Goiânia, 09 de fevereiro de 2010
De: 09 a 15 de agosto de 2009

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  Opção Cultural
 

EN­TRE­VIS­TA
Quan­to va­le ou é por qui­lo?
 

Li­be­ral, li­ber­tá­rio e li­ber­ti­no. O es­cri­tor ca­ri­o­ca Alex Cas­tro fa­la so­bre mer­ca­do edi­to­ri­al, li­te­ra­tu­ra e in­ter­net. Nem Jo­sé Sa­ra­ma­go es­ca­pa

TÚ­LIO MO­REI­RA RO­CHA - Es­pe­ci­al pa­ra o Jornal Opção

O es­cri­tor Alex Cas­tro bo­lou um es­que­ma in­co­mum pa­ra o lan­ça­men­to da edi­ção im­pres­sa de seu pri­mei­ro ro­man­ce, “Mu­lher de Um Ho­mem Só”. Ca­ri­o­ca, re­si­din­do atu­al­men­te em No­va Or­le­ans, Es­ta­dos Uni­dos, Alex fez uma cam­pa­nha na in­ter­net pa­ra con­ven­cer lei­to­res a com­prar exem­pla­res do li­vro, ao pre­ço mí­ni­mo de R$ 24,40. A mai­o­ria dos in­ves­ti­do­res deu lan­ces aci­ma do va­lor ini­ci­al, ga­ran­tin­do a pu­bli­ca­ção da obra. Em três se­ma­nas de pré-ven­da, o es­cri­tor con­se­guiu ven­der 117 exem­pla­res, ao pre­ço mé­dio de R$ 33,90.

O ro­man­ce de Alex já ha­via cau­sa­do boa re­cep­ção quan­do pu­bli­ca­do na in­ter­net. Ali­ás, o au­tor tem uma re­la­ção de su­ces­so com o mun­do vir­tu­al. O blog “Li­be­ral Li­ber­tá­rio Li­ber­ti­no” (www.in­ter­ney.net/blogs/lll) con­quis­tou se­gui­do­res fi­éis. O es­pa­ço, “anár­qui­co” na de­fi­ni­ção do blo­guei­ro, re­ve­la um cri­a­dor ágil e mul­ti­fa­ce­ta­do, aten­to e ou­sa­do. Pa­ra quem se in­te­res­sou, é pos­sí­vel ad­qui­rir um exem­plar do no­vo li­vro de Alex por meio do blog.

Em en­tre­vis­ta ao Jornal Opção, Alex Cas­tro afir­ma que a má­gi­ca de es­cre­ver um ro­man­ce é po­der sa­ir um pou­co de si e en­trar no cor­po de ou­tra pes­soa. O es­cri­tor tam­bém en­dos­sa o co­ro dos que acham Jo­sé Sa­ra­ma­go um cha­to e co­men­ta so­bre um de seus pro­je­tos vin­dou­ros, uma obra so­bre sua in­ten­sa re­la­ção com a ci­da­de do Rio de Ja­nei­ro. Con­fi­ra.

Jornal Opção — Ape­sar da pro­pa­ga­ção dos cha­ma­dos e-bo­oks na in­ter­net, vi­a­bi­li­za­dos pe­la fa­ci­li­da­de de dis­tri­bui­ção e bai­xos cus­tos, vo­cê ain­da acha im­por­tan­te pu­bli­car “à mo­da an­ti­ga”, no pa­pel?

Alex Cas­tro — Não acho, não. Não ve­jo a me­nor gra­ça no ob­je­to li­vro. É uma coi­sa pe­sa­da, di­fí­cil de car­re­gar, di­fí­cil de man­ter, que jun­ta bi­cho, fe­de, dá mo­fo, es­sas coi­sas. Eu ado­ro li­te­ra­tu­ra e ado­ro o con­te­ú­do dos meus li­vros, mas não pa­pel em si. O pro­ble­ma é que ain­da es­ta­mos na Era do Pa­pel. No fi­nal de­la, mas ain­da ne­la. As pes­so­as ten­dem a con­fun­dir pa­pel com li­te­ra­tu­ra, o que é meio ri­dí­cu­lo. Pa­pel é ape­nas o su­por­te. Uma po­e­sia de Whit­man é tão li­te­ra­tu­ra se es­ti­ver no pa­pel, nu­ma te­la de com­pu­ta­dor, es­cri­ta num guar­da­na­po, num li­vro em áu­dio, gra­fi­ta­da nu­ma pa­re­de, etc. Quan­do in­ven­ta­rem um ou­tro su­por­te, mais ba­ra­to, mais le­ve, que dê pra ler num par­que num dia de sol, que dê pra mar­car e su­bli­nhar, e es­ta­mos qua­se lá, en­tão os li­vros vão se tor­nar co­mo os ca­va­los ho­je: não vão su­mir, mas tam­bém não vão ser uma op­ção de mas­sa. Se­rão li­dos e ca­val­ga­dos so­men­te pe­los mais en­tu­si­as­tas.

Jornal Opção — Vo­cê se vê in­se­ri­do no ce­ná­rio da “li­te­ra­tu­ra in­de­pen­den­te” bra­si­lei­ra? Qua­is são as bar­rei­ras e di­fi­cul­da­des pa­ra os au­to­res que se pro­põ­em a es­cre­ver as­sim?

Alex Cas­tro — Eu nun­ca me pro­pus a es­cre­ver li­te­ra­tu­ra in­de­pen­den­te. Eu me pro­pus só a es­cre­ver li­te­ra­tu­ra. Tam­bém não te­nho fe­ti­che por li­te­ra­tu­ra in­de­pen­den­te. Se o Schwarcz (Lu­iz Schwarcz, edi­tor da Com­pa­nhia das Le­tras) me li­gar ama­nhã di­zen­do que me quer na edi­to­ra de­le, a úni­ca ques­tão vai ser ne­go­ci­ar o pre­ço. O pro­ble­ma é o tal mer­ca­do edi­to­ri­al in­tran­spo­ní­vel. A pró­pria Com­pa­nhia das Le­tras, li em al­gum lu­gar, afir­mou que man­tém um ti­me de lei­to­res pra ler os ma­nus­cri­tos sub­me­ti­dos, mas que nun­ca, nem uma úni­ca vez, pu­bli­cou um li­vro que foi man­da­do as­sim na ca­ra du­ra. To­dos os li­vros que pu­bli­cou vi­e­ram re­co­men­da­dos ou en­co­men­da­dos. Aí vo­cê vê que, ver­da­dei­ra ou não, a his­tó­ria é em­ble­má­ti­ca. Se os ca­ras nun­ca pu­bli­ca­ram ne­nhum, o pro­ble­ma é pro­va­vel­men­te mais de­les que dos au­to­res, por um mo­ti­vo sim­ples. A Com­pa­nhia é uma das mai­o­res e mais pres­ti­gi­a­das edi­to­ras do Bra­sil. Pro­va­vel­men­te, mui­ta gen­te que aca­bou sa­in­do por ou­tras edi­to­ras (e fa­zen­do su­ces­so) tam­bém man­dou seu li­vri­nho na ca­ra e na co­ra­gem pa­ra a Cia. das Le­tras, e na­da. Se­rá que eram mes­mo li­vros tão ru­ins as­sim? To­dos?

Jornal Opção — Vo­cê acre­di­ta que “li­vro é pra cir­cu­lar”. Qual é o ti­po de lei­tor ide­al pa­ra vo­cê? Co­mo o lei­tor de­ve exer­cer o pa­pel de pro­pa­ga­dor da obra li­te­rá­ria?

Alex Cas­tro — O meu lei­tor ide­al não man­tém uma es­tan­te cheia de li­vros que ele nun­ca mais vai abrir, co­mo se fos­se um ca­ça­dor mos­tran­do seus tro­féus: “Olha o an­tí­lo­pe que eu ca­cei! Olha o ‘Ku­a­rup’ que eu li!” Acho mui­to es­no­bis­mo. Se já leu o li­vro e não vai ler de no­vo, pas­se adi­an­te. Ven­da pa­ra um se­bo. Doe pa­ra a bi­bli­o­te­ca. Pas­se na uni­ver­si­da­de fe­de­ral mais pró­xi­ma e dis­tri­bua en­tre os es­tu­dan­tes mor­tos de fo­me. Não dei­xe eles mo­fan­do en­tre os seus “tro­féus”.

O meu lei­tor ide­al sa­be tam­bém que sua re­la­ção com um au­tor vi­vo po­de e de­ve ser in­te­ra­ti­va: ele po­de in­ter­pe­lar o au­tor, in­ter­fe­rir na obra, fa­zer ou des­tru­ir sua re­pu­ta­ção. Não é a mes­ma re­la­ção que te­ria, di­ga­mos, com “Dom Cas­mur­ro” ou “Moby Dick”. Quan­do gos­to do li­vro no­vo de al­guém as­sim, eu fa­ço post, es­cre­vo no blog, con­to pra to­do mun­do, dou o li­vro de pre­sen­te, em­pres­to, fa­ço um es­car­céu e uma di­vul­ga­ção mui­to mai­or do que fa­ria se des­co­bris­se um es­cri­tor mor­to e en­ter­ra­do, por­que sei que o au­tor pre­ci­sa des­se bo­ca-a-bo­ca pra exis­tir. Ao mes­mo tem­po, quan­do odeio o li­vro de um au­tor vi­vo, eu fi­co ca­la­do e me au­tocen­su­ro mui­to mais do que no ca­so de um au­tor mor­to, que não es­tá aí pra cho­rar de tris­te­za ou, pi­or, vir na mi­nha por­ta me ba­ter. Pa­ra que vou fa­lar al­go pra ma­go­ar um me­ni­no que es­tá co­me­çan­do e cu­jo úni­co pe­ca­do é ser in­com­pe­ten­te e iná­bil? Eu sei que te­nho li­ber­da­de de ex­pres­são. Eu sei que quem sai na chu­va é pra se mo­lhar. Sei que pos­so, mas, mes­mo as­sim, não me sin­to bem es­cre­ven­do al­go que sei que vai fa­zer mal a al­guém.

Jornal Opção – Seu livro esteve disponível na internet para baixar até 2006, fazendo sucesso entre os internautas. Com o lançamento da versão “física”, você acha que a recepção de público e crítica pode ser diferente, comparada à versão digital?

Alex Cas­tro — O livro teve uma recepção muito boa na internet, foi resenhado dezenas de vezes e obteve muito feedback. Via de regra, as leitoras se empolgaram mais do que os homens, a maioria se viu muito na personagem da narradora, a Carla. Não vejo porque a reação off line seria diferente. Minha grande esperança é poder atingir um público que não está na internet, que não teria acesso ao livro de outro jeito.

Jornal Opção – Fale um pouco sobre a sua formação cultural. Quais autores fizeram sua cabeça? Em que contexto você se interessou pela literatura?

Alex Cas­tro — Sempre me interessei por literatura, mas nasci numa casa antiliterata, com poucos livros, e os poucos eram best-sellers, policiais, essas coisas. Tínhamos uma coleção da Britannica Great Books, o cânone do cânone, e me formei lendo esses livros, os grandes clássicos universais. Não tenho muitos autores que me formaram, não, porque sempre li muito, e desordenadamente, então, a graça é justamente ler muito, demais, sacudir aquilo tudo na cabeça e ver o que sai. Um escritor precisa ler muito por um único motivo: para saber o que já foi feito. Para não repetir livros velhos. Para ser capaz de detectar quando está inconscientemente roubando a voz de alguém. Essas coisas. Uma influência mais negativa do que positiva mesmo. Por exemplo, essa nova geração só repete Rubem Fonseca até hoje porque não leu o suficiente para saber como seus livros são repetitivos e velhos.

Jornal Opção — Con­te so­bre o fu­tu­ro. O que vo­cê es­tá ar­qui­te­tan­do?

Alex Cas­tro — Atu­al­men­te, es­tou tra­ba­lhan­do em um ro­man­ce cha­ma­do “Em­pre­ga­das & Es­cra­vos”, ten­tan­do fa­lar, de for­ma fic­cio­nal e não-es­que­má­ti­ca, so­bre es­sas nos­sas re­la­ções de po­der tão in­gra­tas. Já es­tou bem avan­ça­do ne­le. Além dis­so, co­mo ca­ri­o­ca ex­pa­tri­a­do, tam­bém te­nho um pro­je­to bem de­sen­vol­vi­do na mi­nha ca­be­ça de es­cre­ver um ro­man­ce so­bre to­da es­sa ques­tão de “sa­ir do Rio”. O tí­tu­lo de tra­ba­lho é “Rio Ci­da­de Aber­ta” e a nar­ra­ti­va fa­ria um pa­ra­le­lo com a “Ene­i­da”, com aque­le mo­men­to ter­rí­vel em que Tróia es­tá des­mo­ro­nan­do, Enéi­as não quer sa­ir mas aca­ba sen­do obri­ga­do a aban­do­nar a ci­da­de. A his­tó­ria se pas­sa­ria em três mo­men­tos: 1711, quan­do a ci­da­de foi to­ma­da pe­los fran­ces­es e a po­pu­la­ção, mes­mo que­ren­do lu­tar, foi obri­ga­da a eva­cu­ar a ci­da­de sob uma chu­va tor­ren­ci­al; 1893, quan­do a nos­sa pró­pria Ar­ma­da co­me­çou a bom­bar­de­ar nos­sa pró­pria ca­pi­tal, mui­tos mo­ra­do­res aban­do­na­ram a ci­da­de em pâ­ni­co e a si­tu­a­ção só se re­sol­veu quan­do o Rio foi de­cla­ra­do “ci­da­de aber­ta”; e 2002/2003, quan­do por du­as ve­zes Fer­nan­di­nho Bei­ra-Mar fe­chou o co­mér­cio e as es­co­las do Rio, a pri­mei­ra vez que uma ação cri­mi­no­sa afe­tou a ci­da­de co­mo um to­do.

Ao lon­go de to­das es­sas épo­cas e si­tu­a­ções, as ques­tões se­rão ba­si­ca­men­te as mes­mas: va­le a pe­na fi­car no Rio e lu­tar pe­la ci­da­de? Quan­do é a ho­ra cer­ta de sa­ir? Exis­te is­so de ho­ra cer­ta de sa­ir? Eu amo o Rio ob­ses­si­va­men­te, mas saí da ci­da­de faz qua­tro anos. Ain­da as­sim man­te­nho um apar­ta­men­to lá e pas­so cer­ca de cin­co mes­es por ano no Rio, en­tão eu mo­ro e não mo­ro, saí e não saí. É uma po­si­ção que me per­mi­te, ao mes­mo tem­po, ver a ci­da­de de fo­ra e de den­tro.

Jornal Opção —Co­mo vo­cê uti­li­za seu blog pa­ra apre­sen­tar su­as idei­as e cri­a­ções?

Alex Cas­tro — O blog aca­ba se tor­nan­do o es­pa­ço do Alex-pes­soa-fí­si­ca, em opo­si­ção ao Alex-es­cri­tor-de-fic­ção. No blog, ex­po­nho mi­nha vi­da re­al, mi­nhas opi­ni­ões, quem eu sou. Já a fic­ção é o mun­do de ser ou­tras pes­so­as, vi­ver ou­tras vi­das. Nes­se pon­to, a gran­de fun­ção do blog, em re­la­ção aos meus li­vros, aca­ba sen­do cri­ar um gru­po ca­ti­vo de lei­to­res que gos­ta do que eu es­cre­vo e que se in­te­res­se em co­nhe­cer a fic­ção tam­bém. O úni­co pro­ble­ma é que che­gam na fic­ção pro­cu­ran­do o Alex do blog, que é uma per­so­na exu­be­ran­te e po­lê­mi­ca, e ele es­tá lá mui­to es­con­di­di­nho, ca­la­di­nho, dei­xan­do dar es­pa­ço pa­ra os per­so­na­gens cres­ce­rem e en­con­tra­rem su­as pró­pri­as vo­zes.

Não en­ten­do es­ses au­to­res que sem­pre es­cre­vem so­bre si mes­mos, cu­jos pro­ta­go­nis­tas sem­pre são al­ter-egos dis­far­ça­dos, cu­jos en­re­dos são sem­pre ba­se­a­dos em coi­sas que lhes acon­te­ce­ram. A má­gi­ca da fic­ção é jus­ta­men­te po­der ser ou­tra pes­soa. Que gra­ça te­ria es­cre­ver um ro­man­ce so­bre mim mes­mo e so­bre mi­nha pró­pria vi­da? Eu já me co­nhe­ço, ora bo­las. Já vi­vo co­mi­go o tem­po to­do. Já vi­vo a mi­nha vi­da o dia in­tei­ro. Em “Mu­lher de um Ho­mem Só”, eu, ho­mem, ateu, li­ber­tá­rio, ar­tis­ta, sol­tei­ro, sem fi­lhos, po­li­a­mo­ro­so, quis me me­ta­mor­fo­se­ar em uma mu­lher, con­ser­va­do­ra, ca­sa­da, den­tis­ta, mãe, ca­tó­li­ca, ciu­men­ta. Quem é es­sa pes­soa? Co­mo ela pen­sa? De que ma­nei­ra re­a­ge às si­tu­a­ções? Pa­ra mim, a má­gi­ca do ro­man­ce é jus­ta­men­te es­se pro­ces­so de des­co­ber­ta do ou­tro. De sa­ir um pou­co de mim mes­mo e de en­trar no cor­po de uma no­va pes­soa.

Jornal Opção —Re­cen­te­men­te, o jor­na­lis­ta Lu­ís An­tô­nio Gi­ron, da re­vis­ta “Épo­ca”, afir­mou que a blo­gos­fe­ra se tor­nou o “pa­ra­í­so dos cha­tos”, à ex­ce­ção de blo­guei­ros co­mo Jo­sé Sa­ra­ma­go, ci­ta­do pe­lo jor­na­lis­ta. Seu blog tem co­mo le­ma “Re­bel­dia, con­tem­pla­ção e mui­ta sa­ca­na­gem. Um blog pra fa­lar de li­ber­da­de e li­te­ra­tu­ra.” Co­mo con­quis­tar es­pa­ço num lu­gar tão “anar­qui­za­do” co­mo a blo­gos­fe­ra?

Alex Cas­tro — Nun­ca ima­gi­nei que iria ver as pa­la­vras “Sa­ra­ma­go” e “cha­to” na mes­ma fra­se sem ser pa­ra di­zer que ele é o rei ab­so­lu­to dos cha­tos. Sen­sa­ci­o­nal. Tem mes­mo gos­to pra tu­do. O Sa­ra­ma­go é bom fic­cio­nis­ta, mas seu blog é cha­to, su­as opi­ni­ões são cha­tas, ele é uma pes­soa cha­ta. Sa­ra­ma­go se tor­nou aque­le tí­pi­co an­ci­ão ran­zin­za que re­cla­ma de tu­do que é no­vo e que ele não com­pre­en­de di­rei­to. Ape­sar de tu­do, exis­te um mé­ri­to de ele fa­zer es­sas re­cla­ma­ções em um blog (ou se­ja, ele en­trou pa­ra ver co­mo é), ao con­trá­rio de tan­tos ou­tros ve­lhos ilus­tres que re­cla­mam de tu­do sem nem sa­ber so­bre o que es­tão fa­lan­do.

O blog tem si­do um su­ces­so, ain­da mais que ele é de fa­to to­tal­men­te anár­qui­co. Não tem pau­ta, não tem te­ma, se­gue a es­mo mi­nhas ob­ses­sões. Via de re­gra, o blog fi­ca tra­va­do em um as­sun­to en­quan­to eu es­tou men­tal­men­te tra­va­do ne­le, e quan­do mu­do de in­te­res­se, o blog mu­da de te­ma, e as­sim vai in­do. In­va­ri­a­vel­men­te, os lei­to­res re­cla­mam: “se fi­car fa­lan­do só de ca­sa­men­to aber­to/ra­cis­mo/te­a­tro/etc, vo­cê vai es­pan­tar to­do mun­do, da­qui a pou­co nin­guém mais te lê!”, mas não per­ce­bem que a gra­ça de um blog é jus­ta­men­te não ter pau­ta, é jus­ta­men­te eu po­der fa­lar do que qui­ser, sem ré­de­as, sem edi­tor, sem ma­nu­al de re­da­ção.

En­tão, en­fim, pa­ra um blog tão ca­pri­cho­so e na­da fo­ca­do, é im­pres­sio­nan­te o seu su­ces­so, ain­da que bas­tan­te li­mi­ta­do. Ho­je, o blog pa­ga o alu­guel do apar­ta­men­to que man­te­nho no Rio, ou se­ja, me per­mi­te man­ter uma pre­sen­ça na ci­da­de que amo tan­to, e só por is­so eu já se­ria gra­to a ele. Na prá­ti­ca, o blog me per­mi­tiu re­a­li­zar al­go que sem­pre so­nhei: vi­ver de es­cre­ver. Em 2005, quan­do saí do Rio, eu da­va au­las o mês to­do em uma es­co­la e ga­nha­va mais ou me­nos o que o blog me ren­de ho­je. Is­so é mui­to gra­ti­fi­can­te. Não me ve­jo co­mo blo­guei­ro pro­fis­si­o­nal, mas co­mo es­cri­tor. Es­se é um di­nhei­ro que ga­nho dos meus lei­to­res, em fun­ção dos tex­tos que es­cre­vo. Ser es­cri­tor é is­so.


 
LI­VROS - O QUE VO­CÊ ES­TÁ LEN­DO?

Car­los Ci­pri­a­no

Es­pe­cia­lis­ta em ci­ne­ma

“´No­tas So­bre o Ci­ne­ma­tó­gra­fo´, do di­re­tor fran­cês Ro­bert Bres­son. Quem me apli­cou foi a atriz e di­re­to­ra He­le­na Ig­nez e te­nho mui­to a agra­de­cer pe­la in­di­ca­ção, por­que o li­vro con­fir­ma vá­ri­as das mi­nhas in­tu­i­ções so­bre o fa­zer ci­ne­ma­to­grá­fi­co. Gran­des au­las em no­tas bre­ves. Re­co­men­do.”

Nil­do Vi­a­na

So­ci­ó­lo­go

“Leio o li­vro or­ga­ni­za­do por Gil­son Dan­tas, ´A Es­ta­tís­ti­ca da Mi­sé­ria e a Mi­sé­ria da Es­ta­tís­ti­ca´, no qual se dis­cu­te, en­tre ou­tras coi­sas, o pro­ble­ma das es­ta­tís­ti­cas so­bre po­bre­za no Bra­sil. Tam­bém aca­bei de ler ´Mais Tra­ba­lho!´, de Sa­di Dal Ros­so, so­bre in­ten­si­fi­ca­ção do tra­ba­lho.”


 
PRO­GRA­MA­ÇÃO - CIR­CUI­TO CUL­TU­RAL
Fes­ti­val do Bo­ne­co
 

A Cia Truks (SP) abre a pro­gra­ma­ção do “Fes­ti­val do Bo­ne­co”, no dia 14 de agos­to, no Te­a­tro Go­i­â­nia, com o es­pe­tá­cu­lo adul­to ”Big Bang”, que sa­ti­ri­za a cri­a­ção do uni­ver­so e ques­ti­o­na a na­tu­re­za da exis­tên­cia hu­ma­na. Re­a­li­za­do pe­la Ação Pro­du­to­ra de Even­tos e pe­la Cia de Te­a­tro Nu Es­cu­ro, o “Fes­ti­val do Bo­ne­co” é o pri­mei­ro even­to de­di­ca­do ao Te­a­tro de Ani­ma­ção (Te­a­tro de Bo­ne­cos) em Go­i­ás.

A pro­gra­ma­ção reú­ne seis gru­pos na­ci­o­nais, cin­co lo­ca­is e uma atra­ção in­ter­na­ci­o­nal, tran­si­tan­do tan­to pe­lo ter­ri­tó­rio tra­di­cio­nal da ven­tri­lo­quia quan­to pe­las apro­pria­ções fei­tas pe­la ar­te con­tem­po­râ­nea da mi­le­nar ar­te da ma­ni­pu­la­ção. Pa­ra is­so, o “Fes­ti­val do Bo­ne­co” traz pa­ra Go­i­â­nia me­nes­tréis co­mo Au­gus­to Bo­ne­quei­ro (CE), Chi­co Si­mões (DF) e Gu­to Lust­to­sa (SC), com es­pe­tá­cu­los adul­tos e pa­ra pú­bli­co de to­das as ida­des.

Se­gun­do a di­re­to­ra do “Fes­ti­val do Bo­ne­co”, De­ni­se Car­ri­jo, o pro­je­to sur­ge co­mo uma opor­tu­ni­da­de de des­co­ber­ta e va­lo­ri­za­ção do Te­a­tro de Ani­ma­ção em Go­i­ás. “Ao mes­mo tem­po em que am­plia o cir­cui­to bra­si­lei­ros de exi­bi­ção des­ta lin­gua­gem ar­tís­ti­ca, pro­mo­ve qua­li­fi­ca­ção de ar­tis­tas lo­ca­is e in­ter­câm­bio de in­for­ma­ções”, res­sal­ta De­ni­se, que con­ta com a atriz, di­re­to­ra e bo­ne­quei­ra Iza­be­la Nas­cen­te (Cia de Te­a­tro Nu Es­cu­ro) na Di­re­ção Ar­tís­ti­ca do fes­ti­val.

Os es­pe­tá­cu­los se­rão apre­sen­ta­dos no Te­a­tro Go­i­â­nia e no Cen­tro Mu­ni­ci­pal de Cul­tu­ra Go­i­â­nia Ou­ro a pre­ços po­pu­la­res. Par­te da pro­gra­ma­ção tam­bém po­de­rá ser vis­ta pe­la ma­nhã e à tar­de, nos par­ques da ci­da­de, on­de a en­tra­da se­rá gra­tui­ta.


 
EN­SAIO
Tra­di­ção e mo­der­ni­da­de em “Mu­lhe­res do Rio”
 

An­tô­nio Jo­sé de Mou­ra fo­ge dos pa­drões con­ven­cio­nais do re­gi­o­na­lis­mo, por res­sal­tar tra­ços do pós-mo­der­nis­mo

MA­RIA RAI­MUN­DA GO­MES - Es­pe­ci­al pa­ra o Jor­nal Op­ção

O li­vro “Mu­lhe­res do Rio”, do es­cri­tor go­i­a­no An­tô­nio Jo­sé de Mou­ra, con­fir­ma a te­se de Afrâ­nio Cou­ti­nho (“A li­te­ra­tu­ra no Bra­sil”, v. 4, p. 238), de­fen­di­da em seu es­tu­do so­bre a in­flu­ên­cia do re­gi­o­nal na for­ma­ção da Li­te­ra­tu­ra Bra­si­lei­ra, ao as­si­na­lar que a nos­sa li­te­ra­tu­ra se re­vi­go­ra sem­pre que fi­ca pró­xi­ma de su­as raí­zes. Cer­ta­men­te a fic­ção de An­tô­nio Jo­sé de Mou­ra tem de­mons­tra­do o seu va­lor ar­tís­ti­co, a for­ça de sua lin­gua­gem, por não ter per­di­do de vis­ta os va­lo­res do chão go­i­a­no já bas­tan­te es­gar­ça­dos em ra­zão da glo­ba­li­za­ção dos cos­tu­mes, im­pin­gi­dos pe­la mí­dia e pe­lo ca­pi­ta­lis­mo.

O nar­ra­dor se me­ta­mor­fo­seia em pei­xe, ser­ta­ne­jo, pes­ca­dor, tu­ris­ta, mo­ra­dor ri­bei­ri­nho do Ara­gu­aia, pu­bli­cis­ta, pa­ra con­tar as pe­ri­pé­cias ocor­ri­das à mar­gem do Rio Ara­gu­aia. Te­mos nes­sas nar­ra­ti­vas o mi­to do bo­to-tu­cu­xi e da ia­ra; o nar­ra­dor é um se­du­tor de mu­lhe­res pe­ri­go­sas, trai­ço­ei­ras, mas há tam­bém guer­rei­ras e fe­mi­nis­tas. A lin­gua­gem, ei­va­da de ero­tis­mo, re­en­via-nos ao ima­gi­ná­rio de que não há pe­ca­do do la­do de bai­xo do Equa­dor. O nar­ra­dor se­duz e en­can­ta os lei­to­res com su­as nar­ra­ti­vas pós-mo­der­nas, pois aqui “tra­di­ção” (mi­tos in­dí­ge­nas e gre­co-la­ti­nos, re­gi­o­na­lis­mo) e “mo­der­ni­da­de” (sá­ti­ra aos pro­ble­mas só­cio-po­lí­ti­cos e am­bien­tais da ci­vi­li­za­ção bra­si­lei­ra) di­a­lo­gam; é o ho­mem da ci­da­de gran­de in­va­din­do o in­te­ri­or de Go­i­ás (Aru­a­nã, Ara­gu­aia) à pro­cu­ra do pa­ra­í­so per­di­do já cons­pur­ca­do pe­los ví­ci­os, cri­mes e pre­con­cei­tos da nos­sa ci­vi­li­za­ção.

Des­tar­te, po­de­mos res­sal­tar nes­se li­vro três con­tos: “Di­na ou va­mos ca­çar tra­ca­já, “Edi­nel­va e o ho­mem que vi­rou pei­xe” e “Ho­nes­ti­na”, en­tre os oi­to con­tos que com­põ­em a obra, por en­ten­der­mos que eles pri­mam não só pe­las des­cri­ções da fau­na e da flo­ra do Rio Ara­gu­aia, co­mo tam­bém pe­las de­nún­cias so­bre a des­tru­i­ção do ecos­sis­te­ma des­se rio. Não dei­xa­re­mos de ana­li­sar os de­mais, po­rém mais pe­lo in­te­res­se da tra­ma, uma vez que o rio ser­vi­rá ape­nas de pi­to­res­co ou de pal­co pa­ra o de­sen­ro­lar do dra­ma do ho­mem ci­ta­di­no.

Re­gi­o­na­lis­mo re­vi­si­ta­do — É sur­pre­en­den­te o fô­le­go da li­te­ra­tu­ra re­gi­o­na­lis­ta en­tre os fic­cio­nis­tas bra­si­lei­ros, em­bo­ra te­nha­mos ho­je, no sé­cu­lo 21, uma li­te­ra­tu­ra pra­ti­ca­men­te vol­ta­da pa­ra os pro­ble­mas do ho­mem no es­pa­ço ur­ba­no, já que o ser­ta­ne­jo mi­grou pa­ra as gran­des ci­da­des. Ain­da as­sim, é pos­sí­vel de­pa­rar-nos com o es­cri­tor re­to­man­do te­mas ou mo­ti­vos re­gi­o­nais, não co­mo os ro­mân­ti­cos que se re­fu­gi­a­vam na na­tu­re­za, pin­tan­do as su­as co­res e im­preg­nan­do-a dos sen­ti­men­tos do ho­mem, pa­ra ali con­tra­ce­nar um ca­sal idí­li­co, co­mo ti­ve­mos em “O Se­mi­na­ris­ta”, de Ber­nar­do Gui­ma­rã­es. Em “Di­na ou va­mos ca­çar tra­ca­já”, pai­ra so­bre a be­le­za do rio a ame­a­ça de des­tru­i­ção dos ho­mens que vêm da ca­pi­tal usu­fru­ir, ou me­lhor, es­go­tar as ri­que­zas da­que­le pa­ra­í­so; e o amor en­tre o ho­mem e a mu­lher es­tá lon­ge da cas­ti­da­de, pois é um amor eró­ti­co, adúl­te­ro e pas­sa­gei­ro co­mo as águas que flu­em. Nes­se con­to o nar­ra­dor bo­to-tu­cu­xi se ga­ba das mu­lhe­res que ele con­quis­tou; tal ga­bo­li­ce re­me­te-nos ao mi­to das nin­fas, em “A ilha dos amo­res”, de “Os lu­sí­a­das”, de Ca­mões. Des­de o mo­men­to em que os eu­ro­peus aqui che­ga­ram, co­mo po­de­mos cer­ti­fi­car-nos em uma an­to­lo­gia de nar­ra­ti­vas es­cri­tas no sé­cu­lo 16, pu­bli­ca­das por Oli­vi­e­ri e Vil­la, em “Cro­nis­tas do Des­co­bri­men­to” (1999), cri­ou-se um mi­to de mu­lhe­res (as ín­di­as) mo­re­nas e gen­tis, pron­tas pa­ra dar mui­to amor. Des­sa for­ma, o con­to “Di­na ou va­mos ca­çar tra­ca­já” exem­pli­fi­ca es­se mi­to:

De to­das guar­do vi­va e ví­vi­da im­pres­são, tal­vez um na­di­nha me­nos de Pal­mi­na, a noi­va do mé­di­co, por­que es­sa mos­tra­va-se in­tei­ra­men­te in­sen­sí­vel aos sor­ti­lé­gios do rio. Pal­mi­na per­ten­cia ao ti­po já-aca­bou-va­mos-que­ri­do, e mor­ria de rai­va por­que me afer­ra­va em per­ma­ne­cer ali, de cos­tas, es­ti­ra­do na areia (...) Nes­ses mo­men­tos, Dja­ni­ra, a son­sa, pre­fe­ria cor­rer pe­la praia, ves­ti­da co­mo nas­ceu, o ven­to en­ro­la­do nos ca­be­los: o ven­to tra­qui­nas do Ara­gu­aia (...) (Mou­ra, 2003, p. 29)

Tam­pou­co es­ses con­tos de An­tô­nio Jo­sé de Mou­ra te­rão se­me­lhan­ça com o re­gi­o­na­lis­mo do Re­a­lis­mo/Na­tu­ra­lis­mo, em que o ho­mem se re­ve­lou sub­ju­ga­do pe­la for­ça es­ma­ga­do­ra da na­tu­re­za, co­mo, por exem­plo, em “Ma­ria Du­sá” (1980), de Lin­dol­fo Ro­cha. Nes­te as con­di­ções cli­má­ti­cas, a se­ca, le­va­ram os ho­mens ao cri­me e as mu­lhe­res à pros­ti­tu­i­ção. Em “Ho­nes­ti­na”, a pros­ti­tu­i­ção e o adul­té­rio são tra­ta­dos de for­ma sa­tí­ri­ca pe­lo nar­ra­dor; re­ve­lam-se fru­to de uma so­ci­e­da­de de­ca­den­te e hi­pó­cri­ta, e não es­tão vin­cu­la­dos à vo­ra­gem ou aos en­can­tos do Ara­gu­aia:

A pu­re­za de san­ti­nhas e san­tar­ro­nas que, de­bai­xo do fo­ci­nho dos ma­ri­dos ou pro­me­ti­dos, aba­na­vam le­ques nos te­a­tros ou mus­si­ta­vam ora­ções na na­ve, pe­ran­te os san­tos, de olho nos aman­tes pa­ra os qua­is, mais tar­de, num vipt-vapt se des­fa­riam da pro­fu­são de ves­tes, a fim de cha­fur­dar a car­ne na car­ne do adul­té­rio, se­me­an­do chi­fres a gra­nel. (Mou­ra, 2003, p. 117)

“Mu­lhe­res do Rio” se dis­tan­cia do re­gi­o­na­lis­mo da es­té­ti­ca do Mo­der­nis­mo, pois não há nes­sa nar­ra­ti­va a pre­o­cu­pa­ção de re­tra­tar a vi­da do ho­mem ri­bei­ri­nho, na­tu­ral das ter­ras do Ara­gu­aia, de mo­do a vi­rem à to­na as ma­ze­las so­fri­das por ele. Há, sim, um de­se­jo do nar­ra­dor-per­so­na­gem de ex­pul­sar os ba­nhis­tas pro­fa­na­do­res do rio-tem­plo e de pre­ser­var o “Be­ro­can” dos pa­cí­fi­cos ca­ra­jás pa­ra o ho­mem e mu­lher sim­ples de co­ra­ção, co­mo pre­sen­ci­a­mos no con­to “Di­na”...:

Des­te la­do, cer­ca de dez qui­lô­me­tros rio abai­xo, Aru­a­nã, por exem­plo, vi­rou uma bos­ta, li­xo de tu­ris­ta? a con­cor­rên­cia é feia e pro­mís­cua: a noi­te en­che os ba­res de be­buns, ma­co­nhei­ros, otá­rios, vi­val­di­nos, zé-ma­nés, ti­pos mal-en­ca­ra­dos? e to­me ex­plo­ra­ção; de dia, a clas­se mé­dia en­tu­lha as prai­as, go­te­jan­do in­ve­ja dos no­vos-ri­cos que pas­sam ao lar­go (...) Bor­ra-bos­tões ri­so­nhos e en­di­nhei­ra­dos da ca­pi­tal, a úni­ca coi­sa que con­se­guem fa­zer é li­gar os mo­to­res tur­bi­na­dos e zu­nir em evo­lu­ções no cam­po lí­qui­do e plá­ci­do do rio (...) (Mou­ra, 2003, p. 26)

Sa­be­mos que es­cri­to­res re­no­ma­dos do Mo­der­nis­mo que se des­ta­ca­ram na fic­ção re­gi­o­na­lis­ta, co­mo, por exem­plo, Jo­sé Amé­ri­co de Al­mei­da, Jo­sé Lins do Re­go, Jor­ge Ama­do, Ber­nar­do Élis, Gui­ma­rã­es Ro­sa, além de ou­tros no­mes ilus­tres que não ci­ta­re­mos pa­ra não nos es­ten­der­mos mui­to, pro­cu­ra­ram não só des­nu­dar a al­ma do ser­ta­ne­jo e de­nun­ci­ar o aban­do­no des­ses vi­ven­tes à pró­pria sor­te, em um ser­tão à mar­gem da lei, co­mo tam­bém re­gis­tra­ram a sua lin­gua­gem oral, ain­da que bu­ri­la­da, é cla­ro, pe­lo tra­ba­lho in­te­lec­tu­al e cri­a­ti­vo do es­cri­tor. Po­rém a obra de An­tô­nio Jo­sé de Mou­ra fo­ge dos pa­drões con­ven­cio­nais do re­gi­o­na­lis­mo do Mo­der­nis­mo, por res­sal­tar tra­ços do pós-mo­der­nis­mo. Há em “Mu­lhe­res do Rio” um amál­ga­ma da nar­ra­ti­va ur­ba­na com a re­gi­o­na­lis­ta, pois a mai­o­ria das per­so­na­gens é tu­ris­ta da ca­pi­tal pas­san­do fé­rias no Ara­gu­aia. É nes­se lu­gar pa­ra­di­sí­a­co que ocor­re­rão as pe­ri­pé­cias e des­cor­ti­nar-se-ão a be­le­za das prai­as e a ri­que­za da fau­na.

Com ba­se nos es­tu­dos dos crí­ti­cos li­te­rá­rios Do­mí­cio Pro­en­ça Fi­lho (“Pós-Mo­der­nis­mo e Li­te­ra­tu­ra”, 1995) e Leyla Per­ro­ne-Moi­sés (“Al­tas Li­te­ra­tu­ras”, 1998), to­ma­mos co­nhe­ci­men­to de que a par­tir dos anos de 1960 hou­ve uma ten­dên­cia pa­ra eli­mi­nar as fron­tei­ras en­tre a ar­te eru­di­ta e po­pu­lar, tor­nan­do-se fre­quen­te a mis­tu­ra de es­ti­los, a pre­sen­ça mar­can­te da in­ter­tex­tu­a­li­da­de e o apro­vei­ta­men­to in­ten­ci­o­nal das obras do pas­sa­do. Des­tar­te, ob­ser­va­mos que o nar­ra­dor-per­so­na­gem em “Mu­lhe­res do Rio” mes­cla vá­rios gê­ne­ros e es­ti­los: do pu­bli­cis­ta, ao fa­zer o dis­cur­so po­lí­ti­co-ide­o­ló­gi­co, ri­di­cu­la­ri­zan­do a es­quer­da or­to­do­xa e agi­tan­do a ban­dei­ra dos de­fen­so­res da na­tu­re­za; dos mass-me­dia, ao fa­zer pas­ti­che de fil­mes de ação ou de se­ri­al kil­ler, em que o pró­prio nar­ra­dor cha­ma-nos a aten­ção pa­ra a no­men­cla­tu­ra; da li­te­ra­tu­ra de cor­del, ao nar­rar o ro­man­ce da “mu­lher do fí­ga­do bran­co”. Es­ta nar­ra­ti­va, por meio de sua lin­gua­gem e te­má­ti­ca, re­por­ta-nos ao uni­ver­so me­di­e­val on­de tu­do era fan­ta­sio­so e so­bre­na­tu­ral, “épo­ca de ca­ça às bru­xas ou fei­ti­cei­ras”, de acor­do com F. Ma­xa­do, em “O Que é Li­te­ra­tu­ra de Cor­del” (1980). Ou­tros­sim, o es­cri­tor faz uso de gí­rias, vo­ca­bu­lá­rio chu­lo, di­ta­do po­pu­lar, ver­sos, mú­si­ca po­pu­lar e re­li­gi­o­sa e len­das in­dí­ge­nas, sem pre­con­cei­tos com os re­gis­tros da lin­gua­gem po­pu­lar.

Lin­da Hut­che­on, em sua “Po­é­ti­ca do Pós-Mo­der­nis­mo” (1991, p. 31), ob­ser­va que a ar­te pós-mo­der­na ata­ca os prin­cí­pios do li­be­ra­lis­mo bur­guês co­mo va­lor, or­dem, con­tro­le e iden­ti­da­de, ques­ti­o­nan­do, por­tan­to, sis­te­mas to­ta­li­za­dos e hi­e­rar­qui­za­dos. As­sim sen­do, ave­ri­gua­mos que o nar­ra­dor-per­so­na­gem da nar­ra­ti­va de An­tô­nio Jo­sé de Mou­ra des­con­fia de uma úni­ca ver­da­de, pois mes­mo que seu dis­cur­so apa­ren­te ser o do ma­cho ou do fa­lo, ou en­tão da mu­lher-vi­ra­go, a sá­ti­ra e a iro­nia, que per­pas­sam o seu dis­cur­so, des­mis­ti­fi­cam-no. Por is­so, o dis­cur­so de de­fe­sa da hon­ra do ma­cho e a va­len­tia do per­so­na­gem-nar­ra­dor em “Ho­nes­ti­na” re­ves­tir-se-ão do ri­dí­cu­lo, da pan­to­mi­ma; são va­lo­res so­ci­ais que ca­du­ca­ram.

O nar­ra­dor bo­to-tu­cu­xi — O nar­ra­dor, ao es­tam­par um pe­da­ço do pa­ra­í­so, as prai­as do Ara­gu­aia, faz des­se ce­ná­rio um lo­cal pa­ra o em­ba­te de du­as for­ças an­ta­gô­ni­cas: eros e tá­na­tos; pri­mi­ti­vis­mo e ci­vi­li­za­ção. O Ara­gu­aia é per­so­ni­fi­ca­do co­mo mu­lher; e em seu cor­po na­ve­ga o nar­ra­dor mas­ca­ra­do de bo­to, pes­ca­dor, tu­ris­ta, mo­ra­dor ri­bei­ri­nho, dom ju­an e es­cri­tor pu­bli­cis­ta. Es­te úl­ti­mo é um ter­mo uti­li­za­do por Bakhtin, em “Pro­ble­mas da Po­é­ti­ca de Dos­toi­evski” (1997, p. 118-119). Ao es­tu­dar a pre­sen­ça de tra­ços da me­ni­péia e da car­na­va­li­za­ção no ro­man­ce, se­gun­do es­se crí­ti­co, o es­cri­tor pu­bli­cis­ta e ide­ó­lo­go bus­ca ex­pe­ri­men­tar a ver­da­de, en­fo­can­do em tom mor­daz a atu­a­li­da­de ide­o­ló­gi­ca e pers­cru­tan­do as no­vas ten­dên­cias da evo­lu­ção do co­ti­dia­no. Po­de-se apon­tar es­sas ca­rac­te­rís­ti­cas no dis­cur­so do nar­ra­dor, o pes­ca­dor mes­tre As­drú­bal, em “Di­na ou va­mos ca­çar tra­ca­já”; do mo­ra­dor em Aru­a­nã, Rol­di­nho, em “Ho­nes­ti­na”, ou ain­da do pro­fes­sor apo­sen­ta­do que vi­rou fa­zen­dei­ro em Aru­a­nã, em “Edi­nel­va ou o ho­mem que vi­rou pei­xe”. Es­se nar­ra­dor pu­bli­cis­ta, dis­far­ça­do em vá­ri­as per­so­na­gens, de­nun­cia de ma­nei­ra con­tun­den­te as agres­sões ao meio-am­bi­en­te, va­len­do-se até mes­mo de xin­ga­men­tos, por não con­ter sua ira. Ri­di­cu­la­ri­za a ideia de mo­di­fi­car o cur­so das águas do Ara­gu­aia pa­ra trans­for­má-lo em um rio na­ve­gá­vel por gran­des em­bar­ca­ções, em sua nar­ra­ti­va “Ho­nes­ti­na”:

(...) cum­pre re­co­nhe­cer que era e é im­pos­sí­vel lan­çar aque­las es­pé­ci­es de edi­fí­ci­os des­co­mu­nais que são os na­vi­os den­tro do cor­po mo­le, mo­li­fi­can­te e do­ce do Ara­gu­aia. Por quê? Ora, por cau­sa de ob­stá­cu­los co­mo a po­ro­si­da­de do chão are­no­so em cu­jo in­te­ri­or a na­tu­re­za ins­ta­lou es­pon­jas fe­no­me­nais e in­sa­ci­á­veis que na se­ca con­ver­tem um bom tre­cho do va­le em de­ser­to, tor­nan­do in­cons­tan­tes as águas, in­clu­si­ve dos aflu­en­tes, em qual­quer es­ta­ção. Por con­se­guin­te, pos­su­í­mos as em­bar­ca­ções que me­re­ce­mos, ex­ce­to as lan­chas vo­a­dei­ras e po­lui­do­ras dos exi­bi­cio­nis­tas do as­fal­to. (Mou­ra, 2003, p. 112)

É no­tá­vel co­mo o nar­ra­dor en­car­nou a len­da do bo­to tu­cu­xi, que à noi­te cos­tu­ma se trans­for­mar em um ra­paz se­du­tor; há em to­dos es­ses con­tos uma per­so­na­gem mas­cu­li­na com um po­der de se­du­ção ir­re­sis­tí­vel, afo­ra o con­to “Vir­gí­nia”. Nes­te o nar­ra­dor-bo­to não ob­te­ve as pri­mí­cias de sua con­quis­ta; a mu­sa não se dei­xou en­can­tar. Po­de-se en­tre­ver nes­sa ima­gem de dom ju­an a me­tá­fo­ra do es­cri­tor fe­cun­dan­do a nar­ra­ti­va-mu­lher; ou até mes­mo a me­tá­fo­ra da re­cep­ção crí­ti­ca da obra. O nar­ra­dor é tam­bém a di­vin­da­de Baí­ra, mi­to dos ín­di­os cau­ai­ua-pa­rin­tin­tins, con­for­me Nu­nes Pe­rei­ra (“Mo­ron­guê­tá”, v.2, p. 553), pois é um cri­a­dor de per­so­na­gens fe­mi­ni­nas: Di­na, Vir­gí­nia, Prin­ce­sa, Ola­lin­da, He­le­na, Ho­nes­ti­na, Edi­nel­va e Ma­gri­nha.

MA­RIA RAI­MUN­DA GO­MES é dou­to­ra em Te­o­ria Li­te­rá­ria.


 
MI­NI­CON­TO - CLA­RA DAWN
O tí­tu­lo não es­tá in­clu­so
 

— Eu que­ro es­cre­ver pa­ra o jor­nal.

— Es­cre­ver o quê?

— Con­tos, uai!

— Es­cre­ve en­tão, mas tem que ca­ber nes­te re­tân­gu­lo aqui.

— Co­mo as­sim? Nes­te re­tân­gu­lo ai?

— Aqui ó. On­de só ca­bem dois mil ca­rac­te­res.

— Vi­xe Ma­ria! Co­mo é que eu vou con­tar uma his­tó­ria tão cur­ti­nha as­sim?

— Sei lá... es­cri­to­ra aqui é vo­cê, eu sou ape­nas os ca­rac­te­res do seu com­pu­ta­dor.

— En­tão eu te­nho que cri­ar um cau­so de no má­xi­mo du­as mil le­tras?

— Não, se­nho­ra! Dois mil Ca­rac­te­res.

— Num dá na mes­ma?

— Dá, não!

— Não tô en­ten­den­do.

— Le­tra é a par­te es­cri­ta no es­pa­ço em bran­co da fo­lha. Aos ca­rac­te­res são so­ma­dos tam­bém os es­pa­ços en­tre uma pa­la­vra e ou­tra.

— Ago­ra é que a va­ca vai pro bre­jo mes­mo. Quer di­zer que eu te­nho que fa­zer uma re­da­ção: co­e­são, co­e­rên­cia, iní­cio, clí­max e fim. Tu­do is­so den­tro des­te re­tân­gu­lo que só ca­be du­as mil te­cla­das?

— Is­so mes­mo. Quan­do é que vo­cê vai co­me­çar?

— Ué, ago­ri­nha mes­mo.

— Pois en­tão an­de lo­go, que vo­cê já gas­tou 940 ca­rac­te­res.

— Mas, vo­cê já es­ta­va con­tan­do?

— Ló­gi­co. Vo­cê faz mui­tas per­gun­tas. Es­que­ça is­so e co­me­ce a cri­ar uma bo­ni­ta his­tó­ria de amor, um épi­co, um cli­chê ur­ba­no ou uma fá­bu­la. Se­ja o que for, fa­ça ime­di­a­ta­men­te.

— Tu­do bem va­mos lá: Ad­ven­to do na­tal. Seu Jus­ti­no olha fi­xa­men­te no gran­de re­ló­gio de pa­re­de. De­zoi­to ho­ras. Seu úni­co fi­lho saí­ra de sua ca­sa pa­ra ten­tar a vi­da em Lon­dres, ha­via trin­ta anos...

— Tem cer­te­za que não dá pra re­su­mir is­so? Apren­da co­mi­go: Seu Jus­ti­no es­ta­va à es­pe­ra do fi­lho que che­ga­ria de Lon­dres pa­ra o na­tal. Sim­ples as­sim!

— Mas, te­nho que co­lo­car emo­ção, le­ve­za, sus­pen­se e um fi­nal ines­pe­ra­do. Co­mo vou trans­mi­tir a ago­nia da es­pe­ra de Jus­ti­no pe­lo fi­lho?

— Is­so é pro­ble­ma seu. Res­tam-lhe 370 ca­rac­te­res. Con­ti­nue:

— Seu Jus­ti­no ou­viu o to­que me­tá­li­co do apa­re­lho de te­le­fo­ne, que jaz na­que­la sa­la, on­de ou­tro­ra era cheia de ri­sos. Ho­je, no en­tan­to, o seu bai­xo vo­lu­me eco­a­va por to­dos os can­tos da ca­sa co­mo se...

— Sin­to in­for­ma-lhe es­cri­to­ra, mas res­tam-lhe ape­nas do­ze ca­rac­te­res sem es­pa­ço. O que vai di­zer?

— Fi­lho­da­pu­ta

CLA­RA DAWN é es­cri­to­ra.


 
LAN­ÇA­MEN­TOS - LI­VROS, CDS E DVDS

O CONVIDADO SURPRESA
Grégoire Bouillier
Edi­to­ra: Cosac Naify
Pre­ço: 39,00 re­ais.
A trama começa quando, numa tarde fria de domingo, o telefone acorda o autor-narrador e ele reconhece a voz da mulher que o abandonou cinco anos antes sem nenhuma explicação. Ela o convida para o aniversário de uma amiga que costuma celebrar a data chamando para a festa o número de pessoas correspondentes à sua idade e mais um, o convidado surpresa. Bouillier é o convidado surpresa da vez.

AVÓDEZANOVE E O SEGREDO DO SOVIÉTICO
Ondjaki
Edi­to­ra: Com­pa­nhia das Le­tras
Pre­ço: 36,00 re­ais.
“AvóDesanove e o Segredo do Soviético”, do jovem escritor angolano Ondjaki, conta a história da construção de um mausoléu, por parte dos soviéticos, na cidade de Luanda. Narrada por um menino que assiste intrigado à presença dos soldados estrangeiros, a trama aos poucos transforma a tranquila Praia do Bispo em um lugar repleto de mistérios, sob a ameaça de que os moradores do lugar serão desalojados.

SÉRIE PIXINGUINHA ( BOX COM 3 CDS)
Pixinguinha
Gra­va­do­ra: Rob Digital
Pre­ço: 89,90 re­ais.
Nas 36 músicas selecionadas para a “Série Pixinguinha”, estão preciosidades que revelam o amplo olhar de Pixinguinha sobre a diversidade musical brasileira. O resultado pode ser conferido nos “CDs Pixinguinha no Cinema”, “Pixinguinha Sinfônico Popular” e “Pixinguinha Sinfônico”. Os arranjos sinfônicos foram escritos entre os anos 1920 e 1950, a maioria deles criados para execução das orquestras das rádios do período.

MUSTANG BAR
Stela Campos
Gra­va­do­ra: Edição da autora
Pre­ço: 20,00 re­ais.
“Mustang Bar” é o quarto álbum solo da cantora paulista Stela Campos. O trabalho traz uma mistura de rock, indie, folk e pop francês. As músicas são cantadas em português, como no primeiro single do álbum “Laura te espera com uma arma na mão”, em inglês, como “Wasting my time”, que contém um característico piano, e também em francês, em “Lê captaine”, uma das músicas mais envolventes do CD.

KES
Di­re­ção: Ken Loach
Dis­tri­bui­ção: Lu­me Pro­du­ções
Pre­ço: 39,90 re­ais.
Um dos primeiros filmes da carreira do diretor Ken Loach, “Kes” conta a história de um menino que vive em bairro pobre da cidade que, violentado em casa e ridicularizado na escola, acha uma forma de abstrair de sua dura realidade treinando um falcão. Obra de formação do cineasta Ken Loach.

SENTADO À SUA DIREITA
Di­re­ção: Valerio Zurlini
Dis­tri­bui­ção: Versátil
Pre­ço: 37,50 re­ais.
Livre adaptação cinematográfica da biografia do político africano Patrice Lumumba, líder nacionalista que se tornou primeiro-ministro do Congo entre junho e setembro de 1960. No filme, Lumumba recebe o nome de Lalubi. Com a aparência de um Cristo negro, ele luta contra os regimes ditatoriais impostos pelos colonizadores belgas mas acaba preso.



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