A realidade vista pelas frestas do fantástico

“Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster, reúne contos cujos personagens buscam sentido em meio ao absurdo cotidiano

Gustavo Melo Czekster segue a tradição da literatura do absurdo | Foto: Divulgação

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

No prólogo escrito para a novela “A in­venção de Mo­rel”, de Adolfo Bi­oy Casares, o argentino Jorge Luis Borges justifica o que classificou como “a trama perfeita”, a­través do virtuosismo do conterrâneo (e amigo) no gênero. Assim diz: “(Casares) desenvolve uma Odisseia de prodígios que não parecem admitir outra chave que não a da alucinação ou a do símbolo, e decifra-os ple­­namente mediante um único postulado fantástico, mas não sobrenatural”.

Sempre me pareceu ardilosa essa conclusão; um dilema, quiçá. A fronteira que divide o fantástico e o sobrenatural é demasiadamente tênue, sensível às mínimas tensões. Erguer uma história na qual a normalidade é infiltrada por um componente extraordinário já não seria reconfigurar sua natureza e torná-la parte do território fantasioso?

A obra do próprio Borges é mo­tivo de inúmeras teses acadêmicas sobre a questão. No entanto, entre teorias e nomenclaturas, um raciocínio convincente vem de um terceiro argentino, Julio Cor­tázar, numa introdução para os textos do uruguaio Felisberto Her­nández, incluída na coletânea “O cavalo perdido e outras histórias”.

Cortázar argumenta que o dito fantástico pode ser compreendido como um enriquecimento da realidade total. Uma narração capaz de aliar o cotidiano ao excepcional a ponto de mostrar que eles podem ser a mesma coisa. “Pois se há uma certeza quanto aos contos de Felisberto é que não são insólitos, na medida em que seu inevitável protagonista também é inevitavelmente fiel à sua própria visão e não faz o menor esforço para explicá-la, para estender pontes de palavras que ajudem a compartilhá-la”.

Assim também procedem as múltiplas vozes que comandam as narrativas de “Não há amanhã”, de Gustavo Melo Czekster. Em sua segunda coletânea de contos, o escritor gaúcho constrói um panorama que reflete uma realidade cujas fissuras são infiltradas pelo fantástico, sem que o assalto do inexplicável cause aos personagens uma experiência traumática de horror. São raias desse abismo cotidiano no qual transitamos sem presciência, a mercê do fato incrível que repercute em ondas pela cidade, do delírio e do assombro que se deslocam pela casa e enredam as relações familiares, do achado de si diante da finitude invicta. Tal como descreveu Cortázar, uma realidade enriquecida.

Nesse processo profundo e tão corriqueiro, os olhos que encaram espantos têm a condição também de janelas para se contemplar um mundo concreto, mobilizado por desejos e emoções humanas que, a despeito de um grau de absurdeza, nunca é palco para meras excentricidades. É o caso do genial “Os que se arremessam”, sobre uma seita de homens e mulheres que descobrem o gozo supremo flertando com a gravidade. Em “O sentido”, um homem atravessa um rio numa balsa, quando o condutor sofre um infarto e, agonizante, confidencia-lhe sobre uma praia obscura que esconde um banco de pedra. A ida ao local irá lhe condenar a um estado em que a morte passa a ser uma ocupação. Já “Os problemas de ser Cláudia” trata de clones espontâneos, simulacros cujos variados temperamentos emulam uma representação da psiquê movediça da personagem. “(…) ainda era Cláudia? Era original ou uma das outras? Sempre imaginou que controlasse tudo. Saber que virara a voz imaterial ou o fantasma da história alheia era perturbador. (…) Pensou em se matar, mas teve medo que a vaga no Pa­raíso já estivesse ocupada. O in­ferno era as outras Cláudias”.

Czekster reúne, com raro apuro, técnica e inventividade. O domínio total sobre a prosa permite a apreensão de temas monumentais, a exemplo do sagrado bíblico, da mitologia grega, do reino das divindades, nos limites exíguos do conto, sem que isso prejudique a dimanação da ideia. Pelo contrário. Ao operar com tamanha perícia, o autor extrai da matéria original uma sensação de mistério, como que conduzisse o leitor a espiar pelas frestas das histórias e pactuar um segredo. Essa atmosfera de caráter indecifrável acaba também por estabelecer uma unidade no decorrer da leitura, demarcada por quatro momentos em que a efemeridade da existência é discutida por meio de narrativas-irmãs que se diferenciam por movimentos sutis de um mesmo ponto de observação.

Metaliteratura

A vida é a chave de todo livro, afinal. É a partir da reforma de sua composição em estado volátil que passado e presente não se distinguem, que o futuro se rebela contra as hastes dos ponteiros, como visto em “Um sonho de relógios”, no qual o tempo vampiriza os dias do protagonista. O fim, para alguns dos atores dessas tramas, não é determinado pelo encontro com a morte, transcendendo-os a um estágio de sonho, a uma prisão nos campos da loucura ou no limbo emocional, conforme no estupendo “Problemas de comunicação”, em que mãe e filho se confrontam durante refeições, visíveis unicamente pela chama fraca de uma vela. “Quem come no escuro conversa com o diabo”, constata a narradora, indicando o liame com uma tradição mais soturna do fantástico, típica de autores como Guy de Maupassant e Horacio Quiroga.

A antologia excursiona com desenvoltura por toda a extensão do plano hiperfísico, raptando referências às claras e pelas caladas; fiando seu eixo à força da intertextualidade. “Não morto, apenas dormindo” concentra um pressuposto encontrado em “Invenção de Morel”, de Casares: um morto insone. Borges também está lá, com sua biblioteca fabulosa. Bem como Cortázar, Shakespeare, Dostoiévski, os deuses da dramaturgia, os papas da ficção científica. Personagens reais, a exemplo do compositor russo Tchai­kovsky e do próprio Gus­tavo Melo Czekster, o autor, ga­nham contos autocentrados. Os ru­dimentos filosóficos descendem de Camus, do seu “O mito de Sísifo”. Reflexões acerca da existência humana e a procura i­nútil por um sentido real, posto que “a vida é como uma sala de es­petáculo, em que entramos, as­sistimos à peça e vamos embora”.

Czekster triunfa por ser, antes de um excelente escritor, um leitor cuida­doso, dedicado. E isso, no fim das contas, proporciona, aos seus textos, níveis de camadas, enigmas que partem da literatura, ao mesmo tempo que dependem do conhecimento sobre literatura para serem desvendados. Como sentencia a frase que abre o conto “A passionalidade dos crimes”, “Não existe texto inocente”. Extraindo originalidade de um exercício metaliterário, o autor se consagra um dos mais expressivos contistas da sua geração e, ao contrário do que sugere o título, mostra uma escrita com todas as qualidades para se estabelecer por um futuro de sucesso.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor

Trecho do conto “A passionalidade dos crimes”

Foto: Divulgação

“Você sabia que nunca mais consegui ler Virginia Woolf com o mesmo encanto? Pois é. Palavras também não são puras. São repletas de passionalidade, de intenções ocultas ou claras, de espinhos e pontas e carícias e dores. Toda palavra que sai do nosso corpo é uma flecha e, às vezes, acertar o alvo é somente um detalhe. Assim como cortam o ar, as palavras rompem a tranquilidade do universo e distorcem o mundo, fazendo-nos viver um emaranhado incessante de atordoamentos.”

Não há amanhã
Autor
: Gustavo Melo Czekster
Ano: 2017
Páginas: 160 páginas
Editora: Zouk

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