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Danin Júnior
O sapato do Bush
e a globalização
Em vez de reclamar do imperialismo, empresas brasileiras poderiam ganhar mais dinheiro com oportunidades abertas pelo comércio internacional
DANIN JÚNIOR
O fenômeno da globalização ainda é pouco compreendido pelas massas. Os jogos ideológicos propostos pela esquerda ajudam a complicar ainda a mais esse entendimento. Segundo uma visão enviesada de botequim, a crescente queda de barreiras (de todas as naturezas) entre os países acabará favorecendo as nações mais desenvolvidas, que passariam a acumular mais e mais riquezas. Esse argumento só é correto até o ponto em que interessa a seus defensores. Os detratores da globalização se esquecem de explicar que o fenômeno das trocas internacionais beneficia justamente quem mais agrega particularidades e competência aos produtos. Se a idéia é continuar pobre para sempre (sem capacidade para competir), então é melhor gritar contra o capitalismo moderno.
A globalização faz um bem danado a quem sabe manipular os meios certos. O melhor exemplo dessa tese vem do Oriente Médio e de um dos eventos mais cômicos do ano que acaba de terminar. No dia 16 de dezembro, o presidente dos Estados Unidos fazia uma visita surpresa ao Iraque — mais uma cena inútil em sua despedida melancólica do poder. Na coletiva para a imprensa, em Bagdá, George W. Bush foi inusitadamente atacado por um dos jornalistas iraquianos. Furioso, Muntadar al-Zaidi arremessou seus dois sapatos contra o homem mais poderoso do mundo e ainda o xingou de cachorro — duas das piores ofensas naquele país (ser alvo de sapatadas e ser chamado de cão, um animal considerado impuro por eles). Aparentemente, como diria o presidente Lula, o jornalista “sifu” (está preso e com vários ossos quebrados), mas muita gente passou a ganhar dinheiro com a piada.
O mais esperto desses oportunistas, o que soube manipular os meios certos e disponíveis com a globalização, foi um pequeno industrial e comerciante da Turquia. Ramazan Baydan imediatamente reprogramou o seu site na internet dizendo ser o legítimo fabricante dos sapatos atirados no presidente americano. A ação do jornalista é muito rápida no vídeo (os dois sapatos foram arremessados em quatro segundos) — só mesmo a esquiva de Bush foi mais ligeira (fã de boxe, o editor Euler Belém poderia descrever o potencial do republicano para a grande arte). Não se sabe como foi possível reconhecer o produto, mas Baydan garante na internet que era um modelo Ducati 271, produzido em sua fábrica, em Istambul, há mais de dez anos.
Outros fabricantes de sapatos (do Líbano, da China e do próprio Iraque) tiveram a mesma idéia de se proclamarem donos da criança, mas somente Baydan se destacou, sendo entrevistado por veículos do mundo inteiro, inclusive pelo “New York Times”. Qual foi o seu segredo? Primeiro, a lucidez e, em seguida, a velocidade. Ele rebatizou o modelo Ducati 271, que passou a se chamar, obviamente, "sapato do Bush" e passou a oferecê-lo no seu catálogo (com versões em árabe e inglês) acessível pela internet. E o mais importante: reprogramou as meta-tags do site (textos ocultos, que facilitam e direcionam o reconhecimento feito pelos mecanismos de buscas, como o Google) com palavras-chaves matadoras para quem estava procurando se informar sobre o assunto naqueles dias seguintes ao ataque. Ou seja, ajuntou as três palavras mágicas das buscas naquele momento: “Bush”, “sapato” e, lógico, “comprar”.
E qual foi o resultado? O cálculo é simples. Antes das célebres sapatadas, Baydan vendia uma média de 15 mil pares do Ducati 271 por ano. Depois de colocar em prática a sua estratégia globalizada, o sapateiro turco obteve um upgrade fantástico nas vendas. Agora, com a devida alcunha de “bush shoes”, os sapatos feitos com sola de poliuretano (300 gramas de peso) se tornaram um dos presentes mais cobiçados do final do ano. Nada menos que 370 mil pares foram encomendados (até o dia 23 de dezembro) ao preço de 27 dólares cada par, sendo mais de 20 mil somente para os Estados Unidos. Com um produto global na mão e a expectativa de 10 milhões de dólares de faturamento, Baydan precisou contratar 100 novos empregados. Novamente, agiu rápido. Se não produzir tudo agora, a onda passa e ele perde a oportunidade de ficar milionário.
O caso dos sapatos do Bush é apenas um exemplo. Sem o mesmo apelo extraordinário da mídia (o “shoe attack” teve mais de 50 milhões de acessos no YouTube), diversas empresas brasileiras também estão aproveitando, como podem, o fenômeno do comércio global. Como regra, o que mais tem valor é a característica singular de cada empreitada, além do domínio exclusivo sobre as tecnologias de produção. Biquínis, sandálias, bijuterias, papéis para enrolar cigarros e vários outros badulaques verde-amarelos fazem sucesso no mundo inteiro. É surpreendente (e alentador) ver relatórios recentes de entidades como o Sebrae, atestando que a exportação é uma realidade cada vez mais comum inclusive para empresas de pequeno porte. Provam que a carteira de vendas externas do País não se resume às commodities agrícolas e minerais. Com um pouco de conhecimento sobre marketing viral, esse pessoal pode fazer verdadeiras fortunas com a globalização e, às vezes, sem precisar sair do botequim e continuar reclamando do imperialismo ianque.
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