Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:13)
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EDGAR MORIN
Da incerteza nasce a esperança

JOSÉ MARIA E SILVA

Ao longo de milênios, o homem viveu amalgamado ao seu meio. Inclusive nas primeiras civilizações da Antigüidade, onde esse meio deixou de ser a natureza para se constituir no Estado. É provável que, em todas as culturas, um e outro se reconhecesse como indivíduo em meio à massa quase indistinta de seres humanos, mas esse reconhecimento era logo sufocado pelo ambiente circundante, marcado pelas catástrofes naturais e pelo flagelo da guerras. É só entre os gregos e os judeus, isto é, na filosofia de um Sócrates e no evangelho de Cristo, que o indivíduo se firma como realidade social reconhecível e começa a fundar civilização. Paradoxalmente, na aurora do terceiro milênio, justamente quando é mais livre para cultivar sua individualidade, o homem vai se tornando escravo do individualismo. Levado ao extremo, esse individualismo fragmenta tanto a pessoa humana que ela corre o risco de fazer-se pó em vida antes mesmo de retornar a ele através da morte. De certo modo, o pensamento do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin é um antídoto contra a fragmentação do homem.

Um dos pensadores de maior prestígio na atualidade, com obras traduzidas em várias de línguas e discípulos espalhados em muitos países, Edgar Morin veio ao Brasil na semana passada proferir palestra no Universo do Conhecimento, Fórum Permanente de Cultura da Universidade São Marcos, em São Paulo. A conferência de Edgar Morin foi realizada no Sesc Pinheiros, na noite de segunda-feira, 10, Dia dos Direitos Humanos, com um auditório lotado, que o aplaudiu demoradamente. Antes, na noite de domingo, 9, Morin compareceu à inauguração da Unidade VII da Universidade São Marcos, nos Jardins, em São Paulo, num evento que contou com a presença do governador de São Paulo, José Serra; da primeira-dama e presidente do Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural, Mônica Serra; do cronista Arnaldo Jabor; do lama Padma Santem; do vice-presidente da Fundação Padre Anchieta, Fernando Almeida; do diretor regional do Sesc, Danilo Miranda; e de Júlio Moreno, diretor de jornalismo da TV Cultura.

Autor de mais de 30 livros, Edgar Morin nasceu em Paris em 8 de julho de 1921, filho único de um casal de judeus sefarditas. Seu pai, Vidal Nahum, sobre quem Morin escreveu o livro Vidal e os Seus, nasceu na cidade grega de Salônica, sob o Império Otomano, e naturalizou-se francês. Posteriormente, Edgar Nahoun (era esse seu nome de origem) adotou o sobrenome francês Morin. Como o próprio Morin conta em seus escritos autobiográficos, ele não era para ter nascido. Vítima da gripe espanhola de 1917, sua mãe, Luna Beressi, sofria de uma doença cardíaca que a impedia de ter filhos. Escondeu o fato do marido, fez um aborto, mas não conseguiu abortar Morin, que nasceu semimorto, estrangulado pelo cordão umbilical, já que a preocupação do médico era salvar a mãe. De fato, ela foi salva, junto com o filho (um duplo milagre, segundo Morin) e viveu mais dez anos, até 1931, período no qual devotava verdadeira adoração ao filho único que jamais esperava ter. “Assim, fui rechaçado antes de ser amado; assassinado antes de ser adorado. Devia morrer para que ela vivesse, ela devia morrer para que eu vivesse”, conta. A máxima de Heráclito — viver de morte, morrer de vida — tornou-se uma obsessão de sua obra, alimentando a complexidade em que ela se funda.

Em sua Ética, Volume 6 de O Método, sua obra mais ambiciosa, Morin demonstra que essa dualidade heraclitiana entre morte e vida, egocentrismo e altruísmo, marca profundamente o ser humano: “Nesse sentido, o sujeito carrega em si a morte do outro, mas, num sentido inverso, carrega o amor pelo outro”. A percepção da complexidade, que no romeno Emil Michel Cioran levou ao niilismo, em Morin leva ao otimismo. Observa ele em sua Ética: “A esperança não é ter certeza. Dizer que se tem esperança é afirmar que existem muitas razões para desesperar. (...) A esperança do possível é gerada sobre o impossível”. Para Morin, o sentido da ética é o de “resistência à crueldade do mundo e à barbárie humana”. É apostar no que ele chama de “forças fracas da religação”, como a cooperação, a compreensão, a comunidade, o amor, que devem ser apoiadas pela inteligência para que não prevaleçam as forças da crueldade.

Segundo ele, são essas forças frágeis que tornam a vida aceitável e a morte desejável. “São sempre as mais fracas, mas, graças a elas, existem momentos na vida dignos, famílias que amam, amizades calorosas, entrega, caridade, compaixão, consolo, amores, impulsos de coração”. Esse discurso aparentemente religioso é fundado também na ciência, mais propriamente na moderna cosmologia, em que Morin busca no universo as “forças de separação”, que levam à destruição das estrelas, e as “forças de religação”, que levam à criação da vida a partir da poeira cósmica da estrela morta.

Edgar Morin é, de certo modo, um pensador quase inclassificável, dada a pluralidade de seus interesses epistemológicos e a profusão de temas que saltam de sua obra. Pesquisador emérito do CNRS (Centro Nacional da Pesquisa Científica), da França, Morin é formado em história, geografia e direito, mas encanta numerosos discípulos como filósofo e sociólogo. Do poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939), Edgar Morin se vale dos seguintes versos para caracterizar seu método de trabalho: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. Por sinal, os mesmos versos que o execrado filósofo brasileiro Olavo de Carvalho — que a princípio nada tem a ver com Morin — também toma como sua profissão de fé.

Essa lembrança, que pode parecer espúria aos discípulos de Morin, é fiel, de certo modo, ao método do próprio mestre francês. Apesar de sua enorme influência em universidades de vários países, Morin se considera, originariamente, um autodidata. Em sua Autobibliografia, Morin lembra que a palavra método, na origem, significa o próprio caminhar. O método não está no princípio da investigação, mas no seu término. Sua ‘ascensão’ à esfera da alta filosofia, por exemplo, não nasceu de uma premeditada e hierarquizada educação de berço, como a que recebeu o filósofo John Stuart Mill de seu pai, o também filósofo James Stuart Mill; antes, foi decorrência de uma onívora curiosidade que o levou a devorar novelas, filmes e canções populares, até levá-lo aos grandes mestres da literatura, da filosofia e da ciência. Confessa Morin em sua Autobibliografia: “Não sinto esse desdém cultural dos intelectuais nascidos nas classes altas da sociedade e que jamais passearam pelos grandes bulevares populares; seguem parecendo-me atrativas as cançonetas, as novelas não reconhecidas como literárias, as películas que não são de filmoteca e, hoje, as séries televisivas”. E conta: “Quando, por volta de 1960, declarei que gostava de western, em Florença, ante um areópago de intelectuais de esquerda, Lucien Goldmann, indignado, correu à tribuna para explicar que o western era a pior das mistificações capitalistas, destinada a adormecer a consciência revolucionária da classe operária, e logrou com aquelas lúcidas palavras uma tempestade de aplausos”.

No livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, obra que escreveu em 1999 a pedido da Unesco, Morin resume a sua concepção de indivíduo, jamais dissociada do circuito que o liga à sociedade e à espécie: “Não se pode tornar o indivíduo absoluto e fazer dele o fim supremo desse circuito; tampouco se pode fazê-lo com a sociedade ou a espécie. No nível antropológico, a sociedade vive para o indivíduo, o qual vive para a sociedade; a sociedade e o indivíduo vivem para a espécie, que vive para o indivíduo e para a sociedade. Cada um desses termos é ao mesmo tempo meio e fim: é a cultura e a sociedade que garantem a realização dos indivíduos, e são as interações entre indivíduos que permitem a perpetuação da cultura e a auto-organização da sociedade”. Daí, conclui: “A complexidade humana não poderia ser compreendida dissociada dos elementos que a constituem: todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana”.

Talvez por isso Edgar Morin seja quase um pensador-símbolo do Universo do Conhecimento, o Fórum Permanente de Cultura criado pela Universidade São Marcos, fundada em 1970 pelo professor Ernani Bicudo de Paula, seu reitor, que também esteve presente na palestra de Edgar Morin, juntamente com a chanceler da São Marcos, Luciene Miranda de Paula, e o diretor executivo da instituição, Ernani José de Paula. O pensamento complexo, que se compraz na simplicidade da fala, é a marca do fórum.

Centro de referência e cultura

A nova unidade da Universidade São Marcos, nos Jardins, em São Paulo, procura conciliar as três dimensões da educação superior — ensino, pesquisa e extensão, com ênfase na pesquisa e na extensão. A Unidade VII da São Marcos terá salas de aulas e orientação, biblioteca com acesso à Internet, sala de leitura e multimídia, laboratórios de pesquisas, auditório para defesa de dissertações, cafeteria e livraria.

Segundo a chanceler da universidade, Luciane Miranda de Paula, o objetivo da unidade é inscrever-se no coração de São Paulo como um ponto de referência em educação e cultura. A unidade está situada na Alameda Ministro Rocha de Azevedo, nº 413/419, nos Jardins, próximo às estações do metrô da Avenida Paulista, facilitando o acesso à comunidade. A Unidade VII vai abrigar as atividades do Mestrado em Psicologia e do Mestrado Interdisciplinar em Educação, Administração e Comunicação. Além disso, vai oferecer cursos Lato Sensu da São Marcos Master School — aperfeiçoamento, especialização e MBAs.

A unidade vai abrigar também o Instituto de Cidadania Global, responsável pela realização do Fórum Permanente de Cultura Universo do Conhecimento. Já estão programados para a unidade vários cursos de extensão nas áreas de cultura contemporânea e humanidades.

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