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Danin Júnior
Uma fome de sonhos
Bolsa Família garante comida para os miseráveis, mas não resolve e pode agravar os problemas sociais do País
O populismo é a grande praga da democracia na América Latina. Os efeitos nefastos desse fenômeno são normalmente avaliados nos planos político e institucional. Contudo, o estrago que as ações populistas podem provocar no plano social costuma ser relativizado e ainda não há um estudo mais aprofundado sobre suas consequências no cotidiano dos nichos mais atrasados das sociedades latino-americanas. É preciso dar um desconto à falta de apetite de sociólogos ou demais especialistas (inclusive políticos), que poderiam fazer esse tipo de avaliação: criticar populistas pode ser o primeiro passo em um processo de demonização pública, pois uma das características essenciais desse tipo de governante é justamente o seu poder de manipulação das massas.
Além disso, estudar o populismo é sempre uma tarefa complicada, que implica uma discussão da própria legitimação do poder político e da democracia. Isso porque a instituição do Estado, seja na concepção liberal ou no modelo socialista, pressupõe certo esforço pelo bem estar coletivo — fazendo o melhor possível, mesmo que mínimo. O governante populista, em sua interlocução com o povo, joga exatamente com esses ideais. E seu discurso, sob o manto das boas intenções, é sempre uma peça demagógica. Ele nunca efetiva reformas que poderiam, de fato, tornar a sociedade menos dependente de sua “benevolência”. O populista quer sempre legitimar e reproduzir o seu poder. Ele prega a mudança, mas precisa que as coisas permaneçam como são.
No último domingo, “O Globo” publicou mais uma reportagem de uma longa sequência que vem avaliando os efeitos do Bolsa Família nos grotões do Nordeste — região que abriga o maior número de beneficiários desse programa nacional. É um excelente subsídio para quem pretende analisar reflexos sociais do populismo. Nessa investigação mais recente, a jornalista Regina Alvarez revelou dados de uma realidade deprimente. Em resumo: nas 85 cidades do País com a maior cobertura do Bolsa Família, apenas 1,3% da população trabalha com carteira assinada. A repórter investe no estilo jornalismo-verdade e, em viagem a alguns municípios do Maranhão e do Rio Grande do Norte, esmiuça casos escandalosos do que só se pode classificar como miséria humana — e miséria explorada politicamente.
Um desses casos é o da aposentada Maria Raimunda Martins, 68 anos, que recebe 80 reais mensais do Bolsa Família para criar uma neta em idade escolar em Presidente Vargas (MA). A própria beneficiária parece ter mais lucidez do que o governo que lhe fornece a esmola. Segundo ela, o programa social está fazendo com que as famílias deixem o trabalho no campo e se mudem para a cidade, onde gastam a bolsa em armazéns. “Não se vê um pé de macaxeira plantado, mas tem muita pobreza, pois as coisas são caras por aqui”, diz ela à reportagem, recomendando ainda: “Seria melhor que o governo desse um emprego. Todo mundo teria salário”. A aposentada percebe que as coisas não estão certas, que, assim, o sistema não vai funcionar por muito tempo. Em sua simplicidade, Maria Raimunda entende mais de sustentabilidade do que os próceres do Ministério do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família.
O município maranhense de Presidente Vargas (talvez uma ironia, tratando-se de populismo) possui cerca de 10 mil habitantes e 2,3 mil domicílios. Nada menos que 80% dessas famílias (1.832) recebem o Bolsa Família. É um número impressionante, contudo, o mais chocante vem a seguir: apenas quatro pessoas, isso mesmo, somente quatro moradores possuem empregos formais, com carteira assinada. O programa deveria estimular a educação e a formação profissional, mas esta e outras reportagens revelam que essas premissas não são atendidas. Em Cajapió, também no Maranhão, Regina Alvarez encontrou o caso de um curso de manicure, no qual as alunas venderam o kit fornecido no treinamento. Coordenadora da Pastoral da Criança em Presidente Vargas, Araildes Santos diz que as famílias beneficiadas estão acomodadas e não mostram interesse por estudar.
O “Globo” não diz, mas é possível imaginar qual é a preocupação da aposentada Maria Raimunda e de outros entrevistados (mesmo que ainda inconsciente). Eles intuem que uma família ou uma comunidade nunca vai evoluir se não trabalhar por isso com as próprias mãos. O pior é que a estagnação é maior entre os jovens, que aparecem nas entrevistas satisfeitos por acharem que podem se estabelecer com semiempregos (menos de um salário mínimo) complementados com a esmola oficial. Ao ler o que dizem, parece que jogaram fora qualquer ambição de dias melhores. É o retrato de um país que não sonha alto nem se pretende grande e soberano. Um país que prefere se vender em troca de algumas moedas.
É importante ressaltar que o problema da pobreza no Nordeste é estrutural, e mais especificamente no Maranhão, um dos Estados mais miseráveis do Brasil. Feita essa ressalva, resta dizer a verdade. O Bolsa Família pode ajudar a aplacar a fome, mas não resolve os problemas sociais e pode piorá-los aos criar um novo tipo de carência: uma fome de sonhos e de ambições. Um conceito certamente mais subjetivo que um prato de comida, mas que é basilar para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Lula parece que sabia disso antes de se tornar presidente. Agora, chama de imbecis os críticos do Bolsa Família. Só que nesse caso, ele não pode usar sua famosa expressão “nunca neste país”, pois de populismo e demagogias, o Brasil já se fartou.
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