Edição 1845 de 14 a 20 de novembro de 2010
Educação é tudo
Pesquisa da Fiesp constata que o Brasil “desperdiça” 56,7 bilhões em educação por ano. Há Estados, como Pernambuco, que obtêm bons resultados. Marconi Perillo afirma que vai investir em educação, mas com o foco em resultados
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'São Jeronimo', de Tintoretto
Filho de Walther Moreira Salles, fundador do Unibanco, João Moreira Salles é mais conhecido como diretor de documentários. Mas é também um dos proprietários da revista “Piauí” e um articulista refinado. Há pouco tempo, surpreendeu ao se mostrar escandalizado com a informação de que o Brasil forma mais cineastas do que engenheiros. Nada contra o cinema, que tem sua importância como negócio e entretenimento. A questão é que nenhum país em franco processo de crescimento e rearticulação de sua política de desenvolvimento — que é inclusivo social e economicamente — repete o percurso brasileiro. Alemanha, Japão, Coréia do Sul, China, Estados Unidos (embora seja a “pátria” do cinema) e Índia formam mais engenheiros do que cineastas. A informação mostra que, no país, há algum problema (leia abaixo os dados da Fiesp sobre os prejuízos da educação) de discernimento.
 
A Coréia é um caso curioso. A área do país asiático (99.617 quilômetros quadrados) é 3,4 vezes menor do que a de Goiás (340.086 quilômetros quadrados), com uma população (48,3 milhões) semelhante à do Estado de São Paulo (41,3 milhões). Mas, com um PIB próximo da casa de 1 trilhão de dólares, a Coréia capitalista, como é chamada para diferenciá-la da dinossáurica Coréia do Norte (PIB de 40 bilhões de dólares), comunista, é uma potência extremamente competitiva. Qual é o seu principal segredo? Investimento maciço em educação, mas com foco nos resultados. O investimento em educação e em tecnologia garantiu à Coreia um lugar privilegiado na economia mundial. Os automóveis produzidos pelo país — da Hyundai e da Kia, que são do mesmo conglomerado — são valorizados pela qualidade tecnológica, durabilidade e design. Nos próximos cinco anos, a Hyundai deve se tornar, se não houver mudanças drásticas na economia, a maior indústria automobilística do mundo. Hoje, no Brasil, é o grupo do setor automobilístico que mais investe em publicidade — em jornais, revistas e televisão. Pretende-se vender e, ao mesmo tempo, consolidar a marca. Alguns de seus veículos são comparados, nas publicações especializadas, com os automóveis Mercedes e BMW, símbolos universais de qualidade. As revistas, como “Quatro Rodas”, garantem que os veículos são mesmo de qualidade. (Detalhe: o Banco Central estabeleceu os juros do país em 2%.)
 
A China, durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, quase recuou aos tempos dos homens das cavernas, com o Estado deixando de incentivar a modernização da economia e da mentalidade. Com a ascensão de mentes mais inspiradas, como Deng Xiao Ping, que disse aos chineses “enriqueçam!”, a China recuperou-se. O investimento em educação é tão impressionante que, hoje, algumas universidades chinesas estão entre as 50 melhores do mundo. Os chineses, comunistas em política e capitalistas em economia — combinando, digamos assim, Gengis Khan e Friedrich August von Hayek —, entenderam que o investimento em educação era a única forma de arrancar do subdesenvolvimento um país com mais de 1,3 bilhão de habitantes. Pode-se falar em crescimento e desenvolvimento na China. Entretanto, se o crescimento anual chega próximo dos 10%, caindo um pouco eventualmente, o desenvolvimento nada tem a ver com o dos Estados Unidos, da Alemanha e do Japão. Ainda assim, o crescimento vertiginoso tem gerado desenvolvimento, tem incorporado grandes levas de pobres e criado várias classes médias. A base do crescimento da China é o investimento de capital em educação.
 
O Brasil, como queriam os militares do pós-1964, se tornou um gigante — e, em grande parte, devido às decisões de generais como Castello Branco, Emilio Medici e Ernesto Geisel (as bases do crescimento econômico atual tem muito a ver com suas políticas e menos, possivelmente, com as bravatas de Fernando Collor) —, mas, como na China e menos na Coreia (até por ser pequena), há problemas, sobretudo na educação, que não tem sido bem equacionada pelo governo federal e por vários governos estaduais (leia sobre Pernambuco adiante). Há poucos dias, o Departamento de Competitividade e Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) divulgou uma pesquisa cujos resultados são impressionantes.
 
A pesquisa da Fiesp constata que o Brasil “desperdiça” 56,7 bilhões de reais por ano com educação. Você leu bem. O país joga tal quantia no lixo todos os anos. O valor representa 1,8% do PIB em 2009. Expliquemos melhor. O dado significa, na verdade, que o valor, embora destinado à educação, foi mal empregado e não gerou resultados satisfatórios. O jornal “O Estado de S. Paulo” publicou reportagem, baseada no estudo da Fiesp, na qual aponta que, “entre 1999 e 2008, o poder público do Brasil gastou 978 dólares anuais por estudante, resultando em uma média de 6,1 anos de estudo da população. Sete nações latino-americanas (Uruguai, Bolívia, El Salvador, Peru, Paraguai, Nicarágua e Equador) gastaram em média 7,4% a mais que o país (1.050 dólares por estudante), mas a escolaridade da população ficou 35,2% superior à brasileira. A taxa média de analfabetismo nacional foi de 11,3%, e a desses países da América Latina, de 8%. A repetência dos alunos do primário, no Brasil, atingiu 21,4% dos alunos — índice também muito superior a dos outros países latino-americanos, que tiveram 5,8% de repetência”.
 
Na comparação com a China, a situação brasileira é ainda pior. “A China”, mostra o “Estadão”, “gasta o correspondente a 48,5% do gasto do Brasil, mas tem anos de escolaridade 19% superior, além de uma menor taxa de analfabetismo”. O gerente do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, Renato Corona, afirma que o setor educacional precisa trabalhar com mais eficiência. O Brasil é um dos poucos países do mundo no qual, quando se fala em eficiência e resultados, parte dos professores, talvez a maioria, começa a criticar o capitalismo. Parte dos equívocos na escola pública brasileira tem a ver com a ideologização da educação, com o fato de que professores que adotaram o discurso marxista, ainda que em geral muito mal assimilado — porque não leram nem mesmo o “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels, um visceral elogio da burguesia e do capitalismo (claro que, no fundo, se trata de uma crítica) —, não percebem que a educação está acima de questiúnculas político-ideológicas. Países que querem crescer, e então repartir renda, têm de discutir menos ideologia e mais resultados. Não significa decretar o fim do humanismo, e sim tornar o discurso humanista mais produtivo. Ou será que, de barriga vazia, alguém pensa mesmo em humanismo?
 
Se em Goiás as escolas estão caindo e algumas precisam ser demolidas, se a Universidade Estadual de Goiás está fragilizada, porque o comando é mais político do que educacional, se as escolas de tempo integral se tornaram crechões improdutivos — nas quais a educação de qualidade continua não sendo o forte —, há exemplos positivos de outros Estados. Pensa-se, comumente, que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), neto de Miguel Arraes, foi reeleito, com quase 80% dos votos, por conta de sua aliança com Lula e do programa Bolsa Família. Não é bem assim.
 
Campos pode ser socialista, mas é essencialmente pragmático. O governador investiu em gerenciamento nas escolas e não se preocupou em criar o máximo de escolas de tempo integral. Havia professores que ganhavam 300 reais por mês quando assumiu. Campos paga o piso nacional e instituiu a meritocracia. O professor recebe um bônus se há comprovação técnica de que sua sala vai realmente bem. Os professores ganharam assinatura de um jornal diário e de uma revista semanal (a escolha é dos mestres). A Philip bancou a reforma do Ginásio Pernambucano e criou métodos modernos de gestão. Campos, habilidoso, replicou a experiência no Estado.
 
O governador eleito Marconi Perillo diz que vai investir maciçamente em educação, mas não quer jogar dinheiro fora, ou seja, está focado em resultados. Tanto que vai trabalhar com apoio dos técnicos que reorganizaram as gestões e as mentalidades dos Estados de Minas Gerais, Pernambucano, Rio de Janeiro (mudaram a segurança pública do Estado) e Espírito Santo. Aplicar bem os recursos públicos é servir ao país e aos Estados. As grandes revoluções começam com gestos pequenos. O gestor tucano está no caminho certo ao buscar exemplos positivos. A ideia é escapar à mesmice dos últimos anos. É acabar com o marasmo.