Romance de escritor canadense reinventa o gênero do Faroeste

Livro de Patrick deWitt é uma grande alegoria, cheia de humor, sobre como a busca desenfreada pelo dinheiro e a ganância podem, apesar dos esforços, levar a caminhos inesperados

Patrick deWitt, escritor canadense, reinventa o gênero do Faroeste com “Irmãos Sisters”

Flávia MF
Especial para o Jornal Opção

Representante do gê­ne­ro faroeste, o livro “Ir­mãos Sisters”, de Patrick deWitt (Edi­to­ra Planeta, tradução de Marcelo Barbão, 254 páginas) traz um enredo diferente do que é geralmente encontrado na categoria. Marcado tradicionalmente por personagens e tramas superficiais, o faroeste muitas vezes é visto com ressalvas por leitores que preferem uma literatura mais intensa.

Esta obra aborda a relação de dois irmãos – Charlie e Eli Sisters – conhecidos matadores do oeste americano no século XIX. Nar­rada em primeira pessoa pelo personagem Eli, a trama se desenvolve durante uma tarefa a ser realizada pela dupla: a missão de matar Hermann Kermit Warm, dada pelo seu misterioso chefe, identificado apenas pelo nome de Comodoro.

O livro se divide em capítulos que acompanham as etapas da jor­nada, iniciada no ano de 1851, ao longo do caminho de Oregon Ci­ty até a Califórnia, durante a corrida do ouro. As impressões de Eli sobre os acontecimentos são descritas por fluxos de consciência divididos entre momentos “normais” – em que realizam suas atividades habituais, como roubos e assassinatos – e “intervalos”, nos quais ocorrem fatos que chegam a se misturar com o sobrenatural.

Com as descrições do irmão mais novo, conhecemos melhor o perfil de cada um, originários de uma infância pobre e brutalizada. Se­riam eles vítimas ou algozes? Eli se mostra o mais sensível, na busca por amor, amizade e o constante questionamento sobre ga­nhar a vida como assassino de aluguel. Sonha em deixar de ser matador, abrir um comércio e vi­ver com mais tranquilidade. Ao mes­mo tempo em que ruma para seu último trabalho, a eliminação de Warm, não mostra arrependimento pelos crimes que comete. O constante medo de ficar sozinho, aparente apenas nas entrelinhas, muitas vezes move suas atitudes.

Charlie, por sua vez, é alcoólatra e gosta da violência e das noitadas nos saloons. Não perde a oportunidade de agredir as pessoas que aparecem em seu caminho, e muitas vezes é cruel com o irmão. Segue as ordens do Comodoro sem se preocupar em questionar por que ele quer determinado indivíduo morto, não porque lhe teme, mas porque não se importa. A personalidade de ambos e a escolha que fizeram na vida os leva a abandonar a casa e o convívio com sua mãe.

“Os Irmãos Sisters”, de Patrick deWitt (Tradução de Marcelo Barbão. Editora Planeta, 208 páginas)

Por meio deste olhar conhecemos também os personagens que cruzam o caminho dos dois durante sua jornada, alguns deles aleatórios e sem aparente razão no desenrolar da estória, outros também suas vítimas. A senhora idosa que se encontrava na mesma casa em que tiveram que passar uma noite enfeitiçou Eli ou o abençoou? O que significa o homem chorão que aparece eventualmente? E a menina que matou o cachorro?
Uma possível interpretação, devido ao narrador personagem, é que esses indivíduos traduzem parte do que Eli sentia no momento, ou as mudanças psicológicas que estava sofrendo. Dessa forma, os eventuais indivíduos podem sair do plano espiritual e tornar parte da realidade os fortes sentimentos, sempre presentes, do protagonista.

Recheado de momentos irônicos e de um humor pitoresco, a trama conquista por esses detalhes, que suavizam sua rotina de violência. A torcida para que Eli consiga uma namorada, a afeição pelo cavalo Tub, a dúvida sobre os motivos da missão dada pelo Comodoro, a insana busca pelo ouro em São Francisco: o leitor se vê constantemente em situações cômicas perante os pensamentos de Eli e suas interpretações dos acontecimentos.

O livro, no fim, é uma grande alegoria, cheia de humor, sobre como a busca desenfreada pelo dinheiro e a ganância podem, apesar dos esforços, levar a caminhos inesperados. Ao dar fim em tantas vidas estariam recomeçando as suas? O que realmente devemos considerar como valioso? Talvez os Irmãos Sisters consigam as respostas para estas perguntas.

A capa, com assinatura de Dan Stiles, pode parecer infantil para uma análise superficial, mas, olhando-a com mais atenção, vemos um universo à parte. Os dois protagonistas apontam suas armas para o leitor, sendo um destro e um canhoto. Suas cabeças compõem o que pode ser, ao mesmo tempo, um rosto que tudo vê, a lua ou uma caveira. Ao fundo forma-se, não de forma completa, uma digital. Esses detalhes dizem muito sobre o que será encontrado no virar das páginas.

Os leitores que estiverem em busca de uma narrativa leve, divertida, com tiradas irônicas e fácil de ler, podem se entregar a essa aventura pelas terras do Velho Oeste. É uma agradável opção de relaxamento para um momento entre clássicos ou após um romance carregado ou marcante, e garante algumas boas risadas.

Patrick deWitt é canadense e nasceu em 1975. Tem outros dois livros lançados: “Ablutions” (2009) e “Undermajordomo Minor” (2015), ambos sem previsão de lançamento no Brasil. Publicado originalmente em 2011, “The Sisters Brothers” foi o segundo trabalho do autor, que acabou indicado ao prêmio Man Booker Prize e aos três principais prêmios de literatura no Canadá, logrando vencedor de dois deles: Govenor Ge­neral’s Awards e Rogers Writer’s Trust Fiction Prize.

Flávia MF é graduada em História, pela Universidade de Brasília (UnB), e em Relações Internacionais, pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO)

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