34 anos
En­tre­vis­ta| Antônio Faleiros Filho
“O Estado precisa deixar a administração das unidades de saúde”
Secretário de Saúde diz que o poder público não tem agilidade para cuidar da complexidade de hospitais e vê o repasse de sua administração às organizações sociais (OS) como solução
Fernando Leite/Jornal Opção

O secretário estadual de Saúde, Antônio Faleiros, saiu-se bem de uma espécie de ironia que o destino queria lhe aprontar: em um dos momentos mais graves do setor que gerencia — com falta de médicos, materiais e equipamentos nos hospitais administrados pelo governo — ele sofreu um infarto e foi atendido na rede privada, por meio de um plano de saúde. Seria uma saia justa semelhante à que passou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, após defender com ardor o Sistema Único de Saúde (SUS), está fazendo tratamento contra o câncer na unidade particular mais bem aparelhada do País.

Ao retomar as atividades poucos dias depois de passar pela angioplastia que lhe implantou quatro stents no coração, Faleiros escreveu sobre o delicado tema. Disse que gostaria, como desejo de gestor, que todo cidadão goiano tivesse na saúde pública a mesma qualidade de atendimento que ele próprio havia obtido por meio de seu plano de saúde.

Para chegar a esse objetivo, o secretário não vê uma alternativa que não passe pela saída do Estado da administração das unidades hospitalares. O motivo: a falta de agilidade que a máquina pública tem para gerir o que ele chama de “empresa das mais complexas”. Ele admite que a imprevisibilidade do setor da saúde pode fazer a crise até mesmo se agravar, mas crê que as medidas que podiam ser executadas já foram tomadas. O que fica mais claro, durante sua entrevista ao Jornal Opção, é a vontade de repassar, o mais rapidamente possível, o controle dos hospitais para as organizações sociais (OS). “O que temos de ter são hospitais funcionando bem para que o governo possa pensar e planejar o setor.”

Elder Dias — O senador Cristovam Buarque (PDT) tem, como ideia para forçar a melhoria da educação pública, que todos os políticos fossem obrigados a matricular seus filhos em escolas públicas. Na saúde, se ocorresse a mesma coisa, como isso refletiria nas políticas públicas para o setor?
Acho que valeria a pena, sim, as pessoas responsáveis passarem pelo sofrimento dos usuários do SUS na hora de um atendimento. Mas, mais importante do que isso, seria preciso que essas pessoas en­tendessem o que é a saúde pú­blica, como ela funciona, como funciona um hospital. Já disse várias vezes e gosto de ser repetitivo e didático com isso: hospital é uma empresa das mais complexas para ser administrada. Quem administra um hospital consegue gerir qualquer outra coisa com um pé nas costas. Explico por quê: primeiramente, é uma empresa que funciona 24 horas por dia; em segundo lugar, não se pode controlar a demanda: você não sabe se vai chegar um politraumatizado, uma pessoa com hemorragia, um enfartado, um baleado etc. Para se ter ideia, em ortopedia há subespecialidades, há médicos que só atendem tornozelo, outros que trabalham só com ombro, outros especializados em pé. Então, é necessário ter várias equipes realmente preparadas e completas para isso, 24 horas por dia: como não se sabe o que vai chegar, se há um cirurgião e não tem um ortopedista e o socorro é para um politraumatizado, não adianta, porque não se controla a demanda. As dificuldades são enormes e é preciso estar preparado. O setor público não tem agilidade necessária como tem a iniciativa privada para fazer a máquina trabalhar azeitadamente. Em determinado momento, falta um funcionário, como em um domingo de semanas atrás, quando não havia ortopedistas e era preciso fazer 14 cirurgias em fraturas expostas. Tivemos de tomar providências: mandamos alguns para Anápolis, ao Huana [Hospital de Urgências de Anápolis], outros quatro pacientes foram de helicóptero para Santa Helena, para ser operados lá. Essas dificuldades que o setor público enfrenta mostram a necessidade de se ter parceiros mais ágeis para gerenciar as unidades de saúde. Quero deixar bem claro que não se faz saúde em hospital. Hospital é para tratar doenças, cuidar de acidentados. Digo isso porque muitas pessoas falam que estão querendo privatizar a saúde. Não tem nada disso. O que temos de ter são hospitais funcionando bem para que o governo possa pensar e planejar o setor.

Cezar Santos — Como exatamente vai funcionar o gerenciamento das unidades hospitalares pelas OS [organizações sociais]? Que critérios e penalidades haverá para esse tipo de administração?
Para contratar uma OS, é preciso antes fazer a modelagem do hospital. Por exemplo, o Hugo [Hospital de Urgências de Goiânia], que se especializou em grandes traumas. Co­mo procedimento, vamos analisar a capacidade do Hugo e ver qual o número de internações mensais e o custo total. A OS que for assumir o Hugo terá de ter competência e capacidade para fazer o atendimento dessa metas de atendimentos. Essas metas são qualificadas e quantificadas e a entidade terá como ser cobrada. Isso será elaborado por nossos técnicos e fiscalizado por várias instâncias: temos fiscalização própria, da secretaria, e também contratamos agora uma empresa que vai nos assessorar em fiscalização de OS, o que as obriga a cumprir o que foi pactuado, assinado em contrato. A vantagem é que vamos tirar três diretores que não têm autonomia gerencial e passamos o comando para uma em­presa sem fins lucrativos, que, além da expertise que possui, conta com agilidade administrativa. Quando não tiver um ortopedista, esse drama que sofremos muitas vezes na ad­mi­­nistração do Hugo, essa em­presa pode chamar um médico e pagar para ele dar um plantão. Nós, entretanto, não podemos fazer isso, que é a coisa mais natural que acontece nos hospitais particulares. Essa agilidade a OS tem e nós não temos. Se um médico apresenta um atestado, mesmo sendo o único de plantão no dia, não há nada a fazer, tem de aceitar e procurar resolver com o favor de um profissional amigo, que possa substituir aquele, porque não há nenhuma agilidade possível por meio do poder público. Portanto, o que queremos repassar é a gerência desses hospitais. A gestão de saúde continuaremos nós a fazer. Um exemplo típico foi o domingo em que encaminhamos dois helicópteros para Santa Helena, com pacientes para ser operados, para um hospital que é da nossa rede. Isso é gestão de saúde.

Cezar Santos — Para ficar bem claro, então o Estado não vai se eximir de sua responsabilidade em relação à saúde pública, com essa delegação de unidades?
Claro que não. Hospital representa 15% da necessidade da população em termos de saúde. Os outro 85% são ações básicas, que não tem a ver com hospital. Estamos repassando os hospitais para ser gerenciados, mas vamos continuar fazendo a política para essas unidades. Por exemplo, o Crer [Centro de Rea­bilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo] é da Se­cretaria de Saúde, mas quem o gerencia é a Agir [Associação Goiana de Integralização e Reabilitação]; o Hospital Hen­rique Santillo, de Anápolis, também é da secretaria, mas quem faz a gerência é a Fasa [Fundação de Assistência So­cial de Anápolis]; da mesma forma em Santa Helena, onde a Pró-Saúde faz esse papel para nós no Hurso [Hospital de Urgências da Região Su­doeste]. No caso, a regulação é feita pelo Estado, no Hurso; pela Prefeitura de Goiânia, no Crer; pela prefeitura de Aná­polis, no Hospital de Urgên­cias de lá.

Elder Dias — Esse sistema de atendimento pelas OS poderia servir também a unidades mais capilares, como os Cais de Goiânia?
Isso vai depender muito do gestor, nos vários níveis, federal, estadual e municipal. Em Goiás, as ações básicas e de média complexidade são feitas pelos municípios, apenas a alta complexidade, pelo Estado. Aqui ainda não há nenhum município que tenha feito essa opção pelas OS, mas muitos outros Estados têm. Um ex­em­plo é Duque de Caxias (RJ), onde todas as uni­­dades funcionam via OS.

Elder Dias — E como tem sido essa experiência?
Em todos os lugares a experiência é ótima, a partir do Estado de Goiás, que já têm três exemplos satisfatórios. Em São Paulo são 77 unidades do Estado já administradas por OS. E é algo que não tem partido: citei Goiás e São Paulo, que são de administrações do PSDB, mas posso falar de Bahia, que é do PT, de Pernambuco, que é do PSB, do Rio, que é do PM­DB. É uma solução que estamos encontrando, mas há outras op­ções que estão sendo vislumbradas. O governo federal está propondo criar uma fundação para poder gerir os hospitais públicos federais, porque as dificuldades que ele enfrenta são as mesmas nossas. Vou dar um exemplo que já citei várias vezes: no Hospital das Clínicas da UFG [administração federal] temos uma UTI pronta, equipada, montada, desde 2005, mas que não está funcionando, porque o governo federal não tem como contratar pessoal. Portanto, a dificuldade que têm os municípios, os Estados e a União é a mes­­­ma: o engessamento. Não somos contra esse engessamento, podem engessar à vontade, em vários setores, mas na saúde isso não funciona dessa maneira, por causa da urgência e da emergência. Pode-se até tomar medidas com uma demora mais relativa em ações de saúde que não são com essa característica, mas não isso não vai dar certo em um hospital de urgências.

Cezar Santos — Procede a informação de que quem vai ao Crer com dinheiro é atendido e passa na frente do paciente que busca atendimento gratuito? Isso também não pode acontecer com outras unidades que possam passar para administração de OS?
Primeiramente, é preciso ressaltar que o Crer foi excluído de ser 100% SUS por ser o único hospital em Goiás a fazer aquele determinado tipo de atendimento. Foi, portanto, uma opção política, de deixar que outros planos de saúde possam ser atendidos pelo Crer. Em segundo lugar, não é verdade que os que pagam ou que têm planos tenham preferência. Na verdade, 79% dos atendimentos do Crer são pelo SUS. Ou seja, pouco mais de 20% de atendimento por convênios ou particulares. Se isso é bom ou ruim, tenho a minha opinião, embora ache que não seja o momento de discutir isso. De­fendemos que todos os nossos hospitais sejam 100% SUS. Temos dois bons exemplos: o Huana, em Anápolis, e o Hurso, em Santa He­lena, não têm atendimento por plano de saúde, somente pelo SUS. Quando o Hugo, o HDT [Hos­pital de Doenças Tropicais], o HMI [Hospital Materno Infantil] e o HGG [Hospital Geral de Goiânia, cuja administração será repassada ao Instituto de Desen­volvimento Tecnológico e Hu­mano – Idtech, escolhido como a OS que vai geri-lo] serão 100% SUS também.

Cezar Santos — O sr. citou unidades em Estado governado pelo PT que optaram pelo sistema de OS. Aqui, na oposição da Assembleia, de modo particular dois deputados petistas [Mauro Rubem e Luis César Bueno]. Há algum fundo ideológico nisso?
Elder Dias - Até que ponto isso é meramente ideológico? Ou há algo de pragmático?
Quem administra os serviços de imagens radiológicas em Goiânia, cidade gerida pelo PT, é uma empresa particular. É um serviço de saúde, mas entenderam que assim seria melhor. E nós não estamos repassando as nossas unidades para empresas particulares, mas para empresas sem fins lucrativos. Por esse exemplo de Go­iânia, se vê que é uma questão de buscar soluções, não tem nada de ideológico. A meu ver, a oposição tem todo o direito de questionar, está no papel dela, mas é um tiro no pé que está dando, porque esse tipo de processo está sendo feito independentemente de ideologia.

Elder Dias — O sr. considera que esse momento difícil na administração da saúde ocorre também por conta da indefinição, ou da espera, por assim dizer, pela chegada da administração pelas OS?
Quero deixar bem claro que a crise é na administração dos hospitais, porque os outros setores da saúde estão funcionando e bem. Posso citar aqui, por exemplo, a diminuição em quase 70% no número dos casos de dengue em Goiás e reduzimos a mortalidade pela doença em 73%. Fizemos também uma campanha de vacinação em todo o Estado, dando suporte às prefeituras, que são as responsáveis primeiras pela tarefa. Com a logística implementada pelo Estado, atingimos 100% de vacinação em relação à poliomielite. Ficamos em 1º lugar entre todos os Estados do Brasil e em 4º lugar no ranking da vacinação do sarampo. Então, a saúde pública, como um todo, está funcionando. Os hospitais, de modo particular, estão tendo problemas porque todos eram supridos por fundo rotativo, uma medida ilegal (porque é fracionamento de despesa), e também porque houve desvios. Quando assumimos, resolvemos cumprir a lei e paramos com o fundo rotativo. Na época em que o suprimento vinha de fundos rotativos, os hospitais não tinham de planejar, porque não é necessário fazer compras grandes. Perde-se a expertise de planejar compras maiores. Foi o que o ocorreu com a rede hospitalar. Observamos que também a Secretaria de Saúde também estava desabituada a fazer grandes compras. Paramos com a ilegalidade e, quando fomos tentar fazer do modo legal, não tivemos como fazer. Conclusão: a rede ficou desabastecida e ocorreu toda essa crise. Mas que fique claro que não foi nada premeditado. Aconteceu porque ao longo do tempo o processo vinha sendo feito de forma ilegal. No dia 10 de janeiro deste ano, recebi uma apuração do fundo rotativo que gerou a denúncia do Ministério Público, mas que foi apurada pela própria equipe da secretaria. Não compactuamos com essas irregularidades, tan­to é que paramos de comprar pelo fundo.

Elder Dias — Estamos no fundo do poço, na fase mais grave da crise da saúde, ou podemos esperar algo ainda mais complicado?
Espero que consigamos passar todas essas unidades para a administração de OS logo no início do ano que vem, mas se você me pergunta se há possibilidade de haver alguma solução de continuidade, eu tenho de admitir que sim. Muita gente não entende as dificuldades por que passa o setor de saúde. Vou dar um exemplo. Em uma reunião, alguém ficou admirado com dificuldade da Saúde em fazer compras. Essa pessoa me disse que fez uma compra de combustível cujo processo demorou apenas 60 dias, também pelo serviço público. Ora, combustível há basicamente óleo diesel, etanol e gasolina, com preços praticamente cartelizados. No setor de saúde, são mais de 5 mil itens para ser ad­quiridos. Aí me questionam "olha, no hospital 'x' faltou tal medicamento". Poxa, de 5 mil itens, se faltassem 50 é apenas 1% que você está deixando, mas pode acontecer. Pode acontecer também de faltarem recursos humanos? Pode acontecer, sim, como vou impedir que um médico, um funcionário, peça demissão? Isso é um ato unilateral. De repente, vários intensivistas pedem demissão de nossa UTI no Hu­go. Como eu coloco outros no lugar, se não há intensivistas concursados nem tenho como fazer rapidamente um contrato por tempo determinado nem tenho como fazer isso via cargos comissionados? Vou substituí-los como? Essa é a dificuldade que temos. Se isso pode continuar acontecendo? Pode, porque não depende de nós. Se um ortopedista pede demissão e outro entra com atestado médico, como substituo? O ser­viço público é muito amarrado. Então, pode acontecer alguma intempérie no meio do caminho, mas creio que agora estamos bem abastecidos: compramos muitos medicamentos e insumos para passar pelo menos dois meses. Também fizemos algumas medidas es­truturantes na Secretaria de Saúde, que vão surtir efeitos rápidos, como a contratação de uma empresa para compras on-line, o que significa que vamos ter uma disputa entre mais de 9 mil empresas de todo o País para vender medicamentos via on-line. Isso vai facilitar muito nossa vida. Há também duas empresas, a Publix e a Gauss, que vão nos dar assessorias na fiscalização de OS em informática e ações básicas e na área-meio, respectivamente.

Cezar Santos — Os profissionais de saúde reclamam das condições de trabalho, mas a grande questão é mesmo o salário. O Estado não pode aumentar o valor que é pago a esses profissionais?
A política salarial e gestão de pessoal são de competência da Segplan [Secretaria de Estado de Gestão e Plane­jamento]. Não posso discutir como fazer essa política, porque não é da minha competência. O que é da minha competência é emitir opinião. Eu acho que realmente os profissionais da saúde, não só aqui em Goiás, mas em todo o Bra­sil, são subvalorizados. É preciso dar um ganho substancial a eles, não tenho dúvida. Quando as OS assumirem, vão ter de melhorar o salário desses trabalhadores.

Cezar Santos — A criação de cargos na Saúde criou um polêmica nas últimas semanas, por terem sido colocadas no bojo de um projeto de lei de transformação da Agepel [Agência Goiana de Cultura] em secretaria. O sr. pode ex­plicar isso melhor?
Pela dificuldade que estamos tendo em termos de médicos, o governador autorizou esse projeto de criação de 51 cargos, na Assembleia, exclusivamente para médicos, especialmente intensivistas. Esses cargos, a partir do mo­mento em que os transferirmos para organizações sociais, talvez nem sejam mais necessários e possam até ser cancelados, mas agora são emergenciais. Precisamos fazer com que não haja falta de médicos em nossas UTIs.

Cezar Santos — Mas o sr. considera que isso tenha sido conduzido de uma maneira adequada na Assembleia?
Aí é uma questão política, da qual não participei. Eu pedi ao governador para fazer isso, mas a forma de fazer depende do Gabinete Civil e da As­sembleia, como foi o caso do líder do governo [deputado Helder Valin, do PSDB], que fez a inserção dessa emenda, digamos as­sim, para criar esses cargos. Por outro lado, é claro que eu preciso que haja a criação ra­pidamente desses cargos, não há dúvida disso, já passou da hora. Acho até que está chegando o momento de alguns médicos que já estão sobrecarregados para atender aos leitos de UTI não quererem mais trabalhar.

“É preciso haver internações compulsórias”

Cezar Santos - Em que pé está a proposta dos Credeqs [centros de reabilitação de dependentes químicos], tendo em vista o avanço da tragédia do crack?
O governador Marconi Perillo tem nos cobrado bastante essa questão dos Credeqs, porque é um compromisso de campanha a ser resgatado. É uma proposta avançada, o próprio Ministério da Saúde, que era bitolado em relação a internações por dependência química, reconheceu que era necessário avançar nessa política do crack. O ministério se baseava na postura política de esvaziar os nosocômios, algo que é acertado, mas que não tem nada a ver com dependentes químicos. Agora, precisamos avançar e o ministério reconheceu que são necessárias estruturas próprias para fazer o atendimento dessas pessoas. Portanto, a proposta do Credeq é um grande avanço e o Ministério da Saúde agora está na mesma linha, de oferecer serviços hospitalares, o que não era oferecido e era até desestimulado. O Credeq já foi discutido amplamente, com toda a sociedade e as entidades da área e chegamos a um modelo que gostaríamos de ter. Fomos a São Paulo e a Pernambuco, com nossos técnicos, para ver o que havia de novo em relação ao auxílio de dependentes químicos. Chegamos à concepção de um modelo arquitetônico que já está na Agetop [Agência Goiana de Transportes e Obras Pú­blicas] para elaboração do projeto físico. No próximo ano, vamos iniciar a construção de três Credeqs, um em Aparecida de Goiânia, outro em Rio Verde e o terceiro em Caldas Novas. Depois, vamos fazer mais dois: o primeiro está praticamente definido que será no Entorno de Brasília, ainda sem município definido; o local do outro ainda em discussão técnica.

Cezar Santos - Em relação ao pacote de R$ 4 bilhões de combate ao crack, um belo número anunciado pelo governo federal para esse fim específico, o sr. se inteirou mais sobre o projeto?
O que o governo federal está fazendo é aproveitar a rede existente para estimulá-la por meio de ações básicas feitas pelos CAPs [centro de apoio psicossocial], pelos CAPs AD (antidrogas) e — aí sim a mudança que achei interessante — em hospitais apropriados. Antes só se podia fazer o atendimento ao dependente químico em hospitais gerais. É o que defendíamos desde o primeiro momento, com os Credeqs. Foi um avanço do governo federal, porque todas as medidas até agora tinham sido paliativas, não resolviam. E quando não há os resultados esperados é preciso mudar. Agora o Ministério da Saúde teve essa coragem, mesmo sabendo que a linha política do PT sempre foi muito refratária a esse tipo de posição. O novo, de todo o processo, é isso: abrir para fazer a internação até de modo compulsório, caso necessário.

Elder Dias — Particularmente, como gestor do setor, como o sr. vê a internação compulsória?
Fizemos uma discussão muito ampla com interessados nessa questão. Se o próprio de­pendente, por espontânea vontade, procura tratamento, esse é o melhor para ele e o melhor jeito de ter resultados positivos. Por outro lado, há pessoas que perdem completamente o juízo de valor, que estão totalmente dominadas pela droga. Nesses casos, não há outra coisa a fazer a não ser a internação compulsória. Fico pensando na quantidade de entrevistas que já vi na televisão de pais desesperados que diziam “quero colocar meu filho em um lugar para se tratar, não quero que ele morra nas mãos de um traficante”. É exatamente com esse espírito que vem essa medida.

Elder Dias — Até que ponto essas medidas sanitárias, como a internação compulsória e a proibição de doação de sangue por homossexuais, não geram polêmicas que acabam mais se desenvolvendo pelo lado ideológico do que por um ponto de vista prático?
Prefiro dar uma resposta emblemática que foi dada pelo presidente do Cremego [Con­selho Regional de Medicina de Goiás], dr. Salomão Rodrigues Filho, que também é psiquiatra, em relação a esse caso da internação compulsória: é a mesma coisa de receber um paciente politraumatizado em coma. Você vai esperar ele melhorar do coma ou morrer para saber se ele quer ser operado? A mesma coisa é o sujeito que está envolvido a esse ponto no mundo das drogas, ele perde o discernimento, não pode saber o que é melhor ou pior para si. Nesses casos específicos — e são casos muito específicos —, é preciso haver uma internação compulsória, para que a pessoa tenha pelo menos, depois de ela voltar a seu estado psíquico normal, a condição de optar. Se aí quiser voltar para as drogas, será uma frustração para o Estado, que não terá conseguido reverter o processo. De qualquer forma, não estamos falando de pessoas em seu juízo normal, mas de gente que está completamente dominada pelas drogas.

Elder Dias — O Hugo recebe vítimas de acidentes que poderiam ter sido prevenidos com medidas que abrangeriam ou­tros setores, como educação, meio ambiente e trânsito, por exemplo. Até que ponto a falta de entrosamento e interligação entre as secretarias pode estar causando um desperdício e um aumento das despesas do go­verno, nesse sentido?
Sua pergunta é profunda e vou ter de fazer uma generalização para respondê-la. Que me perdoem os cirurgiões, mas vou dar uma resposta que aprendi na escola: o cirurgião sobrevive graças à incompetência do clínico; se o clínico soubesse tratar da doença antes de ser preciso de uma operação, haveria obviamente apenas um tratamento clínico para ela. A hospitalização é em decorrência da frustração das ações preventivas. Nesse sentido, você tem toda a razão quando diz que os acidentes de moto, por exemplo, poderiam ser prevenidos — se houvesse vias exclusivas para motos, se não houvesse um trânsito tão caótico etc. A noção de saúde pública é justamente isso: ações que se fazem para evitar que a pessoa adoeça. Só que depois que ela teve o problema, aí já não tem como, é preciso estar bem preparado para bem atender. É essa preparação que digo que o Estado — não falo de Goiás, mas da administração direta em geral — não tem a expertise e a agilidade para poder gerir. Com toda a sinceridade, digo que a internação hospitalar é uma frustração para o sanitarista. Tomando o exemplo da dengue, se não há um projeto para evitar que o mosquito pique uma pessoa, essa pessoa pode contrair a doença, que pode ter a forma hemorrágica e que pode vir a matá-la. De todo modo, em qualquer dos casos, depois de contrair a enfermidade, ela precisa seguir para internação hospitalar. Evitando que o mosquito pique o indivíduo, este não vai precisar de hospital. O mesmo se dá em outras ações preventivas, como contra o cigarro. Sabe-se que a maior causa de câncer de pulmão é o fumo. É preciso gastar muito mais em ações preventivas de conscientização para evitar que no futuro ela tenha de ter internações hospitalares por causa do cigarro. E assim há vários exemplos. Na verdade, há três grandes grupos dentro da população aos quais é preciso dar atenção: os traumas externos (acidentes, por armas brancas, de fogo, ferimentos em geral etc.), as doenças crônico-degenerativas (diabetes, hipertensão, mal de Alzheimer etc.) e doenças infecto-parasitárias. Em todos esses grupos há ações possíveis de ser implantadas nas comunidades para minimizar os agravos e, dessa forma, impedir que seja necessário procurar o hospital.

Elder Dias — Existe algum plano, seja só do governo estadual ou também envolvendo prefeituras, que pense nesse envolvimento de várias secretarias em uma única estratégia?
Creio que sim, até porque os órgãos já fazem, desse modo, um trabalho do tipo. As ações são isoladas, mas convergentes. A Secretaria da Educação, por exemplo, desempenhou um papel importante no combate à dengue, em ação conjunta conosco. Fi­zemos um trabalho em todo o interior do Estado, visitamos todas as regionais de saúde e chegamos a criar a figura do Agente Mirim e do Agente Jovem para incentivar a prevenção à doença. Foi algo bastante salutar e que considero que influenciou na redução dos casos este ano. A dengue não é uma ação que depende exclusivamente do poder público. Pelo contrário, precisa de cada um de nós e principalmente de vocês, da mídia, para divulgar a responsabilidade de todo cidadão para evitar que o mosquito se propague. Da mesma forma vejo o Detran, que vive uma situação extremamente complexa, porque quanto mais se incentiva o uso de carros e motos, mais se tem um trânsito caótico e com mais acidentes, apesar de todas as campanhas educativas. A gente ainda vê muitas reportagens que mostram pessoas sem capacete ou transportando filhos de forma inadequada. Nos municípios também há ações convergentes. Mas, se você me perguntar se há um projeto em conjunto das secretarias, isso não há, o que há é essa convergência das ações. Enfim, o que considero importante é que investir, em qualquer situação, na prevenção. Quanto mais pudermos evitar que a pessoa precise de uma unidade hospitalar, melhor.

Cezar Santos — O governador reuniu seu secretariado e fez um balanço do ano. Como político experiente, o sr. nota que Mar­coni Perillo está mesmo aliviado, sentindo que o período difícil no Estado está realmente no fim?
Acredito na sinceridade do entusiasmo do governador. Com todas as dificuldades que encontrou, ele conseguiu pelo menos sanear, se não conseguiu avançar muito em algumas áreas. Algumas questões que considero relevantes foram, ao menos, encaminhadas. Na saúde, fizemos todo o possível para que, no ano que vem, tudo estivesse preparado para termos orgulho das ações no setor. Em outras áreas também houve conquistas muito importantes: o fato de resolver o gargalo da Celg, com toda essa negociação com o governo federal; o incremento de um projeto para melhorias nas rodovias do Estado, o Rodovida; um plano inovador para a educação; e várias outras ações administrativas. Creio que, observando as dificuldades próprias que tivemos este ano, acho que houve grandes avanços. Sobre a saúde, em particular, quero ressaltar ainda que vamos conseguir cumprir o dispositivo constitucional de aplicar 12% no setor, mesmo com todos esses desafios por que passamos.

Cezar Santos — O sr. presidiu o PSDB durante algum tempo. O partido está com pelo menos três pré-candidatos à Prefeitura de Goiânia. O sr. acha que as siglas da base do governo precisariam se unir em torno de um nome apenas ou a tática é pulverizar as opções, como alguns defendem?
Durante o tempo em que fui presidente do PSDB, sempre briguei para termos candidato próprio em Goiânia. Infelizmente, às vezes as condições não são favoráveis para se impor um nome. O fato de já termos abdicado em favor de outros partidos da base aumenta mais ainda o direito do partido ter o candidato. O fato de termos três nomes em potencial é uma virtude. O duro seria se não tivéssemos nenhum. Agora, o que temos de fazer é ter competência para escolher um deles e os outros o apoiarem irrestritamente. É uma questão política que precisa ser executada dessa forma. Se porventura o PSDB, o que vou defender, ou outro partido da base tiver um candidato, que seja o único. Não acredito nessa história de dividir as forças no primeiro turno para forçar o segundo turno. Acho que se tivermos de ganhar no primeiro turno, o risco é o mesmo. Se for um candidato único da situação e da oposição, dá no mesmo. Tendo um turno ou dois, é a mesma coisa para mim. Se porventura tivermos condições de ter um candidato só, será ótimo; se esse candidato for do PSDB, melhor ainda. Porém, se chegarmos à conclusão de que o nome mais competitivo seria de outro partido da base, não haverá de nossa parte o menor prurido em apoiá-lo.

Cezar Santos — Alguns especialistas acreditam que o prefeito Paulo Garcia se fortalece mais à medida que há uma demora maior na definição do nome da oposição?
Não vejo assim. Isso é uma questão mais de quem está vivendo a política. A população em geral ainda está muito indecisa. Basta pegar qualquer pesquisa para observar isso. Na realidade, esses indecisos só são conquistados a partir do instante em que a campanha começa de fato, a partir de julho. Evidentemente, quem quiser fazer um bom trabalho tem esse espaço de tempo desde o momento atual. Mas a decisão da campanha começa a partir da escolha oficial do candidato e da autorização legal para o processo eleitoral. Aí é que o eleitor decide e já tivemos esse exemplo no passado. Foi assim com Marconi Perillo, em 1998, e com Alcides Rodrigues, em 2006. Eles começaram com pouco porcentual de votos no início e a coisa virou quando se aproximava o dia das eleições.

“Preocupação com saúde vai influir nas eleições”

Elder Dias — O que pode definir a eleição em Goiânia, em termos de políticas públicas para a cidade?
Vejo que a maior preocupação da população é com a saúde. E quando se fala em saúde a população não sabe distinguir se a tarefa é do Estado ou do munícipio, o que ela quer é ter assistência. Quem tiver um bom projeto para esse setor já sairá bastante cacifado. O cidadão também quer sua cidade habitável, boa para se morar, o que coloca infraestrutura como algo que deve ser pesado na hora da eleição. Não se pode esquecer também do tema educação. Essas três coisas são extremamente importantes. Em Goiânia, porém, há ainda outro fator a se levar em conta: o trânsito. Esse é um gargalo enorme, para o qual a pessoa precisa ter criatividade e fazer intervenções que venham a resolver o problema. Quem tiver boas propostas para essa área também terá um respeito maior da população.

Cezar Santos — Muitos dizem que a base aliada do governo já deu como perdidas as eleições de Aparecida e Anápolis, onde os dois atuais prefeitos estão muito bem avaliados. O sr. também vê assim?
Quem pensa que eleição se ganha de véspera já perdeu a eleição. Não há nenhum favoritismo em qualquer dessas cidades, até porque são as três maiores do Estado — Goiânia, Aná­polis e Aparecida — e a população sempre recebe muito mais informações, por conta da cobertura dos meios de comunicação. Sempre me recordo de uma máxima que Mário Covas [ex-governador de São Paulo, morto em 2001] dizia: “O povo nunca erra, ele age baseado em informações que recebe.” Quando se vive em capitais e cidades grandes, o número de informações é bem maior e se torna importante, então, fazer chegar sua mensagem da melhor forma ao eleitorado. Aí, sim, o eleitor recebendo sua informação, vai saber tomar a decisão que achar me­lhor. Portanto, não há nenhuma eleição resolvida de véspera e o exemplo típico é o de Marconi Perillo em 1998, quando enfrentou Iris Rezende a partir de uma diferença de 6% a 70%, e também o do candidato que apoiamos em 2006, Alcides Rodrigues, que começou lá embaixo e acabou ganhando. Eleição se ganha com a proposta que se faz e com o entendimento e a credibilidade com que o eleitor a recebe.

Elder Dias — Qual seria uma qualidade e um calcanhar de Aquiles da gestão do prefeito Paulo Garcia a serem observados?
É difícil falar de pessoas, mas vejo Paulo Garcia como um cidadão respeitado, que assumiu uma vice-prefeitura, mas que ainda não se consolidou como um político com raízes. Tem muito pouco tempo que ele está no Exe­cutivo, ao qual ele chegou como vice-prefeito em uma chapa depois de ter perdido uma eleição. Não o vejo com uma base consolidada para ter estrutura e voo próprio como candidato. A experiência que temos com ele é a de ter sido eleito como vice de Iris. Não temos como calcular o porcentual que um vice dá para uma chapa. O que sabemos é que o candidato que ganhou teve êxito por causa do prestígio pessoal. A meu ver, Paulo Garcia é uma incógnita em termos de potencial, porque assumiu a Prefeitura com a renúncia de Iris depois de vir de uma eleição perdida. Não seria, então, uma pessoa que tenha um grande cacife eleitoral.

Cezar Santos — O sr. acha que ele ainda não conseguiu se desvencilhar da influência da imagem de Iris Rezende?
Não vejo dessa forma, que ele seja influenciado pela imagem de Iris. O que digo é que ele está nessa situação atual por causa de Iris. O que quero di­zer é que ele ainda, a meu ver, não tem raízes solidificadas para dizer que tenha já uma base consolidada para sua eleição. Paulo Garcia ainda não conseguiu imprimir uma marca pessoal e se tornar uma liderança independente de outros fatores.

Elder Dias — O sr. passou por uma experiência complicada de saúde recentemente. Isso mudou sua visão, inclusive sobre gestão pública na pasta que está sob seu comando?
Não digo que tenha mudado, mas, sim, consolidado minha ideia e desejo de que todo cidadão goiano possa ter um atendimento como o que eu tive. Fui assistido por um plano de saúde, em um hospital particular. Disse em um artigo que escrevi que em 48 horas eu sabia meu diagnóstico e em 72 horas eu já estava me recuperando em casa, depois de operado. É isso que eu desejo para a população de Goiás, essa agilidade na prestação do serviço. Quero citar aqui uma reportagem que li em uma revista de grande circulação há um mês, sobre o SUS que deu certo e o que não deu certo. O SUS que deu certo, citado pela revista, é o administrado pelas OS. O exemplo citado foi um instituto de São Paulo que cuida de doentes de câncer, que é de nível estadual, gerido por OS e tem o mesmo padrão do serviço privado de saúde. No caso, a reportagem citava o serviço de que o ex-presidente Lula estava usufruindo em um hospital privado. A matéria dizia que se ele quisesse fazer o mesmo tratamento no serviço público teria exatamente o mesmo atendimento naquele instituto que trabalha pelo SUS. Outro destaque que eu faço é para um artigo escrito por Elio Gaspari, que dizia que a presidente Dilma Rousseff queria homenagear o ex-vice-presidente José Alencar [morto este ano, vítima de câncer], colocando seu nome no Inca [Instituto Na­cional de Câncer]. O jornalista dizia que seria uma afronta, já que Alencar nunca teria sobrevivido tanto tempo se tivesse precisado do serviço do Inca em vez de ser atendido na rede particular. O que eu quero ressaltar, enfim, é que o Estado tem de sair do paradigma de gerir uma uni­­dade de saúde, tarefa para a qual ele não tem agilidade, e passar a ser o artífice das políticas públicas e da fiscalização do serviço prestado.