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Danin Júnior
Quem tem medo da mídia?
O sofrimento ´me engana que eu gosto´ de Sarney e o suplício de Michael Jackson têm um paralelo: ambos vivem a lógica do circo
Minha filha de 15 anos não consegue dimensionar Michael Jackson. Meu pai, de 65, da mesma forma. Ambos também teriam dificuldades para explicar a crise que acomete o Senado brasileiro: não entendem a resistência de Sarney e tudo o que ele representa. Os fenômenos e personagens parecem distintos, mas isso é só a superfície. Estão mais próximos do que se imagina. Saber em qual ponto se cruzam as malhas de Jackson e Sarney é compreender como o mundo de hoje tornou-se algo impalpável e movido a espetacularizações. Sarney não sabe, mas sua ação política foi fundamental para o sucesso de Jacko no Brasil. E o cantor, morto na quinta-feira, 25, nunca desconfiou de como ajudou a perpetuar espécies como a do maranhense do bigode.
Diante da recente enxurrada de escândalos, Sarney pode esgoelar que é “vítima de um complô da mídia porque apóia o presidente Lula”. Sua “defesa” vale um comentário porque é uma pérola de non sense jogada a todos os porcos que não conseguem entender sua lógica. Afinal, por que a mídia iria querer a cabeça de um aliado do maior anunciante do país? Sim, a União e as estatais federais são, de longe, as donas da maior fatia do bolo publicitário do Brasil. Em outras palavras, Lula é o maior anunciante do país. Por isso, reza a lógica escatológica de Sarney, a mesma mídia irrigada com verbas publicitárias federais quer justamente a cabeça de um aliado do presidente.
É nessas horas que, nos e-mails e em outras mensagens eletrônicas, costuma-se usar a expressão “kkkkkkk...”. Sarney está se atrapalhando, mas segue o rito com o qual aprendeu a atuar na política: faz um discurso, deixa uma tese no ar e, na sequência, tenta manter tudo como está. Aconteceu outras vezes, quando, por exemplo, presidia o Senado pela segunda vez (2003-2005) e se viu envolvido por denúncias. Também como presidente da República (1985-1990) enfrentou escândalos, mas sempre surfou a lama com discursos invariavelmente recheados de indignação. Sua participação na tribuna, na semana passada foi bem típica, quase chorosa — e apoiada por Lula que, nos anos 80, costumava desancar o maranhense.
Mas o que Sarney tem a ver com Michael Jackson? Comecemos pela trajetória do astro pop. Jacko revolucionou a indústria cultural ao perceber claramente a integração das mídias — a partir dos anos 80, ele sacou que não podia continuar vendendo apenas música. MJ foi o primeiro artista pop completo dos tempos midiáticos. O primeiro a vender um pacote inteiro para todos os veículos de comunicação: não apenas música, mas também vídeos, performances ao vivo e, sobretudo, atitudes bombásticas em entrevistas ou em momentos “privados”, além dos eternos trejeitos imitados mundo afora.
Com Jacko e a geração de astros que o acompanhou (Madonna, Prince e outros menos afortunados), mudou também a relação da mídia com o mundo das celebridades. Antes, os paparazzi (vide “La Dolce Vita”, de Fellini) eram romantizados e pegavam os “momentos festivos”. No pós-Jackson, o noticiário sobre celebridades só vende se contiver os tais “momentos furtivos”. Ou seja, ao mesmo tempo em que promovem suas imagens e produtos derivados, os famosos acabam vendo atos degradantes de suas vidas expostos em todos os jornais e revistas.
Em algum momento no final dos anos 80 (justamente durante o mandato de Sarney na presidência), a mídia eletrônica no Brasil passou por grandes mudanças. Sarney liberou dezenas de concessões para emissoras de rádio e televisão. Além disso, a MTV e a TV a cabo aportaram no Brasil logo depois de o Rock in Rio (1985) ter colocado o país na rota dos grandes shows internacionais. Para o bem ou para o mal, a indústria cultural se tornava cada vez mais cosmopolita no Brasil. Para sustentar uma programação diária, as dezenas de canais de TV (liberados na era Sarney) apelavam para os enlatados. Lembro de um canal em Goiânia que exibia umas quatro horas diárias de videoclipes — a grande “invenção” da era Jackson.
Pelo menos duas gerações de jovens brasileiros foram “alimentadas” com esse tipo de vídeo importado até que houvesse um investimento mais consistente na produção nacional. Mas aí, o país já estava enquadrado. O público já havia se rendido completamente a astros como Michael Jackson, um gênio pop psicologicamente abalado, pródigo em oferecer escândalos à mídia. O restante do noticiário (incluindo o político) parece ter herdado o fascínio pelo frenesi da seção de celebridades. Em vez de análises profundas e contextuais, prefere-se o arroubo momentâneo, do qual alguém pode ser réu ou vítima — tanto faz depois de alguns dias. Que o diga o velho Sarney.
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