No final de 2011, o Ibope publicou (pelo terceiro ano consecutivo) os vexatórios dados de sua pesquisa sobre o grau de confiança da população brasileira quanto às instituições (públicas e particulares) que lhe atendem. Os dados são vexatórios (e a mídia adora divulgá-los sem qualquer contextualização) porque revelam o quanto os cidadãos do país estão insatisfeitos com instituições que, em tese, deveriam justamente motivar outro tipo de sentimento popular. O grande descontentamento é com a classe política — fenômeno que se repetiu nos três anos da pesquisa.
Os “partidos políticos” são o grande Judas para a população, segundo o estudo do Ibope. Enquanto, entre as instituições avaliadas, o “Corpo de Bombeiros” é o que tem o maior Índice de Confiança Social (ICS), com 86 pontos, as agremiações partidárias ficaram em último lugar, com 28 pontos. O ICS de outras representações do poder público também é lastimável: “Congresso Nacional” (35), “Governo do seu município” (47), “Poder Judiciário/Justiça” (49), “Governo Federal” (52) e “Eleições/Sistema Eleitoral” (52) — as palavras entre aspas indicam a forma com que foram apresentadas aos entrevistados.
Os serviços públicos (que, em última análise, estão sob a responsabilidade de políticos) também estão mal na pesquisa — as exceções ficam por conta dos bombeiros e das “Forças Armadas” (72). O “Sistema Público de Saúde” (41), a “Polícia” (55) e as “Escolas Públicas” (55) receberam pontuações abaixo da média geral das instituições que, segundo o Ibope, é de 58 pontos. A figura da “Presidente” Dilma Rousseff, que obteve 60 pontos, ficou acima da média, mas significativamente abaixo do patamar de 2010, quando ainda era Lula da Silva — que alcançou 69 pontos.
A pesquisa do Ibope, a rigor, não é assim tão novidadeira. Seus resultados parecem ecoar o que frequentemente se ouve do povo nas ruas – sim, aos jornalistas e operadores políticos cabe sempre resguardar essa diferença essencial: o que se diz nas ruas - seja com motoristas de táxi, cabeleireiros, garçons, comerciantes de todos os tipos etc. — é bem diferente do que flutua nos gabinetes do poder ou nos corredores da oposição. Esse pessoal quase sempre externa um misto de enfado e indignação quando o assunto deriva para a seara política. Pré-candidatos a prefeito? Ações do governo? Não sei e tenho raiva de quem sabe, é o resumo das respostas.
Mas é preciso relembrar a pesquisa do final do ano passado apenas para embasar o raciocínio que se segue: o desgaste da classe política existe (o estudo do Ibope o apresenta de modo indiscutível) e a sociedade deve ter cuidado com isso. Deve decodificar seu significado e entender os riscos que corre. Não, isto não é um alerta de que esse desgaste é tão grave a ponto de colocar a democracia e o sistema representativo na berlinda, expondo o país a outra intervenção autoritária (seja ela dos militares ou de outra natureza) — destaque necessário em função de outra impressão muito corrente nas ruas.
Mas é um alerta, sim, sobre a necessidade premente de melhorias nas instituições políticas. O primeiro passo é cuidar para que o descrédito não descambe em alienação geral, um fenômeno que já é visível na maioria dos países ocidentais. Alguns estudos atestam que essas sociedades estão se desligando da forma mais convencional de exercício da democracia, que é o voto — neste estudo (http://bit.ly/yNIMyq) há uma boa amostragem. Em países europeus, a média de abstenção chega a ser de um quarto dos aptos a votar (na Suíça, é nada menos que 50% - ou seja, apenas metade do eleitorado opina sobre a formação do governo). Nos Estados Unidos, o mesmo estudo mostra que, em 20 anos, a média de abstenção nos Estados Unidos foi de 32,8%, ou seja, um terço do colégio eleitoral.
A comparação com outros países é pertinente. Em 2010, a média de abstenção eleitoral, no Brasil, chegou a 20% — a maior desde a redemocratização. Os estudos também atestam que o não comparecimento às votações coincide com o grau de descrédito da população. É preciso perceber essa armadilha, pois se trata de um círculo vicioso. Quanto mais se deixa de votar, piores são os governos (mais distantes dos anseios populares). Sem soluções para os problemas sociais, mais ainda o sistema de descrédito é retroalimentado: os eleitores deixam de confiar nas instituições. Sem identificação com seus governantes, as comunidades se distanciam de políticas públicas que seriam positivas: não acreditam nelas, não as reforçam. Abre-se um flanco cada vez maior para que as decisões sejam tomadas de acordo com interesses isolados.
Outra armadilha da qual é preciso fugir urgentemente: perceber que, com ou sem segundas intenções, há em curso uma profunda campanha de desmoralização dessas instituições que aparecem tão mal na pesquisa do Ibope. Partidos políticos, por exemplo. Tudo bem que existem muitos fatos negativos envolvendo essas instituições: desde a fauna ideológica exótica (nonsense, talvez) que reside no excesso de siglas até a existência de legendas que só servem para o comércio de tempo no horário eleitoral. Mesmo assim, é preciso que o eleitor ocupe os partidos políticos — e que as siglas se abram aos eleitores. Ter um partido deveria ser o mesmo que “tomar partido”, ter opinião sobre os assuntos que afetam o coletivo.
Os partidos são representações da sociedade. Se são mal vistos, é preciso pelo menos entender que esse podre reside no próprio corpo social. Da mesma forma, deveria ser um incômodo para o eleitor observar que o Congresso Nacional jaz em descrédito. Afinal, senadores e deputados federais estão no exercício do mandato por conta dos votos que obtiveram. Sim, o sistema político é viciado. A eleição de um parlamentar, no geral, tornou-se um jogo de quem investe mais recursos financeiros, de quem consegue “comprar” mais colégios eleitorais – pela contratação de lideranças locais ou mesmo de verdadeiros exércitos de cabos eleitorais. Mas, novamente, essa é outra armadilha que requer a atenção da sociedade: é preciso identificar e evitar os políticos que fazem esse jogo, que usam o poder econômico ou mesmo se aproveitam da máquina pública.
Em outras palavras, é preciso assumir que o problema das instituições é da própria sociedade, do próprio eleitor. Entender a seriedade dessa proposta é o mesmo que perceber o incômodo que esta tira da “Mafalda” (que ilustra este editorial) deveria provocar. Nela, a intrépida personagem do cartunista argentino Quino, não consegue conter o riso diante da definição do conceito de democracia: governo em que o povo exerce a soberania. Essa tira fez sucesso na semana passada no Facebook, com milhares de compartilhamentos (esta reprodução é de um das centenas de blogs de admiradores do argentino).
O problema é que os usuários das mídias sociais talvez não tenham percebido o verdadeiro recado de Quino: até uma menina de seis anos de idade, sua Mafalda, percebe (com ironia) que o sistema representativo não funciona como deveria. Se essa é a realidade, o que é preciso fazer? Investir no aperfeiçoamento da democracia (e de suas combalidas instituições) ou se entregar à indignação inócua de sempre? E qual seria o resultado dessa inação?