Edição 1998 de 20 a 26 de outubro de 2013
Entrevista | Paulo Garcia
“Os grandes investidores mundiais querem ouvir falar sobre Goiânia”
Prefeito faz balanço do primeiro ano de seu segundo mandato e diz que a capital se torna cada vez mais atrativa para projetos internacionais
Fernando Leite/Jornal Opção

Paulo Garcia chegou à sede do Jornal Opção, na sexta-feira, 18, com uma vistosa camisa verde. Um jornalista foi logo perguntando se era homenagem ao Goiás — o clube goiano havia vencido o Vasco na noite anterior, pelo Campeonato Brasileiro. De pronto, o prefeito confirmou: “É, sim. Sou torcedor do Atlético, mas torço também pelo futebol goiano e fiz minha parte pelo Goiás ontem.”

O petista é assim: mesmo em meio a problemas mais agudos na administração — foi uma semana delicada em relação à greve na rede municipal de ensino — consegue manter sua linha de comportamento. Paulo concedeu entrevista para fazer um balanço sobre os 80 anos de Goiânia, data em que entrega uma obra de importância para a mobilidade urbana: o túnel da Avenida Araguaia, fundamental para ligação do Centro às regiões norte e leste da cidade. Essa é uma das obras que leva o prefeito, dentro do conceito de sustentabilidade de sua gestão, a crer em um futuro promissor para a capital. “O mundo civilizado e desenvolvido e os grandes investidores mundiais querem ouvir falar sobre Goiânia”, garante.

A política também compôs boa parte da conversa. Antes de se sentar à mesa para responder as questões, o prefeito atendeu ao telefone. Do outro lado da linha estava seu antecessor e guia na política, Iris Rezende (PMDB). Mais um sinal de que a ligação entre os dois continua firme e forte como sempre. Não por acaso, Paulo Garcia reafirmou: “Aqueles que sonham que o PMDB e o PT ficarão separados mais uma vez vão cometer um equívoco de avaliação.”

Euler de França Belém — Nesta semana Goiânia completa 80 anos, no dia 24 de outubro. É considerada uma das cidades mais novas do Brasil e até do mundo. Em termos de cidade, 80 anos é uma infância. Como o prefeito da cidade a vê hoje?
Eu acho que Goiânia é uma belíssima cidade. É, sem sombra de dúvidas, a capital brasileira com melhor qualidade de vida, mesmo que alguns não admitam. Isso não significa que não tenhamos problemas, que vivamos em um mundo perfeito. Não é isso, mas dentro dos parâmetros nacionais e internacionais, somos muito bem avaliados. Temos um espaço urbano agradável para viver e que fomos construindo muito rapidamente. E eu penso que essa construção é coletiva, com a contribuição de cada homem e mulher que nasceu, que vive, que passou, que ocupou cargo público na cidade e também com a participação de outros 245 municípios que nos ajudaram a formatar Goiânia como ela é hoje, porque a capital sempre recebe manifestações e influências das cidades do interior. É uma cidade muito agradável, que, lógico, precisa avançar em alguma áreas. E ela é nacional e internacionalmente co­nhe­cida como tal. Eu fui convidado, recentemente, a ir a Tóquio falar em uma mesa coordenada pelo presidente mundial do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimen­to]. Não é pela minha capacidade ex­cepcional, não sou ninguém fora do co­mum, sou igual a todos, tenho mi­nhas virtudes, meus defeitos. Eu te­nho certeza de que o convite se deu em razão do que é Goiânia. O mun­do civilizado e desenvolvido e os grandes investidores mundiais querem ouvir falar sobre Goiânia. Se eles querem ouvir, é porque alguma coisa interessante está sendo feito aqui.
Cingapura, por exemplo, que é uma cidade-estado e já esgotou sua possibilidade territorial de investimento, quer investir aqui, na nossa cidade. Eles se organizaram para ir ao Japão para ouvir falar sobre Goiânia e nos mostrar o que eles podem fazer aqui. Então penso que nossa cidade tem um futuro muito interessante.

Euler de França Belém — E como o sr. acha que vai ficar na história? Pedro Ludovico foi o gestor que fundou a cidade, por mais que não tivesse feito muita coisa. Iris Rezende fez os mutirões, as obras, os asfaltos. Nion Albernaz fez a urbanização, Hélio de Britto, o saneamento. Qual acha que será sua imagem para a posterioridade?
Na verdade, eu não sei. A única excepcionalidade que eu tenho é ter sido o primeiro prefeito nascido na cidade eleito pelo voto direto. As outras características minhas são comuns: um homem sério, trabalhador, não tem nada de excepcional. 

Patrícia Moraes Machado — Mas como o sr. procura caracterizar sua gestão?
Uma administração ágil, moderna, transparente, séria, idônea e que procura ser contemporânea com o momento em que vive, e que projeta o futuro como uma cidade que prioriza o desenvolvimento urbano sustentável. Agora, essa questão de desenvolvimento urbano sustentável é muito ampla, as pessoas têm uma tendência a restringir essa caracterização a aspectos diretamente ambientais e não é só isso. Não é só arborizar, aumentar e preservar as áreas verdes, cuidar dos nossos recursos hídricos. Óbvio que isso tudo é muito importante, mas não é só. Na verdade, é basicamente a construção de uma área urbana fraterna, solidária, colaborativo, democrática, onde cada um gosta de viver e sinta orgulho de viver ali. É isso que eu gostaria de deixar marcado na minha administração.

Euler de França Belém — O sr. ganhou a eleição falando de sustentabilidade. Agora, com dez meses de seu segundo governo, o que foi feito, realmente, na área da sustentabilidade?
Foi feito coisa demais, até me assustei. Têm áreas que já cumprimos quase todo o nosso compromisso. Tudo é sustentabilidade desde que a ação, programa ou projeto leve a melhorias na qualidade de vida das pessoas. Por exemplo, nós fizemos o compromisso da criação de estruturas que atendessem a segmentos sociais que ocasionalmente não tivessem uma organização da política pública direcionada a eles. Na área de deficiência, criamos uma secretaria e diversas medidas que estão sendo implantadas para atender às necessidades nesse sentido.
Essa é a nossa bandeira fundamental, que é muito atual. Você tem de administrar a cidade tendo como plano de fundo a sustentabilidade, não há outra opção que não seja essa. Eu tenho algumas convicções: século 19 foi dos impérios; século 20, das ações; o século 21 será, inexoravelmente, das cidades. É onde a pessoa vive, as concentrações urbanas serão cada vez maiores e é bom que sejam. Há estudos científicos comprobatórios que quanto maior é uma cidade, quanto maior a aglomeração e adensamento, que seja maior também o desenvolvimento sustentável, há uma redução do uso dos recursos naturais.
E nós temos, no Brasil, um momento de opção. Tem de ser feita uma escolha definitiva. A Consti­tui­ção de 88 deu toda a condição necessária para a consolidação da democracia para o Estado fiscalizador, que são as instituições como o Ministério Público, a Procuradoria, os Tribunais de Conta. E podem observar que eles têm toda a estrutura física e de recursos humanos necessários. É a área mais bem remunerada, inclusive. O Estado que faz, que trabalha e que produz riqueza, seja ele público ou privado, trabalha sempre nas condições que nós temos, sempre em dificuldade. Com recursos insuficientes para todas as nossas demandas. Então, precisamos refazer nosso pacto cooperativo, para que nós possamos investir na cidade de forma que o desenvolvimento se dê de maneira sustentável.
Então para falar sobre o que nós já fizemos: implantamos políticas e programas que dão sustentabilidade aos diversos segmentos sociais, alguns deles que não tinham nem elaboração de políticas públicas do ponto de vista do organograma da estrutura administrativa da cidade. Estamos implantando na saúde todos os projetos com os quais nos comprometemos. Afirmamos na época da eleição que faríamos 6 Caps [centros de apoio psicossocial] em quatro anos. Já inauguramos dois em 10 meses, o Caps na região noroeste e o Caps Novo Mundo, que já abriga 687 usuários. Um deles dedicado ao acolhimento de pessoas que tenham transtornos mentais e o outro que atua também na dependência de álcool e drogas. Isso é sustentabilidade. Nós falamos que iríamos fazer três UPAs [unidades de pronto atendimento]; uma já foi inaugurada, a outra está em obras e para a terceira estamos prontos para dar as ordens de serviço. Já entregamos a da região sudoeste de Goiânia, bem montada, equipada, com capacidade para atender 300 mil pacientes.
Estamos reestruturando toda a saúde com o projeto Mais Trabalho, Mais Saúde, para humanizar e dar dignidade ao atendimento, que é o que falta nos serviços, um acolhimento digno para as pessoas. Mas nós temos de conviver com o problema de superlotação das nossas unidades, por falta de uma política de regionalização do Estado de Goiás. Isso é fato consumado, querer esconder isso é tapar o sol com a peneira. Nos cadastros na Secretaria da Saúde nós temos 6 milhões de pacientes cadastrados que alegam morar em Goiânia. Aí existe um contrassenso. Ou o IBGE errou e nossa cidade não tem apenas 1,5 milhão de habitantes ou nem todos os cadastros são de gente que realmente mora aqui. É claro que nós sabemos que muitos não moram aqui, que eles se cadastram para utilizar os serviços e sobrecarregam nossas unidades.
Na área de mobilidade urbana, nós estamos desencadeando a construção dos corredores, o BRT já está com a licitação em curso.

Euler de França Belém — E o que significa a licitação está em curso? Em quanto tempo o BRT estará funcionando, completamente disponível para o uso da sociedade?
Por se tratar de uma obra vultosa, nós tivemos 12 consórcios nacionais e internacionais que se pré-qualificaram. Agora vêm aquelas fases de verificação aos preceitos contidos no edital, depois a questão de menor preço e maior qualidade. Então, não dá pra ter uma precisão nessa previsão.

Euler de França Belém- E quais são as obras que devem ser feitas no BRT?
São muitas, porque são quase 40 quilômetros de extensão. Existem as obras estruturais, desde o próprio leito, a construção de dezenas de pontos de acesso e saída e grandes estações. Temos muitas dessas previstas. Na região entre o Setor Pedro Ludovico e a divisa com Aparecida de Goiânia vai ter uma estação. Teremos outra na Goiás Norte e mais 34 estações.
Esse projeto requalifica, do ponto de vista urbanístico, todo o trajeto, para não ficar uma obra visualmente desagradável.

Frederico Vitor — O BRT vai ficar semelhante ao sistema integrado de Bogotá?
Sim, será bem semelhante. Porque em Bogotá há o eixo exclusivo, com condições de cortar a cidade de norte a sul. É o que teremos, um trajeto exclusivo, feito de forma moderna e adequada e, principalmente, com rapidez de percurso. Esses são os grandes problemas do transporte público, e todos eles vão ser contemplados com o BRT. 

Euler de França Belém — E qual será o trajeto do BRT?
O trajeto sai da confluência das avenidas Rio Verde e São João, perto do Terminal Cruzeiro, vem pela própria Rio Verde, desce até a Quarta Radial, corta a Circular no Setor Pedro Ludovico e chega ao Terminal Izidória. De lá pega a Avenida 90, depois a 84, chega à Praça Cívica, desde a Avenida Goiás, corta a Perimetral Norte, segue na Goiás Norte e termina no Setor Recanto do Bosque, na região noroeste.  É enorme, corta a cidade inteira. Esse é o trecho de Goiânia, porque ele ainda faz intersecção com o BRT de Aparecida.

Euler de França Belém — Os ônibus do BRT serão parecidos com os do Eixo Anhanguera?
Ainda não dá para saber, porque não sabemos qual empresa vai ganhar a licitação, qual modelo será proposto, mas basicamente a característica geral é ter acessibilidade completa e capacidade para recepcionar um grande número de usuários, porque serão articulados; terão ar-condicionado, bancos apropriados, locais adequados para idosos, gestantes e deficientes. Serão pequenas locomotivas sobre rodas.

Patrícia Moraes Machado — Se todos os prazos forem cumpridos, a população de Goiânia vai contar com os benefícios do BRT a partir de quando?
A previsão de cumprimento do projeto é de 15 meses. Digamos que até dezembro consigamos dar as ordens de serviço, até o fim de 2014 teremos um grande trecho pronto já.

Patrícia Moraes Machado — Ainda sobre sustentabilidade, qual outra atuação da Prefeitura nessa área?
Pensando na sustentabilidade e na mobilidade, nós vamos entregar agora, dia 24 de outubro, o complemento do chamado Complexo Bo­tafogo, onde o Mutirama se insere, que é o túnel da Avenida Araguaia. As obras estão em ritmo avançado e em seis dias conseguiremos entregar. O túnel vai reunificar e integrar as duas margens do Córrego Botafogo. Estamos restaurando a parte direita da avenida Araguaia, no sentido norte. Fizemos novas trilhas, nova iluminação, áreas de convivência com praças, quadra poliesportiva, pista de skate, recuperamos o lago na região.   

Patrícia Moraes Machado — Essa vai ser a maior obra para o aniversário da cidade?
Eu creio que sim, porque o Complexo Mauro Borges — que é o viaduto entre a Marginal Botafogo e as avenidas A, E e 88 — sofreu um atraso em suas obras de 30 dias, por conta de uma linha de alta tensão que não foi retirada pela Celg a tempo e nos impediu de trabalhar lá. Mas, ainda assim, a intenção é entregar até o fim do ano. Houve um atraso também em um dos pilares de sustentação e nas rampas de acesso, porque a linha de alta tensão passava pelo local.

Euler de França Belém — Vão ocorrer outras inaugurações até o dia 24?
Foram inauguradas também duas novas avenidas. Na região sudoeste da capital, uma pista dupla, bem extensa, muito importante e que criou um novo corredor, que é a ligação das avenidas Independência e Nadra Bufáiçal. Ela faz parte do Projeto Macambira-Anicuns, com recursos próprios, enquanto o Macambira está paralisado. A outra é uma avenida que liga a GO-010, na região leste, ao conjunto habitacional Irisville.

Patrícia Moraes Machado — Outra promessa de campanha era a construção dos Cmeis [centros municipais de educação infantil]. Como está essa questão?
Nós temos três novos Cmeis prontos, agora é preciso esperar, porque ainda não temos gente para trabalhar. A proposta inicial é de entregar 81 Cmeis até o fim do mandato. Para o ano que vem já temos condições de entregar pelo menos 30. Além disso, temos outros mais para entregar esse ano.
E nós podemos acelerar isso ainda, porque tem um projeto arquitetônico de Cmeis que foi licitado pelo Ministério da Educação. Trata-se de uma tecnologia bem moderna, onde nós só fornecemos o terreno e o governo federal vem e constrói tudo. Dá para construir um Cmei em quatro meses.

Patrícia Moraes Machado — E toda aquela discussão sobre o Plano Diretor?
Eu não tenho nenhum problema com o Plano Diretor. Eu acho que é uma discussão inadequada, até estéril, porque não foi feita nenhuma revisão no Plano Diretor, aconteceu apenas uma readequação de alguns pontos. Eu tenho a intenção de convocar, ano que vem, um grande chamamento para a sociedade sentar na mesa e discutir o Plano Diretor. Não tem o que esconder nessas questão nem é isso que o prefeito quer. Temos de discutir as necessidades futuras, por exemplo, o novo shopping que vai ser inaugurado por agora na região norte, o Passeio das Águas, e que vai gerar quase 6 mil empregos diretos. Eu fui lá visitar, é um empreendimento de um agrupamento internacional, com capital norte-americano, inglês e português. É uma das poucas empresas internacionais que tem certificação ambiental de todos os empreendimentos realizados por eles. Existe uma preocupação, por parte deles, imensa quanto à questão ambiental. Eles têm um nome a zelar, têm ações no mercado de capitais. Se cometem qualquer erro, as ações caem, então a preocupação ambiental deles é notória. Esse empreendimento é ruim para a cidade? Eu acredito que não.
Lá é uma região que tem um número fantástico de moradores e que precisam usufruir dos benefícios desses tipos de ações. Aí as pessoas dizem que só se traz o que é bom para as regiões abastadas. Então, vamos partir do pressuposto que na região norte vivam mais pessoas com um menor poder econômico. Eles estão recebendo um enorme centro comercial, que vai se equiparar aos mais modernos da cidade. A gente tem de pensar em toda a região e existem alguns que são contrários a isso.
À unanimidade nunca conseguiremos chegar, mas em um consenso é possível. Então, quero discutir isso amplamente, com todo mundo. Chamar a imprensa, os meios de comunicação, as universidades, as instituições representativas, os movimentos sociais, todos, e colocar o problema. É para fechar a cidade? Eu acho que é um grande equívoco. Uma cidade só demonstra sua pujança se ela atrair as pessoas por causa da expectativa de melhoria de vida. Se em uma cidade as pessoas que vivem nas periferias não demonstram vontade de crescer, é uma demonstração de que aquela cidade não é motivadora, não é atrativa, não é um espaço urbano adequado para ninguém. Ela estará em declínio para as próximas décadas.

Euler de França Belém — Um grande cientista americano chamado Edward Wilson diz que a cidade também é moderna quando ela deixa de apenas recolher o lixo e passa a transformar o seu lixo, usando-o para trazer coisas produtivas para a cidade. Em seu mandato, começou a coleta seletiva. Mas, como é aproveitado o lixo de Goiânia?
Parte do lixo recolhido, que é o que chamamos de lixo segregado, serve para ser reciclado. Ele vai para as empresas de reciclagem, diretamente. As cooperativas recebem esse lixo já segregado e depois fazem a separação, comercializam, o que é a renda de muitas dessas pessoas. Mas nós precisamos avançar ainda mais nessa questão. Existe um termo de referência sendo executado, até porque é obrigatoriedade por lei, de um planejamento sobre todos nossos resíduos sólidos, a ser implantado. Estamos discutindo com vários grupos que pretendem oferecer maneiras de aproveitar todo nosso resíduo sólido, principalmente os resíduos de construção civil. Ele pode ser trabalhado e voltar a servir as construções.
Mas eu acredito que esse investimento deveria sair da iniciativa privada. Não cabe ao poder público fazer plantas industriais de reaproveitamento de resíduos. O poder público tem outras preocupações mais urgentes.

Euler de França Belém — E as águas de Goiânia? Hoje existem várias países brigando por causa de água e a nossa cidade tem uma grande reserva potável. Mas temos de nos preocupar com a questão da poluição. O Estado não conseguiu recuperar o Meia Ponte. Como está essa questão?
Os córregos que cortam Goiânia não vão ser usados para captação de água, porque são muito pequenos — a não ser o Ribeirão João Leite, que já tem uma área de captação represada —, como o Macambira, o Anicuns, o Botafogo, o Caveirinha. Mesmo assim, é fundamental despoluí-los. Uma das finalidades do Projeto Macambira-Anicuns é essa e você já encontra água potável do Macambira em sua nascente, no Faiçalville. Isso eu pude ver. Acho que todos os cursos d’água precisam de tratamento e acredito que terão. Nós temos um grande projeto a ser feito nas nascentes do Botafogo, que vai, inclusive, promover a requalificação do Jardim Botânico.

“Sou prefeito para fazer, não para aparecer”

Patrícia Moraes Machado — Por que o Projeto Macambira-Anicuns não se desenvolve?
Ele parou porque a empresa ganhadora da licitação desistiu do projeto. Ela pediu uma readequação dos preços que era incompatível com a legislação. Mas ele vai ser retomado agora, embora algumas obras não deixaram de andar — por exemplo, uma das avenidas inauguradas que já citei. O grande problema mesmo é a burocracia, porque o dinheiro dele já está garantido, é dinheiro internacional. É licitação internacional, que existe um tipo de regramento diferente.

Euler de França Belém — Dá para finalizar o projeto ainda em seu governo?
Não, porque é um projeto que tem a previsão de seu cumprimento fixada em no mínimo cinco anos.

Patrícia Moraes Machado — A Prefeitura tem uma série de ações que não vem a público. Parece que a sociedade não consegue sentir as movimentações realizadas. Há críticas de que o sr. seja prefeito de gabinete. O sr. é esse prefeito de gabinete ou está sendo difícil suceder Iris Rezende?  
Nem uma coisa nem outra. Aliás, é verdade que suceder Iris é extremamente complexo, é, em minha opinião, o maior líder político que Goiás já teve. Acho que ele é um homem inigualável. Não tenho pretensão de me tornar um Iris Rezende nem acho que isso seja possível. O que eu acho é que convivo com gestores que propagandeiam em excesso o pouco que realizam ou que às vezes nem realizam e só desejariam. Talvez essa seja uma comparação que seja feita, e que leve as pessoas a acreditarem que eu apareço pouco. Mas, pessoalmente, não assumi a Prefeitura para aparecer: eu assumi para fazer. E as pessoas sabem quando você faz. Nós temos pesquisas internas para avaliar a condução da administração, para ver o que é preciso fazer ainda, e essas avaliações mostraram claramente que as pessoas têm consciência do que está sendo feito. Não é necessariamente a propaganda convencional na grande mídia que reflete a percepção da sociedade quanto ao que está sendo realizado. Talvez essa comparação entre os gestores que propagandeiam muito e minha administração é que levem a essa falsa sensação.

Patrícia Moraes Machado — Mas o que eu digo é no sentido de circular entre a população. Não falta isso de sua parte?
Mas eu circulo no meio da população, sim. Frequento locais públicos, restaurantes, praças, supermercados, feiras. Aliás, nem gosto de ficar no gabinete, só fico porque sou obrigado. Tenho compromissos, tenho de receber pessoas, mas eu gosto de estar no meio da população, também. Sou uma pessoa comum.

Patrícia Moraes Machado — E por que os mutirões pararam?
Eles não pararam, só foram remodelados de acordo com as nossas necessidades, porque tínhamos obras grandiosas para serem entregues que deslocavam grandes fatias dos nossos recursos humanos e financeiros. Então nós organizamos frentes de serviços, que estão sendo constantes, e sempre estou presente nas ações realizadas.

Marcos Nunes Carreiro — Nós sabemos que o sr. tem uma grande preocupação com os vazios urbanos. Como está o andamento para suprir esses vazios dentro da cidade?
Esse é um problema que nós precisamos discutir de forma detalhada, porque é verdade que temos esses vazios, que são, na maioria das vezes, da iniciativa privada, e que só servem para especulação imobiliária. Então, o ideal é que preenchêssemos os vazios existentes para evitar a expansão geográfica desnecessária. Existem mecanismos indutores e impositivos para isso. Uma das maneiras é taxar tributariamente valores mais elevados para essas áreas não edificadas, e isso estamos introduzindo gradualmente. Nós entendemos que há a necessidade de ocupar os vazios de forma mais ordenada. Eu sou a favor do adensamento urbano vertical e tenho certeza de que estou certo, apesar de algumas vozes em contrário. Se nós vivêssemos mais agrupados em grandes corredores verticais, teríamos uma das cidades mais modernas do mundo. As cidades modernas do mundo todo são assim, os trechos urbanos com maior qualidade de vida são assim. Temos por exemplo a Ilha de Manhattan em Nova York. Será que é ruim viver em Manhattan? Quase todo mundo gostaria de morar lá. 

Euler de França Belém — Essas cidades, por exemplo, Barcelona e Madri, têm esse caráter de adensamento, mas têm também a questão de preservar sua arquitetura e sua história. Goiânia não tem isso, está destruindo tudo e ficando uma cidade sem história, não?
Nós precisamos mesmo pensar nessa questão. Temos um acervo de art déco bem interessante. Não chegamos ao ponto de estarmos destruindo nossa patrimônio. Aprovamos, recentemente, dois projetos, ao quais a presidente Dilma Rousseff nos destinou recursos, para a recuperação da estação ferroviária e a reconstrução do prédio antigo da Prefeitura para completar o acervo arquitetônico da Praça Cívica.

Euler de França Belém — Por incrível que pareça, Goiânia é uma cidade turística e a maioria das pessoas reclamam que os museus são fechados aos domingos. Não seria o caso de pensar em passar esses museus para o Estado para que eles possam ficar abertos aos domingos?
Essa é uma questão bem pertinente que você está levantando, tem toda a razão. O atual secretário da Cultura tem um planejamento de relocação para alguns desses mu­seus. Nós realmente estamos pre­ocupados e atentos a isso e logo vamos apresentar uma solução.

Patrícia Moraes Machado — Cultura tem muita afinidade com sustentabilidade. Quais são os projetos da Prefeitura para a área?
Na estação ferroviária nós vamos implantar o chamado Palácio da Cultura Goiana — pode ser que o nome ainda mude, mas lá vai ter um museu interativo dos mais modernos, cafés literários, biblioteca, livraria e uma galeria para a venda das obras de artistas goianos. Vai ter também área para exposição artística, uma área para nossa banda da cidade de Goiânia e um anfiteatro. E é nosso desejo também criar um cineteatro, mas ainda precisa de aprovação do Iphan, o que está bem encaminhado. O cineteatro receberia todas as atividades realizadas pelo poder público, que hoje são realizadas no Cine Ouro.
Além disso, nosso museu de arte no Bosque dos Buritis tem um acervo enorme de obras de artistas plásticos. É impressionante a quantidade de peças que temos lá. Por exemplo, é o museu que tem mais obras do Siron Franco.

Euler de França Belém — E a revitalização da Praça Cívica? Ela vai acontecer? Como vai ser feita?
Vai. Nós pegamos o projeto do governo do Estado, assinamos um convênio, com o recurso que conseguimos no governo federal e vamos restaurar. Lá vai se tornar um grande bulevar, vai deixar de existir estacionamento, o asfalto vai sumir, ou seja, vai virar uma verdadeira praça.

Euler de França Belém — Por que a obra da ciclovia que iria da Praça Universitária a Campus foi paralisada?
É que a gente tem prioridades, os recursos são muito limitados. De todo orçamento, mais de 50% vai para a folha; 25% é da educação; e 15%, da saúde. Os 10% que sobram têm de atender a todos os demais setores: cultura, esporte, lazer, obras. É muito pouco. Essa é a realidade de todo município brasileiro, trabalhar sem dinheiro. Eu acho até que fazemos muito, a maioria das coisas que estamos fazendo é com recurso próprio.   

Euler de França Belém — Quanto a Prefeitura arrecada anualmente? Qual é o montante total?
Para 2013 está prevista uma arrecadação de R$ 3,5 bilhões.

Patrícia Moraes Machado — E por que não buscar o endividamento, não trazer dinheiro, como nós vemos todo gestor executivo fazendo?
Eu acho que tudo tem limites, principalmente nessa questão. Porque, às vezes, o endividamento é tão grande que cabe aos sucessores, ao próximo mandato, só pagar folha salarial e empréstimos, com toda a renda comprometida só para isso durante décadas. Nós temos hoje, a maior capacidade de endividamento entre todas as capitais do País, e estamos fazendo opção para alguns financiamentos. As obras do Macambira-Anicuns são financiadas, o BRT também, e nós buscamos verba no governo federal também. É que é muito moroso tudo isso, os municípios não têm as mesmas tratativas dos Estados. Para eles, a legislação permite que eles se endividam de maneira mais direta, é uma legislação diferente.
Recentemente eu estive na Secretaria do Tesouro Nacional, que é o órgão que regulamente essas questões, propondo ao secretário uma maneira de financiamento para os municípios semelhante à dos Estados, porque têm cidades com orçamentos maiores do que o de alguns Estados.

Patrícia Moraes Machado — Voltando para a área de saúde, o sr. não acha que falta um hospital municipal para Goiânia? O sr. mesmo já disse aqui que existiria a possibilidade de comprar um hospital.
Não depende só da Prefeitura também, porque a gente chega com a proposta, fecha negócio e depois o proprietário volta atrás, pedindo mais dinheiro. Tem de haver um limite, nós só vamos pagar o que realmente valer o hospital. Agora, existe uma tratativa que está praticamente fechada, até pensei que anunciaria para o aniversário da cidade, mas não deu tempo. Mas a negociação está bem encaminhada. Nós também vamos construir outra maternidade, na região oeste, no Conjunto Vera Cruz. Vai ser uma unidade bem semelhante ao Hospital da Mulher e Maternidade Dona Íris, só que além do atendimento à mulher vai haver atendimento pediátrico.

Frederico Vitor — Pensando novamente na questão da região norte. A Perimetral, que vai levar ao novo shopping, não está totalmente iluminada. É responsabilidade da Prefeitura?
O problema da Perimetral Norte, e que muitos não sabem, é que ela é continuação da BR-060, então, tudo que é federal, tem de ter aprovação do Dnit, porque é o órgão que tem o domínio daquele local, que é uma área de domínio federal. É de responsabilidade da Prefeitura, mas é difícil de atuar lá. É o mesmo caso da BR-153, entre Aparecida e Goiânia. É área do Dnit, não podemos fazer uma obra sem autorização federal, pode até resultar em ação de improbidade.


 Prefeito Paulo Garcia fala aos profissionais do Jornal Opção: “Erra quem sonha que PMDB e PT ficarão separados”

“Iris segue inabalável para liderar qualquer processo político”

Euler de França Belém — Acredita-se que no debate político de 2014 a tendência vai seguir duas linhas: discutir a ética e a questão da gestão, da eficiência. O sr. acha que em Goiás essa tendência vai ser seguida?
É possível que sim. Precisamos apresentar um projeto sustentável para o Estado todo, pensando em todas as oportunidades e facilidades que temos nos diversos polos do Estado, mas que seja feito de forma muito transparente, séria e idônea. Acredito que esse vai ser, sim, o centro do debate político no Estado também.

Euler de França Belém — Outro ponto que vai ser crucial para as eleições do ano que vem é o conceito de inovação, de novo. O que significa renovação para os eleitores?
Não necessariamente o eleitor quer algo novo. Ele quer melhorias, atendimento a seus anseios, independentemente de quem esteja executando isso, se é pessoa com mais ou menos tempo de vida pública. O que eu tenho certeza de que o eleitor brasileiro não quer é retrocesso. Ele não quer que se volte ao que era antes, no sentido mais amplo do desenvolvimento nacional. Para avançar temos quadros que podem ser maduros e representar inovação nessa questão.

Euler de França Belém — Iris Rezende lidera as pesquisas de opinião, tanto as divulgadas pelo Serpes, quanto as que são feitas internamente entre os partidos. Ele é também considerado o político mais admirado pelos goianos. O sr. acha que Iris é o candidato mais forte para governador?
Continuo falando o que digo sempre em todos os locais: minha admiração por ele e minha crença na capacidade dele de liderar qualquer processo político e administrativo no Estado continua inabalável. Em um dos atos de comemoração dos 80 anos de Goiânia, ocorreu a entrega do Troféu Buritis para 80 homens e mulheres que trabalharam nas diversas áreas que serviram Goiânia. Tivemos a presença de diversas personalidades, como Gilberto Mendonça Teles [escritor e professor], ícones da área cultural, política e outras. Convidamos 11 ex-prefeitos, Manuel dos Reis, Índio Artiaga, Iris Rezende, Daniel Antônio, Darci Accorsi e outros. Esse momento deixou mais claro a capacidade dele de gerir qualquer processo no Estado, é algo concreto. Mas, neste momento, é um desserviço falar em nomes. Nós temos é de apresentar projetos e programas, ampliar alianças e agregar pessoas.

Euler de França Belém — E o sr. acha possível a aliança de Ronaldo Caiado (DEM) ou de Vanderlan Cardoso (PSB) com o PT e o PMDB?
Muito pouco provável. O Ronaldo é porta-voz de um partido que faz forte oposição ao meu partido nacionalmente, que se contrapõe a quase todos os projetos propostos por nós. Eu sei que aliança é feita com diferentes, mas tem de haver pelo menos alguns pontos de convergência, por mínimos que sejam. Existe alguma convergência entre o DEM, partido do Ronaldo, com o PT que permita alguma aliança? Eu acho que não, é muito pouco, por isso eu falo que é muito pouco provável essa aliança.

Euler de França Belém — E com Vanderlan? Apesar de ele ser do PSB, que faz oposição à presidente Dilma, o sr. acha que é provável?
Possível é, mas eu não vejo essa possibilidade em curto espaço de tempo, até por conta da manifestação do próprio Vanderlan.

Patrícia Moraes Machado — Então é mais fácil PMDB, PSB e DEM ficarem juntos e o PT, de fora?
Aqueles que sonham que PMDB e PT ficarão separados outra vez cometerão equívoco de avaliação.

Patrícia Moraes Machado — E a negociação da greve na educação?
O Ministério Público (MP) nos recomendou, ao longo dos últimos meses, que nós reavaliássemos a chamada gratificação de “difícil acesso”, que vem de uma lei antiga, de muitas décadas, que era pago aos professores que tinham um trajeto longo entre sua casa e o trabalho. O MP levantou um questionamento, em face à conjuntura atual, dizendo que nós estaríamos remunerando alguns professores de forma indevida, não de acordo com a lei, porque eles já não tinham direito ao difícil acesso, por isso recomendou de forma incisiva que, se não acatássemos isso, poderia ser proposta uma ação de improbidade contra a secretária [da Educação de Goiânia, Neyde Aparecida] e o prefeito por pagamento indevido.
Foi sugerido que nós fizéssemos um recadastramento. Eram cerca de 4 mil que recebiam o auxílio. Pelo recadastramento, só 53 teriam realmente direito a permanecer com a gratificação. Então, nos vimos diante de um impasse: não atender à exigência do Ministério Público era ficar suscetível a uma ação de improbidade; atender significaria uma redução drástica de 4 mil professores para apenas 53. Não sei se de forma precipitada, mas com a intenção de acertar, pensamos em criar uma nova lei, abrangente, com um auxílio locomoção. Como toda lei, ela não pode se direcionar a uma determinada fatia do segmento, não poderia ser somente para os 4 mil, então abrangemos todos os 10 mil professores. Portanto, nossa proposta é uma ampliação: eram 4 mil os antigos beneficiados, que passariam a ser apenas 53; passamos esse número para 10 mil. Naturalmente, isso aumenta o custo, então nós propusemos um cálculo baseado em um trajeto de 30 quilômetros diários, por média, sabendo que a maioria se enquadra nesse percurso, incluindo quem usa veículo próprio, sendo calculado a quantidade de litros de combustível necessária para percorrer 30 quilômetros diários. Não como era o difícil acesso, que pagava quem tomasse até dois ônibus no percurso.
Encaminhamos isso para a Câmara de Goiânia, com uma pequena redução para os 4 mil que recebiam o difícil acesso anteriormente. Isso desencadeou todo esse processo da forma que se conhece. Durante esse tempo, o diálogo foi mantido, os professores foram recebidos três vezes pela secretária da Educação, mas esse é um movimento atípico. Normalmente, os movimentos sindicais apresentam uma pauta, que, se não for atendida, pode desencadear uma assembleia e, da assembleia, ser gerada uma paralisação. Essa é a regra: não se desencadeia uma greve sem saber se será atendido ou não. Não foi esse o método usado. Primeiro, porque não foi o sindicato legalmente constituído que organizou o movimento, mas mesmo assim, nós reconhecemos, foi uma movimentação dos profissionais da educação, com certeza. Só que eles não apresentaram uma pauta, o que só foi feito no dia 7 de outubro, se não me engano, muitos dias depois do início da paralisação. As tratativas foram sendo levadas à frente. Quando percebemos um impasse, um posicionamento mais político do que sindical e trabalhista, convidamos o Ministério Público a participar. Fomos nós que convidamos o MP, para dar total idoneidade ao processo, mas não é isso o que está sendo divulgado.
Foi realizada a primeira reunião, que avançou até onde dava para ir. Foi convocada depois a segunda, na terça feira (15 de outubro), quando eu tomei uma decisão: sem combinar com ninguém e sem nenhum planejamento prévio, liguei e convidei todos para que fossem ao Paço Municipal, porque eu queria participar da reunião. E foram todos: tinham vários representantes do movimento, a quem ouvi, por mais de duas horas, sem me manifestar, só escutando. Recebi a pauta com 24 itens de reinvindicação, ouvi a promotora representante do MP, o presidente do Conselho Municipal de Educação, os vereadores presentes, dois da situação e três da oposição. Da nossa equipe, estavam presentes a secretária de Educação, o secretário de Governo, o chefe de Gabinete e o procurador-geral do Município. Dos 24 pontos, pré-acordamos 23. Então, me retirei da reunião. Pediram um intervalo de 15 minutos e chegaram a solicitar que queriam participar, juntamente conosco, da execução do documento de resposta que eles levariam à assembleia. Alertamos que eles não deveriam participar da execução do documento, porque senão já seria um acordo e o que seria levado à assembleia, já uma decisão.
Após eles se retirarem, ainda decidimos acatar a reivindicação de número 24. Portanto, pré-acordamos todos os temas. Então, eles pediram ao MP uma orientação quanto ao documento. Um assessor compareceu e os ajudou. As questões que foram levantadas eram apenas de ordem semântica, o que para nós, não tem problema nenhum em ser resolvido. Outra coisa que levantaram é que o documento que emitimos seria apócrifo. Mas todas as folhas estavam com carimbo da Secretaria Municipal de Educação e rubricadas pela secretária, que é a quem compete lidar com a questão.
Fomos surpreendidos na quinta-feira com a decisão de manter a greve. Segundo algumas informações — que não posso afirmar com total fidedignidade porque não tinha ninguém de nós na assembleia —, eles nem chegaram a apresentar a resposta à assembleia, não discutiram. E decidiram manter a greve. Por isso convoquei uma coletiva, informei, expus todos os detalhes e esclareci o ocorrido. Têm algumas coisas que são extremamente complicadas, quase impalpáveis, as quais atendemos, mas ainda assim não se resolve. Por exemplo, na reunião, eles me pediram para aplicar mais recursos do Fundeb para recursos humanos. Mas como que eu posso aplicar mais, se nas contas consolidadas do ano passado, os recursos no Fundeb foram de cerca de 250 milhões, e só a folha salarial deles chegou a 520 milhões? Nós aplicamos 100% do Fundeb e mais uma quantidade enorme do Tesouro. Investimos mais de 87% dos recursos orçamentais da educação em recursos humanos. É algo que beira ao exagero.
Mesmo assim, eu fiz um compromisso com eles e, diante de jornais, rádios e TVs, reiterei esse compromisso. Então, é uma coisa que a gente não compreende muito bem. Eu considero encerrada a necessidade de outro acordo, porque nós atendemos tudo o que foi exigido.
Por exemplo, em relação ao item 1, que remete ao piso salarial, nossa resposta foi a seguinte: “A prefeitura de Goiânia paga cerca de 7,3% acima do previsto na lei número 11.738 de 16 de julho de 2008, e mantém integralmente a carreira do magistério”. É o compromisso com o piso salarial que está na lei. Aí, eles pediram que a prefeitura escrevesse: “A Prefeitura se compromete a pagar o piso salarial escrito pelo MEC”. Mas é isso o que está escrito, é apenas uma questão semântica, não muda o conteúdo. Não tem problema acertar isso, já tínhamos pré-acordado, não se trata de acatar outra decisão. Há uma redução gradativa, as escolas estão retornando. Eu determinei o fechamento da folha de pagamento, porque estávamos com a folha aberta, esperando a votação dos projetos de lei que estão na Câmara, que nos permitirão pagar alguns valores agregados à remuneração. Mas há limites, se eu não fecho a folha tem toda uma metodologia complexa depois. Eu corri o risco de atrasar os pagamentos, por isso decidi fechar a folha.  

Patrícia Moraes Machado — Diz-se que o movimento contra a presidente do Sintego, Iêda Leal. A Prefeitura poderia ser só um gancho?
Nessa questão de disputa sindical eu não vou me manifestar. Parece que há mesmo essa disputa, mas não cabe a mim falar qualquer coisa sobre esse tema.

Patrícia Moraes Machado — E como fica agora o calendário e as atividades escolares?
Os professores estão convocados a voltar ao trabalho. Na quinta-feira tínhamos 45% das escolas que aderiram ao movimento paralisadas, — 55% já estavam em plenitude de funcionamento. Nossa expectativa é que haja uma redução gradual no número de escolas paralisadas.

Marcos Nunes Carreiro — Há preocupação com a Prova Brasil, que está se aproxima e é a avaliação chave do MEC para o ensino fundamental. A greve pode prejudicar?
Digamos que não haja métodos objetivos de realizar a prova, isso pode nos prejudicar, sim. Mas é tudo expectativa por enquanto, não sei realmente se isso vai acontecer.

Patrícia Moraes Machado — Existiu, na época do Iris, uma conversa de que seria feito uma parceria com a iniciativa privada para restauração do Centro da cidade. Transformar o centro em um polo de informática e atrair as empresas para o centro. Por que não levar isso adiante?
Todo arcabouço necessário para que a iniciativa privada investisse no local já existe, legal e tributário. Só que a iniciativa privada que não se interessou. A visão de transformar o Centro em um polo de informática já é vencida, porque estendemos a rede de cadeias produtivas na área de tecnologia e informação para todas as regiões de Goiânia, porque esse era o desejo dos empreendedores. Quando eu assumi, deixei de limitar isso somente ao Centro da cidade.
Nós estamos com a intenção de lançar uma incubadora de projetos na área de tecnologia e informação no centro, mas o ideal é que ela esteja ao lado da academia, das universidades.