
O capitalismo precisa do Estado para livrar-se de suas crises. Porque é o Estado que, além dos recursos, faz a mediação com a sociedade. É a classe dirigente que convence a sociedade de que é necessário pagar um preço para “salvar” a iniciativa privada. O presidente Franklin D. Roosevelt arrancou os Estados Unidos da depressão às custas de investimentos maciços em infraestrutura e de apoio ao empresariado. O intervencionismo estatal chegou a tal ponto que os republicanos mais empedernidos tachavam o líder democrata de “o presidente vermelho”, insinuando que o liberal Roosevelt fosse comunista, o que, evidentemente, não era. No espectro da esquerda, o clamor contrário à ajuda para a iniciativa privada era formidável. Em tese, estava-se retirando dinheiro dos pobres para dá-lo aos ricos, quando, na verdade, combinava-se a política social à recuperação da economia. Era o New Deal. Porque não se estabiliza uma sociedade na qual as pessoas tão-somente recebem pensões do Estado mas não têm perspectivas de, adiante, obterem empregos. A sociedade da dádiva é sinônimo de paralisia econômica e moral. No final, todos, ricos, classe média e pobres, saem prejudicados. (Walter Laqueur, um dos mais notáveis historiadores europeus, afirma que um dos motivos da decadência da Europa é que parte da população, sobretudo os jovens, não quer trabalhar e vive às expensas do Estado. Isto resulta do célebre Estado do Bem-Estar Social — fórmula que o capitalismo da Europa encontrou para escapar ao comunismo.) De sua cadeira de rodas, o gestor norte-americano conseguiu perceber que há momentos em que a sociedade precisa de mais Estado e há momentos nos quais precisa de menos Estado. Para que este se retire, ou apenas se afaste circunstancialmente, é preciso que a livre iniciativa seja forte. Recentemente, o presidente Barack Obama repetiu Roosevelt e, ante uma crise de dimensões estruturais, que devastou a resistente e poderosa economia ianque, financiou diretamente grandes empresas, como a General Motors. Ao “salvar” a GM, entre outras empresas, Obama estava desencadeando uma operação para recuperar a economia americana, mantendo empregos e gerando renda. Não há como dissociar Estado, sociedade e mundo empresarial. O fechamento de uma grande empresa, que não é prejudicial apenas aos acionistas ou proprietários, abala os alicerces da economia, que não é capaz, pelo menos não rapidamente, de incorporar os trabalhadores demitidos ou de absorver a debacle das pequenas e médias empresas mercantilmente associadas.
Mesmo sabendo que a economia é cada vez mais integrada, apesar da manutenção dos Estados nacionais — que não vão acabar, como, acertadamente, escreveu o marxista inglês Eric Hobsbawm —, o Brasil mantém um comportamento, por assim dizer, bipolar. O país, sexta economia planetária, perto de se tornar a quinta, é agressivo em termos econômicos, fazendo suas lições de casa com relativa eficiência e mantendo empresas competitivas. As multinacionais brasileiras começam a trazer dividendos para o País. Trata-se de um mercado — no qual fala-se de eficiência, preços competitivos — imune às bandeiras e intrigas ideológicas. Note-se que empresários do agronegócio começam a produzir grãos na África de língua portuguesa, notadamente em Moçambique. Entretanto, se a economia é moderna, e não se teme mais os grupos americanos, alemães, japoneses e chineses, pode-se falar, paradoxalmente, em permanência da retórica primária da esquerda. No poder, o PT do ex-presidente Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff mostra-se responsável, atento às filigranas da economia e usando seus mecanismos, como o BNDES, para fortalecer o capitalista patropi — tão cevado pelo Estado quanto em qualquer outro lugar —, mas preserva, por temer não o país real, que aprova o que está sendo feito, o discurso do anticapitalismo e faz a defesa, meramente retórica, de ideias socialistas típicas da idade da pedra lascada. Um exemplo é o “debate” — que não há, pois fala-se muito e argumenta-se pouco — dinossáurico sobre a privatização.
Como se sabe, aqui e alhures, não há privatização negra, cinza ou branca. Privatização é privatização — vitalícia ou temporal. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso fez uma série de privatizações. Algumas possivelmente, como a da Vale do Rio Doce, a Petrobrás dos minérios, desnecessárias e, mesmo, temerárias. Apesar dos escândalos terem ocorrido mais acentuadamente no setor de telefonia, quando a selvageria predominou, com homens das cavernas pressionando outros homens das cavernas na iniciativa privada e no setor público, a privatização que deveria ter sido mais discutida, e eventualmente denunciada, era, e é, a do setor mineral e de energia elétrica. A privatização do setor de siderurgia tampouco é discutida com rigor. Que houve uma privataria tucana, não resta dúvida. Houve mesmo.
Porém, como o PT tornou a discussão passional, com a exploração da palavra privataria, que resultou num livro recente, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., fecha-se o espaço para um debate sério. O livro de Amaury, um relato politizado, acaba por travar a possibilidade de uma obra mais substanciosa e detalhada sobre a eficácia ou não da privatização. Os discursos tucano, pró, e petista, contra, criam uma guerra de palavras, mas não um debate compreensivo do que efetivamente ocorreu. O resultado é que, na imprensa e, sobretudo, nas redes sociais, como Facebook e Twitter, há uma discussão intensa, mas sobre o “nada”. A privatização mais produtiva, do ponto de vista da sociedade, foi a da telefonia. Porque, antes da entrada da iniciativa privada, o Estado investia pouco e era luxo manter uma linha telefônica. Quando o governo liberava novas linhas, filas quilométricas se formavam nas portas da telefônica estatal. O setor privado especulava com linhas telefônicas e milhares de pessoas participavam de consórcios para adquirir uma linha. A privatização pôs um telefone em quase todas as residências e ampliou o sistema de telefonia celular. Há falhas e reclamações dos usuários, em especial daqueles que usam celulares, mas ninguém, nem mesmo os petistas mais radicais, quer voltar ao passado. No setor energético houve falhas, como a venda das usinas geradoras de energia elétrica, com o Estado ficando tão-somente com a distribuição de energia, em alguns casos. Goiás tem seu exemplo negativo. A crise da Celg, se não decorre apenas por causa da venda da Usina de Cachoeira Dourada, tem a ver com a perda de sua galinha dos ovos de ouro.
Dediquemos algumas linhas ao PT. O maior partido socialdemocrata da América Latina, ao lado de seu irmão gêmeo, o PDSB, mantém a retórica socialista, por acreditar que sua base política ainda é a mesma da década de 1980. Não é mais. O PT incrustou-se na sociedade brasileira e se tornou uma espécie de partido quase único, com os demais partidos rendendo-lhe tributo. O DEM é um simulacro de oposição, que mantém uma retórica forte mas não é ouvido nem mesmo por seus liderados. O PSDB, como é o PT da elite paulista, comporta-se como o inimigo-amiguinho — daí a troca de elogios entre o tucano Aécio Neves, que os tucanos paulistas chamam de Traécio (e Traecius), e os próceres petistas. O PT, para resumir, é menos petista e mais brasileiro, com virtudes e vícios.
O PT modernizou-se, é fato. Entretanto, às vezes tem vergonha de ser moderno e comporta-se como o dinossauro que, no poder, deixou de ser (“só o poder revela o político”, acerta o escritor nobelizado V. S. Naipaul, em “Os Mímicos”). Os petistas precisam entender e aceitar que privatização não é uma criação do tucanato. Por isso, no lugar de ficar na defensiva, sugerindo que a entrega dos aeroportos a grupos empresariais, por 30 anos, não é privatização, e sim concessão, num jogo semântico duvidoso e frágil, deve assumir publicamente que está agindo e procurando resolver um problema crucial no país. Os grandes aeroportos têm enfrentado sérios problemas com a inoperância do setor público, tanto em termos de mão-de-obra, nem sempre qualificada e ainda fazendo greves, quanto de investimentos em infraestrutura. Se a privatização, ou concessão, resolver o problema, a sociedade brasileira vai agradecer. Por enquanto, a privatização atinge os aeroportos de Cumbica, Viracopos e Brasília. O governo federal vai receber 25 bilhões de reais e cerca de 1 bilhão por ano. Tudo indica que não é um mal negócio para o país. O PT não precisa ficar vermelho de vergonha por, ao se tornar privatista, ter adquirido um pouco da cor azul do PSDB. O mundo está cada vez mais plano, apesar de não ter perdido a diversidade.
Concessão e privatização não são iguais na teoria. Na prática, ao menos no Brasil, são similares. Veja um caso específico: a Rede Globo tem uma concessão. Alguém acredita que vai perdê-la? Claro que a Globo, mesmo acossada pela Rede Record, vai manter-se no topo, por mais alguns anos, e com uma concessão.
Por fim, a crítica que os tucanos não ousam fazer, até porque fizeram o mesmo e não havia como ser diferente, é que o PT está financiando a expansão capitalista e concedendo migalhas aos deserdados. Criticar o PT por fazer isto, sobretudo a primeira parte, o financiamento ao mercado, é, na verdade, elogiá-lo. A ofensiva tucana, acossando a semântica solerte do PT, não deve durar muito.
Enquanto isso, os patinhos feios, como o aeroporto “vexatório” de Goiânia, permanecem abandonados.