Goiânia, 09 de setembro de 2010 (17:29)
De: 30 de maio a 05 de junho de 2004

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  Ponto de Partida
SUCESSÃO MUNICIPAL
 

Rogério Lucas

Cautela e canja de galinha

Lula já foi o grande eleitor, deixou de ser, e talvez volte a ter influência. Não se pode ver a eleição de amanhã olhando com os olhos só de hoje

A candidatura de Iris pode funcionar como um jato propulsor da oposição, mas também como um catalisador da base aliada do governador
Veja como são as coisas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega da China muito melhor do que foi. Os juros não baixaram, é verdade, nem o dólar. A gasolina e o álcool custam mais caro na ponta, no consumidor.

Mas se o espetáculo do crescimento não chegou em sua plenitude, pelo menos o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) saiu da toca. Foi de 1,6 por cento, em relação à última quadra de 2003. Mas cresceu.

Alvíssaras, no país pós-Waldomiro.

Além disto, o presidente Lula saiu da China acompanhado de centenas de empresários felizes, porque fecharam negócios ou enxergaram bem um mercado de mais de 1 bilhão de consumidores. Depois da frustração do Carnaval petista deste ano, esta talvez seja a primeira recuperação na imagem de Lula e do PT, quase que igualmente desgastadas. E digo tudo isto a propósito de nada, a não ser que o (e)leitor pense comigo o quanto eleições são assunto para se tratar de forma delicada...

Basta lembrar como, na seqüência da vitória de Lula, em 2002, qualquer um apostaria em seus candidatos a prefeito nas eleições municipais. Marta Suplicy, em São Paulo, e seu colega goiano, Pedro Wilson, entravam naquela lista gravada a nanquim no papel vegetal, de candidatos reeleitos pela propulsão “vermelha” do PT. Lula hoje não é mesmo, Marta aparece abaixo de Maluf e Serra nas pesquisas, e Pedro Wilson também disputando o segundo ou terceiro lugar.

Bem. Mas Lula foi e voltou da China. E neste interregno, o deputado Ronaldo Caiado impôs sua tese de candidato próprio do PFL em Goiânia. Iris Rezende tergiversou sobre sua candidatura, acabando meio candidato. E os postulantes ao apoio do governador Marconi Perillo continuaram no duro ofício de se apresentarem com chances de vencer eleição.

Numa análise despojada, sem preconceitos, o que isto significa? Que eleições são um quadro do céu, pintado à Dorian Gray. Você olha — não para o quadro, mas para as eleições — e está de um jeito, você olha de novo, está de outro. Por mais sutis que sejam as diferenças. E por mais que o quadro real tenha mudado.

Se as convenções eleitorais fossem hoje, haveria pouco espaço para a dúvida. Além de Pedro Wilson, já lançado, haveria Rachel Azeredo como candidatos de um lado. Do outro estaria assegurado o deputado Sandes Júnior. Com uma chance para outra candidatura, de Barbosa Neto ou de Jovair Arantes, na base aliada do governador. Diga-se, com muito mais chance para Barbosa Neto.

Neste quadro, Sandes iria para o enfrentamento direto com Rachel. Barbosa, da mesma forma, com Pedro. E a chance de pelo menos um dos candidatos da base aliada não ir para o segundo turno seria mínima. Ou Pedro, ou Rachel ficaria de fora, com possibilidade até de serem os dois. Um segundo turno entre aliados da base do governador Marconi Perillo não seria fora de propósito.

Se as eleições fossem hoje, a outra possibilidade seria a do PMDB não se aliar a outro partido — que tanto pode ser o PT, quanto o PFL — e lançar candidato próprio. O candidato de hoje seria o ex-governador Iris Rezende. A candidatura de Iris funcionaria como um jato propulsor da oposição, mas também como um catalisador da base aliada do governador.

Como um convite a que o bom senso não corresse o risco de, por uma divisão interna, entregar o segundo turno a dois adversários: seja Iris e Pedro, seja Rachel e Iris, ou Pedro. Mas adversários, mais ou menos como em 2000, quando o candidato do governador — a candidata, Lúcia Vânia, desculpem — ficou fora.

Isto é, se a decisão sobre as eleições fosse hoje, com a candidatura de Iris os candidatos da base aliada estariam obrigados a conversar mais, para chegar a um candidato único. Hoje, ninguém duvida que o candidato, neste caso, seja Sandes Júnior, líder em popularidade. Adversário direto de Rachel, e em última análise, do populismo de Iris Rezende.

Mas eleições, definitivamente, são como nuvens. O presidente Lula foi à China murcho, voltou inflado. O suficiente para melhorar as chances de Pedro Wilson em Goiânia? Provavelmente, não. Tanto que as conversas sobre a aliança PT/PSDB continuam geladas. Se as convenções fossem hoje, talvez fosse diferente. Mas não são.

Nem são hoje as convenções, que ainda podem ocorrer até 30 de junho, nem muito menos as eleições, que tem o longo prazo de 90 dias, com 45 de massificação no horário obrigatório de rádio e televisão, para se efetivarem. Entre uma coisa e outra, o melhor a pensar é que uma eleição dificilmente é igual outra.

Collor se parece ao Marconi de 1998, como um candidato que surgiu do nada e se elegeu. FHC com sua pregação de continuidade do Plano Real se parecia muito menos com o Marconi de 2002, propondo a continuidade de uma revolução de costumes. O Nion Albernaz que se manteve estável nas pesquisas em 1996 não se assemelha em campanha ao Pedro Wilson de 2000, que foi crescendo de forma lenta, gradual e segura. Os dois ganharam, um saindo muito a frente, outro muito atrás. Campanha eleitoral tem de tudo.

Por isso é que não é bom olhar as eleições lá da frente com os olhos de agora. Eles sempre desvirtuam os fatos pela falta de visão do que pode acontecer. Melhor a cautela dos políticos, que apalpam bem o escuro onde não enxergam, antes de se arriscarem um passo nas trevas.

Isto explica porque, com a mesma razão, pessoas saem de conversas com o ex-senador Iris Rezende afirmando com igual certeza, que Iris é, ou não é, candidato. E outros afirmam, também apostando os olhos da cara, que ouviram do governador Marconi Perillo uma posição definitiva sobre o quadro sucessório nas principais cidades goianas. Em alguma medida, todos estão exercendo sua capacidade de enxergar o futuro.

Mas o futuro, dizem os mais comedidos, só a Deus pertence. Mas isto exclui os incautos, que também contam numa eleição. Melhor, então, esperar.



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