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MARCELO GLEISER
Perdido no espaço
Astrofísicos ateus existem aos montes. Agora, astrofísicos ateus, porém jovens, galãs, engajados, com sotaque carioca carregado e o doce discurso da tolerância à diversidade na ponta da língua, isto é um sonho da mídia
“Eu sei que da verdade não sou dono, / eu sei que não sei tudo sobre Deus. / Às vezes, quem duvida e faz perguntas / é muito mais honesto do que eu.”
Padre Zezinho
ADEMIR LUIZ - Especial para o Jornal Opção
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Marcelo Gleiser: Físico ou astro?
| No quadro Tirando a Poeira das Estrelas, sátira a Poeira das Estrelas, série do Fantástico, os humoristas do Casseta & Planeta Urgente entregaram que o astrofísico brasileiro Marcelo Gleiser, professor de física teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), aceitou apresentar o programa de divulgação científica, veiculado pela Rede Globo, porque “cansou de ser físico e decidiu ser astro”. Além de hilária, essa piada pode conter o único fiapo de explicação possível para o artigo “Ateísmo radical”, que Gleiser publicou na edição de 26 de novembro de 2006, na Folha de S. Paulo. Nesse texto, estranhamente, o físico astro ataca, de forma gratuita, três respeitabilíssimas personalidades do mundo científico: Sam Harris, Daniel Dennett e Richard Dawkins.
Usa como mote a publicação recente dos livros O Fim da Fé, de Harris, Quebrando o Feitiço, de Dennett, e A Desilusão de Deus, de Dawkins. Todas as obras propõem debates pragmáticos acerca da dicotomia entre fé e razão. Gleiser entendeu que o objetivo dos trabalhos é outro: recriar “uma polarização destrutiva”. Reage categórico: “A ciência não deve se propor a tirar Deus das pessoas. Se é essa a sua guerra, então ela já perdeu”. A principal vítima de sua ira é o zoólogo britânico Richard Dawkins, autor dos best-sellers O Gene Egoísta e O Relojoeiro Cego, a quem acusa de acreditar que “a ciência é um clube fechado, onde só entram aqueles que seguem os preceitos do seu ateísmo, tão radical e intolerante quanto qualquer extremismo religioso”. Indignado, Gleiser pergunta: “Será esse o modo de resolver o embate entre ciência e religião?”.
Não é preciso ser vencedor do Nobel em Física para perceber que Gleiser está dançando em terreno minado. Não quanto à sua defesa da religião. Cada um abraça as causas que achar que deve. Seu equívoco está em atacar o discurso científico de Dawkins usando batidos argumentos teológicos. Ora, a ciência é evolutiva por definição. Suas verdades são provisórias. Nada têm de intolerantes ou radicais. Einstein demonstrou que o modelo de universo de Newton não era exato. Hubble fez o mesmo com Einstein. Não houve guerras santas por conta disso. Apenas se somou conhecimento. Com dogmas religiosos acontece o contrário. Sustentados por elucubrações teológicas, não admitem contestação. Gleiser acusa Dawkins de não se dirigir a religiosos, que já possuem a mentalidade moldada pela teologia específica de seu credo, mas a indecisos, com o objetivo maquiavélico de levá-los ao ateísmo: leia-se levá-los ao “mau”.
Acusação absolutamente falaciosa. Na verdade, Dawkins dirige seus argumentos a quem quiser ouvir. Afinal, é um divulgador científico. Pressupõe-se que o público almejado pelo divulgador científico é formado por todos aqueles que não são cientistas profissionais, em seu respectivo campo de pesquisa. Ou seja: quase todo mundo. Entrevistado pela revista Veja, em junho de 2005, Dawkins afirmou: “Eu jamais proporia qualquer forma de proibição à atividade religiosa. A resposta está na atividade à qual me dedico: a educação. Quanto mais educação houver, mais teremos discussões racionais e pensamento inteligente, e mais difícil será para a religião sobreviver”. Que ninguém duvide que a grande maioria dos ateus teve formação religiosa. Se mudaram de opinião, não foi devido a uma conspiração ateísta, e, sim, pela racionalização que fizeram dos elementos constitutivos de sua fé. A ciência não é um clube fechado. É apenas um clube com regras. Nesse caso, Gleiser parece querer seguir a lógica de Groucho Marx: “Não quero entrar para um clube que me aceita como sócio”.
O grande perigo que Gleiser corre é o de desautorizar a si mesmo em sua tentativa de desautorizar seus colegas cientistas. Ele acusa Dawkins de “negar a necessidade que a maioria das pessoas tem de associar uma dimensão espiritual às suas vidas”. Imagino se ele seria tão compreensivo se um de seus alunos norte-americanos, país onde o criacionismo é forte, em uma avaliação sobre o Big Bang, relacionasse a explosão que espalhou matéria pelo universo com a imagem de uma divindade humanóide e barbuda gritando Fiat Lux no vácuo. Ele seria “intolerante” como Dawkins e presentearia o carola com um zero, tachando-o de “cientista incompetente”, ou aceitaria que o estudante é apenas mais um que se “entrega à natureza e aos seus mistérios”?
Mas outra pergunta é mais importante: o que justifica uma atitude tão anticientífica vinda de um homem sério e competente como Marcelo Gleiser? Não sei, mas imagino que seja um efeito colateral da fama repentina proporcionada pela séria Poeira das Estrelas. Um “físico” tem apenas responsabilidades acadêmicas, já um “astro” precisa agradar sua platéia. Em nosso mundo pós-moderno, multicultural, ser um racionalista pragmático é politicamente incorreto. Não há nada mais em moda do que o discurso da tolerância. E, atualmente, nenhuma maioria se sente mais minoria do que a dos religiosos. Os crédulos são confrontados diariamente com evidências científicas que jogam por terra séculos e séculos de verdades místicas. Para eles, a única defesa possível é a negação. Acusar a ciência de arrogante, de fanática, de fria, de desumana. Ser cientificista tornou-se sinônimo de bitolado. Virou xingamento.
Se Gleiser decidiu atrelar-se a essa tendência, custo quer que tenha sido por convicção. Ágil por inércia. Afinal, Gleiser é um “corpo” posto em movimento. Tende a permanecer em movimento, não em linha reta, mas na trajetória que impor menor resistência. Astrofísicos ateus existem aos montes. Agora, astrofísicos ateus, porém jovens, galãs, engajados, com sotaque carioca carregado e o doce discurso da tolerância à diversidade na ponta da língua, isto é um sonho da mídia. É fantástico.
ADEMIR LUIZ é professor da UEG e doutorando em história pela UFG. Correio eletrônico: ademir.hist@bol.com.br
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