
A teoria econômica, incluindo todas as suas escolas e vertentes, há tempos sofre com uma crise profunda de descrédito. O ataque ao trabalho conceitual de análise de conjuntura da economia é invariavelmente de ordem política, mesmo que seja possível fazer algumas distinções entre essas invectivas. A primeira delas pode ser classificada como “crise cultural”. A outra será chamada aqui de “crise ideológica”. Ambas serão detalhadas a seguir, entendendo que são fenômenos graves porque acabam por limitar a ação de pesquisadores e entidades que se dedicam a essa atividade (a solução de problemas econômicos) — sempre descontando-se o fato de que nem todos executam suas pesquisas em busca do chamado bem comum. Com essa análise será possível entender melhor o impasse que desafia a economia mundial neste ano que se inicia com um cenário mundial tão adverso.
Por que “crise cultural”? Porque não há uma designação melhor do que essa para a crise de confiança ou de descrédito que afeta o trabalho de teóricos da economia. Muitos vão dizer que isso não é novidade. Sim, é verdade. Historicamente, as sociedades (e especialmente o campo político delas) desconfiam da capacidade de planos econômicos lastreados por sólidos princípios teóricos. Essa desconfiança pode vir do fato muito evidente de que a maioria desses planos acaba naufragando ou só dando certo depois de ajustes expressivos em sua formulação original. Essa crítica é injusta porque toda teoria econômica aplicada deve ser entendida enquanto “tentativa” de solução — tentativa essa que inclui a eventualidade do fracasso. Até mesmo os teóricos que parecem se agarrar a seus modelos de forma dogmática sabem disso.
Mas há um outro aspecto interessante dessa “crise cultural” (insiste-se aqui nas aspas para destacar que se trata de um conceito não-empírico, apenas colocado em debate por este Editorial). Esse aspecto cultural tem a ver com o estigma de que os economistas devem ser vistos com desconfiança por defenderem interesses secundários (ou segmentos específicos) em seus planos. Novamente, trata-se de uma crítica injusta. Primeiro pelo próprio dilema econômico essencial: os recursos são escassos e as demandas, infinitas. Ou seja, priorizar é a essência de qualquer decisão econômica (ou administrativa). Saber se as prioridades eleitas foram as certas ou mais relevantes é que deveria nortear a crítica.
Esse estigma sobre os economistas é tão frequente que até mesmo a fundação responsável pela concessão do prêmio Nobel decidiu mantê-los à distância. Sim, o “Prêmio Nobel de Economia” deve ser escrito assim, entre aspas, porque, na verdade, ele é diferente dos outros. Física, química, medicina, literatura e paz mundial são os temas originais estimulados pela Fundação Alfred Nobel — os vencedores são escolhidos pela Academia Real das Ciências da Suécia e outras entidades. Já o “Prêmio do Banco Central da Suécia de Economia em homenagem a Alfred Nobel” foi criado em 1969 e rejeitado, em 2005, pela família do inventor da dinamite. Segundo eles, a fundação que leva o nome do patriarca não deve incensar “burocratas que somente visam lucros”.
De qualquer forma, o ganhador do “Nobel de Economia” de 2008, o economista norte-americano Paul Krugman, é, até agora, uma das mentes mais lúcidas na análise da crise mundial. Em sua coluna no “The New York Times” de terça-feira, 3, ele expõe a ferida da “crise ideológica” que afeta a análise teórica da economia nesses tempos difíceis. Para Krugman, os governos dos Estados Unidos e da Europa estão tímidos na adoção de medidas que viriam do receituário keynesiano — ou seja, intervenções menos ortodoxas do ponto de vista fiscal, para estimular o desenvolvimento. A impressão é de que os mandatários dessas nações estão intimidados pela visão hegemônica do “deus mercado”, que precisaria ser preservado a qualquer custo.
A avaliação de Krugman é irretocável quando diz que uma inflexão keynesiana, agora, poderia ser uma saída para a questão da crise. O britânico John Maynard Keynes é o antídoto (capitalista) à tese de que o mercado, sozinho, consegue regular a economia. A proposta intervencionista de Keynes precisa, sim, sempre ser avaliada com cuidado. A cautela é justificada maciçamente pelos exemplos de sociedades que atrasaram anos em seu desenvolvimento devido à presença indiscriminada do Estado em diversos setores da economia. Mas, como remédio casual, já ficou evidente a eficácia de intervenções estatais quando o sistema vive uma de suas crises cíclicas.
Krugman foi perspicaz ao observar que o discurso dos governantes está fora da lógica keynesiana. Todos os políticos (tanto dos países da Zona do Euro, quanto os americanos, especialmente os republicanos) estão pregando a austeridade fiscal como solução mágica para a crise. O economista e colunista do “New York Times” lembra que, segundo Keynes, austeridade é uma receita boa para momentos de bonança, quando é possível, de fato, economizar recursos e garantir o equilíbrio fiscal. Para situações difíceis, ainda na receita keynesiana, é preciso abrir as torneiras e investir pesado especialmente em setores propulsores, que geram muitos empregos. Assim, o Estado se consolida como indutor do desenvolvimento, indicando a porta de saída para a crise.
O “Nobel” comenta ainda, com precisão, que o presidente Barack Obama vive uma espécie de recalque político. Como democrata, Obama talvez quisesse abrir mais as torneiras do combalido tesouro americano. O ajuste promovido em 2009 (com a Lei de Recuperação e Reinvestimento) foi considerado tímido e ineficiente justamente porque não foi generoso o bastante (na renúncia fiscal) para conter a recessão. Diante de republicanos bradando que (o governo) dos Estados Unidos não deve gastar mais um centavo na recuperação do mercado global, Obama mantém-se titubeante. Para Krugman, coragem para promover a criação de empregos é o que falta na América e na Europa em crise.
A análise profundamente keynesiana de Krugman remete ao ousado caminho escolhido pelo governo brasileiro, quando as rédeas ainda estavam com o ex-presidente Lula da Silva. Ele concedeu incentivos fiscais e foi à televisão, em cadeia nacional, pedir aos brasileiros que não parassem de consumir. Deu certo e esse é, sem dúvida, um dos poucos trunfos que o petismo pode realmente esfregar na cara de seus adversários do PSDB — é possível supor que os tucanos talvez seguissem a onda mundial e defendessem o mantra da austeridade. A presidente Dilma Rousseff, mantendo Guido Mantega como escudeiro na economia, segue o mesmo caminho que tem se mostrado acertado até agora.
Na prática, o Brasil desmonta o ataque ideológico dos “cabeças de planilha” e “sacerdotes do mercado”, provando que o “desenvolvimentismo” venceu por aqui. Resta, como se disse antes, ter a cautela de entender que a intervenção estatal tem medida. Que qualquer gota a mais desse remédio poderá provocar o vício do privilégio e, por fim, engasgar as forças empreendedoras do país. E mais: se os principais países errarem o passo (especialmente grandes parceiros comerciais do Brasil, como a China), somente o estímulo ao consumo e pequenas reduções nos juros não serão suficientes. O ano de 2012 começa com esses sinais de apreensão, mas muitos analistas apostam que o mundo iniciará 2013 já fora da crise. É esperar para ver.