A festa dos renegados ou a FLIP de Lima Barreto

Autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” ressurge na Festa Literária Internacional de Paraty, em cenário de crise econômica e de luta contra a desigualdade, embora ainda pouquíssimo lido

Márwio Câmara,
Especial para o Jornal Opção

Lima Barreto, autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”

Sempre tento compreender e aceitar o quão a força do mercado, sobretudo do marketing exposto ao produto, pode cativar e empoderar o consciente coletivo à chamada “onda da vez”. Logo penso que a literatura – embora possua vida própria e muito digna – dentro do sistema catalisador e um tanto quanto prostituído da indústria cultural acabe por sucumbir inevitavelmente à receita. A dita cuja moeda de troca.

A luta é descomunal. As panelas realmente existem e poucos são os autores que conseguem obter algum privilégio ou destaque nos grandes veículos de comunicação do país. Se não bastasse a literatura no Brasil ser a grande prima pobre, ainda que a mais requintada entre os demais parentes do mundo das artes, ela vem ganhando cada vez menos espaço nos cadernos de cultura, asfixiados por um raso poder de síntese ao falar sobre livros e afins. Quando se tem espaço, fala-se do mais do mesmo, dos ditos grandes autores que circundam as grandes casas editoriais do país. O espaço para o novo é medianamente aceito, contanto que se esteja no catálogo da XYZ, quando não apadrinhado por um nome já consagrado.

Que a desonestidade também é uma constante na vida literária, a maioria dos que vivem nos bastidores dela sabe. Mas nessa ponta do iceberg é interessante ressaltar o quanto uma figura maltratada, durante e após a vida, consegue repentinamente ganhar destaque colossal, estampando a capa de quase todos os suplementos literários e cadernos de cultura do país, não exatamente por conta de sua obra na essência – que deveria sim ser o grande carro-chefe de tudo isso –, mas acima de tudo por ser o grande nome homenageado de um dos maiores festivais literários do país, quiçá do mundo – a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

É óbvio que a escolha deste ano traz motivo de alegria para muitos, já que a inserção da figura de um autor negro num espaço onde se privilegia, sobretudo, os autores brancos de classe média, é um feito notável. Mas fico deveras confuso quando penso que Machado – o maior cânone da literatura de língua portuguesa – também foi negro, embora pouco retratado como tal. O que eu quero dizer é que minha felicidade é alicerçada pelo esgar da dúvida sobre o boom midiático em torno da figura maestra de Lima Barreto – sem dúvida alguma, um dos grandes nomes da nossa literatura brasileira.

Com prós e contras, ganhando fama de elitista e pouco efetivamente literária, de fato, a FLIP tem um poder incalculável de elevar o literato para o mainstream da grande mídia cul­tural. Neste ano, por exemplo, de­ci­diram virar o jogo, mudando a curadoria e a forma de projetar o fes­tival, configurado no apogeu da crise econômica do país. Por isso, tro­ca-se o formato, os convidados, e aí se tenta pluralizar a coisa, chamando os nomes deslocados, quase nun­ca citados, mas que possuem nitidamente qualidade literária e relevância na identidade cultural de um país pa­radoxalmente racista, patriarcal e miscigenado.

“Lima Barreto: Triste Visionário”, de Lilia M. Schwarcz (Companhia das Letras, 2017, 648 páginas)

Ter um autor de livros como “Triste fim de Policarpo Quaresma” (1915) e “Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá” (1919) sendo o grande protagonista no cenário literário nacional do ano é fascinante, mas mostra também o quanto a literatura sem o poder da “onda da vez” descampa de forma baratinada pelo labirinto de Creta às cegas. O sistema literário, com a sua engrenagem própria, manipula e projeta quem é o camarada da vez. E que bom que desta vez tenha sido alguém que valia grande cerimônia.

Dono de uma visão crítica, polêmica e humanista sobre o Brasil, A­fonso Henriques de Lima Barreto foi pouco levado a sério ou simplesmente ig­norado por grande parte da chamada elite intelectual da época. Dife­rente do nosso grande Ma­cha­do, este outro gênio, muito à frente do seu tempo e por isso incompre­en­dido pela maioria, colocou em cena a figura do marginal e da periferia, denunciando as mazelas sociais, o mau-caratismo político, o descaso com a raça negra e também o feminicídio.

Pintou um retrato fidedigno do Rio de Janeiro do início do século 20, através das suas muitas andanças pela cidade, trafegando entre a chamada alta, média e baixa cultura, com uma linguagem literária dita na época como chula, pelo coloquialismo que mais tarde seria revisto com grande admiração na produção de outros autores. Morreu prematuramente aos 41 anos de idade, sem nenhum prestígio, vítima do alcoolismo, mas deixando um legado literário fundamental para nós brasileiros debatermos sobre o que se passou e ainda se passa no país.

Aos que forem à FLIP, que ao menos leiam realmente a sua obra e entendam a trágica comédia humana deste Brasil de natureza plural e incoerente na mesma medida, sobretudo no que tange a figura do pobre e do negro brasileiro – da colônia à democracia – e das forças que regem o nosso próprio sistema. É sobre isso que precisa ser falado e ressaltado. São sobre essas questões que Lima Barreto continua falando, mesmo silenciado pela morte. Afinal, Clara dos Anjos ainda circula, invisível e negligenciada, entre nós. E de quem é a culpa?

***

Abaixo, segue a entrevista exclusiva que fiz com a antropóloga e historiadora Lilia M. Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo (USP), e autora da recém-lançada biografia “Lima Barreto: triste visionário”, editada pela Companhia das Letras:

Historiadora e antropóloga Lilia M. Schwarcz escreveu biografia de Lima Barreto

Gostaria que a professora falasse sobre como foi o planejamento de pesquisa acerca da figura de Lima Barreto. Como surgiu o interesse em trabalhar com uma nova biografia que percorresse toda a vida do autor?

Como eu tenho explicado bastante, eu já vinha trabalhando com Lima Barreto nos meus cursos, nas minhas leituras e há dez anos fiz um projeto que seria para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), depois tive um temático na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), porque eu faço parte da academia e essas questões vêm da academia. Por isso, eu resolvi elaborar novas questões para um objeto já muito estudado. Lima Barreto teve uma biografia fundamental em 1951, pesquisadores igualmente fundamentais, alguns mais antigos como Nicolau Sevcenko, Beatriz Rezende, Arnoni Padro e até os mais recentes Felipe Botelho, Denilson Botelho e a Luciana Hidalgo. Só para dizer a você que não era por falta de pesquisadores. Eu penso que a questão é que era, de alguma maneira, nova. Eu venho estudando há muito tempo a questão racial, e resolvi indagar o Lima Barreto não só acerca da raça, mas de outros marcadores sociais da diferença como: gênero, região, geração e classe, misturando todos eles. O autor não é novo, está muito bem pesquisado. Talvez eu traga questões que são do nosso momento. Um momento que vem discutindo direitos civis, direitos da diferença, diferença na igualdade.

Por que Lima Barreto pode ser considerado um “triste visionário”?

Eu queria dar ambiguidade e ambivalência à construção do livro, ou seja, biografia não é exercício de consagração e elevação, mas os nossos biografados têm as ambivalências e as contradições de todos nós. Então os termos “triste” e “visionário” já são quase opostos, né? Uma pessoa triste é uma pessoa ensimesmada, uma pessoa visionária é aquela que enxerga longe. Mas os próprios termos são ambíguos. Triste como eu disse é uma pessoa deprimida. É um termo muito usado por Lima, consagrado pela antropologia de Lévi-Strauss, que escreveu “Tristes trópicos”. Mas triste também quer dizer uma pessoa teimosa, uma pessoa que insiste. Se eu falar: “Márwio, você é triste”, pode ser que eu esteja te dizendo que você é uma pessoa que não desiste, que vai em frente. A mesma coisa do visionário, que quer dizer divisão, uma pessoa que enxerga longe. Mas no contexto de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, o Floriano Peixoto diz: “Policarpo, tu és um visionário”. Quando ele diz isso, não é um elogio, é para comentar como o Policarpo Quaresma é uma pessoa um pouco lunática, que não entende nada. Então, não só “triste” e “visionário” são duas palavras quase que opostas, carregando essa contradição, como cada um dos termos carrega em si essa ambiguidade.

A indústria cultural pode resolver a questão de colocar no mainstream uma figura injustiçada durante e após a vida, sujeitando-o como a ascensão do momento e influenciando o público à importância de sua literatura? Falo de Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) e do próprio mercado editorial brasileiro.

Eu concordo contigo que a FLIP é uma feira que acaba tendo mais uma elite, basta ver o preço dos ingressos e da hospedagem. Eu não tenho nenhuma dúvida. Mas eu penso como o diplomata e historiador Evaldo Cabral de Mello, que a história é como a casa do senhor, tem muitas portas e janelas. Eu acho que tardou muito para a FLIP colocar o Lima em cena. E veja que essa é uma FLIP do Lima, uma FLIP da crise, que não tem grandes nomes, não tem grandes estrelas. É uma FLIP que tem muito mais escritores afrodescendentes, muitas mais mulheres, então está pluralizando o lugar de fala. Por outro lado, a FLIP é uma espécie de microfone. Então se o evento servir para multiplicar os leitores de Lima Barreto, eu penso que não importa qual é a janela. Também acho que o mercado editorial brasileiro demorou muito para lidar com o Lima Barreto assim como as escolas. Eu não posso compreender o porquê de um autor como Lima Barreto não entrar nas nossas escolas ainda, sobretudo os seus contos. Eu também acredito que o Lima Barreto seja um autor mais estudado do que um autor que tenha sido incorporado pelo cânone literário, então nisso eu concordo com você. Agora, eu fico aqui pensando que Lima Barreto foi sujeito a muitas injustiças. No momento em que morreu em 22 foi um grande silêncio, depois passou entre os anos 20 e 50 quase não comentado. Em 1950 foi Francisco de Assis Barbosa, que também pertencia a uma grande mídia, escrevia em grandes jornais, quem fez esse imenso serviço de trazer o Lima de volta, senão nós nem o conheceríamos. Francisco de Assis Barbosa, inclusive, foi quem organizou os diários, uma série de livros de Lima como crítico literário, com impressões de leitura. Eu penso assim, tardou muito, mas toda hora é boa para que a gente conheça mais Lima Barreto e, sobretudo, consiga trazê-lo como uma das leituras estruturais e fundamentais para qualquer brasileiro.

Durante as suas pesquisas, quais foram os dados mais interessantes e talvez surpreendentes na vida e obra de Lima Barreto?

Como eu disse na primeira resposta, Lima Barreto já era um autor muito estudado, mas eu pude desenvolver aspectos interessantíssimos da vida de Lima Barreto, na minha opinião. Um deles é a vida do autor na infância, na Ilha do Governador. Eu estudei profundamente o que era essa ilha, o que eram as colônias de alienados, como a malária chegava por lá e como o Lima foi feliz naquele lugar. Eu estudei com bastante cuidado os subúrbios cariocas. Os subúrbios foram bem estudados, mas eu procurei fazer esse itinerário do Lima Barreto de Todos os Santos para o Centro, do Centro para Todos os Santos. Eu também tentei estudar com muito cuidado a Limana, a biblioteca de Lima Barreto. Os livros se perderam, infelizmente, mas nós temos a lista dos livros, e eu procurei recuperar as preferências de Lima e o quanto ele lia os russos, por exemplo. Talvez um dos capítulos que eu mais me orgulhe, é um capítulo que chamei de “Clara dos Anjos e as cores do Lima”, em que eu tento mostrar que fazer uma literatura negra e afrodescendente não é por origem. Na verdade, é por opção, ou seja, eu me refiro à forma como Lima Barreto descreve seus personagens, a cor da pele, a textura dos cabelos, a maneira como eles vivem, as religiões que eles professam. Então parece que o Lima faz uma literatura afrodescendente por opção, não por falta. Isso é muito importante para mim. E eu acho que é essa literatura que vem estourando agora nesse Brasil atual. Eu encontrei um Lima Barreto muito atual, na crítica ao racismo, ao feminicídio, à corrupção dos políticos, na crítica de uma literatura mais conveniente. Por muitos ângulos que a gente possa olhar, o Lima Barreto parece mais atual do que nunca.

O que mais influenciou para a mar­ginalização do autor na literatura?

São muitos os elementos que levam à marginalização de Lima Barreto. O primeiro foi uma automarginalização. Lima optou por fazer uma carreira à base do contra, ou seja, ele queria provocar, não se deixava estabilizar, isso era muito importante. Lima Barreto, por exemplo, escolheu sair como primeiro livro com o “Isaías Caminha”, e ele já tinha dois livros prontos. Nesse livro ele fez uma imensa crítica ao racismo vigente naquele país do pós-abolição, que evitava falar do passado da escravidão, que estava tão próximo, assim como fez uma crítica muito grande aos jornalistas, ao jornalismo como quarto poder. O que aconteceu então? O jornalismo fez uma espécie de veto a Lima Barreto. O autor em “Triste fim de Policarpo Quaresma” faz uma crítica muito grande ao Florianismo e aos militares, justo ele que trabalhava na Secretaria da Guerra como amanuense. Resultado, novo veto. Em “Numa e a Ninfa”, mais uma crítica severa e debochada aos políticos corruptos. O que ocorre? Mais um veto. Isso sem esquecer o que acontece quando o Lima é convidado para resenhar a nova revista dos modernistas paulistanos, a Klaxon. Ele resenha com aquele seu jeito debochado, brincalhão e crítico severo também. Lima Barreto não gosta da buzina da Klaxon, ele diz que isso é coisa de bovarismo, de gente urbanizada. E também debocha dos paulistanos, por conta do Marinette, dizendo que todos conheciam. O pessoal da Klaxon endereçaria uma resposta ardida mesmo ao Lima Barreto. Eu não sei dizer se o Lima Barreto leu ou não, porque ele morreu em novembro e essa resposta na revista Klaxon saiu em novembro. Mas, de toda maneira, se não foi esse o Modernismo que condenou o Lima Barreto, os modernistas já nos anos de 1930, anos que estavam mais assentados, eles transformam num conservador, numa espécie de pré-moderno. E eu te pergunto, o que é que é pré? Pré, na verdade, é o que não foi e o que também não será. Então Lima Barreto ficou num limbo, numa espécie de cesta com muitos autores que ele, inclusive, não gostava nada. Coelho Neto, por exemplo. Agora, em sua época também houve um veto a Lima justamente porque ele tratava de temas que a crítica não queria tratar, um deles era o racismo. Anos depois, também por conta desse arrojo de Lima Barreto nos temas que ele tratava, a crítica subsequente preferiu transformar o autor num sinônimo de sua biografia, como se ele fizesse livros de forma apressada. Lima, de fato, entregava artigos de forma apressada, mas agora a gente pode ver o quanto ele caprichava na sua escrita, na sua redação. Há de se ter sim livros melhores e piores como qualquer literato. Enfim, foram muitos os motivos que geraram esse esquecimento que, na minha opinião, vem finalmente causando muito barulho. Estamos saindo finalmente do silêncio e conseguindo ouvir os ruídos, o barulho que traz a literatura de Lima Barreto.

Márwio Câmara é escritor, jornalista e crítico literário. Autor de “Solidão e outras companhias” (Editora Oito e Meio).

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