RESULTADO DAS URNAS
O PT foi o maior derrotado
Com a vitória de Iris Rezende na capital, o PMDB volta a polarizar com o PSDB
Andréia Bahia
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Wilson Ferreira da Cunha: “A vitória de Iris Rezende representa uma mudança significativa no cenário regional”
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Robinson de Sá Almeida : “A vitória de Iris Rezende isolada não tem peso na correlação de forças”
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Concluído o processo eleitoral, chega o momento de avaliar o impacto do resultado das urnas na correlação das forças políticas do Estado. Para o cientista político e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFG, Robinson de Sá Almeida, a vitória de Iris Rezende (PMDB) em Goiânia e a de Pedro Sahium (PSB) em Anápolis impuseram ao governador Marconi Perillo derrotas nos dois dos maiores colégios eleitorais de Goiás. “Em Anápolis, o governador apoiou o candidato de um partido que não fazia parte da base aliada e se deu mal. Há quem tenha percebido, em Anápolis, que Pedro Sahium (PSB) começou a subir nas pesquisas depois que o governador passou a estar mais presente na campanha de Rubens Otoni (PT)”, comenta Almeida. Por outro lado, o PSDB e os partidos aliados conquistaram prefeituras importantes no interior do Estado. Na avaliação do cientista político, ocorreu com o PSDB e partidos aliados em Goiás o mesmo que se deu com o PT no plano nacional, que cresceu e se interiorizou nessa eleição, porém perdeu a eleição em São Paulo e Porto Alegre, capitais que têm um significado simbólico para o partido. “O governador Marconi Perillo também perdeu em cidades significativas”, compara Almeida. Resultados que, entretanto, não refletem o alto nível de aceitação de Marconi Perillo pela população nem um déficit político que possa vir a se expressar em 2006. “São conseqüências de ingerências malsucedidas do governador nesse pleito.” O professor cita o exemplo da candidatura de Sandes Júnior (PP) em Goiânia. “Marconi Perillo não conseguiu transferir seu prestígio para Sandes Júnior, um candidato sabidamente fraco.”
Já a vitória de Iris Rezende em Goiânia, na opinião de Almeida, precisa ser relativizada. “Foi uma vitória importante, mas é preciso aguardar para ver em que medida ela vai se espalhar pelo Estado.” Segundo o professor, a vitória de Iris Rezende isolada não tem um peso significativo na correlação de forças que começa a se construir a partir do resultado da eleição municipal. Na sua opinião, o novo cenário político do Estado vai depender muito mais da habilidade de Marconi Perillo em rearticular sua base de apoio e seu próprio partido. “Será que não vai haver alguma revanche do grupo de tucanos que apoiava Barbosa Neto?”, questiona o professor. “Afinal, Nion Albernaz declarou voto a Iris Rezende, contrariando a orientação do partido.”
Eleições casadas — Já o PT, que perdeu em Goiânia e em Anápolis no segundo turno, é o grande derrotado dessas eleições, segundo Almeida. “Perdeu mais que o PLF, que pode vir, no futuro, a se recompor com Marconi Perillo.” Na opinião de Almeida, mesmo se o PT ganhasse as eleições em Anápolis e Goiânia, o partido sairia derrotado politicamente, pois ficaria totalmente dependente do governador nas duas cidades. “Inclusive nas câmara municipais, onde a base aliada fez a maioria do parlamentares .”
Segundo o professor da UFG, a vitória de Iris Rezende na capital provocou a reedição da polarização PMDB e PSDB nas pessoas de Iris Rezende e Marconi Perillo. “O PT, que já não se apresentava como uma terceira força nas eleições estaduais, com as recentes derrotas, se mostra ainda mais fraco para confrontar seja Iris Rezende ou Marconi Perillo em 2006”, prevê Almeida. A não ser que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se disponha a ser o candidato a governador do PT, “o que mudaria o cacife dos petistas em Goiás”, acrescenta.
Mas há que se levar em consideração que a eleição estadual de 2006 será casada com a presidencial, o que leva a crer que as alianças firmadas no âmbito nacional devem influenciar as coligações regionais. “É temerário arriscar previsão para 2006. O que podemos afirmar é que as alianças em Goiás serão o produto da articulação dos planos regional e nacional.” Estas articulações não estarão limitadas ao campo político Sofrerão influência especialmente do aspecto econômico do governo federal. “A atratividade ou rejeição do candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva serão diretamente afetadas pela situação econômica do país no momento da eleição.”
Regionalmente, as alianças vão depender da competência dos dois líderes, Marconi Perillo e Iris Rezende, em articular e fazer valer essas articulações. Apesar de a Prefeitura de Goiânia não ter o impacto do governo estadual, a presença do PMDB na administração da capital vai alterar o comportamento de alguns prefeitos.
As eleições municipais deixaram algumas lições para que políticos e analistas se debrucem a fim de entender melhor o processo político em Goiás. A primeira diz respeito à ascendência da periferia sobre o centro. O resultado das urnas mostra que a periferia ignorou os formadores de opinião, que, na sua maioria, apoiavam Pedro Wilson, e fez a diferença a favor de Iris Rezende, contrariando a tese que sempre prevaleceu no meio político de que o voto dos formadores de opinião e da classe média são decisivos em qualquer eleição.
Na opinião de Almeida, não se pode simplificar o voto em Iris Rezende afirmando que em foi eleito pela periferia, visto que o peemedebista recebeu votos de todos os segmentos. Além disso, não existem pesquisas acadêmicas que desenhem o comportamento do eleitorado goiano, o que torna impossível fazer uma análise do eleitorado da capital. Mas, se comprovado que foram os votos das classes que residem na periferia que deram a vitória a Iris Rezende, essa será a primeira lição a se tirar da vitória do peemedebista, na opinião de Almeida.
“Ademais, os analistas políticos terão de se aprofundar mais em suas avaliações para não incorrer, no futuro, nos mesmos erros cometidos a respeito do potencial eleitoral de Iris Rezende.” Almeida, que não é adepto do princípio que compara a política a uma caixinha de surpresas, afirma que as primeiras análises sobre a candidatura de Iris Rezende se equivocaram ao ignorar o capital eleitoral do candidato peemedebista. “Foram precipitadas e apaixonadas.” Segundo o professor, as duas derrotas de Iris Rezende, em 1998 e 2002, se deram por um pequena margem de votos, o que significa que não foram derrotas definitivas. “Iris tinha um capital eleitoral significativo que não deveria ter sido desprezado.”
A eleição municipal demonstrou também que não há transferência automática de votos. “Felizmente”, acrescenta Almeida. Para ganhar eleição, o próprio candidato tem de ser bom de voto. Para as lideranças políticas, o resultado das urnas mostrou que o principal líder tem de conduzir as forças que o apóiam no lançamento de candidaturas. “O processo que resultou na escolha de Sandes Júnior para representar a base aliada acirrou a divisão entre os partidos que dão sustentação ao governo estadual e, conseqüentemente, enfraqueceu o governador.”
Para Wilson Ferreira da Cunha, professor de ciências políticas da UCG, com a vitória na capital, o PMDB volta a ter presença forte na política goiana, visto que Goiânia representa 30 por cento do eleitorado do Estado. “A vitória de Iris Rezende representa uma mudança significativa no cenário regional, com possíveis reflexos em 2006.” Não de polarização, como prevê o professor Robinson de Sá Almeida, mas de conciliação. Na opinião de Cunha, identificado o inimigo comum, que é o PT, a tendência é o PSDB, o PFL e o PMDB, no âmbito nacional, se alinharem em 2006. “E esse alinhamento pode vir a influenciar muito em Goiás.”
Também na avaliação de Cunha, o governador saiu derrotado da eleição municipal devido aos resultados em Anápolis e Goiânia. Já a base aliada saiu fortalecida no Estado. Porém, quem mais perdeu nesse pleito foi o PT, na avaliação do professor. “Foi derrotado porque perdeu sua identidade. Pedro Wilson foi a reboque nas propostas de Iris Rezende, que foi quem pautou todo o debate sobre a cidade.”
Segundo Cunha, não só em Goiânia, mas em todo o país, os partidos que não têm identidade própria saíram derrotados das urnas. A vitória de Iris Rezende mostrou também que o eleitor gosta da alternância de poder. “A permanência de um mesmo grupo no poder foi ruim para o PMDB e é ruim para todo mundo. A alternância é benéfica e democrática.”