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INTERCÂMBIO
UEG chega à África
Proposta da pesquisadora Adriana Rosa Carvalho foi contemplada em edital do CNPq para restabelecer o manejo comunitário no estuário do Rio Olifants, na África do Sul
A professora doutora Adriana Rosa Carvalho, da Unidade Universitária de Ciências Exatas e Tecnológicas da UEG de Anápolis, teve o projeto "Restabelecimento do sistema de monitoramento comunitário da pesca artesanal do Rio Olifants (África do Sul) para subsidiar a participação dos pescadores no processo de co-manejo da pesca do Harder (Liza richardsonii)" aprovado no edital CNPq nº 006/2007, dentro do Programa de Cooperação Temática em Matéria de Ciência e Tecnologia (ProÁfrica).
Segundo a pesquisadora, o objetivo da proposta é restabelecer o manejo comunitário que funcionou por dois anos e meio no estuário do Rio Olifants, na África do Sul, e propiciar decisões participativas e conjuntas entre pescadores artesanais e tomadores de decisão do governo sul-africano para evitar que a pesca seja arbitrariamente fechada e proibida naquele ambiente. Entre setembro de 2006 e julho deste ano, quando esteve na África do Sul para fazer pós-doutorado, a professora Adriana participou da avaliação dos dados e de duas reuniões entre pescadores e cientistas do governo sul-africano.
Monitoramento—A proposta da pesquisadora aprovada pelo CNPq dá continuidade ao processo de monitoramento comunitário estabelecido pela coordenadora estrangeira Merle Sowman e sua equipe no estuário do rio. Adriana explica que a atividade pesqueira no local é demandada por um grupo de aproximadamente 300 pescadores, que exploram uma espécie de peixe utilizado como isca para pesca recreativa. O peixe, chamado de "harder" na língua local (africâner), é da espécie Liza richardisonii e conhecido em inglês como "south african mullet". No entanto, a atividade tem sido sistematicamente restringida e o número de pescadores vem sendo reduzido pelo governo sul-africano, como medida de conservação de espécies de captura acidental. Por essa razão, de acordo com a professora, atualmente apenas 45 pescadores têm permissão para pescar na área e essa permissão é revista anualmente, causando um cenário de exclusão, desigualdade de acesso ao recurso e à informação, falta de participação no processo decisório, bem como incerteza profissional e econômica, com profundos impactos econômicos e na estrutura social dos pescadores.
A pesquisadora salienta que, como essas ações estão arraigadas no passado histórico de discriminação e decisões unilaterais autoritárias do país, foi criado um projeto de monitoramento comunitário da pesca no local para verificar se a atividade tem potencial de sobreexplorar os recursos pesqueiros (alvo e de captura incidental) e para viabilizar a realização de reuniões entre pescadores e o governo para discussão dos resultados, de ações e decisões que permitam a continuidade da pesca, com medidas que atenuem os impactos negativos da pesca acidental, caso eles ocorram.
O monitoramento foi realizado de julho de 2004 a dezembro de 2006. Durante o tempo em que participou da avaliação dos dados, a professora Adriana Rosa verificou que as informações coletadas têm confiabilidade. O projeto está interrompido desde dezembro de 2006 por falta de recursos que financiem as monitoras da comunidade na coleta dos dados de desembarque. Adriana ressalta que, com o restabelecimento do sistema de monitoramento, o trabalho será ampliado, aumentando o conjunto de dados coletados. "Esperamos conferir maior robustez às análises, para saber se o peixe é explorado de maneira sustentável", diz.
As coletas para a pesquisa serão de novo no estuário do Rio Olifants. "Como parte do trabalho é feita na frente do computador, estão previstas duas vindas das pesquisadoras sul-africanas para a UEG de Anápolis, para um período de análise dos dados e discussão dos resultados", salienta a professora. Nessa nova etapa serão incluídas novas variáveis, dentre as quais, segundo Adriana, a mais importante é o treinamento das monitoras para reconhecer a época de maturação de três espécies de peixes.
Adriana diz que, quando soube da aprovação pelo CNPq, a equipe sul-africana se animou, porque de novembro a fevereiro é pico da estação de pesca no país. As coletas serão retomadas, segundo a pesquisadora, quando o recurso for liberado. O projeto tem previsão de duração de um ano ou até quando as pesquisadoras tiverem condições financeiras para manter o monitoramento pesqueiro comunitário, já que as monitoras recebem um salário mensal para fazer o serviço de coleta das informações.
Reflexos—O trabalho da professora Adriana Rosa Carvalho é de grande importância para a UEG. Segundo a professora, a experiência que trouxe da África do Sul foi fundamental para que o projeto fosse aprovado pelo CNPq. Como parte da proposta, a Unidade Universitária de Ciências Exatas e Tecnológicas de Anápolis (UnUCET) receberá duas visitas de pesquisadores estrangeiros. “É um estímulo para os alunos, pois demonstra que, mesmo com pouca estrutura, é possível captar recursos externos e interagir profissionalmente com pesquisadores de outras instituições e países.”
A professora acredita que é possível fazer pesquisa em países de terceiro mundo, se forem perseguidos os passos e objetivos de organização de pesquisa do primeiro mundo.
“Essa parceria é o embrião para uma idéia maior, que vem sendo aventada há tempos: reproduzir em uma colônia de pescadores no Rio Parnaíba, na divisa de Goiás com Minas Gerais, a pesquisa que foi feita na África do Sul, e que agora será reiniciada.”Adriana Rosa revela que há outras pessoas no Brasil trabalhando com co-manejo.
Quem é Adriana Rosa Carvalho
Pós-doutorada em Co-manejo Pesqueiro pela Universidade de Cape Town (África do Sul), em 2007, na Unidade de Avaliação Ambiental (EEU), Departamento de Ciências Geográficas e Ambientais. Doutora em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais pela Universidade Estadual de Maringá/NUPELIA (2002). Mestre em Ciências da Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP), em 1995. E graduada em Ciências Biológicas pela Unesp de Rio Claro (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), em 1992. Atualmente é professora titular da Universidade Estadual de Goiás, campus de Anápolis. Compõe o quadro permanente de professores do Programa de Mestrado em Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Economia Ecológica, atuando principalmente nos seguintes temas: limnologia, cerrado, diversidade, co-manejo da pesca, socioeconomia pesqueira e valoração econômica.
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