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| Opção Cultural |
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| Quanto vale ou é por quilo? |
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Liberal, libertário e libertino. O escritor carioca Alex Castro fala sobre mercado editorial, literatura e internet. Nem José Saramago escapa
TÚLIO MOREIRA ROCHA - Especial para o Jornal Opção
O escritor Alex Castro bolou um esquema incomum para o lançamento da edição impressa de seu primeiro romance, “Mulher de Um Homem Só”. Carioca, residindo atualmente em Nova Orleans, Estados Unidos, Alex fez uma campanha na internet para convencer leitores a comprar exemplares do livro, ao preço mínimo de R$ 24,40. A maioria dos investidores deu lances acima do valor inicial, garantindo a publicação da obra. Em três semanas de pré-venda, o escritor conseguiu vender 117 exemplares, ao preço médio de R$ 33,90.
O romance de Alex já havia causado boa recepção quando publicado na internet. Aliás, o autor tem uma relação de sucesso com o mundo virtual. O blog “Liberal Libertário Libertino” (www.interney.net/blogs/lll) conquistou seguidores fiéis. O espaço, “anárquico” na definição do blogueiro, revela um criador ágil e multifacetado, atento e ousado. Para quem se interessou, é possível adquirir um exemplar do novo livro de Alex por meio do blog.
Em entrevista ao Jornal Opção, Alex Castro afirma que a mágica de escrever um romance é poder sair um pouco de si e entrar no corpo de outra pessoa. O escritor também endossa o coro dos que acham José Saramago um chato e comenta sobre um de seus projetos vindouros, uma obra sobre sua intensa relação com a cidade do Rio de Janeiro. Confira.
Jornal Opção — Apesar da propagação dos chamados e-books na internet, viabilizados pela facilidade de distribuição e baixos custos, você ainda acha importante publicar “à moda antiga”, no papel?
Alex Castro — Não acho, não. Não vejo a menor graça no objeto livro. É uma coisa pesada, difícil de carregar, difícil de manter, que junta bicho, fede, dá mofo, essas coisas. Eu adoro literatura e adoro o conteúdo dos meus livros, mas não papel em si. O problema é que ainda estamos na Era do Papel. No final dela, mas ainda nela. As pessoas tendem a confundir papel com literatura, o que é meio ridículo. Papel é apenas o suporte. Uma poesia de Whitman é tão literatura se estiver no papel, numa tela de computador, escrita num guardanapo, num livro em áudio, grafitada numa parede, etc. Quando inventarem um outro suporte, mais barato, mais leve, que dê pra ler num parque num dia de sol, que dê pra marcar e sublinhar, e estamos quase lá, então os livros vão se tornar como os cavalos hoje: não vão sumir, mas também não vão ser uma opção de massa. Serão lidos e cavalgados somente pelos mais entusiastas.
Jornal Opção — Você se vê inserido no cenário da “literatura independente” brasileira? Quais são as barreiras e dificuldades para os autores que se propõem a escrever assim?
Alex Castro — Eu nunca me propus a escrever literatura independente. Eu me propus só a escrever literatura. Também não tenho fetiche por literatura independente. Se o Schwarcz (Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras) me ligar amanhã dizendo que me quer na editora dele, a única questão vai ser negociar o preço. O problema é o tal mercado editorial intransponível. A própria Companhia das Letras, li em algum lugar, afirmou que mantém um time de leitores pra ler os manuscritos submetidos, mas que nunca, nem uma única vez, publicou um livro que foi mandado assim na cara dura. Todos os livros que publicou vieram recomendados ou encomendados. Aí você vê que, verdadeira ou não, a história é emblemática. Se os caras nunca publicaram nenhum, o problema é provavelmente mais deles que dos autores, por um motivo simples. A Companhia é uma das maiores e mais prestigiadas editoras do Brasil. Provavelmente, muita gente que acabou saindo por outras editoras (e fazendo sucesso) também mandou seu livrinho na cara e na coragem para a Cia. das Letras, e nada. Será que eram mesmo livros tão ruins assim? Todos?
Jornal Opção — Você acredita que “livro é pra circular”. Qual é o tipo de leitor ideal para você? Como o leitor deve exercer o papel de propagador da obra literária?
Alex Castro — O meu leitor ideal não mantém uma estante cheia de livros que ele nunca mais vai abrir, como se fosse um caçador mostrando seus troféus: “Olha o antílope que eu cacei! Olha o ‘Kuarup’ que eu li!” Acho muito esnobismo. Se já leu o livro e não vai ler de novo, passe adiante. Venda para um sebo. Doe para a biblioteca. Passe na universidade federal mais próxima e distribua entre os estudantes mortos de fome. Não deixe eles mofando entre os seus “troféus”.
O meu leitor ideal sabe também que sua relação com um autor vivo pode e deve ser interativa: ele pode interpelar o autor, interferir na obra, fazer ou destruir sua reputação. Não é a mesma relação que teria, digamos, com “Dom Casmurro” ou “Moby Dick”. Quando gosto do livro novo de alguém assim, eu faço post, escrevo no blog, conto pra todo mundo, dou o livro de presente, empresto, faço um escarcéu e uma divulgação muito maior do que faria se descobrisse um escritor morto e enterrado, porque sei que o autor precisa desse boca-a-boca pra existir. Ao mesmo tempo, quando odeio o livro de um autor vivo, eu fico calado e me autocensuro muito mais do que no caso de um autor morto, que não está aí pra chorar de tristeza ou, pior, vir na minha porta me bater. Para que vou falar algo pra magoar um menino que está começando e cujo único pecado é ser incompetente e inábil? Eu sei que tenho liberdade de expressão. Eu sei que quem sai na chuva é pra se molhar. Sei que posso, mas, mesmo assim, não me sinto bem escrevendo algo que sei que vai fazer mal a alguém.
Jornal Opção – Seu livro esteve disponível na internet para baixar até 2006, fazendo sucesso entre os internautas. Com o lançamento da versão “física”, você acha que a recepção de público e crítica pode ser diferente, comparada à versão digital?
Alex Castro — O livro teve uma recepção muito boa na internet, foi resenhado dezenas de vezes e obteve muito feedback. Via de regra, as leitoras se empolgaram mais do que os homens, a maioria se viu muito na personagem da narradora, a Carla. Não vejo porque a reação off line seria diferente. Minha grande esperança é poder atingir um público que não está na internet, que não teria acesso ao livro de outro jeito.
Jornal Opção – Fale um pouco sobre a sua formação cultural. Quais autores fizeram sua cabeça? Em que contexto você se interessou pela literatura?
Alex Castro — Sempre me interessei por literatura, mas nasci numa casa antiliterata, com poucos livros, e os poucos eram best-sellers, policiais, essas coisas. Tínhamos uma coleção da Britannica Great Books, o cânone do cânone, e me formei lendo esses livros, os grandes clássicos universais. Não tenho muitos autores que me formaram, não, porque sempre li muito, e desordenadamente, então, a graça é justamente ler muito, demais, sacudir aquilo tudo na cabeça e ver o que sai. Um escritor precisa ler muito por um único motivo: para saber o que já foi feito. Para não repetir livros velhos. Para ser capaz de detectar quando está inconscientemente roubando a voz de alguém. Essas coisas. Uma influência mais negativa do que positiva mesmo. Por exemplo, essa nova geração só repete Rubem Fonseca até hoje porque não leu o suficiente para saber como seus livros são repetitivos e velhos.
Jornal Opção — Conte sobre o futuro. O que você está arquitetando?
Alex Castro — Atualmente, estou trabalhando em um romance chamado “Empregadas & Escravos”, tentando falar, de forma ficcional e não-esquemática, sobre essas nossas relações de poder tão ingratas. Já estou bem avançado nele. Além disso, como carioca expatriado, também tenho um projeto bem desenvolvido na minha cabeça de escrever um romance sobre toda essa questão de “sair do Rio”. O título de trabalho é “Rio Cidade Aberta” e a narrativa faria um paralelo com a “Eneida”, com aquele momento terrível em que Tróia está desmoronando, Enéias não quer sair mas acaba sendo obrigado a abandonar a cidade. A história se passaria em três momentos: 1711, quando a cidade foi tomada pelos franceses e a população, mesmo querendo lutar, foi obrigada a evacuar a cidade sob uma chuva torrencial; 1893, quando a nossa própria Armada começou a bombardear nossa própria capital, muitos moradores abandonaram a cidade em pânico e a situação só se resolveu quando o Rio foi declarado “cidade aberta”; e 2002/2003, quando por duas vezes Fernandinho Beira-Mar fechou o comércio e as escolas do Rio, a primeira vez que uma ação criminosa afetou a cidade como um todo.
Ao longo de todas essas épocas e situações, as questões serão basicamente as mesmas: vale a pena ficar no Rio e lutar pela cidade? Quando é a hora certa de sair? Existe isso de hora certa de sair? Eu amo o Rio obsessivamente, mas saí da cidade faz quatro anos. Ainda assim mantenho um apartamento lá e passo cerca de cinco meses por ano no Rio, então eu moro e não moro, saí e não saí. É uma posição que me permite, ao mesmo tempo, ver a cidade de fora e de dentro.
Jornal Opção —Como você utiliza seu blog para apresentar suas ideias e criações?
Alex Castro — O blog acaba se tornando o espaço do Alex-pessoa-física, em oposição ao Alex-escritor-de-ficção. No blog, exponho minha vida real, minhas opiniões, quem eu sou. Já a ficção é o mundo de ser outras pessoas, viver outras vidas. Nesse ponto, a grande função do blog, em relação aos meus livros, acaba sendo criar um grupo cativo de leitores que gosta do que eu escrevo e que se interesse em conhecer a ficção também. O único problema é que chegam na ficção procurando o Alex do blog, que é uma persona exuberante e polêmica, e ele está lá muito escondidinho, caladinho, deixando dar espaço para os personagens crescerem e encontrarem suas próprias vozes.
Não entendo esses autores que sempre escrevem sobre si mesmos, cujos protagonistas sempre são alter-egos disfarçados, cujos enredos são sempre baseados em coisas que lhes aconteceram. A mágica da ficção é justamente poder ser outra pessoa. Que graça teria escrever um romance sobre mim mesmo e sobre minha própria vida? Eu já me conheço, ora bolas. Já vivo comigo o tempo todo. Já vivo a minha vida o dia inteiro. Em “Mulher de um Homem Só”, eu, homem, ateu, libertário, artista, solteiro, sem filhos, poliamoroso, quis me metamorfosear em uma mulher, conservadora, casada, dentista, mãe, católica, ciumenta. Quem é essa pessoa? Como ela pensa? De que maneira reage às situações? Para mim, a mágica do romance é justamente esse processo de descoberta do outro. De sair um pouco de mim mesmo e de entrar no corpo de uma nova pessoa.
Jornal Opção —Recentemente, o jornalista Luís Antônio Giron, da revista “Época”, afirmou que a blogosfera se tornou o “paraíso dos chatos”, à exceção de blogueiros como José Saramago, citado pelo jornalista. Seu blog tem como lema “Rebeldia, contemplação e muita sacanagem. Um blog pra falar de liberdade e literatura.” Como conquistar espaço num lugar tão “anarquizado” como a blogosfera?
Alex Castro — Nunca imaginei que iria ver as palavras “Saramago” e “chato” na mesma frase sem ser para dizer que ele é o rei absoluto dos chatos. Sensacional. Tem mesmo gosto pra tudo. O Saramago é bom ficcionista, mas seu blog é chato, suas opiniões são chatas, ele é uma pessoa chata. Saramago se tornou aquele típico ancião ranzinza que reclama de tudo que é novo e que ele não compreende direito. Apesar de tudo, existe um mérito de ele fazer essas reclamações em um blog (ou seja, ele entrou para ver como é), ao contrário de tantos outros velhos ilustres que reclamam de tudo sem nem saber sobre o que estão falando.
O blog tem sido um sucesso, ainda mais que ele é de fato totalmente anárquico. Não tem pauta, não tem tema, segue a esmo minhas obsessões. Via de regra, o blog fica travado em um assunto enquanto eu estou mentalmente travado nele, e quando mudo de interesse, o blog muda de tema, e assim vai indo. Invariavelmente, os leitores reclamam: “se ficar falando só de casamento aberto/racismo/teatro/etc, você vai espantar todo mundo, daqui a pouco ninguém mais te lê!”, mas não percebem que a graça de um blog é justamente não ter pauta, é justamente eu poder falar do que quiser, sem rédeas, sem editor, sem manual de redação.
Então, enfim, para um blog tão caprichoso e nada focado, é impressionante o seu sucesso, ainda que bastante limitado. Hoje, o blog paga o aluguel do apartamento que mantenho no Rio, ou seja, me permite manter uma presença na cidade que amo tanto, e só por isso eu já seria grato a ele. Na prática, o blog me permitiu realizar algo que sempre sonhei: viver de escrever. Em 2005, quando saí do Rio, eu dava aulas o mês todo em uma escola e ganhava mais ou menos o que o blog me rende hoje. Isso é muito gratificante. Não me vejo como blogueiro profissional, mas como escritor. Esse é um dinheiro que ganho dos meus leitores, em função dos textos que escrevo. Ser escritor é isso.
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LIVROS - O QUE
VOCÊ
ESTÁ
LENDO? |
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Carlos Cipriano
Especialista em cinema
“´Notas Sobre o Cinematógrafo´, do diretor francês Robert Bresson. Quem me aplicou foi a atriz e diretora Helena Ignez e tenho muito a agradecer pela indicação, porque o livro confirma várias das minhas intuições sobre o fazer cinematográfico. Grandes aulas em notas breves. Recomendo.”
Nildo Viana
Sociólogo
“Leio o livro organizado por Gilson Dantas, ´A Estatística da Miséria e a Miséria da Estatística´, no qual se discute, entre outras coisas, o problema das estatísticas sobre pobreza no Brasil. Também acabei de ler ´Mais Trabalho!´, de Sadi Dal Rosso, sobre intensificação do trabalho.”
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PROGRAMAÇÃO - CIRCUITO CULTURAL |
| Festival do Boneco |
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A Cia Truks (SP) abre a programação do “Festival do Boneco”, no dia 14 de agosto, no Teatro Goiânia, com o espetáculo adulto ”Big Bang”, que satiriza a criação do universo e questiona a natureza da existência humana. Realizado pela Ação Produtora de Eventos e pela Cia de Teatro Nu Escuro, o “Festival do Boneco” é o primeiro evento dedicado ao Teatro de Animação (Teatro de Bonecos) em Goiás.
A programação reúne seis grupos nacionais, cinco locais e uma atração internacional, transitando tanto pelo território tradicional da ventriloquia quanto pelas apropriações feitas pela arte contemporânea da milenar arte da manipulação. Para isso, o “Festival do Boneco” traz para Goiânia menestréis como Augusto Bonequeiro (CE), Chico Simões (DF) e Guto Lusttosa (SC), com espetáculos adultos e para público de todas as idades.
Segundo a diretora do “Festival do Boneco”, Denise Carrijo, o projeto surge como uma oportunidade de descoberta e valorização do Teatro de Animação em Goiás. “Ao mesmo tempo em que amplia o circuito brasileiros de exibição desta linguagem artística, promove qualificação de artistas locais e intercâmbio de informações”, ressalta Denise, que conta com a atriz, diretora e bonequeira Izabela Nascente (Cia de Teatro Nu Escuro) na Direção Artística do festival.
Os espetáculos serão apresentados no Teatro Goiânia e no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro a preços populares. Parte da programação também poderá ser vista pela manhã e à tarde, nos parques da cidade, onde a entrada será gratuita.
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| Tradição e modernidade
em “Mulheres do Rio” |
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Antônio José de Moura foge dos padrões convencionais do regionalismo, por ressaltar traços do pós-modernismo
MARIA RAIMUNDA GOMES - Especial para o Jornal Opção
O livro “Mulheres do Rio”, do escritor goiano Antônio José de Moura, confirma a tese de Afrânio Coutinho (“A literatura no Brasil”, v. 4, p. 238), defendida em seu estudo sobre a influência do regional na formação da Literatura Brasileira, ao assinalar que a nossa literatura se revigora sempre que fica próxima de suas raízes. Certamente a ficção de Antônio José de Moura tem demonstrado o seu valor artístico, a força de sua linguagem, por não ter perdido de vista os valores do chão goiano já bastante esgarçados em razão da globalização dos costumes, impingidos pela mídia e pelo capitalismo.
O narrador se metamorfoseia em peixe, sertanejo, pescador, turista, morador ribeirinho do Araguaia, publicista, para contar as peripécias ocorridas à margem do Rio Araguaia. Temos nessas narrativas o mito do boto-tucuxi e da iara; o narrador é um sedutor de mulheres perigosas, traiçoeiras, mas há também guerreiras e feministas. A linguagem, eivada de erotismo, reenvia-nos ao imaginário de que não há pecado do lado de baixo do Equador. O narrador seduz e encanta os leitores com suas narrativas pós-modernas, pois aqui “tradição” (mitos indígenas e greco-latinos, regionalismo) e “modernidade” (sátira aos problemas sócio-políticos e ambientais da civilização brasileira) dialogam; é o homem da cidade grande invadindo o interior de Goiás (Aruanã, Araguaia) à procura do paraíso perdido já conspurcado pelos vícios, crimes e preconceitos da nossa civilização.
Destarte, podemos ressaltar nesse livro três contos: “Dina ou vamos caçar tracajá, “Edinelva e o homem que virou peixe” e “Honestina”, entre os oito contos que compõem a obra, por entendermos que eles primam não só pelas descrições da fauna e da flora do Rio Araguaia, como também pelas denúncias sobre a destruição do ecossistema desse rio. Não deixaremos de analisar os demais, porém mais pelo interesse da trama, uma vez que o rio servirá apenas de pitoresco ou de palco para o desenrolar do drama do homem citadino.
Regionalismo revisitado — É surpreendente o fôlego da literatura regionalista entre os ficcionistas brasileiros, embora tenhamos hoje, no século 21, uma literatura praticamente voltada para os problemas do homem no espaço urbano, já que o sertanejo migrou para as grandes cidades. Ainda assim, é possível deparar-nos com o escritor retomando temas ou motivos regionais, não como os românticos que se refugiavam na natureza, pintando as suas cores e impregnando-a dos sentimentos do homem, para ali contracenar um casal idílico, como tivemos em “O Seminarista”, de Bernardo Guimarães. Em “Dina ou vamos caçar tracajá”, paira sobre a beleza do rio a ameaça de destruição dos homens que vêm da capital usufruir, ou melhor, esgotar as riquezas daquele paraíso; e o amor entre o homem e a mulher está longe da castidade, pois é um amor erótico, adúltero e passageiro como as águas que fluem. Nesse conto o narrador boto-tucuxi se gaba das mulheres que ele conquistou; tal gabolice remete-nos ao mito das ninfas, em “A ilha dos amores”, de “Os lusíadas”, de Camões. Desde o momento em que os europeus aqui chegaram, como podemos certificar-nos em uma antologia de narrativas escritas no século 16, publicadas por Olivieri e Villa, em “Cronistas do Descobrimento” (1999), criou-se um mito de mulheres (as índias) morenas e gentis, prontas para dar muito amor. Dessa forma, o conto “Dina ou vamos caçar tracajá” exemplifica esse mito:
De todas guardo viva e vívida impressão, talvez um nadinha menos de Palmina, a noiva do médico, porque essa mostrava-se inteiramente insensível aos sortilégios do rio. Palmina pertencia ao tipo já-acabou-vamos-querido, e morria de raiva porque me aferrava em permanecer ali, de costas, estirado na areia (...) Nesses momentos, Djanira, a sonsa, preferia correr pela praia, vestida como nasceu, o vento enrolado nos cabelos: o vento traquinas do Araguaia (...) (Moura, 2003, p. 29)
Tampouco esses contos de Antônio José de Moura terão semelhança com o regionalismo do Realismo/Naturalismo, em que o homem se revelou subjugado pela força esmagadora da natureza, como, por exemplo, em “Maria Dusá” (1980), de Lindolfo Rocha. Neste as condições climáticas, a seca, levaram os homens ao crime e as mulheres à prostituição. Em “Honestina”, a prostituição e o adultério são tratados de forma satírica pelo narrador; revelam-se fruto de uma sociedade decadente e hipócrita, e não estão vinculados à voragem ou aos encantos do Araguaia:
A pureza de santinhas e santarronas que, debaixo do focinho dos maridos ou prometidos, abanavam leques nos teatros ou mussitavam orações na nave, perante os santos, de olho nos amantes para os quais, mais tarde, num vipt-vapt se desfariam da profusão de vestes, a fim de chafurdar a carne na carne do adultério, semeando chifres a granel. (Moura, 2003, p. 117)
“Mulheres do Rio” se distancia do regionalismo da estética do Modernismo, pois não há nessa narrativa a preocupação de retratar a vida do homem ribeirinho, natural das terras do Araguaia, de modo a virem à tona as mazelas sofridas por ele. Há, sim, um desejo do narrador-personagem de expulsar os banhistas profanadores do rio-templo e de preservar o “Berocan” dos pacíficos carajás para o homem e mulher simples de coração, como presenciamos no conto “Dina”...:
Deste lado, cerca de dez quilômetros rio abaixo, Aruanã, por exemplo, virou uma bosta, lixo de turista? a concorrência é feia e promíscua: a noite enche os bares de bebuns, maconheiros, otários, vivaldinos, zé-manés, tipos mal-encarados? e tome exploração; de dia, a classe média entulha as praias, gotejando inveja dos novos-ricos que passam ao largo (...) Borra-bostões risonhos e endinheirados da capital, a única coisa que conseguem fazer é ligar os motores turbinados e zunir em evoluções no campo líquido e plácido do rio (...) (Moura, 2003, p. 26)
Sabemos que escritores renomados do Modernismo que se destacaram na ficção regionalista, como, por exemplo, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Jorge Amado, Bernardo Élis, Guimarães Rosa, além de outros nomes ilustres que não citaremos para não nos estendermos muito, procuraram não só desnudar a alma do sertanejo e denunciar o abandono desses viventes à própria sorte, em um sertão à margem da lei, como também registraram a sua linguagem oral, ainda que burilada, é claro, pelo trabalho intelectual e criativo do escritor. Porém a obra de Antônio José de Moura foge dos padrões convencionais do regionalismo do Modernismo, por ressaltar traços do pós-modernismo. Há em “Mulheres do Rio” um amálgama da narrativa urbana com a regionalista, pois a maioria das personagens é turista da capital passando férias no Araguaia. É nesse lugar paradisíaco que ocorrerão as peripécias e descortinar-se-ão a beleza das praias e a riqueza da fauna.
Com base nos estudos dos críticos literários Domício Proença Filho (“Pós-Modernismo e Literatura”, 1995) e Leyla Perrone-Moisés (“Altas Literaturas”, 1998), tomamos conhecimento de que a partir dos anos de 1960 houve uma tendência para eliminar as fronteiras entre a arte erudita e popular, tornando-se frequente a mistura de estilos, a presença marcante da intertextualidade e o aproveitamento intencional das obras do passado. Destarte, observamos que o narrador-personagem em “Mulheres do Rio” mescla vários gêneros e estilos: do publicista, ao fazer o discurso político-ideológico, ridicularizando a esquerda ortodoxa e agitando a bandeira dos defensores da natureza; dos mass-media, ao fazer pastiche de filmes de ação ou de serial killer, em que o próprio narrador chama-nos a atenção para a nomenclatura; da literatura de cordel, ao narrar o romance da “mulher do fígado branco”. Esta narrativa, por meio de sua linguagem e temática, reporta-nos ao universo medieval onde tudo era fantasioso e sobrenatural, “época de caça às bruxas ou feiticeiras”, de acordo com F. Maxado, em “O Que é Literatura de Cordel” (1980). Outrossim, o escritor faz uso de gírias, vocabulário chulo, ditado popular, versos, música popular e religiosa e lendas indígenas, sem preconceitos com os registros da linguagem popular.
Linda Hutcheon, em sua “Poética do Pós-Modernismo” (1991, p. 31), observa que a arte pós-moderna ataca os princípios do liberalismo burguês como valor, ordem, controle e identidade, questionando, portanto, sistemas totalizados e hierarquizados. Assim sendo, averiguamos que o narrador-personagem da narrativa de Antônio José de Moura desconfia de uma única verdade, pois mesmo que seu discurso aparente ser o do macho ou do falo, ou então da mulher-virago, a sátira e a ironia, que perpassam o seu discurso, desmistificam-no. Por isso, o discurso de defesa da honra do macho e a valentia do personagem-narrador em “Honestina” revestir-se-ão do ridículo, da pantomima; são valores sociais que caducaram.
O narrador boto-tucuxi — O narrador, ao estampar um pedaço do paraíso, as praias do Araguaia, faz desse cenário um local para o embate de duas forças antagônicas: eros e tánatos; primitivismo e civilização. O Araguaia é personificado como mulher; e em seu corpo navega o narrador mascarado de boto, pescador, turista, morador ribeirinho, dom juan e escritor publicista. Este último é um termo utilizado por Bakhtin, em “Problemas da Poética de Dostoievski” (1997, p. 118-119). Ao estudar a presença de traços da menipéia e da carnavalização no romance, segundo esse crítico, o escritor publicista e ideólogo busca experimentar a verdade, enfocando em tom mordaz a atualidade ideológica e perscrutando as novas tendências da evolução do cotidiano. Pode-se apontar essas características no discurso do narrador, o pescador mestre Asdrúbal, em “Dina ou vamos caçar tracajá”; do morador em Aruanã, Roldinho, em “Honestina”, ou ainda do professor aposentado que virou fazendeiro em Aruanã, em “Edinelva ou o homem que virou peixe”. Esse narrador publicista, disfarçado em várias personagens, denuncia de maneira contundente as agressões ao meio-ambiente, valendo-se até mesmo de xingamentos, por não conter sua ira. Ridiculariza a ideia de modificar o curso das águas do Araguaia para transformá-lo em um rio navegável por grandes embarcações, em sua narrativa “Honestina”:
(...) cumpre reconhecer que era e é impossível lançar aquelas espécies de edifícios descomunais que são os navios dentro do corpo mole, molificante e doce do Araguaia. Por quê? Ora, por causa de obstáculos como a porosidade do chão arenoso em cujo interior a natureza instalou esponjas fenomenais e insaciáveis que na seca convertem um bom trecho do vale em deserto, tornando inconstantes as águas, inclusive dos afluentes, em qualquer estação. Por conseguinte, possuímos as embarcações que merecemos, exceto as lanchas voadeiras e poluidoras dos exibicionistas do asfalto. (Moura, 2003, p. 112)
É notável como o narrador encarnou a lenda do boto tucuxi, que à noite costuma se transformar em um rapaz sedutor; há em todos esses contos uma personagem masculina com um poder de sedução irresistível, afora o conto “Virgínia”. Neste o narrador-boto não obteve as primícias de sua conquista; a musa não se deixou encantar. Pode-se entrever nessa imagem de dom juan a metáfora do escritor fecundando a narrativa-mulher; ou até mesmo a metáfora da recepção crítica da obra. O narrador é também a divindade Baíra, mito dos índios cauaiua-parintintins, conforme Nunes Pereira (“Moronguêtá”, v.2, p. 553), pois é um criador de personagens femininas: Dina, Virgínia, Princesa, Olalinda, Helena, Honestina, Edinelva e Magrinha.
MARIA RAIMUNDA GOMES é doutora em Teoria Literária.
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MINICONTO - CLARA DAWN |
| O título não está incluso |
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— Eu quero escrever para o jornal.
— Escrever o quê?
— Contos, uai!
— Escreve então, mas tem que caber neste retângulo aqui.
— Como assim? Neste retângulo ai?
— Aqui ó. Onde só cabem dois mil caracteres.
— Vixe Maria! Como é que eu vou contar uma história tão curtinha assim?
— Sei lá... escritora aqui é você, eu sou apenas os caracteres do seu computador.
— Então eu tenho que criar um causo de no máximo duas mil letras?
— Não, senhora! Dois mil Caracteres.
— Num dá na mesma?
— Dá, não!
— Não tô entendendo.
— Letra é a parte escrita no espaço em branco da folha. Aos caracteres são somados também os espaços entre uma palavra e outra.
— Agora é que a vaca vai pro brejo mesmo. Quer dizer que eu tenho que fazer uma redação: coesão, coerência, início, clímax e fim. Tudo isso dentro deste retângulo que só cabe duas mil tecladas?
— Isso mesmo. Quando é que você vai começar?
— Ué, agorinha mesmo.
— Pois então ande logo, que você já gastou 940 caracteres.
— Mas, você já estava contando?
— Lógico. Você faz muitas perguntas. Esqueça isso e comece a criar uma bonita história de amor, um épico, um clichê urbano ou uma fábula. Seja o que for, faça imediatamente.
— Tudo bem vamos lá: Advento do natal. Seu Justino olha fixamente no grande relógio de parede. Dezoito horas. Seu único filho saíra de sua casa para tentar a vida em Londres, havia trinta anos...
— Tem certeza que não dá pra resumir isso? Aprenda comigo: Seu Justino estava à espera do filho que chegaria de Londres para o natal. Simples assim!
— Mas, tenho que colocar emoção, leveza, suspense e um final inesperado. Como vou transmitir a agonia da espera de Justino pelo filho?
— Isso é problema seu. Restam-lhe 370 caracteres. Continue:
— Seu Justino ouviu o toque metálico do aparelho de telefone, que jaz naquela sala, onde outrora era cheia de risos. Hoje, no entanto, o seu baixo volume ecoava por todos os cantos da casa como se...
— Sinto informa-lhe escritora, mas restam-lhe apenas doze caracteres sem espaço. O que vai dizer?
— Filhodaputa
CLARA DAWN é escritora.
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LANÇAMENTOS - LIVROS, CDS E DVDS |
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O CONVIDADO SURPRESA
Grégoire Bouillier
Editora: Cosac Naify
Preço: 39,00 reais.
A trama começa quando, numa tarde fria de domingo, o telefone acorda o autor-narrador e ele reconhece a voz da mulher que o abandonou cinco anos antes sem nenhuma explicação. Ela o convida para o aniversário de uma amiga que costuma celebrar a data chamando para a festa o número de pessoas correspondentes à sua idade e mais um, o convidado surpresa. Bouillier é o convidado surpresa da vez.
AVÓDEZANOVE E O SEGREDO DO SOVIÉTICO
Ondjaki
Editora: Companhia das Letras
Preço: 36,00 reais.
“AvóDesanove e o Segredo do Soviético”, do jovem escritor angolano Ondjaki, conta a história da construção de um mausoléu, por parte dos soviéticos, na cidade de Luanda. Narrada por um menino que assiste intrigado à presença dos soldados estrangeiros, a trama aos poucos transforma a tranquila Praia do Bispo em um lugar repleto de mistérios, sob a ameaça de que os moradores do lugar serão desalojados.
SÉRIE PIXINGUINHA ( BOX COM 3 CDS)
Pixinguinha
Gravadora: Rob Digital
Preço: 89,90 reais.
Nas 36 músicas selecionadas para a “Série Pixinguinha”, estão preciosidades que revelam o amplo olhar de Pixinguinha sobre a diversidade musical brasileira. O resultado pode ser conferido nos “CDs Pixinguinha no Cinema”, “Pixinguinha Sinfônico Popular” e “Pixinguinha Sinfônico”. Os arranjos sinfônicos foram escritos entre os anos 1920 e 1950, a maioria deles criados para execução das orquestras das rádios do período.
MUSTANG BAR
Stela Campos
Gravadora: Edição da autora
Preço: 20,00 reais.
“Mustang Bar” é o quarto álbum solo da cantora paulista Stela Campos. O trabalho traz uma mistura de rock, indie, folk e pop francês. As músicas são cantadas em português, como no primeiro single do álbum “Laura te espera com uma arma na mão”, em inglês, como “Wasting my time”, que contém um característico piano, e também em francês, em “Lê captaine”, uma das músicas mais envolventes do CD.
KES
Direção: Ken Loach
Distribuição: Lume Produções
Preço: 39,90 reais.
Um dos primeiros filmes da carreira do diretor Ken Loach, “Kes” conta a história de um menino que vive em bairro pobre da cidade que, violentado em casa e ridicularizado na escola, acha uma forma de abstrair de sua dura realidade treinando um falcão. Obra de formação do cineasta Ken Loach.
SENTADO À SUA DIREITA
Direção: Valerio Zurlini
Distribuição: Versátil
Preço: 37,50 reais.
Livre adaptação cinematográfica da biografia do político africano Patrice Lumumba, líder nacionalista que se tornou primeiro-ministro do Congo entre junho e setembro de 1960. No filme, Lumumba recebe o nome de Lalubi. Com a aparência de um Cristo negro, ele luta contra os regimes ditatoriais impostos pelos colonizadores belgas mas acaba preso.
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