
Não há objetividade totalizante — assim como não há independência integral. Porque, como sugeriu o poeta inglês John Donne, ninguém é uma ilha, embora o dito não signifique que o indivíduo não tenha importância e não seja decisivo para mudar o mundo. O que Donne assinala, poeticamente, é que tudo está interligado, prenunciando, digamos, a globalização. Pode-se dizer que grandes estudiosos do capitalismo, como Karl Marx, da velha guarda, e István Mészáros, marxista que exerce grande influência hoje, ao mesmo tempo que examinaram o capitalismo com extremo rigor e o máximo de objetividade — exibindo suas entranhas, fortalezas e fragilidades genéticas —, procuraram, o intelectual húngaro ainda procura, as brechas para substitui-lo. Marx acreditava que o capitalismo avançaria e, em determinado momento, quando as forças produtivas se chocassem de forma irremediável com as relações de produção, deixando de ser correspondentes, mesmo sob a mediação do Estado, haveria uma crise e, daí, o socialismo poderia ser implantado.
Essa grande crise era necessária para a “troca” de modos de produção, no entendimento de Marx. Vladimir Lênin, partindo de Marx mas acrescentando a pitada russa, descobriu que, se esperasse as “condições necessárias” preconizadas pelo filósofo e economista alemão, a velha Rússia tão cedo não teria sua revolução socialista. Daí, a partir de Marx, mas contra Marx, fortaleceu a tese de que, com um partido orgânico e disciplinado de militantes unidos por uma ideologia pragmática, seria possível fazer a revolução socialista. Lênin, pois, é o “inventor” do socialismo moderno — que acabou sendo levado para Cuba e Camboja, com resultados desastrosos. Não podemos saber o que Marx pensaria do socialismo em Cuba, uma ilha subdesenvolvida que só pode sobreviver como balneário turístico. Mas podemos sugerir que ele riria da ideia de socialismo na terra da dinastia de Fidel e Raúl Castro. O socialismo sem passagem pelo capitalismo e de extração familiar nunca esteve no ideário de Marx.
Se Marx é história, pois morreu em 1883, há 129 anos, o que dizer do novo capitalismo? Que, mesmo mantendo as estruturas básicas analisadas por Marx, mudou, e muito. Expandiu-se por todas as partes do mundo, destruindo outros modos de produção, porque tende a ser hegemônico, e no século 20 enfrentou, com galhardia e fúria, a instalação do socialismo em vários países. No seu processo de reprodução, o capitalismo destrói o que não é capitalista, mas teve de negociar com o socialismo da União Soviética e de outros países. Porque o socialismo havia se tornado hegemônico em várias nações, e, portanto, havia criado estruturas não contornáveis. Não havia como canibalizá-lo, daí a necessidade de convivência, ainda que “fria” mas sem guerra, entre as potências — Estados Unidos e União Soviética. Entretanto, o capitalismo, notadamente o americano, o dominante, trabalhou, em tempo integral, para minar o socialismo soviético e seus satélites. Um livro publicado recentemente no Brasil, “Adeus, Farewell — O Caso Real do Espião Russo Que Mudou o Curso da História”, de Serguei Kostine e Éric Raynaud, mostra que o governo de Ronald Reagan, com informações privilegiadas sobre a crise econômica comunista e a falta de investimentos em tecnologia, agiu para minar a União Soviética. Primeiro, “inventou” o projeto Guerra nas Estrelas, mais fictício do que efetivo, com o objetivo de forçar a União Soviética a retirar recursos materiais da economia real para investir em armamentos dispendiosos. Depois, em conluio com os países da Opep, os Estados Unidos operaram para derrubar o preço do petróleo. Como baseava sua força na exportação de petróleo e gás, a União Soviética entrou em parafuso e foi atingida violentamente pela “crise” capitalista — uma crise real, evidente, mas com pitadas de artificialidade. Não demorou muito e o país naufragou.
Há, no entanto, um porém. Ou poréns. A debacle socialista, na análise a um tempo brilhante e inconsistente do filósofo americano Francis Fukuyama, resultaria no fim da história, ou seja, na hegemonia definitiva do capitalismo liberal e da democracia ocidental. Os capitalistas e os ideólogos de Reagan, como os brilhantes Gus Weiss (um dos inventores do programa Guerra nas Estrelas) e Richard Pipes (um dos intelectuais americanos que mais entendem de Rússia), queriam exatamente isto: a hegemonia mundial do capitalismo ao estilo americano. O mundo, porém, caminha por linhas tortas e as contradições são apenas parcialmente manipuláveis. O capitalismo tornou-se de fato hegemônico, mas não inteiramente nos moldes pretendidos pelos ideólogos americanos. A China, a Rússia e, mais recentemente, o Brasil são exemplos cabais do paradoxo. Os três países são capitalistas, é claro. Sim, a China não é mais comunista e tende a se tornar, se ainda não se tornou, imperialista, nos moldes americanos. A China não é um modelo típico do capitalismo liberal moderno — aliás, lembra, e não vagamente, o capitalismo do século 19 e início do século 20, sobretudo na extração da mais valia absoluta dos operários. Pode-se dizer que o capitalismo, na China, salvou não propriamente o comunismo, e sim os comunistas. O Estado é autoritário, nos moldes comunistas, mas a economia é tipicamente capitalista. É idiossincrático? Pode ser. Mas a “descoberta” chinesa está funcionando e pondo em xeque o capitalismo tradicional. Trata-se, a rigor, de um capitalismo de Estado, no qual a classe dirigente, os governantes, tem tanta força, e até mais, do que as classes dominantes, que são tanto interna, chinesa, quanto externa, japonesa e americana. A Rússia, com Vladimir Putin e Dmitri Medvedev, que fundiram czarismo, comunismo e capitalismo numa só “poção”, funciona em moldes não iguais mas parecidos aos da China. O Estado é forte, sua classe dirigente é extremamente presente e a economia é capitalista. Há controles estatais e isto, em alguns momentos, têm contribuído para reduzir a crise sistêmica do capitalismo, que no afã de crescer e crescer, criando armadilhas tanto para os que estão por “fora”, mas acreditam na expansão, quanto para os que estão “dentro”, a turma do setor financeiro, torna-se, por assim dizer, “irresponsável” e avesso a regras mínimas. O Brasil é outro caso exemplar e tudo indica que o tucanato e os ideólogos do partido Democratas estão combatendo mas não estão entendendo o que está acontecendo. Por causa das alianças políticas regionais com os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, do Paraguai, Fernando Lugo, do Equador, Rafael Correa, que têm perfis de caudilhos nacionalistas, e de Cuba, Raúl Castro, a oposição tucano-democrata tende a avaliar os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, que podemos nominar de Lulilma, como seus caudatários. A aliança é política, de fato, porque o Brasil pretende ser o líder da região e, a partir daí, se tornar um líder global.
O que a oposição parece não entender é que os ideólogos do PT, por saberem que o Brasil é um país continental e forte em termos econômicos, tanto que já é a sexta maior economia do mundo, tendendo a se tornar a quinta em pouco tempo, percebem, com relativa nitidez, que o projeto nacional não passa por Hugo Chávez e Raúl Castro. O Brasil quer ser um novo Estados Unidos e uma nova China. É sua ambição. Por isso, quando negocia com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, Dilma está sendo mais estadista e defendendo a economia de seu país que aderindo à ideologia radical dos políticos daquele país. Os Estados Unidos e a Rússia sempre foram parceiros do Irã, mas, quando interessa ao governo americano, tacham-se os países que fazem o mesmo, como o Brasil, de parceiros do autoritarismo. Aos países economicamente sólidos, que precisam de expansão permanente, para evitar ou reduzir as crises internas, o que importam não são ideologias, e sim negócios. A diplomacia brasileira, hoje, não difere em nada da americana, da chinesa e da alemã. Trata-se da diplomacia do negócio, que, mesmo quando não tangencia a ideologia, está muito mais preocupada em obter novos mercados. Como pano de fundo prevalece a tese de que a crise dos Estados Unidos não é apenas econômica, mas também de hegemonia geopolítica. Assim, as potências econômicas, como China, Rússia (que está voltando ao reino das potências, pouco a pouco) e, agora, o Brasil, “sentem o cheiro” de que é o momento de expandirem-se. Porque, diante da vulnerabilidade americana — que o presidente Barack Obama está tentando corrigir, ao reduzir gastos militares e pondo o Estado a serviço da economia produtiva (note-se que a General Motors voltou a ser o maior produtor de carros em 2011) —, quase tudo é possível. O país que firmar-se agora tende a se tornar um player sólido já no presente e muito mais no futuro. Neste sentido, a diplomacia de mercado do governo Dilma Rousseff, que é a mesma de Lula com linguagem mais moderada, está certa. E é, vale acrescentar, menos ideológica do que se pensa. É tão pragmática quanto a americana e a chinesa. Os Estados Unidos só se interessam por direitos humanos quando seus negócios econômicos e financeiros são atingidos. O Brasil está tão-somente imitando os Estados Unidos. Aquele analista que só percebe ideologia talvez não entenda o jogo econômico relativamente arrojado do governo Lulilma. O Brasil, definitivamente, não está seguindo outros países — começa a ter seguidores. Barack Obama parece ter percebido isto, mas a oposição ao governo Dilma ainda está falando de um petismo que só existe no discurso. Dilma, sabem o americano Obama, o chinês Hu Jintao, a alemã Angela Merkel, o japonês Yoshihiko Noda e o russo Putin, é “temida” não por ser socialista, e sim como gestora de um país capitalista no momento extremamente agressivo no concerto internacional. E agressivo, diga-se, via economia. Os americanos não temem a Dilma ideóloga, de esquerda. Temem, isto sim, a Dilma pragmática, aquela que quer tornar a economia brasileira tão forte quanto a de outras potências. Na prática, Dilma é tão capitalista quanto Obama. O capitalismo patropi aproxima-se do chinês e do russo, porque o Estado é forte e mantém relativa autonomia em relação às forças econômicas internas (capitalistas) e externas (países playeres). Perguntem aos capitalistas locais se estão insatisfeitos com Lula e Dilma. Não estão. Porque Lula e Dilma são tão protecionistas quanto Merkel, Putin e Obama — e, sobretudo, o governo brasileiro não é submisso aos interesses americanos. Nem pode. Porque a economia exige uma política externa (e interna) independente, ou interdependente.
Estabilidade econômica
O texto acima serve como apresentação do que se vai discutir a seguir. Martin Wolf, do jornal inglês “Financial Times”, uma das mais respeitadas publicações de economia do mundo, escreveu um excelente texto, “As 7 lições para consertar o capitalismo”, que, indiretamente, diz respeito ao Brasil. Porque, surpreendentemente, a crise internacional está atingindo o Brasil com menos força, tanto na questão financeira quanto de empregos, porque o país antecipou-se, de algum modo, ao que Wolf disse no seu notável artigo, que vamos resumir a seguir.
O “Financial Times” não é, de maneira alguma, um jornal alarmista, porém, mesmo assim, Wolf escreve que “as pessoas estão mais perto do desespero. Algo parece estar errado com o sistema” capitalista. Por isso, depois de examinar os problemas, apresenta sete soluções — algumas, vale dizer, postas em prática tanto pelo governo de Fernando Henrique Cardoso quanto pelos governos de Lula e Dilma Rousseff.
O primeiro item envolve o que Wolf chama de “estabilidade inerente”. Baseado em Hyman Minsky, Wolf escreve que “períodos de estabilidade e prosperidade semeiam as sementes de sua queda. A alavancagem dos retornos, principalmente mediante endividamento, é então vista como um caminho certeiro para [o] enriquecimento. As pessoas envolvidas no sistema financeiro criam — e lucram muito com — tal alavancagem. Quando as pessoas subestimam os perigos, como o fazem nos bons tempos, a alavancagem explode”. É assim que funciona o capitalismo contemporâneo. Mas, se leva a uma crise, fortemente conjuntural porém ameaçando sua estrutura, o que fazer?
O que Wolf analisa a seguir lembra as ações da presidente Dilma Rousseff e do ministro Guido Mantega, ainda que não totalmente: “A chamada política ‘macroprudencial’ — a supervisão sobre o sistema financeiro como um todo — é importante. As agências reguladoras precisam ficar de olho no acúmulo de alavancagem. Também precisam assegurar níveis adequados de capital para absorção de prejuízos em instituições financeiras e seus tomadores finais de empréstimos”. Wolf frisa que os governos, os bancos centrais e as agências têm de agir como forças estabilizadoras na crise. No caso brasileiro, não citado pelo articulista do “Financial Times”, o governo Dilma, ante a desaceleração da economia, possivelmente de uma recessão, reduziu os juros. Uma ação rápida e apropriada.

Jeito nas finanças
O segundo item exposto por Wolf, “dando um jeito nas finanças”, indica que há certa irresponsabilidade no setor financeiro, o que leva a colapsos. O que fazer? “Proteger o mundo financeiro da economia e a economia do mundo financeiro. (...) Quais são os elementos dos amortecedores de choques? O mais importante é muito mais capital. As instituições financeiras centrais não devem, em longo prazo, ficar alavancadas em proporção superior a dez para um. Um requisito adicional é um regime de resolução que permita às autoridades agir prontamente quando as instituições estiverem à beira de perder sua capacidade de financiar-se”. Citando o que ocorre no Reino Unido, Wolf sugere que “a gestão do sistema de pagamentos e a provisão de crédito às famílias e às pequenas e médias empresas deveriam ser mantidas separadas da atividade bancária de investimentos, para eliminar subsídios implícitos”. O articulista do “FT” destaca que o governo tem de proteger as pessoas das práticas predatórias dos empréstimos, como ocorreu nos Estados Unidos, país no qual os bancos estavam “sem” controle.
Desigualdade e emprego
Wolf nota que “países de alta renda têm registrado grandes aumentos na desigualdade ao longo das últimas três décadas”. Como a desigualdade varia de país para país, o articulista avalia que “estruturas econômicas e políticas econômicas modificam os resultados”. Nos Estados Unidos, a pobreza cresceu, atingindo cerca de 15% da população, ou 46 milhões de habitantes. No Brasil, onde a miséria é mais acentuada, a pobreza caiu, ainda que os resultados dos programas de combate às desigualdades não sejam satisfatórios, porque, se atendem à clientela, não a incluem com energia no mercado. A diferença entre os EUA e o Brasil é que aqui o Estado tem uma política mais agressiva de inserção social.
Qual a solução? Wolf aponta os caminhos: “Uma explícita redistribuição fiscal dos vencedores para os perdedores, e particularmente para os filhos dos perdedores; subsídio ou disponibilização direta de postos de trabalho; grandes esforços para melhorar a qualidade da educação e dos cuidados com a infância para todos, inclusive financiamento público de acesso ao ensino superior e uma determinação no sentido de sustentar a demanda de forma mais eficaz em meio a crises graves”.
Governança empresarial
A companhia de responsabilidade limitada é a pedra de toque do capitalismo. “Mas tem falhas”, afiança Wolf. “As companhias não têm, efetivamente, donos. Isso as torna vulneráveis a ser saqueadas. Incentivos supostamente concedidos para alinhar os interesses dos funcionários de mais alto escalão com os dos acionistas, como opções (de compra) de ações, criam incentivos à manipulação dos lucros das empresas à custa da saúde de longo prazo da companhia. O controle pelos acionistas é frequentemente uma ilusão e a maximização de valor para o acionista é uma armadilha, ou pior”. Wolf diz que não há remédio simples e sugere a criação de “conselhos diretores genuinamente independentes, diversificados e bem-informados... e que sejam eliminados quaisquer incentivos a formas destrutivas de remuneração”.
Mudando a tributação
Wolf diz que a tributação deve beneficiar a sociedade. “Os impostos determinam os recursos disponíveis para a disponibilização de bens e serviços públicos essenciais” e podem contribuir para reduzir a desigualdade social. O articulista sugere que se elimine “os incentivos à alavancagem incorporados nos impostos sobre pessoas físicas e empresas”. Wolf sugere “transferir a carga tributária da renda para o consumo e a riqueza”. É preciso “assegurar que as pessoas mais ricas paguem impostos”. Note-se que o autor do artigo nem escreve “mais” impostos.
Proteção à política
Uma das preocupações de Wolf é com a relação entre os ricos e a política democrática. O Estado não deve servir à plutocracia, e sim aos cidadãos. “Proteger a política democrática contra a plutocracia é um dos maiores desafios para a saúde da democracia.” O articulista não fornece informações a respeito, por isso discutamos brevemente uma questão. Na Venezuela, supostamente agindo em nome dos cidadãos, o presidente Chávez está quebrando a economia competitiva do país. O parque industrial e o setor agrícola estão em crise e será difícil recuperá-los, pós-Chávez. Vítima da maldição do petróleo, a Venezuela não quebra exatamente porque é alavancada pelo petróleo. O governo brasileiro, ao contrário, age para fortalecer o mercado privado, incentivando a competitividade, inclusive internacional, mas, com o Estado e uma sociedades fortes, evita-se o controle plutocrático.
“Para proteger a política das investidas do mercado é necessária a regulamentação do uso do dinheiro nas eleições e da disponibilização de recursos públicos para as pessoas nelas envolvidas. É inescapável ao menos um financiamento público parcial de partidos e eleições”, propõe Wolf. É uma discussão que o Brasil conhece bem e o assunto está no Congresso.
Globalização de bens públicos
Regulamentar as empresas que atuam em escala global é difícil, pontua Wolf. A dificuldade é mais acentuada na área financeira. O que fazer? “Há duas opções: alinhar apoio em momentos de dificuldade com regulamentação em nível nacional e assim acabar com o sistema financeiro global integrado ou alinhar um apoio à regulamentação em níveis mais elevados e avançar para uma política europeia ou mundial mais integrada.” Noutras palavras, o que se pede é “mais governança em nível mundial”. É fácil fazer isto? Quase impossível, admite Wolf.
Um socialista dirá que as soluções apresentadas por Wolf são cosméticas e visam apenas salvar o capitalismo. É isto mesmo o que Wolf quer, mas está preocupado, sim, com os seres humanos, no geral marionetes de decisões tomadas por articulados banqueiros e economistas-consultores. “O capitalismo sempre mudou. O sistema precisa mudar agora para que possa sobreviver e prosperar.” Afinal, cita Wolf, uma crise “é uma coisa terrível de se desperdiçar”. Crise, em grego, significa crescimento. (O texto de Wolf foi publicado pelo “Valor Econômico”, com tradução de Sergio Blum.)