Goiânia, 09 de fevereiro de 2010
De: 13 a 19 de Junho de 2004

  .:: Editorial
  .:: Conexão
  .:: Ponto de Partida
  .:: Bastidores
  .:: Reportagens
  .:: Entrevistas
  .:: Ideias
  .:: Economia
  .:: Dissonância
  .:: Licínio
  .:: Cartas
  .:: Laila
  .:: Imprensa
  .:: A Semana
  .:: Opção Cultural
  .:: Rural Business
  .:: Informática
  .:: Otávio Lage
(+) listar mais 
  .:: Edições Anteriores
  .:: Contato
  .:: Expediente

Clique aqui para imprimir Clique aqui para enviar essa matéria por e-mail
  Reportagens
- Retornar ao índice de Reportagens

ANÁLISE

A direita do Brasil procura um partido

A chegada do PT ao poder deu nova feição ao PL e transferiu a pecha de “fisiológico” do PFL para o PP — que tem um campo aberto à direita

Walder de Goés: ‘‘Campo da direita em aberto’’
Robinson Almeida: ‘‘O PL está no caminho certo’’

Em 1965, o Ato Institucional nº 2 extinguiu todos os partidos políticos, criando, em seu lugar, apenas duas legendas — Arena e MDB. Em 1985, 20 anos depois, com a abertura política, as legendas proliferaram livremente e, hoje, existem 25 partidos políticos no país. Entretanto, são poucas as legendas que têm alguma identidade ideológica, seja de esquerda ou de direita, ou que tenham raiz programática.

Excetuando-se alguns partidos que carregam uma bandeira junto à sigla (como o comunismo do PC do B, a social-democracia do PSDB e o socialismo do PT, pelo menos até chegar ao poder), a grande maioria dos partidos brasileiros não vai muito além de um agrupamento de políticos em torno de um interesse ou de um líder. É o caso do Partido dos Aposentados da Nação (PAN).

Mesmo quando a legenda é a extensão de algum partido de origem internacional, como o Partido Verde, em solo brasileiro é comum ao partido se descaracterizar. Em Goiânia, o PV tem como representante o vereador Elias Vaz, que, notoriamente, não tem uma atuação acentuada no âmbito do meio ambiente e, sim, do transporte alternativo.

De acordo com a bancada de deputados federais, os partidos brasileiros podem ser divididos em grandes, médios e nanicos. As legendas também estão sujeitas a outras caracterizações que se dão com base na atuação de seus representantes. Dividem-se entre fisiológicos e não-fisiológicos, adesistas e não-adesistas. Individualmente, os políticos também são passíveis de tais rótulos, e os governistas tendem a se reunir em siglas adesistas.

Reforma partidária — Com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, houve uma espécie de reconfiguração partidária no país, destacando-se dois partidos — o Partido Progressista (PP) e o Partido Liberal (PL). Estes dois partidos integram a base de sustentação do governo, o que fez com que crescessem muito, tornando-se partidos de grande porte. O PP, por exemplo, passou a ter a quarta bancada na Câmara dos Deputados, com 54 parlamentares. Já o PL passou dos 33 deputados eleitos pela legenda para 45 deputados federais.

Em Goiás, além do vice-governador Alcides Rodrigues, o PP tem quatro deputados federais e administra 39 cidades. É o segundo partido em número de prefeitos no Estado e trabalha com a possibilidade de Alcides Rodrigues assumir o governo nos últimos meses do mandato de Marconi Perillo e disputar a eleição para governador, com viabilidade de vitória.

O PP é o herdeiro mais direto das forças políticas que apoiaram o regime militar e, segundo o cientista político Robinson de Sá Almeida, não se caracterizava como um partido fisiológico, pecha que sempre recaiu sobre o PFL. “Deixando de lado os partidos pequenos que, por pragmatismo, precisam aderir para sobreviver, o PFL sempre foi acusado de ser fisiológico e não ideológico”, observa. Com a eleição de Lula, o PFL desmentiu essa pecha de governista e fisiológico e vem se mostrando capaz de uma ação mais oposicionista que o próprio PSDB, que disputou a presidência com Lula. “O que é um alento, porque mostra a modernização do partido”, avalia Almeida.

O PP, que era um partido mais consistente, na opinião do cientista político, “virou as costas para sua história e aderiu ao governo”. Na opinião de Robinson Almeida, houve uma inversão de papéis. O PP se intitula independente no Congresso, mas dos 54 deputados, cerca de 40 votam com a bancada governista, por terem cargos no governo. Os demais, inclusive o goiano Leonardo Vilela, votam de acordo com os interesses de seus respectivos Estados.

“O PP não se constituiu sobre uma base. Ao longo do tempo, tem se mantido no cenário político individualmente, por intermédio de políticos como o deputado federal Delfim Neto e o ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf. Nunca se afirmou como uma unidade”, explica o cientista político Walder de Goés. A investigação sobre o envolvimento do presidente do partido, Pedro Correia, na importação de produtos pirateados e as denúncias que pesam sobre o ex-prefeito Pedro Maluf podem levar o partido às mãos de um grupo de políticos não-fisiológicos, como é o caso do ex-ministro de Agricultura Pratini de Morais, de Esperidião e Ângela Amin e do deputado federal Francisco Turra.

Na opinião de Goés, o partido pode então vir a assumir uma outra característica. “Terá que buscar sua vocação social, mas com certeza terá uma agenda conservadora”, prevê. No Brasil, o campo denominado “direita” está aberto ao PP desde sempre, segundo o cientista político. Isso porque o PFL prefere se dizer de centro, não contabilizando os 25 por cento do eleitorado nacional que é conservador. “Em questões de segurança e agricultura esse percentual sobe para 40 por cento”, diz Goés.

É justamente o espaço do PFL que o PP pretende ocupar, segundo o deputado Leonardo Vilela. Ele defende que o partido passe a fazer oposição ao governo Lula para, em 2006, ter chances de eleger um senador e apresentar um candidato forte à Presidência da República. O partido, que não dispõe de nenhum nome de peso, convidou Tasso Jereissati e Marconi Perillo, ambos do PSDB, para disputar a Presidência da República pela legenda. Entretanto, o adesismo do PP não agrega força ao partido, apesar do crescimento da bancada, segundo Robinson Almeida. “O PP e o PTB, partidos que se tornaram mais vulneráveis à pecha de fisiológicos, tendem a se enfraquecer no cenário político”, avalia Almeida.

PL crítico — Já o PL vem num movimento contrário: assumiu uma postura de crítica ao governo Lula, manifestando-se, repetidamente, contra a política de juros adotada no país, a carga tributária e o superávit fiscal. Esse posicionamento só é possível porque o PL não capitulou depois das eleição. “O PL fez uma coligação visando a eleição, um movimento político transparente e embasado em um programa eleitoral”, explica Almeida. Na sua opinião, as manifestações de insatisfação dos líderes do PL ao governo são indicativos de que aliança entre os dois partidos não pode se caracterizar como adesismo ao PT.

Por trás desse comportamento mais independente está o projeto político e eleitoral do PL. No Brasil, as últimas eleições presidenciais têm se polarizado entre PT e PSDB. Nem mesmo o PFL conseguiu romper esse limite com a tentativa de candidatura de Roseane Sarney. O PL, com seus pronunciamentos contra o governo, que estão se cristalizando em bandeiras do partido, vem se destacando perante o eleitorado e se fortalecendo para a disputa de 2006. “O PL está dando os primeiros passos para se tornar um partido visível e viável eleitoralmente no campo nacional”, prevê Robinson Almeida.

Na opinião de Walder de Goés, o PL não tende a exprimir oposição a curto prazo. Faz movimentos de oposição, mas se mantém dentro da base de apoio do governo. “Ele pode saltar a qualquer hora, mas acredito que essa situação conflitiva vá durar um bom tempo.” Isso porque fazer parte do governo favorece a base do PL, que é a igreja evangélica. “O partido defende os interesses corporativos dos evangélicos, a isenção fiscal, a radiodifusão”, diz Walder de Goés. A recente expulsão do Bispo Rodrigues comprova essa interação entre partido e igreja. O bispo foi expulso do partido por motivos alheios ao Congresso.

Walder de Goés afirma que o PL não tem estofo político para disputar uma eleição presidencial. O deputado Sandro Mabel, que assumiu a liderança do PL na Câmara, diz que o PL não é partido evangélico e que busca uma bandeira, que não a educação proposta por Álvaro Vale, para assumir seu papel no cenário político. Para Robinson Almeida, o PL está no caminho certo. “É preciso equilibrar o pragmatismo com as bandeiras programáticas.”

- Retornar ao índice de Reportagens


© Copyright Jornal Opção. Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Opção.