Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:16)
De: 04 a 10 de outubro de 2009

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  Ponto de Partida
 

Danin Júnior

Pesquisa para quê?

Os números podem e vão variar, mas é difícil escapar do favoritismo de Serra, Dilma, Marconi e Iris

Boa par­te da noi­te é de­di­ca­da a uma dis­cus­são meio com­pli­ca­da (co­mo se não hou­ves­se a bus­ca por con­clu­sões), em tor­no do se­guin­te ques­ti­o­na­men­to: a um ano das elei­ções, qual o re­al va­lor das pes­qui­sas? Ou me­lhor: tão dis­tan­tes do plei­to, es­sas son­da­gens são mes­mo ca­pa­zes de in­di­car qua­is se­rão os ven­ce­do­res? Os ter­mos “re­al” e “mes­mo” são usa­dos aqui ape­nas co­mo um re­cur­so de ên­fa­se. É cla­ro que o pen­sa­men­to ge­ral na me­sa (ape­sar da des­con­fi­an­ça da mai­o­ria quan­to a te­mas po­lí­ti­cos) é de que, sim, os le­van­ta­men­tos com a opi­ni­ão do elei­tor são es­sen­ci­ais pa­ra o pla­ne­ja­men­to das cam­pa­nhas e úte­is, in­clu­si­ve, pa­ra que a so­ci­e­da­de ava­lie o que es­tá se pas­san­do con­si­go mes­ma. Mas o in­te­res­se se­cun­dá­rio da con­ver­sa é mais pro­sai­co, qua­se ras­tei­ro: é pos­sí­vel con­fi­ar nas pes­qui­sas (quan­ti­ta­ti­vas)? Por que Ser­ra ou Dil­ma ou Mar­co­ni ou Iris são fa­vo­ri­tos?

Com­pli­ca­do, não? Ain­da mais quan­do o ba­te-pa­po evo­lui e a sen­sa­ção ge­ral (en­tre os tais lei­gos em po­lí­ti­ca) é a de que as pes­qui­sas es­tão meio de­sa­cre­di­ta­das. Ou se­ja, não con­fi­am nes­ses le­van­ta­men­tos, es­pe­ci­al­men­te os que vêm an­te­ci­pan­do o ce­ná­rio da dis­pu­ta em Go­i­ás. Es­sa des­con­fi­an­ça tem o seu mo­ti­vo de ser. Afi­nal, nos úl­ti­mos di­as uma on­da de nú­me­ros con­tra­di­tó­rios in­va­diu os jor­nais. É o pre­fei­to na fren­te em um dia. É o se­na­dor ocu­pan­do a di­an­tei­ra na ou­tra edi­ção. Quem co­nhe­ce um mí­ni­mo de pes­qui­sas sa­be que, tec­ni­ca­men­te, es­sas con­tra­di­ções po­dem acon­te­cer, de­pen­den­do de va­ri­a­ções na me­to­do­lo­gia e na amos­tra­gem es­co­lhi­da — o que po­de­ria, even­tual­men­te, isen­tar os ins­ti­tu­tos de al­gu­ma cul­pa no que se re­fe­re à ma­ni­pu­la­ção de re­sul­ta­dos. Pa­ra en­cer­rar a dis­cus­são (e is­so po­de­ria até ser a con­clu­são des­ta aná­li­se), en­tra aqui aque­le cha­vão dos mar­que­tei­ros: o que in­te­res­sa é ob­ser­var a ten­dên­cia en­tre um le­van­ta­men­to e ou­tro.

OK, mas não de­sis­to de res­pon­der ao ques­ti­o­na­men­to ras­tei­ro. Ser­ra, Dil­ma, Mar­co­ni e Iris são mes­mo fa­vo­ri­tos (atu­al­men­te com per­cep­tí­vel van­ta­gem dos dois tu­ca­nos) por ra­zões que tran­scen­dem as pes­qui­sas re­cen­tes. A res­pos­ta es­tá fo­ra dos es­tu­dos com a pre­fe­rên­cia do elei­tor, mas no que há de con­cre­to a fa­vor des­ses no­mes. Is­so não quer di­zer que, da­qui exa­tos 12 mes­es, es­se prog­nós­ti­co se­rá de fa­to con­fir­ma­do. Qual­quer um de­les po­de ga­nhar ou ain­da ser sur­pre­en­di­do pe­lo de­sem­pe­nho de ou­tros pos­tu­lan­tes, mas prin­ci­pal­men­te por cir­cun­stân­cias que sem­pre apa­re­cem ao lon­go das cam­pa­nhas. Fu­tu­ro­lo­gia po­lí­ti­ca é um exer­cí­cio pra­ze­ro­so, mas mui­to en­ro­la­do, co­mo en­si­na a tra­di­ção mi­nei­ra.

É pre­ci­so ex­pli­car ca­da ca­so. Co­me­ce­mos pe­lo ce­ná­rio na­ci­o­nal e pe­la mi­nis­tra-can­di­da­ta, Dil­ma Rous­seff. Mes­mo sem pres­tí­gio pes­so­al (só ago­ra o elei­tor a es­tá co­nhe­cen­do, co­mo a ma­dras­ta do PAC) ou ca­ris­ma com­pro­va­do pe­las ur­nas, sua pré-can­di­da­tu­ra en­con­tra for­ça na imen­sa po­pu­la­ri­da­de de Lu­la, que con­ti­nua ina­ba­lá­vel. Por ques­tões par­ti­dá­ri­as, o pre­si­den­te vai ban­car a mi­nis­tra (ele não tem co­mo fu­gir da or­ga­ni­ci­da­de do PT), mes­mo sa­ben­do das di­fi­cul­da­des que te­rá pe­la fren­te. Além da po­pu­la­ri­da­de (ba­se­a­da não ape­nas em sua fa­ci­li­da­de de co­mu­ni­ca­ção com as mas­sas, mas tam­bém em acer­tos ad­mi­nis­tra­ti­vos que se­rão ca­pi­ta­li­za­dos por Dil­ma), Lu­la ain­da tem à dis­po­si­ção a imen­sa má­qui­na do go­ver­no fe­de­ral, ca­paz de sus­ten­tar pa­lan­ques com­pe­ti­ti­vos re­gi­o­nais em to­dos os can­tos do Pa­ís. Ci­ro Go­mes e, quem sabe, Ma­ri­na Sil­va po­dem ser a nê­mes­es ou a ruína de Dil­ma.

E o go­ver­na­dor de São Pau­lo? Por que ele é o mai­or fa­vo­ri­to? Pri­mei­ro, Jo­sé Ser­ra é um dos po­lí­ti­cos mais ar­ti­cu­la­dos da atu­a­li­da­de. A exem­plo de Iris e Mar­co­ni, o pau­lis­ta é um mo­tor po­lí­ti­co. Vem ope­ran­do, às ve­zes sob ho­lo­fo­tes, mas es­pe­ci­al­men­te nos bas­ti­do­res, des­de os tem­pos em que pre­si­diu a UNE no pe­rí­o­do mi­li­tar. Vem fa­zen­do is­so so­man­do apoi­os, re­u­nin­do qua­dros (mui­tos ga­ran­tem que são os me­lho­res do Pa­ís) e for­man­do uma ima­gem de ex­tre­ma com­pe­tên­cia — ao con­trá­rio da mai­o­ria dos exi­la­dos, en­tre 1964 e 1978, Ser­ra ob­te­ve di­plo­ma e mes­tra­do em Eco­no­mia (no Chi­le) e dou­to­ra­do (Es­ta­dos Uni­dos). Ele es­tá no cer­ne do su­ces­so tu­ca­no em São Pau­lo, pois foi o ho­mem do pla­ne­ja­men­to do go­ver­no Fran­co Mon­to­ro (em 1983, cin­co anos an­tes da fun­da­ção do PSDB). Por is­so, sem um per­fil ca­ris­má­ti­co, já se ele­geu se­na­dor, go­ver­na­dor e foi pa­ra o se­gun­do tur­no com Lu­la, em 2002. Além do re­call des­sa cam­pa­nha pre­si­den­ci­al e da mai­or vi­tri­ne re­gi­o­nal do Pa­ís, Ser­ra tem ca­ci­fe e ex­pec­ta­ti­va de po­der pa­ra es­tru­tu­rar bons pa­lan­ques na mai­o­ria dos Es­ta­dos.

Um des­ses pa­lan­ques for­tes, em um fe­nô­me­no de re­tro­a­li­men­ta­ção, se­rá o de Mar­co­ni Pe­ril­lo. Não é pre­ci­so ana­li­sar pes­qui­sas quan­ti­ta­ti­vas pa­ra au­fe­rir o fa­vo­ri­tis­mo do se­na­dor tu­ca­no. A in­cons­tân­cia po­de ser mar­ca dos mo­vi­men­tos po­lí­ti­cos (ain­da mais em Go­i­ás, com o even­tual rom­pi­men­to das cú­pu­las que for­ma­vam a cha­ma­da ba­se ali­a­da), mas a opi­ni­ão pú­bli­ca não cos­tu­ma mu­dar com o ven­to (quan­do mu­da é por ra­zões an­te­rio­res, que po­de­ri­am ser di­ag­nos­ti­ca­das em le­van­ta­men­tos qua­li­ta­ti­vos, o que ain­da não acon­te­ceu nas mais re­cen­tes). O fa­to é que Mar­co­ni saiu mui­to bem ava­li­a­do do go­ver­no, em 2006, e foi elei­to pa­ra o Se­na­do com 76% dos vo­tos vá­li­dos. A par­tir daí, foi tor­pe­de­a­do até por seus ex-ali­a­dos, mas não pa­rou de ar­ti­cu­lar po­li­ti­ca­men­te. Seu es­cri­tó­rio po­lí­ti­co e seu ga­bi­ne­te vi­ra­ram pon­tos de pe­re­gri­na­ção de uma in­fi­ni­da­de de de­pu­ta­dos, pre­fei­tos, vi­ce-pre­fei­tos, ex-pre­fei­tos, ve­re­a­do­res e can­di­da­tos der­ro­ta­dos. Sem des­cui­dar do Se­na­do (a con­quis­ta da vi­ce-pre­si­dên­cia é si­nal dis­so), Mar­co­ni tam­bém não pa­rou de cir­cu­lar. É o úni­co pré-can­di­da­to que an­dou pra­ti­ca­men­te por to­do o Es­ta­do no úl­ti­mo ano, sem­pre re­ce­bi­do por sua ba­se (vi­to­ri­o­sa nas úl­ti­mas três elei­ções es­ta­du­ais).

O pre­fei­to Iris tam­bém é for­te can­di­da­to. Tem pres­tí­gio pes­so­al, tem o que mos­trar (tan­to do pas­sa­do quan­to da atu­al ad­mi­nis­tra­ção) e tem ba­ses con­so­li­da­das em qua­se to­do o Es­ta­do. O apoio de Lu­la tam­bém en­ri­je­ce sua mus­cu­la­tu­ra, as­sim co­mo a che­ga­da de Hen­ri­que Mei­rel­les ao PMDB. Por is­so, é fa­vo­ri­to e es­sa per­cep­ção pres­cin­de das pes­qui­sas. Iris só per­de pa­ra Mar­co­ni no que se re­fe­re à pre­sen­ça nos mu­ni­cí­pios, des­van­ta­gem que po­de­rá ser re­ver­ti­da a par­tir do mo­men­to em que pu­der de­fi­nir sua can­di­da­tu­ra e com is­so, na­tu­ral­men­te, pas­sar a di­vi­dir o po­der da pre­fei­tu­ra com o PT. An­tes de se pre­o­cu­par com pes­qui­sas, é pre­ci­so ater-se a es­ses fa­tos con­cre­tos. O pes­so­al (mi­nha qua­li­ta­ti­va in­for­mal) con­cor­dou. Só res­ta uma dú­vi­da (pa­ra uma ou­tra aná­li­se): uma pos­sí­vel can­di­da­tu­ra de Jor­ce­li­no Bra­ga se­ria a nê­meses de Mar­co­ni ou de Iris?



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