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Danin Júnior
Pesquisa para quê?
Os números podem e vão variar, mas é difícil escapar do favoritismo de Serra, Dilma, Marconi e Iris
Boa parte da noite é dedicada a uma discussão meio complicada (como se não houvesse a busca por conclusões), em torno do seguinte questionamento: a um ano das eleições, qual o real valor das pesquisas? Ou melhor: tão distantes do pleito, essas sondagens são mesmo capazes de indicar quais serão os vencedores? Os termos “real” e “mesmo” são usados aqui apenas como um recurso de ênfase. É claro que o pensamento geral na mesa (apesar da desconfiança da maioria quanto a temas políticos) é de que, sim, os levantamentos com a opinião do eleitor são essenciais para o planejamento das campanhas e úteis, inclusive, para que a sociedade avalie o que está se passando consigo mesma. Mas o interesse secundário da conversa é mais prosaico, quase rasteiro: é possível confiar nas pesquisas (quantitativas)? Por que Serra ou Dilma ou Marconi ou Iris são favoritos?
Complicado, não? Ainda mais quando o bate-papo evolui e a sensação geral (entre os tais leigos em política) é a de que as pesquisas estão meio desacreditadas. Ou seja, não confiam nesses levantamentos, especialmente os que vêm antecipando o cenário da disputa em Goiás. Essa desconfiança tem o seu motivo de ser. Afinal, nos últimos dias uma onda de números contraditórios invadiu os jornais. É o prefeito na frente em um dia. É o senador ocupando a dianteira na outra edição. Quem conhece um mínimo de pesquisas sabe que, tecnicamente, essas contradições podem acontecer, dependendo de variações na metodologia e na amostragem escolhida — o que poderia, eventualmente, isentar os institutos de alguma culpa no que se refere à manipulação de resultados. Para encerrar a discussão (e isso poderia até ser a conclusão desta análise), entra aqui aquele chavão dos marqueteiros: o que interessa é observar a tendência entre um levantamento e outro.
OK, mas não desisto de responder ao questionamento rasteiro. Serra, Dilma, Marconi e Iris são mesmo favoritos (atualmente com perceptível vantagem dos dois tucanos) por razões que transcendem as pesquisas recentes. A resposta está fora dos estudos com a preferência do eleitor, mas no que há de concreto a favor desses nomes. Isso não quer dizer que, daqui exatos 12 meses, esse prognóstico será de fato confirmado. Qualquer um deles pode ganhar ou ainda ser surpreendido pelo desempenho de outros postulantes, mas principalmente por circunstâncias que sempre aparecem ao longo das campanhas. Futurologia política é um exercício prazeroso, mas muito enrolado, como ensina a tradição mineira.
É preciso explicar cada caso. Comecemos pelo cenário nacional e pela ministra-candidata, Dilma Rousseff. Mesmo sem prestígio pessoal (só agora o eleitor a está conhecendo, como a madrasta do PAC) ou carisma comprovado pelas urnas, sua pré-candidatura encontra força na imensa popularidade de Lula, que continua inabalável. Por questões partidárias, o presidente vai bancar a ministra (ele não tem como fugir da organicidade do PT), mesmo sabendo das dificuldades que terá pela frente. Além da popularidade (baseada não apenas em sua facilidade de comunicação com as massas, mas também em acertos administrativos que serão capitalizados por Dilma), Lula ainda tem à disposição a imensa máquina do governo federal, capaz de sustentar palanques competitivos regionais em todos os cantos do País. Ciro Gomes e, quem sabe, Marina Silva podem ser a nêmeses ou a ruína de Dilma.
E o governador de São Paulo? Por que ele é o maior favorito? Primeiro, José Serra é um dos políticos mais articulados da atualidade. A exemplo de Iris e Marconi, o paulista é um motor político. Vem operando, às vezes sob holofotes, mas especialmente nos bastidores, desde os tempos em que presidiu a UNE no período militar. Vem fazendo isso somando apoios, reunindo quadros (muitos garantem que são os melhores do País) e formando uma imagem de extrema competência — ao contrário da maioria dos exilados, entre 1964 e 1978, Serra obteve diploma e mestrado em Economia (no Chile) e doutorado (Estados Unidos). Ele está no cerne do sucesso tucano em São Paulo, pois foi o homem do planejamento do governo Franco Montoro (em 1983, cinco anos antes da fundação do PSDB). Por isso, sem um perfil carismático, já se elegeu senador, governador e foi para o segundo turno com Lula, em 2002. Além do recall dessa campanha presidencial e da maior vitrine regional do País, Serra tem cacife e expectativa de poder para estruturar bons palanques na maioria dos Estados.
Um desses palanques fortes, em um fenômeno de retroalimentação, será o de Marconi Perillo. Não é preciso analisar pesquisas quantitativas para auferir o favoritismo do senador tucano. A inconstância pode ser marca dos movimentos políticos (ainda mais em Goiás, com o eventual rompimento das cúpulas que formavam a chamada base aliada), mas a opinião pública não costuma mudar com o vento (quando muda é por razões anteriores, que poderiam ser diagnosticadas em levantamentos qualitativos, o que ainda não aconteceu nas mais recentes). O fato é que Marconi saiu muito bem avaliado do governo, em 2006, e foi eleito para o Senado com 76% dos votos válidos. A partir daí, foi torpedeado até por seus ex-aliados, mas não parou de articular politicamente. Seu escritório político e seu gabinete viraram pontos de peregrinação de uma infinidade de deputados, prefeitos, vice-prefeitos, ex-prefeitos, vereadores e candidatos derrotados. Sem descuidar do Senado (a conquista da vice-presidência é sinal disso), Marconi também não parou de circular. É o único pré-candidato que andou praticamente por todo o Estado no último ano, sempre recebido por sua base (vitoriosa nas últimas três eleições estaduais).
O prefeito Iris também é forte candidato. Tem prestígio pessoal, tem o que mostrar (tanto do passado quanto da atual administração) e tem bases consolidadas em quase todo o Estado. O apoio de Lula também enrijece sua musculatura, assim como a chegada de Henrique Meirelles ao PMDB. Por isso, é favorito e essa percepção prescinde das pesquisas. Iris só perde para Marconi no que se refere à presença nos municípios, desvantagem que poderá ser revertida a partir do momento em que puder definir sua candidatura e com isso, naturalmente, passar a dividir o poder da prefeitura com o PT. Antes de se preocupar com pesquisas, é preciso ater-se a esses fatos concretos. O pessoal (minha qualitativa informal) concordou. Só resta uma dúvida (para uma outra análise): uma possível candidatura de Jorcelino Braga seria a nêmeses de Marconi ou de Iris?
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