34 anos
Não se faz um país com Copa do Mundo
Ao dizer que não se realiza uma Copa construindo hospitais, Ronaldo, o ex-craque da seleção dá o tom do que se pode esperar como legado do evento para o futuro do Brasil
Ricardo Teixeira, homem-forte da CBF e merecedor de todas as suspeitas, e seu novo assessor, Ronaldo “Fenômeno”: para eles, não há por que investir em hospitais se a Copa precisa de estádios

Entre os muitos caminhos que o Brasil poderia ter tomado em sua história, talvez o mais errado tenha sido justamente o que seguiu: tornar-se uma extensão continental de prazeres e diversões, ciceroneados por um povo gentil, acolhedor e alegre e que tem seu ápice em duas expressões maiores, como “o país do carnaval” — a “festa pagã” importada da Europa e transformada, aqui, no chamado “maior espetáculo da terra” — e “o país do futebol”, pela qual craques, taças e títulos mundiais reduziram a todos nós, nascidos no Brasil, em meros compatriotas de Pelé no exterior.

Ocorre que a Nação se orgulha, de modo geral, do fato de o mundo demonstrar, ainda que dessa forma torta, certo reconhecimento por um lugar outrora recheado de índios e perdido ao sul do Equador. Como “país do carnaval”, exportamos músicos e músicas e, às vezes — não sem alguma ironia — também moda e modelos. Como “país do futebol”, as commodities são jovens jogadores, vendidos a preço de ouro, prata ou bronze ou seja lá o que for, em negociações diversas, algumas de alta suspeição. São centenas de milhões de dólares movimentados a cada ano no vai e vem de atletas brasileiros entre sua Pátria de chuteiras e os mais diferentes recônditos do mundo.

Não só por conta do talento dos jogadores brasileiros desde Arthur Friedenreich (alto e ossudo atacante, conhecido como “El Tigre”, que começou a fazer gols em 1911 e só parou em 1935, o primeiro a ultrapassar a marca dos mil gols) e Leônidas da Silva (o “Diamante Negro”, tido como inventor da bicicleta e que encantou o mundo na Copa de 1938, na França), o futebol vem se tornando um negócio cada vez maior em sua história de um século e meio — o Notts County, primeiro clube de futebol e hoje na 4ª divisão da Inglaterra, foi criado em 1862. O dinheiro que gira em torno da bola é de tal porte que a Fifa, a entidade dona do espetáculo, tem um faturamento anual maior do que o de 32 nações do mundo: em 2010, seus cofres movimentaram US$ 1,3 bilhão em riquezas.

Além do poder econômico de um Estado, a organizadora do esporte tem sob sua tutela um produto único que nenhum país detém, mas que todos, de alguma forma, ambicionam: a Copa do Mundo de Futebol, cujo maior ícone é a Taça Fifa, sobre a qual nenhum país campeão do torneio terá posse definitiva, ao contrário do troféu que a antecedeu, a Taça Jules Rimet, conquistada por brasileiros craques de bola em 1970 e derretida por bandidos cariocas em 1983.

O fato da Taça Fifa não ter um destino final envolve uma mensagem simbólica especial: não importa onde ela vá, sempre retornará à entidade-mãe. É uma tocha olímpica em forma de troféu, que perambula pelo mundo para demonstrar o poderio da entidade-Estado dirigida pelo suíço Joseph Blatter, o atual responsável pelo sucesso do negócio e acusado pela imprensa internacional de geri-lo como uma operação mafiosa.

Sediar uma Copa do Mundo significa deter esse poderio simbólico durante um determinado período de tempo. Isso leva a imaginar o que ocorre quando do encontro entre o “país do futebol” e a Taça Fifa. Por sua posição proeminente no esporte, era praticamente uma obrigação que o Brasil se impusesse como sede do torneio quando o rodízio pelos continentes chegasse à América do Sul. Em 2014, surgiu a oportunidade para a locupletação de alguns em desfavor de todos.

A Copa do Mundo é nossa. Não a derretida Jules Rimet nem a sua sucessora cigana, mas o torneio mundialmente mais espetacular de um só esporte. O preço a pagar por isso é receber, junto com a Taça Fifa, também o Estado-Fifa e todas as suas ingerências, como poder paralelo constituído e legitimado pelas cifras que o acompanham.

A maior prova de usurpação da soberania de um Estado chama-se Lei Geral da Copa. Por meio dela — que deve ser aprovada no Congresso esta semana —, as cidades-sede do evento se transformarão em cidades-Estado da Fifa.

Pessoas serão proibidas de consumir os produtos que lhe convierem, de entrar nas praças esportivas com o material que acharem mais adequado e tudo o que possa prejudicar os financiadores do show da Fifa. Da mesma forma, todas as leis que perturbariam seu lucro devem cair por terra. No pacote, incluem-se a lei da meia-entrada, o veto a bebidas alcoólicas e um código penal particular, com a criação de crimes específicos a pedido da Fifa para multar e prender aqueles que ousarem ofender os direitos de imagem de seus patrocinadores. O cidadão brasileiro poderá parar na cadeia, por exemplo, se insistir em beber uma cerveja ou mostrar uma camiseta não recomendadas pela cartilha da Fifa.

Levantamentos apontam que os gastos previstos para a Copa de 2014, no Brasil, já superam o total das últimas três Copas do Mundo — Coreia do Sul/Japão, em 2002; Alemanha, em 2006; e África do Sul, em 2010 — juntas. Somadas, as faturas dos três últimos torneios chegaram a US$ 30 bilhões; pelo ritmo dos custos, o Brasil deve facilmente ultrapassar a barreira dos US$ 40 bilhões.

Em um país onde falta tudo — da escola pública à estrada asfaltada, do posto de saúde funcionando à eletrificação rural, de vagas em presídios à merenda escolar, de trilhos ferroviários ao espaço físico em aeroporto —, a melhor justificativa para se fazer uma Copa do Mundo era a de que receber o evento seria uma forma de catalisar investimentos e acelerar o avanço da precária infraestrutura. Engano de quem acreditou.

De cada real investido, 60 centavos estão sendo consumidos apenas em estádios de futebol. Entre os estádios, há a Arena Pantanal, em Cuiabá, que deve abrigar não mais que meia dúzia de jogos da Copa do Mundo. O custo? Não será menor do que meio bilhão de reais, valor que certamente faria alguma diferença no orçamento do Estado para educação, saúde, segurança. Depois do megaevento, vai servir ao futebol mato-grossense, cujo maior expoente atual, o Cuiabá, acaba de subir para a terceira divisão brasileira.

Dos 40 centavos que sobrarão de cada real para, teoricamente, investimento em obras de base, muitos se perderão no caminho da corrupção, do superfaturamento e das demais artimanhas legais. Que aeroportos, que escolas, que estradas, que recuperação ambiental o Brasil herdará da Copa?

Em meio a tudo isso, surge uma declaração desastrada de Ronaldo Nazário de Lima, mais conhecido como “Fenô-meno”. Cooptado pela suspeitíssima turma de Ricardo Teixeira, aquele que assumiu a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) há mais de duas décadas por ser então genro de outro mandatário do futebol nacional, João Havelange — ex-presidente da CBD, da qual se originou a CBF, e da Fifa —, ele ganhou vaga no conselho de administração do Comitê Organizador da Copa, também comandado por Teixeira.

Logo ao assumir o cargo — na verdade, um contra-ataque de Ricardo Teixeira ao fato da presidente Dilma Rousseff, de quem é desafeto, ter nomeado Pelé como embaixador honorário do Brasil para a Copa —, diante de inúmeros microfones, Ronaldo sentenciou: “Sem estádio não faz Copa do Mundo, amigo. Não faz Copa do Mundo com hospital. Tem que fazer estádio, senão não tem Copa do Mundo, também. Aí tem que ver o que você quer (sic)”, disse, em tom gramaticalmente contestável.

Ronaldo é o exemplo do quanto o País se tornou refém de seu próprio título. Um verdadeiro ídolo de pés de barro calçados com chuteiras Nike trabalhando a serviço da entidade que privatizou o maior símbolo do futebol: a camisa da seleção brasileira, hoje seleção da CBF.

Talvez o grande erro no caminho do Brasil tenha sido vencer meia dezena de Copas do Mundo. O preço que se paga, hoje, por ser “o país do futebol”, é a insolvência do futuro da Nação. Como resposta a Ronaldo, poderia-se simplesmente  dizer que não se faz um país com Copa do Mundo. Ao contrário, é mais fácil perdê-lo de vez.