Edição 1958 de 13 a 19 de janeiro de 2013
Médico deve ser tratado como ‘vítima’ ou ‘vilão’?
Um dos mais importantes urologistas do país, o professor Miguel Srougi responsabiliza o governo federal e empresários predadores pela criação de dezenas de faculdades que não preparam profissionais capacitados e sugere que médicos são mais vítimas do que algozes
“Lição de anatomia do Dr. van der Meer”, de van Mierevelt, 1617/ Museu de Delft

Para aplacar sua má consciência, a sociedade de vez em quando elege seus vilões e torce para que sejam punidos. Depois dos políticos, alguns condenados no processo do mensalão, agora é a vez dos médicos. Muitos são acusados de faltar ao trabalho, e até de falsificar a folha de frequência. Outros são apontados como inaptos e, por isso, eventualmente contribuem para a morte de pacientes. Como se sabe, um paciente pode morrer no hospital mais bem equipado e nas mãos da melhor equipe médica. Porque há problemas que não podem ser resolvidos pela ciência, com sua tecnologia de ponta, e pela qualidade do profissional.

Mas obviamente é muito mais difícil um paciente morrer em hospitais de alta qualidade, como o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, do que num hospital da periferia de qualquer cidade. Às vezes, o hospital até tem médicos qualificados, mas não tem a retaguarda técnica necessária para auxiliá-los a garantir a sobrevivência ou a recuperação integral do paciente. Alguns hospitais fazem cirurgia de certo risco, mas não têm unidade de terapia intensiva e, sabe-se, não têm nem mesmo uma farmácia com medicamentos de qualidade inquestionável. Em certos casos, transferidos às pressas e sem condições técnicas suficientes para hospitais mais bem aparelhados, os pacientes acabam falecendo ou ficando com sequelas incontornáveis. Entretanto, no lugar puramente de “atacar” os médicos em geral, é preciso refletir sobre a formação do profissional. O médico Miguel Srougi, pós-graduado em urologia pela Universidade de Harvard e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), no lugar de escamotear e aderir ao corporativismo típico da profissão, publicou um artigo, “Médicos inaptos: algozes ou vítimas?” (“Folha de S. Paulo”, domingo, 6), que contribui para alargar o debate — acima da passionalidade e da histeria costumeiras.

Srougi começa citando que “54,5% dos médicos recém-formados” no Brasil “são inaptos para a profissão”. O doutor em medicina sugere que “profissionais inaptos devem ser impedidos de exercer a profissão e que uma legislação impondo um exame de capacitação dos novos médicos já deveria ter sido promulgada”. A causa do problema deve ser buscada, na interpretação do urologista, na “mistura de uma sociedade complacente e governantes incompetentes”.

Quando bate palmas para a abertura de novas faculdades de medicina, sem a mínima preocupação com a qualidade tanto do ensino quanto das instalações (inclusos os aparelhos) onde os alunos vão iniciar a prática da medicina, a sociedade está praticamente aceitando a quase “delinquência” de alguns empresários. “Cedendo” aos apelos da sociedade “e à pressão de empresários oportunistas, o governo federal autorizou, entre 2000 e 2012, a abertura de 98 novas faculdades, perfazendo um total de 198 escolas no país; nos Estados Unidos, habitado por 314,3 milhões de pessoas [o Brasil tem menos de 200 milhões de habitantes], existem 137 instituições similares”.

A maioria das novas faculdades, critica Srougi, “não dispõe de instalações hospitalares adaptadas para o ensino e carecem de corpo docente qualificado”. Isto só ocorre porque o poder público cede às pressões de políticos e de empresários influentes e por aquilo que o médico chama de “anseio do lucro desmedido e predador”.

Há uma denúncia grave no artigo de Srougi. Orientado por uma comissão dirigida pelo médico e ex-ministro da Saúde Adib Jatene, o MEC “descredenciou, há um ano, algumas escolas médicas, pela baixa qualidade de ensino”. Entretanto, sem apresentar explicações, convincentes ou não, “a Comissão Nacional de Educação cancelou, em fevereiro passado, a ação corretiva adotada”. Os interesses políticos e empresariais, decerto, calaram mais fundo.

No lugar de estabelecer uma política para melhorar as faculdades de medicina, ou mesmo excluir aquelas que não funcionam e formam médicos inaptos, a presidente Dilma Rousseff anuncia que vai abrir mais 4.500 vagas na área. A sugestão racional de Srougi: “Mais importante do que criar novas faculdades seria aumentar as vagas para residência médica. Cerca de 6.000 novos médicos formados a cada ano não dispõem de locais para realizar a residência, a etapa mais relevante para a formação de profissionais qualificados”. A proposta dificilmente será aceita, porque, do ponto de vista político-eleitoral, o anúncio de mais vagas nas universidades, sobretudo na área de medicina, rende muito mais votos.

Sabe-se que muitos estudantes brasileiros, por não conseguirem ser aprovados nos vestibulares nacionais, migram para países vizinhos, como Bolívia, e mesmo para Cuba — onde a medicina, sem o apoio da extinta União Soviética, retroagiu quase ao curandeirismo, ou à medicina puramente sanitarista (e faltam medicamentos básicos, como antibióticos — que, contrariando a tese de que existe um embargo econômico, chegam ao país por intermédio dos Estados Unidos, mas não em quantidades satisfatórias). Formados, em condições extremamente precárias, voltam ao Brasil e dificilmente conseguem ser aprovados nas provas para residência médica. Srougi acrescenta: “Outra proposta governamental, tão cândida quanto descabida, é autorizar o trabalho em nosso país de médicos patrícios formados no exterior, sem exames de proficiência. Se 54,5% de médicos recém-formados inaptos causam indignação, como reagir ao fato de que em 2011, num exame oficial de revalidação de diplomas de 677 médicos graduados no exterior, 90,5% deles foram considerados inaptos?” Por elegância, Srougi usa a palavra “exterior” — evitando citar faculdades bolivianas e paraguaias. Dificilmente médicos formados em faculdades da Alemanha, da França e dos Estados Unidos têm baixa qualidade.

Ao final do artigo, Srougi faz uma reflexão importante, talvez para incentivar a abertura do debate e evitar condenações peremptórias — que, se são úteis ao sensacionalismo dos jornais e, sobretudo, das emissoras de televisão, não contribuem para resolver o problema (na verdade, favorecem o escamoteamento). “Reconheço que as inquietações expressas sobre as aptidões dos recém-formados são justificadas por quem sente de fora. Mas como um dos que sentem de dentro, não posso deixar de dizer que, ao invés de algozes, a imensa maioria dos novos médicos da nação é vítima de um enredo perverso que mistura uma sociedade permissiva, escolas médicas deficientes e governantes incapazes. Que transformam esperanças incontidas [de tantos jovens e famílias] em sonhos frustrados”, afirma Srougi.

O que Srougi, um dos mais respeitáveis médicos brasileiros, está sugerindo é que é preciso ir além das consequências — os erros médicos primários provocados por formação deficiente e, às vezes, incontornável — e buscar as causas primevas. Mas tudo indica que é mais fácil “culpar” os médicos, porque são a face mais visível e em contato direto com os pacientes, do que investigar a fundo a origem do problema. Medicina, como trata de cuidar da vida — o bem mais importante de todos nós, acima de bens materiais, como automóveis e joias —, não pode ser instrumentalizada por políticos e empresários “predadores”. E os integrantes do governo federal, no lugar de pensarem nas próximas eleições, devem pensar na saúde pública dos indivíduos, notadamente dos mais pobres, as principais vítimas dos médicos mal formados.