Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:13)
De: EDIÇÃO ESPECIAL DEZEMBRO DE 2008

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  Ponto de Partida
 

Danin Júnior

O sa­pa­to do Bush e a glo­ba­li­za­ção

Em vez de reclamar do imperialismo, empresas brasileiras poderiam ganhar mais dinheiro com oportunidades abertas pelo comércio internacional

DA­NIN JÚ­NI­OR O fe­nô­me­no da glo­ba­li­za­ção ain­da é pou­co com­pre­en­di­do pe­las mas­sas. Os jo­gos ide­o­ló­gi­cos pro­pos­tos pe­la es­quer­da aju­dam a com­pli­car ain­da a mais es­se en­ten­di­men­to. Se­gun­do uma vi­são en­vi­e­sa­da de bo­te­quim, a cres­cen­te que­da de bar­rei­ras (de to­das as na­tu­re­zas) en­tre os paí­ses aca­ba­rá fa­vo­re­cen­do as nações mais de­sen­vol­vi­das, que pas­sa­ri­am a acu­mu­lar mais e mais ri­que­zas. Es­se ar­gu­men­to só é cor­re­to até o pon­to em que in­te­res­sa a seus de­fen­so­res. Os de­tra­to­res da glo­ba­li­za­ção se es­que­cem de ex­pli­car que o fe­nô­me­no das tro­cas in­ter­na­cio­nais be­ne­fi­cia jus­ta­men­te quem mais agre­ga par­ti­cu­la­ri­da­des e com­pe­tên­cia aos pro­du­tos. Se a idéia é con­ti­nu­ar po­bre pa­ra sem­pre (sem ca­pa­ci­da­de pa­ra com­pe­tir), en­tão é me­lhor gri­tar con­tra o ca­pi­ta­lis­mo mo­der­no.

A glo­ba­li­za­ção faz um bem da­na­do a quem sa­be ma­ni­pu­lar os mei­os cer­tos. O me­lhor exem­plo des­sa te­se vem do Ori­en­te Mé­dio e de um dos even­tos mais cô­mi­cos do ano que aca­ba de ter­mi­nar. No dia 16 de de­zem­bro, o pre­si­den­te dos Es­ta­dos Uni­dos fa­zia uma vi­si­ta sur­pre­sa ao Ira­que — mais uma ce­na inú­til em sua des­pe­di­da me­lan­có­li­ca do po­der. Na co­le­ti­va pa­ra a im­pren­sa, em Bag­dá, Ge­or­ge W. Bush foi inu­si­ta­da­men­te ata­ca­do por um dos jor­na­lis­tas ira­qui­a­nos. Fu­ri­o­so, Mun­ta­dar al-Zai­di ar­re­mes­sou seus dois sa­pa­tos con­tra o ho­mem mais po­de­ro­so do mun­do e ain­da o xin­gou de ca­chor­ro — du­as das pi­o­res ofen­sas na­que­le pa­ís (ser al­vo de sa­pa­ta­das e ser cha­ma­do de cão, um ani­mal con­si­de­ra­do im­pu­ro por eles). Apa­ren­te­men­te, co­mo di­ria o pre­si­den­te Lu­la, o jor­na­lis­ta “si­fu” (es­tá pre­so e com vá­rios os­sos que­bra­dos), mas mui­ta gen­te pas­sou a ga­nhar di­nhei­ro com a pia­da.

O mais es­per­to des­ses opor­tu­nis­tas, o que sou­be ma­ni­pu­lar os mei­os cer­tos e dis­po­ní­veis com a glo­ba­li­za­ção, foi um pe­que­no in­dus­tri­al e co­mer­cian­te da Tur­quia. Ra­ma­zan Baydan ime­di­a­ta­men­te re­pro­gra­mou o seu si­te na in­ter­net di­zen­do ser o le­gí­ti­mo fa­bri­can­te dos sa­pa­tos ati­ra­dos no pre­si­den­te ame­ri­ca­no. A ação do jor­na­lis­ta é mui­to rá­pi­da no ví­deo (os dois sa­pa­tos fo­ram ar­re­mes­sa­dos em qua­tro se­gun­dos) — só mes­mo a es­qui­va de Bush foi mais li­gei­ra (fã de bo­xe, o edi­tor Eu­ler Be­lém po­de­ria des­cre­ver o po­ten­ci­al do re­pu­bli­ca­no pa­ra a gran­de ar­te). Não se sa­be co­mo foi pos­sí­vel re­co­nhe­cer o pro­du­to, mas Baydan ga­ran­te na in­ter­net que era um mo­de­lo Du­ca­ti 271, pro­du­zi­do em sua fá­bri­ca, em Is­tam­bul, há mais de dez anos.

Ou­tros fa­bri­can­tes de sa­pa­tos (do Lí­ba­no, da Chi­na e do pró­prio Ira­que) ti­ve­ram a mes­ma idéia de se pro­cla­ma­rem do­nos da cri­an­ça, mas so­men­te Baydan se des­ta­cou, sen­do en­tre­vis­ta­do por ve­í­cu­los do mun­do in­tei­ro, in­clu­si­ve pe­lo “New York Ti­mes”. Qual foi o seu se­gre­do? Pri­mei­ro, a lu­ci­dez e, em se­gui­da, a ve­lo­ci­da­de. Ele re­ba­ti­zou o mo­de­lo Du­ca­ti 271, que pas­sou a se cha­mar, ob­via­men­te, "sa­pa­to do Bush" e pas­sou a ofe­re­cê-lo no seu ca­tá­lo­go (com ver­sões em ára­be e in­glês) aces­sí­vel pe­la in­ter­net. E o mais im­por­tan­te: re­pro­gra­mou as me­ta-tags do si­te (tex­tos ocul­tos, que fa­ci­li­tam e di­re­cio­nam o re­co­nhe­ci­men­to fei­to pe­los me­ca­nis­mos de bus­cas, co­mo o Go­o­gle) com pa­la­vras-cha­ves ma­ta­do­ras pa­ra quem es­ta­va pro­cu­ran­do se in­for­mar so­bre o as­sun­to na­que­les di­as se­guin­tes ao ata­que. Ou se­ja, ajun­tou as três pa­la­vras má­gi­cas das bus­cas na­que­le mo­men­to: “Bush”, “sa­pa­to” e, ló­gi­co, “com­prar”.

E qual foi o re­sul­ta­do? O cál­cu­lo é sim­ples. An­tes das cé­le­bres sa­pa­ta­das, Baydan ven­dia uma mé­dia de 15 mil pa­res do Du­ca­ti 271 por ano. De­pois de co­lo­car em prá­ti­ca a sua es­tra­té­gia glo­ba­li­za­da, o sa­pa­tei­ro tur­co ob­te­ve um up­gra­de fan­tás­ti­co nas ven­das. Ago­ra, com a de­vi­da al­cu­nha de “bush shoes”, os sa­pa­tos fei­tos com so­la de po­li­u­re­ta­no (300 gra­mas de pe­so) se tor­na­ram um dos pre­sen­tes mais co­bi­ça­dos do fi­nal do ano. Na­da me­nos que 370 mil pa­res fo­ram en­co­men­da­dos (até o dia 23 de de­zem­bro) ao pre­ço de 27 dó­la­res cada par, sen­do mais de 20 mil so­men­te pa­ra os Es­ta­dos Uni­dos. Com um pro­du­to glo­bal na mão e a ex­pec­ta­ti­va de 10 mi­lhões de dó­la­res de fa­tu­ra­men­to, Baydan pre­ci­sou con­tra­tar 100 no­vos em­pre­ga­dos. No­va­men­te, agiu rá­pi­do. Se não pro­du­zir tu­do ago­ra, a on­da pas­sa e ele per­de a opor­tu­ni­da­de de fi­car mi­li­o­ná­rio.

O ca­so dos sa­pa­tos do Bush é ape­nas um exem­plo. Sem o mes­mo ape­lo ex­tra­or­di­ná­rio da mí­dia (o “shoe at­tack” te­ve mais de 50 mi­lhões de aces­sos no Yo­u­Tu­be), di­ver­sas em­pre­sas bra­si­lei­ras tam­bém es­tão apro­vei­tan­do, co­mo po­dem, o fe­nô­me­no do co­mér­cio glo­bal. Co­mo re­gra, o que mais tem va­lor é a ca­rac­te­rís­ti­ca sin­gu­lar de ca­da em­prei­ta­da, além do do­mí­nio ex­clu­si­vo so­bre as tec­no­lo­gi­as de pro­du­ção. Bi­quí­nis, san­dá­lias, bi­ju­te­rias, pa­péis pa­ra en­ro­lar ci­gar­ros e vá­rios ou­tros ba­du­la­ques ver­de-ama­re­los fa­zem su­ces­so no mun­do in­tei­ro. É sur­pre­en­den­te (e alen­ta­dor) ver re­la­tó­rios re­cen­tes de en­ti­da­des co­mo o Se­brae, ates­tan­do que a ex­por­ta­ção é uma re­a­li­da­de ca­da vez mais co­mum in­clu­si­ve pa­ra em­pre­sas de pe­que­no por­te. Pro­vam que a car­tei­ra de ven­das ex­ter­nas do Pa­ís não se re­su­me às com­mo­di­ti­es agrí­co­las e mi­ne­ra­is. Com um pou­co de co­nhe­ci­men­to so­bre marke­ting vi­ral, es­se pes­so­al po­de fa­zer ver­da­dei­ras for­tu­nas com a glo­ba­li­za­ção e, às ve­zes, sem pre­ci­sar sa­ir do bo­te­quim e con­ti­nu­ar re­cla­man­do do im­pe­ri­a­lis­mo ian­que.



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