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Danin Júnior
Poder é equilíbrio
O que disse Maquiavel sobre o imperador que tentou implantar um ajuste fiscal em Roma e acabou morto pela espada dos próprios companheiros
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O ator irlandês Richard Harris, como Marco Aurélio: ele soube agradar o povo sem revoltar o exército e teve destino diferente de Pertinax, que foi sangrado no palácio
| Nicolau Maquiavel, fundador da ciência política, foi um gênio universal menos pelos “insights” (momentos iluminados) que teve do que pela persistência com que se agarrou a uma convicção que, hoje, pode ser entendida como banal: ele acreditava piamente que a história deve servir de lição e é (no caso de seu tema predileto) fundamental para a conquista e a manutenção do poder. Na virada do ano 1500, Maquiavel foi também um dos primeiros e melhores exemplos de servidor público que ascende na carreira pelos próprios méritos — sua família era empobrecida e sua indicação, aos 29 anos, para um dos principais cargos da chancelaria de Florença foi feita, provavelmente, por um de seus professores na universidade pública da cidade.
Uma conjuntura política complexa (as cidades italianas desunidas e a Europa em convulsão) o fez cair em desgraça, 13 anos depois. Foi a partir desse período que Maquiavel escreveu suas principais obras, inclusive “O Príncipe” — produzida quase exclusivamente com o objetivo de retomar seu antigo emprego (quem quer algo mais romântico prefere pensar que o livro basilar da ciência política mirava a unificação da Itália). Maquiavel era apaixonado pela antiguidade, especialmente o Império Romano. Suas principais impressões sobre sucesso e falibilidade dos governantes foram retiradas de exemplos latinos mais impressionantes. O capítulo 19, do “Príncipe”, é quase inteiramente dedicado à biografia de dez imperadores de um dos períodos mais críticos de Roma.
Maquiavel entrou nessa longa descrição histórica para justificar sua tese de que o líder político deve evitar o ódio e o desprezo das massas — terreno fértil para conspirações. Ele faz um relato entusiasmado sobre Marco Aurélio, um caso de déspota esclarecido, que ficou conhecido como o imperador filósofo. Hollywood fez um filme tecnicamente grandioso, “Gladiador” (dirigido por Ridley Scott), no qual a morte de Marco Aurélio é o estopim da trama. A ascensão de Cômodo, filho natural do imperador, de fato, provocou a ruína da “pax romana”. Até aí, o filme foi fiel à história. O resto é ficção. Para Maquiavel, os sucessores de Marco Aurélio falharam, dando fim à Era de Ouro do império, por não conseguirem agradar, ao mesmo tempo, as duas principais forças de Roma: o povo e os soldados.
Um desses governantes foi Pertinax, sucessor imediato de Cômodo e, certamente, um dos exemplos mais interessantes (e fatais) sobre a volatilidade do poder e os riscos para quem desagrada o próprio exército. Pertinax tinha origem humilde e grande talento como administrador. Fez fama em Roma como disciplinador de legiões em várias campanhas que liderou. Quando Cômodo foi assassinado, era prefeito pretoriano (administrava a Guarda Pretoriana, responsável pela segurança pessoal dos imperadores). Os soldados imediatamente o ajudaram a assumir o comando do império, com a promessa de que receberiam um donativo generoso — recompensa por conquista militar. Só que Pertinax decidiu ignorar o acordo tácito que tinha com seus aliados pretorianos.
Preocupado com as contas de Roma, empreendeu uma série de medidas restritivas — fazendo aquilo que hoje se chama de ajuste fiscal, com o Estado gastando apenas o que arrecada. Precisou enrolar os soldados o quanto pôde. Houve uma primeira revolta logo nos primeiros dias. Contudo, Pertinax conseguiu contorná-la com a promessa de que o donativo seria pago logo que conseguisse vender as propriedades de Cômodo — incluindo escravos e concubinas. Os soldados foram para casa, mas não por muito tempo, pois apenas metade do donativo foi pago. No 86° dia como imperador, Pertinax foi trespassado pelas espadas dos guardas pretorianos (seus aliados) porque não cumpriu a promessa de dividir o poder com eles. Na sequência, algo bizarro, os amotinados fizeram um leilão do trono, vencido por Dídio Juliano, que ofereceu o maior donativo aos soldados.
As lições de Maquiavel continuam atuais, pois suas proposições se baseiam em algo pouco mutável: a natureza do poder. A lógica proposta por ele sempre chocou a ética convencional, mas sua análise dos dilemas políticos (sobre as decisões do poder) é irrefutável. As intenções de Pertinax, por exemplo, foram as melhores. Além de controlar os gastos do império (colocados em um nível perigoso por Cômodo), ele tentava agradar o povo com a retomada de alguns direitos relegados pelo seu antecessor — preocupação considerada irrelevante pelos soldados. Porém, como alerta Maquiavel, nem sempre é fazendo o que parece ser bom que se mantém um trono. Na verdade, o florentino defendia uma espécie de equilíbrio nas decisões que requer um tipo de talento muito específico.
A virtude do príncipe é fazer com que o “mal necessário” (inerente a qualquer administração pública) seja minimamente perceptível para o povo e que não leve seus aliados políticos ao desespero. O famoso “bem a conta-gotas” precisa ser maximizado e propagado para que o povo perceba o esforço do governo, servindo também como reavivamento da esperança dos aliados. Na época de Maquiavel e na antiguidade, a realização dessas operações era bem mais complicada. Hoje em dia, os governantes contam com um leque bem maior de ferramentas administrativas para persuadir o eleitor e as forças políticas que os cercam. Mesmo assim, muitos deles acabam cometendo o erro do desequilíbrio, tão bem ilustrado pelo caso de Pertinax, e acabam sendo “mortos” pelos adversários, senão pelos próprios companheiros.
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