Antonio Machado e Carlos Marzal traduzidos por João Filho

Dois poetas espanhóis de gerações diferentes, o já consagrado Antonio Machado (1875-1939), e um dos mais importantes representantes da lírica dos anos 1980 e 1990, Carlos Marzal (1961-), têm seus poemas traduzidos por João Filho, poeta baiano, autor de “Auto da Romaria” (Mondrongo, 2017)

Antonio Machado (1875-1939)

CXII
Páscoa da Ressurreição

Olhem: o arco da vida traça no ar
a íris sobre o campo que verdeja.
Busquem vossos amores, senhorinhas,
onde da pedra brota a água da fonte,
e onde a água sorri e soa e passa,
um romance de amor, ali, se conta.
E não verão, um dia, em vossos braços,
o sol da primavera, olhos atônitos,
pois que vieram à luz tão bem fechados
e que ao se despedirem da vida – cegam?
Não nutrirão um dia em vossos seios
os que amanhã hão de lavrar a terra?
Oh! Celebrem este domingo claro,
donzelinhas em flor, vossos ventres frescos!
Desfrutem o sorriso de vossa mãe rústica.
As cegonhas já moram em seus formosos ninhos,
e nas torres escrevem seus rabiscos brancos.
Como esmeraldas luzem os musgos dessas penhas.
Pastam, entre os carvalhos,
os touros negros a grama ainda baixa,
e o pastor, que apascenta seus carneiros,
deixa lá, na montanha, sua bata marrom.

CXII
Pascua de resurrección

Mirad: el arco de la vida traza
el iris sobre el campo que verdea.
Buscad vuestros amores, doncellitas,
donde brota la fuente de la piedra.
En donde el agua ríe y sueña y pasa,
allí el romance del amor se cuenta.
¿No han de mirar un día, en vuestros brazos,
atónitos, el sol de primavera,
ojos que vienen a la luz cerrados,
y que al partirse de la vida ciegan?
¿No beberán un día en vuestros senos
los que mañana labrarán la tierra?
¡Oh, celebrad este domingo claro,
madrecitas en flor, vuestras entrañas nuevas!.
Gozad esta sonrisa de vuestra ruda madre.
Ya sus hermosos nidos habitan las cigüeñas,
y escriben en las torres sus blancos garabatos.
Como esmeraldas lucen los musgos de las peñas.
Entre los robles muerden
los negros toros la menuda hierba,
y el pastor que apacienta los merinos
su pardo sayo en la montaña deja.

Carlos Marzal (1961)

O Combate pela luz
De tanto vermos a luz já perdemos
a justa proporção desse milagre,
que à matéria faculta seu volume,
contorno certo ao mundo desejado e
também limite aos pontos cardeais.
À força do costume, fomos dados crer
que cada dia é um merecimento,
que o dia se levante em claridade e
que se ofereça puro aos nossos olhos,
para que o olhar dê-lhe ordem própria,
distinta das demais, o convertendo
em nossa inadvertida obra de arte.
Há uma ingratidão consubstancial
ao fato de estar vivos, um intrínseco
poder de desmemória, nos impedem
brindarmos cada instante essa homenagem
que cada instante, sim,em verdade merece,
pela absoluta magia de estar sendo,
em vez de não ter sido em absoluto.
Com cada amanhecer tão duvidoso,
com cada tumultuoso amanhecer,
a luz arrasa o reino dessas noites
e empreende seu combate. No confuso
magma da escuridão, com cada aurora
triunfa a exatidão de quanto existe
por sobre a vocação das incertezas
que provoca o real com os seus nadas.
Em toda madrugada se refaz
um conjuro de origem, essa fórmula
que movimenta o dia primordial.
Na manhã pura, somos testemunhas
desse trono em que a luz alça o seu reino
o concedendo intacto a qualquer súdito.
Pois convém contemplar a luz com mais paciência
brindá-la com a atenção maravilhada,
com a humilde homenagem com que um bárbaro
descobre reverente na sua aventura
a terra que ninguém nunca avistou.

El combate por la luz
De tanto ver la luz hemos perdido
la recta proporción de ese milagro,
que otorga a la materia su volumen,
contorno fiel al mundo que queremos
y límite a los puntos cardinales.
A fuerza de costumbre, hemos dado en creer
que es un merecimiento, cada día,
que el día se levante en claridad
y que se ofrezca límpido a los ojos,
para que la mirada le entregue un orden propio,
distinto a los demás, y lo convierta
en nuestra inadvertida obra de arte.
Hay una ingratitud consustancial
al hecho de estar vivos, un intrínseco
poder de desmemoria, y nos impiden
brindar a cada instante el homenaje
que cada instante de verdad merece,
por su absoluta magia de estar siendo,
en vez de no haber sido en absoluto.
Con cada amanecer dubitativo,
con cada tumultuoso amanecer,
la luz arrasa el reino de la noche
y emprende su combate. En el confuso
magma de oscuridad, con cada aurora
triunfa la exactitud de cuanto existe
sobre la vocación de incertidumbre
que tienta con su nada a lo real.
En toda madrugada se renueva
un conjuro de origen, esa fórmula
que impuso el movimiento al primer día.
Somos testigos, en el alba pura,
del trono en que la luz alza su reino
y lo concede intacto a cualquier súbdito.
Conviene contemplar la luz con más paciencia,
brindarle una atención encandilada,
el sumiso homenaje con que un bárbaro
descubre reverente en su aventura
la tierra que jamás ha visto nadie.

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