Um pequeno catálogo de espantos: aforismos e paradoxos

Wagner Schadeck, poeta e tradutor, se aventura no terreno da frase curta, que contem o pensamento ligeiro e afiado, difícil de ser concebido

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão e um dos principais aforistas da história | Foto: Divulgação

Wagner Schadeck
Especial para o Jornal Opção

Umberto Eco diferenciava o aforismo do paradoxo. Além de não permitir inversão conceitual, o paradoxo traz um conflito conceitual que motiva o efeito. É como a anatomia de uma alma atormentada por um anjo e pelo demônio.

Em nossa tradição, podemos citar grandes aforistas, como Pascal, Nietzsche, Cioran, Lichtenberg, Scho­penhauer, Karl Kraus, Oscar Wilde, Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Gómez Dávila, entre outros.

Apresentamos, a seguir, o nosso pequeno catálogo de espantos:

I – A Casa

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Não há greve para quem edifica a própria casa.
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A economia do lar é uma forma administrativa de amor. A boa cozinheira fisga corações pelo estômago.
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Nada mais totalitário do que valorizar mais a disputa de empregos do que a economia doméstica. Quem não governa a própria cozinha não vai saber governar um país.
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Quando o teto está desabando, não há tempo para debater a burocracia ideológica.
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Na mesa da miséria, ninguém quer dividir a conta.
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Um epicurista de fim de semana – o homem só quer duas coisas: cerveja barata e fugir da casa da sogra.

II – A Política

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Diferença entre censura e totalitarismo: a censura diz o que não se pode dizer; o totalitarismo o que se deve dizer.
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Brasilidade: uma barbárie sentimental.
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O brasileiro é, antes de tudo, um burocrático.
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O brasileiro é aquele cego da anedota. Ao confundir o estampido de espoletas com estrelas, ele está sempre a apontar no céu uma esperança fátua.
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O congresso brasileiro tem a organização de uma sala de alunos repetentes.
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No Brasil, o estágio para os partidos políticos é a torcida organizada.
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Jamais dê crédito aos cretinos.
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Ouço a mídia a sibilar como quem dorme num moinho ouvindo do lado de fora a incômoda moenda.
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Muita saliva e pouca sapiência os males do Brasil são.
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Cidadania não consiste em reclamar direitos, mas em assumir obrigações.
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A Ignorância outorga a seus seguidores o poder de opinar sobre tudo sem saber de nada.
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A defesa exacerbada da democracia só deseja pleitear escrúpulos.
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Na militância política, quem doa prenda não é quem canta a pedra.
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Os burocratas de conceitos estrangulam a letra até que ela confesse o indefensável.

III – Estética

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A ideologia é o bordão usado para tanger o rebanho. A poesia é o canto de júbilo ou de angústia de quem sabe o gosto do amor e da morte.
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O palco do debate público é o espetáculo das sombras, cenário de mentira e engodo (ideologia). É o lugar onde se celebra a escravidão das paixões como liberdade. O poeta, no entanto, não reduz a caverna de Platão a uma gaiola ideológica de libertadores e manipulados; descerra o cárcere do ser.
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A sátira amoral causa graça, mas não fere. Domesticada, a enrolar-se no ventre da conveniência, é uma serpente sem veneno.
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A poesia é o rebento do amor e da alma.
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Não há poesia sem o Homem, nem o Homem sem poesia.
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Na antiguidade vinho e poesia eram elementos essenciais da sociedade: o vinho trazia o esquecimento; a poesia a memória.
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No quadro geral de arquétipos, o poeta está entre o rei e o mendigo, o sábio e o louco.
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A importância do Concretismo para a poesia brasileira está sobretudo nas traduções. Os concretistas foram os únicos que conseguiram traduzir para o vernáculo a poesia de Sousândrade.
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Sem a poesia, os poemas são como a casca seca de uma cigarra: dissipado o canto do espírito, remanesce o silêncio.
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Na cultura de massa, o artista se apresenta como arte. Na alta cultura, o artista se oculta para revelar a arte.
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Na escrita, o estilo é o cuspo do engraxate.

IV – O Mundo

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O poder da beleza? Uma criança armada com um revólver.
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A cavalgada dos desejos: as rédeas sociais.
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Festas: a cidade dos homens está morta. Fastos: a cidade da morte está cheia de homens.
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Homem: um ensaio provisório a ser levado para a gaveta.
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Como quem resgata um corpo nos escombros, ela vasculha o terreno do rosto, entre perdas capilares e a erosão das rugas, vestígios de vida.
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Espoliando o eterno do rosto humano, resta um corpo burocrático, cadáver de regras, pássaro empalhado com estatísticas.
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O prazer é mel guardado por asas e ferrões.
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A moral erótica é como a moral da caça: só se deve matar o que se pretende comer.
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Espírito: a doçura da uva acentua a acidez do vinho.
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O anseio é a tortura da véspera.
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A guia da opinião? A polêmica.
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A profundidade do pensamento? A régua do óbvio.
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A matéria de um aforismo? Diatribes, diabretes, dribles, blefes…
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O pensamento é um processo de compostagem.
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O niilismo é a prisão da consciência. Com o entorpecimento dos sentidos, a capacidade para a compaixão é aniquilada. Como uma maçã, deteriora-se a nossa alma. É a doença moderna que nos impele a uma busca incessante, levando-nos ao suicídio ou à loucura.
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A humildade é o altar do sublime.
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Quem não ama para servir não serve para amar.
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Um supremo anseio? O átimo de treva que antecede a aurora.
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Os cemitérios modernos são como praças de alimentação. Felizes são os mortos: em silêncio, escarnecem de nosso ridículo.
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Melancolia: na gleba obscura, uma botelha fermenta o espírito em vinagre.
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Como quem lustra o cobre que se cobrirá com a lepra do azinhavre, em vão me ponho a polir a melancolia.
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Nem o sol salva a manhã quando o que se tem para mascar são abelhas azedas.
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Dei minha vida ao blefe e aos livros, enquanto ela guardava no coração a inconstância da chuva. Eu, um operário da precariedade; ela, a mercadora do diabo.
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A virtude, em Sodoma e Gomorra, é maldizer a virtude.
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Máscara: no carnaval, nada mais obsceno que o rubro pudor de um rosto nu.
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Não se pode terceirizar a caridade.
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Wagner Schadeck é tradutor, ensaísta, editor e poeta.

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Não se pode terceirizar o talento – parodiando o amigo W.Schadeck. Se o pudesse, transferi-lo-ia de Wagner para meu mais íntimo produzir; além da febril produção de qualidade.

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