“Conclave”, ou a Rebelião do Filho de Deus

HQ de Ademir Luiz é uma espécie marginal de romance de formação, e mais claramente um prenúncio de batalha. Está amarrado de forma a deixar a ação maior para depois das páginas, no fim dos dias

Escritor e historiador Ademiz Luiz. À direita, ilustração presente nos créditos da HQ “Conclave”

José M. Umbelino Filho
Especial para o Jornal Opção

A oportunidade de ler o romance gráfico “Con­clave – O Livro dos Últimos Dias”, do escritor Ademir Luiz e do artista Rafael Campos Rocha, surgiu num momento peculiar. Eu estava enrascado nas prévias da qualificação do doutorado e, ao mesmo tempo, um grande amigo me incumbira de ler os “Deuses Americanos”, de Neil Gail­man. Ele tinha gostado demais do li­vro, e esperava minhas considerações com a antecipação imperiosa dos entusiastas. Assim, quando conheci Ademir Luiz, na antessala da Se­cre­ta­ria Municipal de Cultura de Goiânia, numa manhã de burocracias e salamaleques, eu enfrentava duplo desafio íntimo: qualificar a maldita tese e, mais difícil, confessar àquele grande amigo que “Deuses Americanos” fora uma leitura bem mais ou menos.

Sob essa configuração de astros que ouvi pela primeira vez de “Conclave”. Ademir Luiz me disse se tratar de uma obra sobre deuses na terra, vivendo como homens e impondo suas vontades sobre eles. Ora, nas tais circunstâncias, eu logo a­talhei, ressabiado: “Como o “Deu­ses Americanos”, do Gail­man?”. Mas Ademir Luiz foi enfático: “Não, não tem nada a ver.” Para mim, parecia improvável não traçar comparações. As premissas batiam muito.

Fato é que ele estava certo. “Conclave” tem quase nenhuma relação com “Deuses Americanos”. Claro, ambos trabalham a ideia de deuses de carne e osso, e sugerem situações de convivência entre figuras de panteões mitológicos diversos, mas aí terminam as possíveis semelhanças. A coincidência de ter lido ambas obras num mesmo momento é, na verdade, o vínculo mais forte que poderia uni-las. No mais, diferem quase sempre e dispensam leituras comparativas.

A primeira coisa que me atraiu na HQ foi o nome: “Conclave”. Dessas palavrinhas sonoras, concisas e marcantes da nossa língua, cujo uso e significado parecem envoltos em segredos velhos, em círculos de iniciados, e cuja pronúncia martela por si só. Não sei se sou só eu, mas a palavra soa para mim como algo belicoso, apesar de não significar isso. Tem um quê de prenuncio de batalha, o que a deixa ainda mais condizente com a história.

Confesso que o traço de Rafael Campos Rocha a princípio me desagradou. Achei meio torto, com muita linha sobrando. Não tenho cultura de quadrinhos, o que talvez atrapalhe minha fruição do desenho em si. Não sei. Mas ele foi me conquistando aos poucos, principalmente no desenho das mulheres peladas e na figura de Sansão (gostei de como ele foi pensado e desenhado). Depois da segunda leitura, já estava afeiçoado ao estilo.

Já a história me agradou desde o começo. Temia encontrar uma crítica simplista à religiosidade (o blá blá blá comum de deus não existe, religião é mentira, a Igreja engana a todos etc.) e me deparei com uma reflexão mais refinada e bem menos parcial.

Capa do romance gráfico “Conclave”, de Ademir Luiz

Temos, portanto, um mundo em que certas pessoas, com certas qualidades excepcionais, conquistam a posição de divindades entre as massas e enraízam formas de domínio e poder. Uma pequena elite, digamos, que traça uma história paralela à história da humanidade, cuidadosamente subterrânea, mas dominante sobre ela. Difíceis de matar, mas também de reproduzir, poderiam ser a evolução da espécie humana ou, prefiro pensar assim, uma espécie anterior e às margens da extinção.

O que mais me atrai nessa premissa é a ideia de como os mitos, a religião, a narrativa simbólica do mundo, são construções destinadas a explicar excepcionalidades entre os homens. Na história “efetiva” do mundo, o processo muitas vezes é inverso ao retratado na obra: do homem real, o Buda ou o Cristo, as narrativas posteriores vão produzindo os heróis; de suas vidas normais, constroem os milagres e os feitos maravilhosos, e a cada nova versão da história, mais poder e mais excepcionalidade eles adquirem, até se tornarem figuras super-humanas. “Conclave” propõe uma realidade oposta: o poder super-humano existe antes das narrativas, e as dirige, as organiza e se beneficia delas, até transformá-las em narrativas cotidianas, comezinhas, normais.

Alguns detalhes se entrelaçam bem. Primeiro, o fato da personagem principal ser um estudante de arquitetura (um mal estudante), e muitas correntes religiosas brasileiras chamarem Deus de Arquiteto do Universo. Segundo, as referências a marcadores temporais bíblicos: os três dias para o renascimento e os quarenta dias no deserto. Terceiro, o frescor no retratar de figuras católicas. Gostei particularmente de Sansão. Sua introdução silenciosa, a imagem gorda, careca na testa e com pequenas trancinhas, de olhos mortos, e tatuagem em hebraico, me atraíram mais que Thor, o fauno ou as valquírias. Isso talvez se deva à saturação que temos, na cultura pop, de figuras dos panteões nórdicos e gregos e a relativa raridade de heróis bíblicos (fora os tradicionalíssimos anjos, demônios e filhos do pai). Uma briga de bar entre Sansão e Thor é, convenhamos, inédita na história dos arranca-rabos mitológicos. E de bônus vai um subtexto que discute temas como o antissemitismo e o nazismo.

E, finalmente, o desfecho surpreende pela complexidade. Ao invés de uma batalha, temos uma confissão. E, ao invés de um enfrentamento entre bem e mal, temos uma dúvida sobre quem, de fato, seria o mocinho da história. A rebelião do filho de Deus entendida como o fim dos dias, num paralelo com a figura do outro filho, o “Salvador”. Um vem para perdoar, o outro para culpar. Iago (ou Thiago, nome do suposto irmão de Jesus) também cresceu sob a ausência de seu pai. Também teve problemas para se aceitar como era. Mas, ao contrário do Jesus certinho dos evangelhos, Iago é um estudante inconsequente e irresponsável. Torna-se difícil definir se sua ira contra o Pai é resultado de revolta contra o domínio religioso, ou fruto de simples rancor.

Enfim, “Conclave” é uma espécie marginal de romance de formação, e mais claramente um prenúncio de batalha. Está amarrado de forma a deixar a ação maior para depois das páginas, no fim dos dias. A leitura foi sinceramente um prazer.

José M. Umbelino Filho é jornalista e escritor, vencedor do Prêmio Hugo de Carvalho Ramos de 2016, com o romance “O Descobrimento da África”.

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