Goiânia, 07 de setembro de 2010 (9:53)
De: 28 de junho a 04 de julho de 2009

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  Ponto de Partida
 

Danin Júnior

Quem tem me­do da mí­dia?

O so­fri­men­to ´me en­ga­na que eu gos­to´ de Sar­ney e o su­plí­cio de Mi­cha­el Jackson têm um pa­ra­le­lo: am­bos vi­vem a ló­gi­ca do cir­co

Mi­nha fi­lha de 15 anos não con­se­gue di­men­si­o­nar Mi­cha­el Jackson. Meu pai, de 65, da mes­ma for­ma. Am­bos tam­bém te­ri­am di­fi­cul­da­des pa­ra ex­pli­car a cri­se que aco­me­te o Se­na­do bra­si­lei­ro: não en­ten­dem a re­sis­tên­cia de Sar­ney e tu­do o que ele re­pre­sen­ta. Os fe­nô­me­nos e per­so­na­gens pa­re­cem dis­tin­tos, mas is­so é só a su­per­fí­cie. Es­tão mais pró­xi­mos do que se ima­gi­na. Sa­ber em qual pon­to se cru­zam as ma­lhas de Jackson e Sar­ney é com­pre­en­der co­mo o mun­do de ho­je tor­nou-se al­go im­pal­pá­vel e mo­vi­do a es­pe­ta­cu­la­ri­za­ções. Sar­ney não sa­be, mas sua ação po­lí­ti­ca foi fun­da­men­tal pa­ra o su­ces­so de Jacko no Bra­sil. E o can­tor, mor­to na quin­ta-fei­ra, 25, nun­ca des­con­fiou de co­mo aju­dou a per­pe­tu­ar es­pé­ci­es co­mo a do ma­ra­nhen­se do bi­go­de.

Di­an­te da re­cen­te en­xur­ra­da de es­cân­da­los, Sar­ney po­de es­go­e­lar que é “ví­ti­ma de um com­plô da mí­dia por­que apóia o pre­si­den­te Lu­la”. Sua “de­fe­sa” va­le um co­men­tá­rio por­que é uma pé­ro­la de non sen­se jo­ga­da a to­dos os por­cos que não con­se­guem en­ten­der sua ló­gi­ca. Afi­nal, por que a mí­dia iria que­rer a ca­be­ça de um ali­a­do do mai­or anun­ci­an­te do pa­ís? Sim, a Uni­ão e as es­ta­tais fe­de­ra­is são, de lon­ge, as do­nas da mai­or fa­tia do bo­lo pu­bli­ci­tá­rio do Bra­sil. Em ou­tras pa­la­vras, Lu­la é o mai­or anun­ci­an­te do pa­ís. Por is­so, re­za a ló­gi­ca es­ca­to­ló­gi­ca de Sar­ney, a mes­ma mí­dia ir­ri­ga­da com ver­bas pu­bli­ci­tá­ri­as fe­de­ra­is quer jus­ta­men­te a ca­be­ça de um ali­a­do do pre­si­den­te.

É nes­sas ho­ras que, nos e-mails e em ou­tras men­sa­gens ele­trô­ni­cas, cos­tu­ma-se usar a ex­pres­são “kkkkkkk...”. Sar­ney es­tá se atra­pa­lhan­do, mas se­gue o ri­to com o qual apren­deu a atu­ar na po­lí­ti­ca: faz um dis­cur­so, dei­xa uma te­se no ar e, na se­quên­cia, ten­ta man­ter tu­do co­mo es­tá. Acon­te­ceu ou­tras ve­zes, quan­do, por exem­plo, pre­si­dia o Se­na­do pe­la se­gun­da vez (2003-2005) e se viu en­vol­vi­do por de­nún­cias. Tam­bém co­mo pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca (1985-1990) en­fren­tou es­cân­da­los, mas sem­pre sur­fou a la­ma com dis­cur­sos in­va­ri­a­vel­men­te re­che­a­dos de in­dig­na­ção. Sua par­ti­ci­pa­ção na tri­bu­na, na se­ma­na pas­sa­da foi bem tí­pi­ca, qua­se cho­ro­sa — e apoi­a­da por Lu­la que, nos anos 80, cos­tu­ma­va de­san­car o ma­ra­nhen­se.

Mas o que Sar­ney tem a ver com Mi­cha­el Jackson? Co­me­ce­mos pe­la tra­je­tó­ria do as­tro pop. Jacko re­vo­lu­ci­o­nou a in­dús­tria cul­tu­ral ao per­ce­ber cla­ra­men­te a in­te­gra­ção das mí­di­as — a par­tir dos anos 80, ele sa­cou que não po­dia con­ti­nu­ar ven­den­do ape­nas mú­si­ca. MJ foi o pri­mei­ro ar­tis­ta pop com­ple­to dos tem­pos mi­di­á­ti­cos. O pri­mei­ro a ven­der um pa­co­te in­tei­ro pa­ra to­dos os ve­í­cu­los de co­mu­ni­ca­ção: não ape­nas mú­si­ca, mas tam­bém ví­de­os, per­for­man­ces ao vi­vo e, so­bre­tu­do, ati­tu­des bom­bás­ti­cas em en­tre­vis­tas ou em mo­men­tos “pri­va­dos”, além dos eter­nos tre­jei­tos imi­ta­dos mun­do afo­ra.

Com Jacko e a ge­ra­ção de as­tros que o acom­pa­nhou (Ma­don­na, Prin­ce e ou­tros me­nos afor­tu­na­dos), mu­dou tam­bém a re­la­ção da mí­dia com o mun­do das ce­le­bri­da­des. An­tes, os pa­pa­raz­zi (vi­de “La Dol­ce Vi­ta”, de Fel­li­ni) eram ro­man­ti­za­dos e pe­ga­vam os “mo­men­tos fes­ti­vos”. No pós-Jackson, o no­ti­ci­á­rio so­bre ce­le­bri­da­des só ven­de se con­ti­ver os tais “mo­men­tos fur­ti­vos”. Ou se­ja, ao mes­mo tem­po em que pro­mo­vem su­as ima­gens e pro­du­tos de­ri­va­dos, os fa­mo­sos aca­bam ven­do atos de­gra­dan­tes de su­as vi­das ex­pos­tos em to­dos os jor­nais e re­vis­tas.

Em al­gum mo­men­to no fi­nal dos anos 80 (jus­ta­men­te du­ran­te o man­da­to de Sar­ney na pre­si­dên­cia), a mí­dia ele­trô­ni­ca no Bra­sil pas­sou por gran­des mu­dan­ças. Sar­ney li­be­rou de­ze­nas de con­ces­sões pa­ra emis­so­ras de rá­dio e te­le­vi­são. Além dis­so, a MTV e a TV a ca­bo apor­ta­ram no Bra­sil lo­go de­pois de o Rock in Rio (1985) ter co­lo­ca­do o pa­ís na ro­ta dos gran­des shows in­ter­na­cio­nais. Pa­ra o bem ou pa­ra o mal, a in­dús­tria cul­tu­ral se tor­na­va ca­da vez mais cos­mo­po­li­ta no Bra­sil. Pa­ra sus­ten­tar uma pro­gra­ma­ção di­á­ria, as de­ze­nas de ca­nais de TV (li­be­ra­dos na era Sar­ney) ape­la­vam pa­ra os en­la­ta­dos. Lem­bro de um ca­nal em Go­i­â­nia que exi­bia umas qua­tro ho­ras di­á­rias de vi­de­o­cli­pes — a gran­de “in­ven­ção” da era Jackson.

Pe­lo me­nos du­as ge­ra­ções de jo­vens bra­si­lei­ros fo­ram “ali­men­ta­das” com es­se ti­po de ví­deo im­por­ta­do até que hou­ves­se um in­ves­ti­men­to mais con­sis­ten­te na pro­du­ção na­ci­o­nal. Mas aí, o pa­ís já es­ta­va en­qua­dra­do. O pú­bli­co já ha­via se ren­di­do com­ple­ta­men­te a as­tros co­mo Mi­cha­el Jackson, um gê­nio pop psi­co­lo­gi­ca­men­te aba­la­do, pró­di­go em ofe­re­cer es­cân­da­los à mí­dia. O res­tan­te do no­ti­ci­á­rio (in­clu­in­do o po­lí­ti­co) pa­re­ce ter her­da­do o fas­cí­nio pe­lo fre­ne­si da se­ção de ce­le­bri­da­des. Em vez de aná­li­ses pro­fun­das e con­tex­tu­ais, pre­fe­re-se o ar­rou­bo mo­men­tâ­neo, do qual al­guém po­de ser réu ou ví­ti­ma — tan­to faz de­pois de al­guns di­as. Que o di­ga o ve­lho Sar­ney.



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