A Constituição errou. Há uma PEC [proposta de emenda constitucional] minha tramitando no Congresso que bota o dedo nessa questão: não é justo nem certo que a segurança seja obrigação do Estado e da União e os municípios não participem das decisões do setor. As guardas municipais funcionam desarmadas, por exemplo. Mas o projeto que tenho vai, com certeza, suscitará muito debate durante o processo eleitoral. Como ainda estou em uma pré-candidatura não quero apresentar a ideia, pois posso ser copiado. Mas desde já me apresento como o candidato que vai resolver essa questão. Em suma, vamos atuar nos seguintes pontos: vigilância permanente, controle sobre os pontos de distribuição de drogas e atendimento ao dependente.
Cezar Santos — Mas o sr. vai cair em outro problema: a distribuição dos recursos. É difícil para o município investir em segurança.
Sim, é difícil, mas preciso intervir e falar que estamos trabalhando com pesquisa sobre o comportamento na cidade. A população apresenta esse como um dos problemas vitais. Então ele precisa ser priorizado. A arrecadação do município é relativamente boa. Se atacarmos os pontos de sonegação fiscal, é possível quase triplicar os recursos que, aplicados adequadamente, poderão servir ao que queremos. A sociedade quer é a solução do problema e vamos apresentá-la. O cidadão quer ter o direito de ir e vir, quer saber que quando terminar a aula das 22 horas, o filho dele vai chegar em casa com segurança.
Euler de França Belém — O problema do crack está cada vez mais grave e a gente vê a idade do usuário diminuir cada vez mais. Como isso pode ser resolvido, pelo menos no que diz respeito ao poder público municipal?
É preciso abrir diálogo com a sociedade. Mas a Prefeitura não tem feito e não vai fazer, até porque o funcionário público trabalha das 7 horas da manhã às 6 da tarde. Temos um excelente exemplo de gestão em Itumbiara, onde o prefeito José Gomes da Rocha conseguiu unir toda a sociedade organizada para trabalhar nos programas sociais da cidade. Os — grupos católicos, espíritas, evangélicos etc., todos já têm suas obras. O que é preciso é potencializá-las. Em Goiânia só há um centro de atendimento público para cuidar disso que é o Wassily Chuc, inaugurado ainda na primeira gestão de Iris Rezende, ainda nos anos 1960. Não é possível que uma cidade desse tamanho só possa dar esse tipo de atenção. Então, se trouxermos a sociedade que já trabalha com isso, como em Itumbiara, também conseguiremos o resultado aqui também. Queremos ter o controle social sobre essas ações em cada bairro-cidade de Goiânia — quando uso essa expressão quero dizer que considero o Jardim Curitiba uma cidade, a Vila Nova outra cidade, Parque Amazonas uma terceira. Quem vai dar palpite é a população daquela localidade, porque a política para lá não pode ser a mesma do Centro, assim como a política do Jardim Novo Mundo ou do Setor Pedro Ludovico, setores antigos, com raízes consolidadas, tem de ser diferente da adotada para um Jardim Primavera ou um Jardim Curitiba, bairros mais novos.
Elder Dias — O sr. pensa, então, em adotar o sistema de subprefeituras?
Exatamente, mas muito além disso, simplesmente. É preciso incentivar as ações do controle social local. É esse controle que vai saber o que o bairro e sua região querem. É preciso ter essa interação com os bairros. Se a população não quer que se faça tal coisa, então que não se faça. Quero ser um prefeito itinerante, que vai estar nos bairros, sem essa coisa demagógica de ação imediata. Quero ficar durante semanas em cada local. Ir ao Paço todo dia para quê? Uma vez, para assinar a papelada, está bom demais. No resto da semana, é preciso estar “no trecho”, dando ordens, vendo os problemas, como as calçadas ruins ou a má sinalização — Goiânia é a pior cidade em termos de sinalização que eu conheço no mundo. Quem é de fora e quer passar por aqui e cair no meio da cidade tem de contratar um taxista para tirá-lo daqui. É preciso também fazer parcerias com o comércio local. Imagina, por exemplo, falar com os comerciantes da Avenida Mangalô, lá no Morada do Sol com o Setor Finsocial, negociando um desconto no IPTU em troca de melhorias no passeio público. Não precisa de a Prefeitura ficar colocando pedreiro dela em todo local. Ou se faz isso ou não há uma administração entrelaçada com a comunidade e respeitada por ela.
Euler de França Belém — Como o sr. vê a política de creches do governo Dilma. Ela prometeu bastante nesse sentido e não tem feito? Goiânia precisa muito.
A capital tem um déficit educacional muito grande nessa chamada primeira infância. É um dos maiores gargalos da nossa educação. Em Brasília, uma coisa eu tenho certeza: dinheiro disponível tem para isso. É preciso abrir as portas, ir ao Ministério da Educação, se movimentar. Há um projeto de mães crecheiras, que funciona em várias partes do mundo, mas que é muito questionado por aqui, por sindicatos, entidades sociais e até pelo Ministério Público, por considerar que é preciso o acompanhamento de uma pedagoga ou uma psicóloga educacional. Mas é algo que se pode pensar como forma paliativa, até mesmo porque isso já funciona de maneira informal em toda a periferia da cidade. Mas isso enquanto não se constroem os verdadeiros centros municipais de educação infantil. A educação formal, no geral, não está mal em Goiânia.
Euler de França Belém — Todos falam do Entorno de Brasília, mas esquecem do Entorno de Goiânia. Como o prefeito da cidade polo, no caso Goiânia, pode fazer um trabalho de integração?
Não tem como não ser por meio de parcerias e convênios entre as diversas prefeituras. Se Goiânia tem um pouco mais de aporte financeiro que Aparecida, precisa apoiar a continuidade de sua gestão também no município vizinho. Mas as cidades do Entorno da capital já estão pensando isso de forma mais inteligente. Outro fato é que, durante o dia, a população de Goiânia cresce de 1,25 milhão para 2 milhões, com todos os que vêm para cá de outros municípios. E não vêm só para cá das cidades imediatamente do Entorno, mas também de Bela Vista, Inhumas, Anápolis. O que não dá é para continuar a ver a cidade expandir com tanto espaço urbano sobrando dentro da cidade. Isso é outra coisa em que é preciso botar o dedo na ferida: o custo para a Prefeitura dos loteamentos especulativos dentro da cidade. Não é possível para os cofres da Prefeitura ficarem bancando limpeza de lotes de especulação imobiliária.
Euler de França Belém — Passando para a área da política, a base aliada ao governo estadual tem maioria absoluta na Assembleia Legislativa, a maior bancada da Câmara dos Deputados e os três senadores. Mas está fraca nas grandes cidades. Em Goiânia, o prefeito Paulo Garcia é favorito, principalmente sem Demóstenes Torres na corrida eleitoral. A situação é difícil também em Aparecida de Goiânia, Anápolis e Jataí. O que explica esse fenômeno?
Quando esse grupo político chegou ao poder, tinha já Anápolis como oposição. No entanto, sempre foi lá a maior votação de Marconi Perillo. Então, a cidade tem sempre essa característica, de ser comandada por um lado e sempre votar no outro de forma maciça. Dessa vez, depois de muitas más administrações seguidas e ter sofrido muito com isso, teve em Antônio Gomide um prefeito que caiu nas graças da população. Ele é a bola da vez e, inclusive, será apoiado pelo PTB local para a reeleição. Em Aparecida, há uma vocação peemedebista antiga, desde a época do saudoso ex-prefeito Norberto Teixeira. Mas eu contesto essa afirmação de que a base aliada não esteja nas grandes cidades: Luziânia, Rio Verde, Itumbiara, Cidade Ocidental, Valparaíso, Águas Lindas, Porangatu, Formosa, Morrinhos, entre outras.
Euler de França Belém — O sr. falou em Porangatu e Itumbiara, onde tem uma base forte de seu mandato. Como o sr.
avalia a eleição nesses locais, qual o cenário?
A cidade foi estruturada pelo ex-deputado Júlio da Retífica, que hoje é representado pela pré-candidatura de Gláucia Melo, sua mulher. Há uma Porangatu antes de Júlio e outra depois dele. Gláucia é muito querida por seu trabalho como primeira-dama e isso vai contar bastante, apesar de ser uma disputa difícil. Em Itumbiara, há pesquisas que dão conta de que a oposição está tendo certo destaque. Só que pesquisa, a essa distância ainda da eleição, não vale. É preciso avaliar quem é que apoiará cada candidato. No caso, o pré-candidato é o vice-prefeito, Chico Bala (PTB), e o prefeito Zé Gomes tem uma aprovação de 90% de suas ações.
Elder Dias — Essa facilidade política que o sr. tem com o governo federal pode ser um trunfo em relação aos demais da base aliada?
Acho que pode ser, sim. Nunca fiz política raivosa, fazendo inimigos e expondo pessoas. Todo mundo tem seus problemas e ninguém é santo. Cada um tem seus defeitos, assim como eu tenho os meus. Mas eu também sei que tenho muitas virtudes na política e tenho certeza de que elas se sobrepõem aos defeitos. Tenho certeza de que minha proximidade com Brasília me ajudará muito. Ganhando as eleições em Goiânia, terei como aliados o governo federal e o estadual também. Mas mais do que isso é ter propostas factíveis. Não adianta ser amiguinho da presidente ou do governador e não transformar isso em realizações.
“Recebi a solidariedade até de jornalistas”
Cezar Santos — Falando nessa questão de defeitos, no momento em que o sr. desponta como pré-candidato e mostra bastante disposição para tanto, surge, na revista de maior circulação nacional, a “Veja”, uma denúncia que atinge seu nome. O sr. argumenta que há uma conotação política. Da parte de quem?
Uma coisa que aprendi na vida pública foi o que um ditado popular chama de “não procurar chifre na cabeça de égua”. É preciso construir em vez de ficar procurando quem está fazendo as maldades. Evidentemente, vou dar as respostas adequadas a essa matéria, mas do ponto de vista jurídico. Estou acionando da forma legal, como convém ao regime democrático. Sobre o veículo, não o condeno: já teve um nome de muita credibilidade, mas hoje, tem quase zero nesse artigo. As pessoas sabem avaliar os veículos que se vendem, que fazem matérias mentirosas. Não tenho de me preocupar com isso, tenho de seguir firme.
Cezar Santos — Nos bastidores, dizem que o sr. foi vítima de “fogo amigo”.
Também acredito nisso, mas não quero saber qual foi esse quase “amigo” que fez isso. Não convém. O que eu posso fazer é acionar quem fez a maldade, no caso a revista e os jornalistas.
Elder Dias — Mas o sr. tem o nome desse “amigo”...
Tenho, mas não vou falar.
Elder Dias — Mais do que a denúncia, o fato de a revista dizer que o sr. é do baixo clero, sendo líder do PTB e coordenador de bancada, afetou o sr. de que forma?
É preciso juntar três fatos em relação a esse episódio: primeiro, a matéria parece mais um discurso político, que tenta desqualificar o adversário, sempre dessa forma. Se fosse só essa tentativa, não tinha problema, mas o que acontece é que acaba por invadir minha honra e a de minha família. Em segundo lugar, dizer que sou do baixo ou do alto clero não me afeta de forma alguma, porque eu sei do meu papel e o que tenho feito por meu Estado nesses anos e o que isso tem rendido. Sou, por 12 anos, colocado entre os cem mais do Congresso. Por último, tenho de registrar a solidariedade que tenho recebido de jornalistas, inclusive da jornalista política mais importante do País, que me ligou para se solidarizar comigo. Ao fim, ela me disse que estava feliz por perceber que eu estava sereno. Isso, por si só, já supriu todo o dissabor que passei com a matéria. Se tenho esse prestígio, inclusive com colegas desses jornalistas da revista, quem é do baixo clero? Esses profissionais [da “Veja”] é que são do baixo clero jornalístico. Já fui muito criticado e elogiado aqui no Jornal Opção. Que dia eu liguei para criticar qualquer publicação que saiu aqui? Se nunca liguei para elogiar, por que eu tenho de ligar quando criticam? Jornalismo tem de ser feito de forma bem independente. Para fechar o assunto em relação à denúncia, o próprio Osmar Pires, que é posto como o acusador pela entrevista, fez uma declaração registrada em cartório dizendo que não foi entrevistado e que seu nome foi usado indevidamente pela revista.
Elder Dias — O sr. chegou a conversar com Osmar Pires após a reportagem?
Sim, e o questionei sobre quando é que eu teria feito tal proposta. Ele me disse que nunca tinha tido isso e que havia apenas uma desavença com algumas pessoas de meu grupo político anos atrás, mas não comigo. Nós convivemos como companheiros de administração em Goiânia, eu como vice-prefeito e presidente da Comurg e ele como secretário de Meio Ambiente. Trabalhamos nós dois mais Sullivan Silvestre [promotor público e presidente da Funai quando morreu, em 1999, vítima de acidente aéreo] para consolidar o Parque Vaca Brava. Nunca tive um desentendimento com Osmar Pires.
Elder Dias — Mas o sr. acha que alguém pode ter feito uma proposta em seu nome?
Não, de forma alguma, ainda mais o dr. Evangevaldo [Moreira dos Santos, presidente da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab], um homem muito sério. E até o próprio número que aparece para a suposta propina [R$ 4 milhões] é um valor surrealista, impensável.
Elder Dias — Evangevaldo é um nome que já apareceu em outras denúncias.
É uma pessoa do bem, posso garantir.
Euler de França Belém — O senador Demóstenes Torres é um nome de quase unanimidade na base aliada. O sr. compartilha disso?
Ele tem um prestígio político muito grande na base. Só que eu também tenho.
Euler de França Belém — Então, se ele for candidato, o sr. mesmo assim será também?
Muito provavelmente. Em um segundo turno conversaremos. Até porque segundo turno foi inventado para isso, para ampliar a discussão.
Elder Dias — Sendo Demóstenes um nome forte eleitoralmente, não seria possível tentar ganhar em um primeiro turno? Não seria desinteressante dividir a base?
Não acredito. Hoje Demóstenes é o mais conhecido e aquele que poderia ser mais votado agora. Só que a eleição é em outubro. Quando começa o processo eleitoral, ganha quem tiver a melhor proposta. O eleitor efetivamente só inicia sua participação em agosto, quando começa a propaganda na TV. Se ele assume sua proposta, a partir daí se torna seu cabo eleitoral até involuntariamente. Foi o que aconteceu com Iris Rezende em 2004, quando ele ganhou com facilidade a eleição. Por que isso aconteceu? Porque o eleitor queria o que ele prometia, que era a questão do asfalto.
Euler de França Belém — O secretário da Casa Civil, Vilmar Rocha, acha que é bom que tenha mais candidatos, que o primeiro turno é uma prévia. Mas o sr. não acha que três candidatos vão acabar enfraquecendo a base aliada? Não vão chegar divididos ao segundo turno?
Pense no seguinte: qual é o objetivo de sair toda a base unida? É ter um batalhão maior de gente trabalhando todo por você. No início, isso pode até ser verdadeiro, mas quando começam os programas eleitorais de TV, pode esquecer isso, porque 70% do eleitorado não vai ver fisicamente o candidato aqui em Goiânia. O que vai funcionar é o “rádio peão”, do que as pessoas viram e ouviram no rádio e na TV e começam então a reproduzir.
Euler de França Belém — O sr. acha que o PSDB lança candidato em Goiânia?
Se o PSDB pensar que política tem eleição a cada dois anos e levar em consideração a lealdade que eu sempre tive com eles, não lançarão candidatos e virão me apoiar. Acredito nisso porque tenho uma identidade muito grande — fui um dos fundadores do PSDB em Goiás — e sempre apoiei os candidatos do PSDB. Chegou a hora de eles darem uma contrapartida.
Euler de França Belém — O sr. poderia dizer que renunciaria ao mandato de deputado acaso desistisse mais uma vez de ser candidato?
Não posso dizer isso com essa condição, mas posso dizer que a chance de eu sair candidato é 99,9999% e todas as dízimas a mais.
Elder Dias — Então é mais fácil o sr. ganhar na Mega-Sena do que deixar de ser candidato?
Digo que é mais fácil eu largar de torcer para o Atlético do que não sair candidato. (risos)
Elder Dias — Falando em futebol, o sr. não acha que dinheiro de prefeitura investido em futebol é algo dispensável, em vista de outras carências?
A Prefeitura de Goiânia tem de ter obrigação de divulgar seus times, porque não há nada que divulgue mais uma cidade do que o futebol. Se eu chegar à Prefeitura agora, quero tentar ainda fazer um medalhista olímpico na Olimpíada de 2016. Ou seja, vamos priorizar essa questão, buscar socorro, achar um “olheiro” de boa qualidade e trazer para Goiânia. Vamos procurar ajuda onde for preciso, em outros países até. Mas o esporte que o povão mais gosta é o futebol e não pode ser esquecido. Quando falo em ajudar os times, não é preciso dinheiro da Prefeitura para fazer isso.