Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:21)
De: 27 de julho a 02 de agosto de 2008

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  Imprensa

Euler de França Belém
ffeubel@uol.com.br

Ele voltou

Sérgio Ricardo ficou famoso por ter quebrado um violão durante um festival da canção. Depois, nervosinho, sumiu do mapa.

Agora, volta com o disco "Ponto de partida".

Defesa de Uribe

Quatro leitores escrevem e dizem mais ou menos o seguinte: "Álvaro Uribe não é santo. Você está enganado ao defendê-lo". Bem, se defendi Uribe, não me lembro. Mas, quanto a ser santo, é muito bom que Uribe não seja santo. Porque, no fundo, ninguém é santo e quem tenta sê-lo não me agrada.

Agora, não defendo o terceiro mandato para Uribe, por não ser democrático. Mas, se fosse colombiano, estaria nas ruas pedindo pelo terceiro mandato de Uribe. Só um político de muita coragem e talento pode conter as ondas terroristas das Farc. O homem é mesmo Uribe. Putz!, acabei por defendê-lo, quando não era minha intenção.

Longe do jornalismo

Leticia Borges, formada pela UFG e jornalista experiente, com passagem pelo "Diário da Manhã", "Pop", TV Brasil Central e assessoria em Brasília, enfrentou 12 mil concorrentes (495 por vagas) e foi aprovada para fiscal de posturas da Agência Municipal de Meio Ambiente.

Por que Leticia Borges abandonou o jornalismo (pelo menos provisoriamente)? O velho motivo: ganha mais como fiscal e professora de redação na rede particular. A jornalista está concluindo a licenciatura em Língua Portuguesa na Universidade Estadual de Goiás.

Jane Austen

A Editora Landmark publica nova tradução de "Orgulho e Preconceito" (400 páginas), da escritora inglesa Jane Austen, com tradução de Marcella Furtado. A edição é bilíngüe, o que é excelente, pois permite que o leitor possa verificar a qualidade da versão e da prosa da autora inglesa.

A tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela Ediouro, não é ruim. Mas precisa de uma revisão caprichada, pois há dezenas de erros.

Mundo globalizado

José Luís Fiori é um dos poucos intelectuais brasileiros que tentam escrever livros abrangentes sobre a economia política mundial. Um bom aperitivo é "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo).

O intelectual errante

Antes de comprar alguns livros, leio trechos, ou eventualmente o prefácio. Não adquiri "Mínima Mímica — Ensaios Sobre Guimarães Rosa" (Companhia das Letras, 350 páginas), da ótima crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Li, na livraria, o ensaio "Um intelectual a contracorrente: Duglas Teixeira Monteiro" (lutei contra meu computador para escrever Duglas, pois, teimoso, corrigia para Douglas).

Trata-se de um texto amoroso a respeito do brilhante sociólogo que escreveu com rara sensibilidade sobre a revolta de Contestado. Mas não apenas a respeito do intelectual. Walnice conta a história do homem, que, a partir de certo momento, passou a usar botinas e ir para o trabalho de bicicleta.

Pesquisador infatigável, Duglas levantava-se de madrugada para assistir cultos evangélicos, pois não se interessava apenas pela teoria — queria ver de perto como se davam os cultos, como as pessoas os praticavam.

O ensaio, sensível e inteligente, vale o livro. Ressalve-se que o livro é sobre Guimarães Rosa.

Biografia do Padre Cícero

Autor de excelentes biografias do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, do escritor José Alencar e da cantora Maysa, o jornalista Lira Neto está escrevendo a biografia do Padre Cícero.

O livro terá 550 páginas, com muitas fotografias de época e fac-símiles. Lira Neto conta que teve "acesso a uma ótima documentação".

Stálin não era agente da Okhrana

O jornalista e historiador Jarbas Silva Marques, de Brasília, pergunta se o historiador inglês Simon Sebag Montefiore confirma, no livro "O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), que o ditador foi agente da Okhrana, a polícia política do czarismo.

Montefiore apresenta as acusações contra Stálin, mas conclui que não há evidências de que tenha sido agente duplo.

O esclarecimento definitivo está na página 273: "Há provas avassaladoras em muitos arquivos existentes da polícia secreta de que Stálin não era um agente czarista — a não ser que sejam derrubadas por algum documento decisivo escondido em arquivos provincianos da Okhrana".

Cantor e algemas

O livro "O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), de Simon Sebag Montefiore, conta que, além de assaltante de bancos — para financiar a luta de Lênin —, o bolchevique era cantor e, durante certo período, esteve encantado pelo esperanto. No poder, baniu o esperando e prendeu quem o estudava.

"Não somos ladrões para sermos algemados", disse Stálin para um policial, antes de chegar ao poder. Ele preferia a companhia de bandidos à de revolucionários, que acha empolados, e levou alguns criminosos para o centro do poder.

Inveja positiva

Carlos Wilson pergunta se tenho inveja de alguém. Claro que tenho, e incontida. De Shakespeare, de Machado de Assis, de William Faulkner (o autor de "O Som e a Fúria" não saía de casa sem levar algum texto de Shakespeare), de Renato Borghetti (se eu soubesse tocar acordeom não precisaria de Gilberto Gil para conversar com Deus) e de Noel Rosa (o maior compositor brasileiro).

O fim do ditamole

Vi a fotografia do ditamole Fidel Castro e do Gabriel García Márquez. Os dois comemoram 50 anos de amizade. Escritores, em geral, são puxa-aquilo roxo de ditadores. Márquez não é o primeiro e não será o último. É, apenas, um dos piores.

Mas o que chamou a minha atenção mesmo não foi a canalhice de Márquez, já tradicional, e sim o rosto de Fidel Castro. O rosto do ditamole está se dissolvendo, assim como o socialismo cubano.

James Joyce do boxe

Quem não viu perdeu o Nobel do Boxe. Na quarta-feira, 23, o Premiere Combate exibiu quatro lutas do impecável Miguel Angelo Cotto, de Porto Rico.

Cotto e Zab Judah deram um espetáculo de boxe da maior magnitude. Um concerto ou, se preferir, um bale dos melhores. Dançaram, se tocaram e, no final, Cotto ganhou por nocaute, no 11º round. Judah é extremamente rápido e inteligente, daí a dificuldade de Cotto para tocá-lo. Judah chegou a acertar a boca de Cotto, que sangrou. A luta é de 2007.

Shane Mosley é um estrategista, mas não conseguiu derrotar Cotto. Mosley, apesar da idade, é lépido. Lutou bem. Mas Cotto é valente, forte e tecnicamente irrepreensível. Manteve o título de campeão dos meio-médios. A luta é de novembro de 2007.

Um crítico do quilate de Edmund Wilson certamente chamaria Cotto de "o James Joyce do boxe

Maiores boxeadores

Leio no site www.boxergs.com.br a lista dos maiores boxeadores do século 20. Robert Cassidy elaborou a lista a partir da opinião de quatro grandes treinadores.

Gil Glancy diz que o maior boxeador do século foi Willie Pep (nada sei a respeito). Angelo Dundee prefere Muhammad Ali. Lou Duva fica com Sugar Ray Robinson. Emanuel Steward repete Dundee.

Cassidy lista também a principal luta em que os quatro trabalharam. Clancy diz que a luta do século ocorreu entre Joe Frazier e Muhammad Ali. "Foi o evento esportivo do século", afirma.

Dundee escolhe a batalha do Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman.

Duva escolhe a peleja entre Evander Holyfield e Buster Douglas. O primeiro carrasco de Mike Tyson, o sujeito que provou que era possível vencer a fera, foi derrotado por nocaute por Holyfield.

Steward cita a luta entre Hilmer Kenty e Ernesto Espana. Ele cita também as guerras entre Thomas Hearns e Marvin Hagler. Escrevi guerras, porque foram verdadeiras batalhas. Hearns e Marvelous são autênticos samurais dos tempos modernos.

Luta histórica

Na terça-feira, a ESPN exibiu uma luta de boxe fantástica entre Aaron Pryor e Alexis Arguello, realizada em 1983, pelo título dos meio-médio-ligeiros.

Pyror venceu por nocaute, mas a resistência de Arguello era impressionante.

Durante a Revolução Sandinista, na Nicarágua, Arguello perdeu os bens. Foi usuário de cocaína, mas, quando subia aos ringues, era uma fera, apanhava mas não caía fácil.

Carlos Gracie

O poeta Carlos Willian Leite, editor do Opção Cultural, está lendo "Carlos Gracie — O Criador de uma Dinastia" (Editora Record, 560 páginas), de Reila Gracie.

Se tivesse certeza de que viveria pelo menos 101 anos, e lúcido, arranjaria dois ou três dias e leria o livro sobre o grande Carlos Gracie.

Como não tenho certeza que chegarei aos 60 anos, dou apenas uma nota sobre o livro que conta a história do pai "jiu-jítsu brasileiro" (para ser franco, nem sei o que isto quer dizer). "O Criador de uma Dinastia" é do tipo de livro que não li, não lerei, mas gostei.

O erro de Freud

A campanha política de Aparecida de Goiânia já chegou ao chiqueiro. A turma de Marlúcio Pereira costuma bater abaixo da linha de cintura. Joga pesado, desconhecendo regras mínimas de civilidade.

Mas agora quem saiu na frente, em termos de deselegância, foi Freud, não o Sigmund, e sim o "de Melo", ex-prefeito da cidade. Freud disse que Maguito Vilela merece ser eleito, pois é bonito. Marlúcio deve perder, pois é "feio".

Feio, no caso, deve ser sinônimo de "preto", de "negro".

Até os adversários sabem que o ex-senador Maguito Vilela não aprova esse jogo sujo. Maguito não tem a garra de Iris Rezende, mas é um político que não tolera o jogo baixo. Ele é indiferente ao lamaçal das campanhas. Por conta disso, de sua civilidade, tenho respeito e apreço pelo peemedebista.

Lições de uma recuperação

Autor do livro "Vida — Armadilha Sem Fim", no qual conta seu envolvimento com o crime, Gésio Passos é um empresário bem-sucedido, recuperado para o convívio social. Na quarta-feira, 30, dará uma palestra para 50 jovens reeducandos, no Batalhão Anhanguera,

A jornalista Elaine Freitas relata: "Gésio Passos, proprietário da marca Pactus, falará sobre sua adolescência e sobre sua vida de bandido, mostrando que, por meio da força de vontade, é possível ter uma vida melhor, honesta e com satisfação profissional. A palestra enfocará seu livro, ´Vida — Armadilha Sem Fim´, lançado em junho. O livro é uma autobiografia, contando todos os detalhes da vida de Gésio, desde sua infância desprovida, sua adolescência ´bandida´ e sua vida como empresário de sucesso".

Os reeducandos receberão exemplares do livro de Gésio. "O objetivo é que eles tenham minha história como exemplo, que eles saibam que é possível se reerguer", diz o empresário.

Mensalão

O jornalista Allan Kardec envia endereço no qual se pode ler "o livro que, supostamente, foi recusado por todas as editoras: http://www.escandalodomensalao.com.br/".

Poesia francesa

Leio, com raro prazer, uma das dessas maravilhas que encontramos nos sebos: "Antologia da Poesia Francesa — Do Século IX ao Século XX" (Editora Record, 462 páginas). As traduções são do especialista Cláudio Veiga, que tem o nome destacado na capa, tal a qualidade de seu trabalho, no qual une competência e sensibilidade.

Alguns dos poetas traduzidos: François Villon ("Balada dos Enforcados"), Louise Labé ("Foi predito"), Racine ("Pranto de um cristão"), André Chénier ("A Poesia"), Lamartine ("O Livro da Existência" Victor Hugo ("Mors"), Gérard de Nerval ("Artêmis"), Alfred de Musset ("Tristeza"), Baudelaire ("Spleen"), Mallarmé ("Brisa Marinha"), Verlaine ("Arte poética"), Rimbaud ("Aurora"), Jules Laforgue ("Pôr-de-sol de inverno"), Paulo Valéry ("Cemitério marinho"), Apollinaire ("A linda ruiva"), Saint-John Perse ("Neves III"), Henri Michaux ("Sai da parede uma cabeça"), René Char ("À saúde da serpente"), Yves Bonnefoy ("Envelhecemos...").

Provincianismo

Recebo de um jornalista: "Por provincianismo, o jornal ´O Popular´ não deu muita importância ao primeiro debate entre os candidatos a prefeito de Goiânia, realizado pela Rádio 730, concorrente da CBN, da Organização Jaime Câmara.

"O ´Diário da Manhã´, acertadamente, deu o destaque necessário. Além disso, fez a análise correta ao reportar a "falta de tempero" do debate e a ausência de propostas dos candidatos, que, preparando-se somente para atacar o favoritismo de Iris Rezende, esqueceram dos seus projetos para Goiânia.

"O candidato Gilvane Felipe cometeu a maior gafe do debate, ao sugerir a produção do programa que ´nos próximos debates, se o prefeito não quiser vir, que ele mande o vice, que, afinal de contas, será prefeito por metade do período´. Com essa declaração, Gilvane já dá como certa a vitória do prefeito Iris Rezende e, ainda, a vitória em uma possível candidatura ao governo do Estado. Nenhum dos jornais deu destaque a infeliz alegação do candidato do PPS".

Mestrado na França

Formada em jornalismo pela Faculdades Alfa, Denise Rodrigues, de 22 anos, vai fazer mestrado na França. "Fui aprovada depois de muito custo e ansiedade e parto, no dia 1° de agosto, para a cidade de Grenoble, situada na região Rhône-Alpes, a segunda maior cidade universitária da França. Minha mais nova universidade é a Universidade Stendhal Grenoble 3 e o mestrado se chama Master Recherche Sciences de l´Information et de la Communication (master pesquisa Ciências da Informação e da Comunicação)".

"Quero muito me aperfeiçoar, aprender mais em todos os sentidos e depois, retornar ao meu país e contribuir. Ainda tenho aquela ideologia de ajudar meu país, de ser um tijolo na construção de um mundo melhor", diz Denise. A jornalista deixou a assessoria de Comunicação da SSP, onde ficou três, "com o coração partido".

"Quem sabe daqui uns tempos eu não mando notícias Direto da Europa, assim como o Herbert Moraes Jr.?" Já é nossa convidada.

Omissão estranha

Nas resenhas do livro "Stasilândia — Como Funcionava a Polícia Secreta Alemã" (Companhia das Letras, 375 páginas), de Anna Funder, não vi nenhuma referência ao livro "O Homem Sem Rosto — Autobiografia do Maior Mestre de Espionagem do Comunismo" (Editora Record, 430 páginas), de Markus Wolf com Anne Anne McElvoy.

Não entendo os motivos da omissão, pois Markus Wolf, além de criar ou recriar a espionagem da Alemanha Oriental, é um dos forjadores do eficiente sistema secreto da Cuba de Fidel Castro. Um dos segredos da eficiência do serviço secreto cubano é a tecnologia e a disciplina alemãs.

O livro de Wolf, apesar de sua vaidade extremada, talvez daí seu sucesso como espião, é um retrato impagável da espionagem stalinista. Como se sabe, os modestos e os não-vaidosos costumam ser ineficazes, pois não têm pretensões.

Deus e futuro

O texto abaixo (de maio deste ano) é do bem-informado site Blue Bus (www.bluebus.com.br). O futuro, como se sabe, nem a Deus pertence. Mas o que diz no pequeno não é profecia, e sim constatação, pois o processo, por ser processo, está em andamento.

Futuro do jornal é ser gratuito e analítico

Por conta da competição com a internet, os jornais vão provavelmente se tornar gratuitos e colocar mais ênfase em comentários e opinião. É o que indica uma pesquisa realizada pela Zogby International para o Fórum Mundial de Editores e para a Reuters. O levantamento ouviu executivos de jornais em todo o mundo — a maior parte deles se mostrou otimista em relação ao futuro de suas publicações, mas admite que elas terão que se adaptar ainda mais na era digital.

Segundo a pesquisa 56 por cento dos pesquisados acreditam que a maioria das notícias, impressas ou online, será gratuita no futuro — contra 48 por cento que pensavam assim há um ano. Considerando apenas os editores de países emergentes, incluindo os da América do Sul, o percentual é mais alto, 61 por cento.

Os que acham que as redações devem ser mais integradas aos serviços digitais somam 86 por cento e dois em cada três executivos ouvidos acreditam que a forma mais comum de consumo de notícia, em 10 anos, será através da internet ou de celulares.

Para os 704 pesquisados, a maior ameaça para o mercado de jornais é a redução do numero de leitores jovens. Com relação à qualidade dos jornais, 45 por cento dos entrevistados pensam que vai melhorar, mas os que acham que vai piorar são cerca de 25%.

Crí­ti­ca do lei­tor

Car­los Sam­paio en­via tí­tu­lo do “Da­qui” de 25 de ju­nho (“an­tes tar­de o que nun­ca, não é?”, diz): “Ca­mi­la Ro­dri­gues con­ta com apóio de Fer­nan­da Sou­za pa­ra su­pe­rar se­pa­ra­ção”. O pró­prio lei­tor faz a cor­re­ção: “O jor­nal er­rou. Não é apóio, e sim apoio, sem acen­to”.

Ni­ge­ri­a­nos rou­bam U$ 242 mi­lhões de ban­co bra­si­lei­ro

O his­to­ri­a­dor e jor­na­lis­ta in­glês Mis­ha Glenny es­cre­veu um li­vro mui­to bom, “McMá­fia — Cri­me Sem Fron­tei­ras” (Com­pa­nhia das Le­tras, 440 pá­gi­nas), no qual o Bra­sil fi­gu­ra co­mo um dos per­so­na­gens prin­ci­pa­is. Não é pre­ci­so es­que­cer as má­fi­as ita­li­a­nas e ame­ri­ca­nas, mas o pes­qui­sa­dor mos­tra que há mui­tas ou­tras má­fi­as no mun­do que de­vem ser co­nhe­ci­das e, so­bre­tu­do, com­ba­ti­das. Uma de­las é a ni­ge­ri­a­na.

No ca­pí­tu­lo 8, “O te­a­tro do cri­me”, Glenny con­ta a his­tó­ria do gol­pe que um gru­po de cri­mi­no­sos ni­ge­ri­a­nos apli­cou no Ban­co No­ro­es­te, das fa­mí­lias Si­mon­sen e Cochra­ne, en­tre 1995 e 1997. Jun­tas, fo­ram sur­ru­pia­das por afri­ca­nos es­per­tos em 242 mi­lhões de dó­la­res e só com mui­to cus­to con­se­gui­ram re­a­ver par­te do di­nhei­ro. Na ver­da­de, se­gun­do o li­vro, con­se­gui­ram blo­que­ar a gra­na. Mas gas­ta­ram uma for­tu­na pa­ra ten­tar re­to­má-la, pois ti­ve­ram de con­tra­tar es­pe­cia­lis­tas ca­rís­si­mos pa­ra fa­zer a ope­ra­ção de “re­tor­no”. Des­mo­ra­li­za­do, o ban­co aca­bou ven­di­do pa­ra o San­tan­der.

A his­tó­ria do gol­pe é sur­pre­en­den­te, e co­me­çou pe­lo fax e, de­pois, pe­la in­ter­net. O exe­cu­ti­vo Nel­son Saka­gu­chi, res­pon­sá­vel pe­las ope­ra­ções do Ban­co No­ro­es­te nas Ilhas Cayman, re­ce­beu um fax de Ta­fi­da Wil­li­amns (na ver­da­de, Bless Oke­reke), di­re­tor de Or­ça­men­to e Pla­ne­ja­men­to do Mi­nis­té­rio da Avi­a­ção da Ni­gé­ria. Wil­li­ams ex­pli­cou que o go­ver­no, que iria cons­tru­ir um no­vo ae­ro­por­to in­ter­na­ci­o­nal em Abu­ja, a no­va ca­pi­tal, pre­ci­sa­va de in­ves­ti­men­tos.

Saka­gu­chi, ho­mem do mer­ca­do fi­nan­cei­ro, fa­re­jou uma gran­de opor­tu­ni­da­de de in­ves­ti­men­tos. Ar­ti­cu­lou um en­con­tro com Pa­ul Ogwu­ma, di­re­tor do Ban­co Cen­tral da Ni­gé­ria. Os ni­ge­ri­a­nos in­for­ma­ram que o go­ver­no que­ria 50 mi­lhões de dó­la­res pa­ra cons­tru­ir o ae­ro­por­to.

Mes­mo sa­ben­do que o ca­pi­tal do No­ro­es­te era de ape­nas 500 mi­lhões de dó­la­res, o bra­si­lei­ro, im­pres­sio­na­do com o es­que­ma, en­tu­si­as­mou-se e li­be­rou ime­di­a­ta­men­te 4 mi­lhões de dó­la­res pa­ra Em­ma­nu­el Nwu­de, “o mais exí­mio gol­pis­ta da Ni­gé­ria”. Saka­gu­chi foi li­be­ran­do di­nhei­ro, até che­gar à fa­bu­lo­sa so­ma de 242 mi­lhões de dó­la­res. O no­me do gol­pe é “co­mis­são adi­an­ta­da”, ou 419. Os ni­ge­ri­a­nos fo­ram pe­din­do di­nhei­ro, an­te­ci­pa­ções, e, no fi­nal das con­tas, não ha­via ae­ro­por­to, nem os gol­pis­tas eram di­ri­gen­tes do go­ver­no e do ban­co cen­tral da Ni­gé­ria.

“To­do mun­do con­cor­da que Saka­gu­chi foi ví­ti­ma de uma frau­de mo­nu­men­tal” — uma das cin­co mai­o­res do mun­do —, "mas nin­guém en­ten­de co­mo um ban­quei­ro tão ex­pe­ri­en­te caiu no gol­pe nem por que sub­traiu o di­nhei­ro de seu em­pre­ga­dor no pro­ces­so”, es­cre­ve Glenny. “Saka­gu­chi in­sis­te que foi ví­ti­ma pu­ra e sim­ples de um gol­pe e que não es­ta­va rou­ban­do di­nhei­ro do ban­co. (...) A in­ge­nui­da­de de Saka­gu­chi im­plo­ra cre­di­bi­li­da­de. Não há pro­vas de que ele es­ti­ves­se man­co­mu­na­do com os gol­pis­tas — foi uma ví­ti­ma ge­nu­í­na. Mas es­ta­va fi­nan­cian­do aque­le jo­go des­vai­ra­do com o di­nhei­ro dos ou­tros.”

Saka­gu­chi as­se­gu­ra que seus pa­trões sa­bi­am do “ne­gó­cio”, mas as fa­mí­lias Si­mon­sen e Cochra­ne ne­gam e o pro­ces­sa­ram.

Glenny re­la­ta que os ni­ge­ri­a­nos en­vi­am, to­dos os di­as, mi­lha­res de e-mails pa­ra pes­so­as do mun­do in­tei­ro com pro­pos­tas de di­nhei­ro fá­cil — mi­lhões de dó­la­res — e mui­tas acre­di­tam, en­tram em con­ta­to e são le­sa­das. Di­fi­cil­men­te con­se­guem re­ce­ber o di­nhei­ro que, na ver­da­de, de­ram de pre­sen­te pa­ra ni­ge­ri­a­nos es­per­tos. O e-mail se tor­nou um po­de­ro­so ins­tru­men­to pa­ra os ni­ge­ri­a­nos ar­ran­ca­rem di­nhei­ro dos in­cau­tos. Ali­ás, po­de-se di­zer que Saka­gu­chi, com anos de mer­ca­do fi­nan­cei­ro, é in­cau­to?

Nou­tro ca­pí­tu­lo, Glenny re­la­ta co­mo o de­le­ga­do Pro­tó­ge­nes Quei­roz (o mes­mo que pren­deu o ban­quei­ro Da­ni­el Dan­tas) des­ba­ra­tou a qua­dri­lha do chi­nês Law Kin Chong. Nem mes­mo a Po­lí­cia Fe­de­ral em São Pau­lo foi avi­sa­da da Ope­ra­ção Sho­gun.

“Os car­té­is de Ca­li e de Me­del­lín co­me­ça­ram a ne­go­ci­ar a ex­pan­são glo­bal da co­ca­í­na com re­pre­sen­tan­tes da Ir­man­da­de de Solntse­vo de Mos­cou, com tra­fi­can­tes búl­ga­ros e com inú­me­ros tra­fi­can­tes do Ca­ri­be e da Amé­ri­ca Cen­tral” por in­ter­mé­dio das fa­mí­lias Cun­tre­ra e Cu­a­ra­na. O fun­da­dor do es­que­ma, oc­to­ge­ná­rio, mo­ra, sem ser mo­les­ta­do, no Rio de Ja­nei­ro. Os fil­mes ame­ri­ca­nos es­tão cer­tos: cri­mi­no­sos con­ti­nuam fu­gin­do pa­ra o Bra­sil.

O Pri­mei­ro Co­man­do da Ca­pi­tal (PCC) tam­bém é dis­cu­ti­do por Glenny, mas, nes­se cam­po, seu tra­ba­lho de pes­qui­sa é in­sa­tis­fa­tó­rio. Con­ten­tou-se em co­lher opi­ni­ões de pro­mo­to­res, um ju­iz apo­sen­ta­do e de­le­ga­dos de po­lí­cia e na­da con­ta de re­le­van­te.

Há re­la­tos in­te­res­san­tes so­bre “ra­tos” da in­ter­net bra­si­lei­ros e seus as­se­clas in­ter­na­cio­nais. Eles rou­bam mi­lhões de con­tas de ban­cos. O bra­si­lei­ro Kau, es­pe­cia­lis­ta em tes­tar se­gu­ran­ça de com­pu­ta­do­res, diz que “o úni­co com­pu­ta­dor se­gu­ro é o que es­tá des­li­ga­do”.

Jor­nais go­i­a­nos são es­cra­vos vo­lun­tá­rios de agên­cias de no­tí­cias

Lei­to­res co­bram ava­li­a­ção da co­ber­tu­ra da Ope­ra­ção Sa­ti­a­gra­ha na im­pren­sa go­i­a­na. O “Pop”, co­mo de há­bi­to, op­tou pe­la pu­bli­ca­ção de re­por­ta­gens das agên­cias de no­tí­cias, ou se­ja, fez a es­co­lha ób­via. Em­bo­ra te­nha es­tru­tu­ra pa­ra co­brir fa­tos des­ta na­tu­re­za em Bra­sí­lia, São Pau­lo ou Rio de Ja­nei­ro, o jor­nal de­ci­diu, não se sa­be por quê, ser­vir-se ape­nas do no­ti­ci­á­rio, cor­re­to mas frio e re­pe­ti­ti­vo, das agên­cias. As­sim co­mo en­via re­pór­te­res pa­ra co­brir uma fes­ta li­te­rá­ria e o dra­má­ti­co ca­so de pros­ti­tu­tas na Es­pa­nha, o jor­nal de­ve­ria en­vi­ar re­pór­te­res pa­ra co­brir his­tó­ri­as co­mo a da pri­são do ban­quei­ro Da­ni­el Dan­tas, Na­ji Na­has e Cel­so Pit­ta. Da­ria o sa­bor lo­cal e se­ria útil pa­ra trei­nar seus re­pór­te­res em jor­na­lis­mo in­ves­ti­ga­ti­vo.

O “Di­á­rio da Ma­nhã”, co­mo não tem es­tru­tu­ra, ade­riu à co­ber­tu­ra ba­se­a­da no tra­ba­lho da agên­cias de no­tí­cias. Mas abriu es­pa­ço pa­ra ar­ti­cu­lis­tas es­cre­ve­rem so­bre o as­sun­to. Ape­sar de sua ob­ses­são pe­la yo­ga, que es­tá con­ta­mi­nan­do seus ar­ti­gos, o ad­vo­ga­do Deu­si­mar Ro­lim, pro­cu­ra­dor da Re­pú­bli­ca apo­sen­ta­do, es­cre­veu os me­lho­res tex­tos pu­bli­ca­dos pe­lo jor­nal. Pe­na que o “DM” não os viu co­mo pau­tas.

No ba­lan­ço ge­ral, não se po­de di­zer que os jor­nais lo­ca­is co­brem a Ope­ra­ção Sa­ti­a­gra­ha. Na ver­da­de, ape­nas tran­scre­vem os des­pa­chos das agên­cias. Cos­tu­mo cha­mar is­to de ser­vi­dão vo­lun­tá­ria.

Fa­mí­lia per­fei­ta é uma fan­ta­sia

Theí­za Cris­thi­ne, do Di­á­rio da Ma­nhã (edi­ção de se­gun­da-fei­ra, 21), es­cre­veu uma re­por­ta­gem, com o tí­tu­lo de “Ado­les­cen­tes fo­gem pa­ra amar”, que re­tra­ta um dra­ma das fa­mí­lias. “Dos 86 ca­sos de de­sa­pa­re­ci­men­to no­ti­fi­ca­dos em 2008 na DPCA, 95 por cen­to saí­ram de ca­sa pa­ra vi­ver com par­cei­ros”, re­la­ta o sub­tí­tu­lo. A psi­có­lo­ga Mar­lu­ce de Oli­vei­ra con­clui: “Em uma fa­mí­lia que há um bom di­á­lo­go es­ses fa­tos não acon­te­cem”.

A re­por­ta­gem de Theí­za Cris­thi­ne é cor­re­ta, mas, no lu­gar de se fi­ar ex­clu­si­va­men­te na es­ta­tís­ti­ca da po­lí­cia, de­ve­ria ter ou­vi­do mais ga­ro­tas e pa­is. E fi­ca a cu­ri­o­si­da­de: por que os ga­ro­tos não fo­gem? Ou eles tam­bém fo­gem?

A psi­có­lo­ga Mar­lu­ce de Oli­vei­ra, além do co­nhe­ci­men­to ci­en­tí­fi­co, de­ve ter ex­pe­ri­ên­cia. Mas não há fa­mí­lia per­fei­ta e, mes­mo na­que­las on­de há di­á­lo­go, ocor­rem fu­gas de ga­ro­tas e ou­tros pro­ble­mas, co­mo uso de dro­gas. Li­ev Tols­tói tal­vez te­nha fei­to o “di­ag­nós­ti­co” pre­ci­so na aber­tu­ra de seu ro­man­ce “An­na Ka­ri­ê­ni­na” (Edi­to­ra Co­sac­naify, 814 pá­gi­nas, tra­du­ção de Ru­bens Fi­guei­re­do): “To­das as fa­mí­lias fe­li­zes se pa­re­cem, ca­da fa­mí­lia in­fe­liz é in­fe­liz à sua ma­nei­ra”. Mais do que per­fei­tas ou im­per­fei­tas, há fa­mí­lias di­fe­ren­tes e os va­lo­res de uma ge­ra­ção, em mu­ta­ção ca­da vez mais rá­pi­da, não são in­tei­ra­men­te com­pre­en­di­dos e acei­tos pe­la ge­ra­ção an­te­ri­or. Há al­gum “re­mé­dio” ide­al pa­ra a in­com­pre­en­são en­tre ge­ra­ções di­ver­sas? Tal­vez não, mas um ca­mi­nho co­me­ça por to­le­rân­cia e pa­ci­ên­cia.

A fa­mí­lia per­fei­ta, as­sim co­mo a so­ci­e­da­de per­fei­ta, é um so­nho ou fan­ta­sia.

Ti­me do Go­i­ás con­ven­ce?

Adep­to da te­o­ria de que “me­nos é mais”, o Go­i­ás der­ro­tou Pal­mei­ras e Cru­zei­ro, pe­los pla­ca­res de 2 a 1 e 1 a 0. Tra­ta-se de um gran­de fei­to, pois Pal­mei­ras e Cru­zei­ro são mes­mo ti­mes de qua­li­da­de. Mas os re­sul­ta­dos eco­nô­mi­cos mos­tram que as vi­tó­rias po­dem ter re­sul­ta­do mui­to mais do es­que­ma tá­ti­co ar­ma­do por Hé­lio dos An­jos — ti­po “não to­mar gol e, se der, fa­zer ape­nas um gol” — do que das qua­li­da­des re­ais do ti­me.

Pau­lo Bai­er e Har­lei, jo­ga­do­res de cer­ta qua­li­da­de, são lí­de­res aco­mo­da­dos. Tal­vez Iar­ley pos­sa as­su­mir a po­si­ção do lí­der que, mo­ti­va­do, sa­be mo­ti­var. Bai­er e Har­lei, em fim de car­rei­ra, não pa­re­cem mui­to in­te­res­sa­dos em jo­gar pe­sa­do. Prin­ci­pal­men­te Bai­er, pois Har­lei é mui­to mais es­for­ça­do e par­ti­ci­pan­te dos jo­gos.

Não é po­si­ti­vo que a im­pren­sa se en­tu­si­as­me tan­to, mas cla­ro que é pre­ci­so re­co­nhe­cer os mé­ri­tos do téc­ni­co e do ti­me, que es­tá me­lho­ran­do, ain­da que len­ta­men­te. Res­sal­va: dois no­vos re­ve­zes dei­xa­rão o Go­i­ás na lo­na.

Re­al Pri­vê

Tí­tu­lo do Di­á­rio da Ma­nhã de se­gun­da-fei­ra, 21: “Go­i­ás ven­ce mas não sai da zo­na”. O lei­tor de­ve ter es­tra­nha­do, pois “zo­na”, na lin­gua­gem po­pu­lar, sig­ni­fi­ca “pu­tei­ro”, “bor­del”.

O que ocor­reu? Co­mo não ha­via es­pa­ço pa­ra um tí­tu­lo mais lon­go, o edi­tor, ao re­ti­rar “de re­bai­xa­men­to” (po­de­ria ter ido pa­ra a re­tran­ca), pro­vo­cou uma con­fu­são bor­de­li­a­na.

Wo­ody Al­len é o fi­lho pró­di­go de Dos­toi­évski

Dois lei­to­res con­tam que le­ram na “Re­vis­ta Bu­la” (www.re­vis­ta­bu­la.com) que o es­cri­tor Flá­vio Pa­ra­nhos es­cre­veu que o fil­me “Cri­mes e Pe­ca­dos”, do ame­ri­ca­no Wo­ody Al­len, é su­pe­ri­or ao ro­man­ce “Cri­me e Cas­ti­go”, do rus­so Fi­ó­dor Dos­toi­évski.

Não li o co­men­tá­rio de Flá­vio, mas é, cer­ta­men­te, mais uma opi­ni­ão do que uma cons­ta­ta­ção. Su­po­nho que a per­gun­ta jus­ta se­ja a se­guin­te: Al­len, com seu “Cri­mes e Pe­ca­dos”, ex­ce­len­te fil­me, exis­ti­ria sem “Cri­me e Cas­ti­go”, fa­bu­lo­so e re­ver­be­ran­te ro­man­ce? Tal­vez sim. Tal­vez não. Pro­va­vel­men­te, não. Is­to sig­ni­fi­ca que a obra pos­te­ri­or tem de ser pi­or, por ter so­fri­do in­flu­ên­cia da an­te­ri­or? Não. Mas ci­ne­ma, de­fi­ni­ti­va­men­te, não tem a en­ver­ga­du­ra da li­te­ra­tu­ra pa­ra di­zer al­gu­ma coi­sa mais pro­fun­da aos ho­mens. Ci­ne­ma é o “di­ges­ti­vo” per­fei­to pa­ra quem gos­ta de pi­po­ca e cho­co­la­te. Fi­co im­pres­sio­nan­do ao ve­ri­fi­car co­mo as pes­so­as co­mem den­tro dos ci­ne­mas. De­pois da exi­bi­ção dos fil­mes, as sa­las pa­re­cem cam­pos de ba­ta­lhas de bár­ba­ros, tal a quan­ti­da­de de pa­pel e plás­ti­co. No ci­ne­ma, as pes­so­as pen­sam, vê­em ima­gens, ou­vem tex­tos e co­mem ao mes­mo tem­po? O que psi­qui­a­tras, psi­có­lo­gos e neu­ro­lo­gis­tas têm a di­zer a res­pei­to da mis­tu­ra fi­na?

Mas, se o co­men­tá­rio de Flá­vio é idi­os­sin­crá­ti­co — acho-o, na ver­da­de, ex­tre­ma­men­te pers­pi­caz e uma aber­tu­ra pa­ra o de­ba­te (não co­mi­go, pois não en­ten­do de ci­ne­ma) —, os meus ra­ra­men­te fi­cam atrás; pe­lo con­trá­rio, são ain­da mais idi­os­sin­crá­ti­cos.

Pri­mei­ro, não ve­jo ci­ne­ma co­mo ar­te, e sim co­mo en­tre­te­ni­men­to, pe­lo me­nos pa­ra 99,5 por cen­to dos es­pec­ta­do­res. Pa­ra se tor­nar ar­te, co­mo que­rem seus aman­tes, o ci­ne­ma pre­ci­sa da crí­ti­ca, da ela­bo­ra­ção de crí­ti­cos com An­dré Ba­zin e, no ca­so de Al­len, de Flá­vio. É a crí­ti­ca que faz (se faz) o ci­ne­ma se tor­nar ar­te. Por si, o ci­ne­ma é en­tre­te­ni­men­to, na­da mais do que is­to. O que, pa­ra mim, já é mui­to. Ser en­tre­te­ni­men­to é qua­se ser ar­te.

Se­gun­do, e acres­cen­to que che­go às rai­as do ab­sur­do, ava­lio que o bo­xe é ar­te su­pe­ri­or ao ci­ne­ma. Es­te é cons­tru­í­do por vá­ri­as pes­so­as, não é uma “ar­te” in­di­vi­dual, co­mo a li­te­ra­tu­ra e a pin­tu­ra. Co­mo se tra­ta de uma “ar­te” co­le­ti­va (um pro­du­to in­dus­tri­al), sen­do im­pos­sí­vel dis­tin­guir au­to­ria, ape­sar dos crí­ti­cos fran­ces­es te­rem in­ven­ta­do o “ci­ne­ma de au­tor”, fi­ca mui­to di­fí­cil, se­não im­pos­sí­vel, di­zer que di­re­tor de ci­ne­ma é ar­tis­ta. No ca­so de Al­len, não sei bem. Flá­vio con­si­de­ra-o um ar­tis­ta, tal­vez por­que apa­ren­te­men­te te­nha con­tro­le pes­so­al, res­tri­to, de sua pro­du­ção. Não sei se tem, pois, em­bo­ra gos­te de seu ci­ne­ma, não acom­pa­nho de­ta­lhes so­bre seus tra­ba­lhos. No bo­xe, ao con­trá­rio do ci­ne­ma, o gran­de lu­ta­dor, co­mo Su­gar Ray Ro­bin­son, Ro­ber­to “Mãos de Pe­dra” Du­ran, Mu­ham­mad Ali, Floyd Maywe­a­ther, Mi­guel Cot­to, é es­sen­cial­men­te um ar­tis­ta. A cons­tru­ção de sua vi­tó­ria, de sua ar­te, de­pen­de, no ge­ral, ex­clu­si­va­men­te de­le. Exa­ge­ro? Cla­ro. Mas útil pa­ra re­for­çar meu des­pre­zo, pro­fun­do, pe­lo ci­ne­ma, es­se ini­mi­go da li­te­ra­tu­ra, da his­tó­ria, da fi­lo­so­fia, das ar­tes em ge­ral. O que me sur­pre­en­de é a quan­ti­da­de de gen­te in­te­li­gen­te, co­mo Flá­vio, Ade­mir Lu­iz, Li­san­dro No­guei­ra, Enio Vi­ei­ra e Lou­ri­val Be­lém, en­can­ta­da com ci­ne­ma. Sou qua­se ten­ta­do a di­zer que, se não é ar­te, o ci­ne­ma vi­ra ar­te pe­las mãos de gen­te even­tual­men­te no­tá­vel, os crí­ti­cos. Sim, é o crí­ti­co que de­fi­ne a “ar­te-ci­ne­ma”, não o pú­bli­co, que, com meu apre­ço, con­si­de­ra ci­ne­ma tão-so­men­te co­mo um dos bons en­tre­te­ni­men­tos do mun­do mo­der­no.

No “Es­ta­dão” de do­min­go, 20, o es­cri­tor Ro­dri­go La­cer­da diz que o fil­me “Apo­ca­lip­se Now” é me­lhor do que sua ma­triz, “O Co­ra­ção das Tre­vas”, ro­man­ce (ou no­ve­la) do an­glo-po­la­co Jo­seph Con­rad. É dis­cu­tí­vel? É. Não apre­cio nem o li­vro nem o fil­me. Em­bo­ra sai­ba que “O Co­ra­ção das Tre­vas”, obra de gê­nio, tal­vez se­ja o prin­ci­pal li­vro de Con­rad, pe­la con­ten­ção e pe­la “de­nún­cia” da “lou­cu­ra” do co­lo­ni­a­lis­mo, que tan­to agra­da aos crí­ti­cos, apre­cio mui­to mais “O Ne­gro do Nar­ci­so”, “Lord Jim”, “Sob os Olhos do Oci­den­te” e “Nos­tro­mo” (há uma tra­du­ção be­lís­si­ma de Jo­sé Pau­lo Pa­es. Quem quer en­ten­der Hu­go Chá­vez de­ve ler “Nos­tro­mo”. Con­rad o con­si­de­ra­va a sua “mai­or te­la”). A his­tó­ria de “Nos­tro­mo” se pas­sa nas pro­xi­mi­da­des da Ve­ne­zu­e­la. Cos­ta­gua­na, o pa­ís in­ven­ta­do pe­lo au­tor, “pa­re­ce ser uma mis­tu­ra de Mé­xi­co, Ve­ne­zu­e­la, Ar­gen­ti­na, Pa­ra­gu­ai e Co­lôm­bia, prin­ci­pal­men­te es­ta úl­ti­ma”, diz Jo­sé Pau­lo Pa­es. Ma­ri­nhei­ro, Con­rad es­te­ve bre­ve­men­te na Ve­ne­zu­e­la e na Co­lôm­bia.

Ro­dri­go La­cer­da afir­ma que é uma bo­ba­gem di­zer que o fil­me “O Po­de­ro­so Che­fão” é su­pe­ri­or ao li­vro ho­mô­ni­mo de Ma­rio Pu­zo. No ca­so, es­tá er­ra­do. O fil­me é mes­mo su­pe­ri­or ao li­vro. O tra­di­cio­nal em­po­la­men­to li­te­rá­rio de Pu­zo não fi­gu­ra na obra ex­pan­si­va e, ao mes­mo tem­po, con­ti­da de Fran­cis Ford Cop­po­la. Por fa­lar nis­so, vi na Li­vra­ria Sa­rai­va có­pi­as res­tau­ra­das do no­tá­vel fil­me.

Em­bo­ra “O Po­de­ro­so Che­fão” se­ja um fil­me per­ti­nen­te, por tor­nar a má­fia um as­sun­to mais tri­vi­al, por­tan­to mais fá­cil de ser en­ten­di­do, a má­fia de ver­da­de é mui­to pi­or do que su­ge­re o fil­me. Há me­nos so­fis­ti­ca­ção — a má­fia não é tão fi­lo­só­fi­ca e a gla­mou­ri­za­ção qua­se ri­tu­a­lís­ti­ca é ex­ces­si­va (em­bo­ra en­can­ta­do­ra) — e mais vi­o­lên­cia. A ar­te não tem o de­ver de tra­du­zir a re­a­li­da­de tal co­mo é, mes­mo por que es­sa tra­du­ção é uma im­pos­si­bi­li­da­de. O de­ver da ar­te, se exis­te um de­ver, é ilu­mi­nar a re­a­li­da­de e en­can­tar seus apre­cia­do­res. Que­ro di­zer, en­tão, que “O Po­de­ro­so Che­fão” se apro­xi­ma de ar­te? É pro­vá­vel, co­mo tal­vez “Cri­mes e Pe­ca­dos”. Sou con­tra­di­tó­rio? Cla­ro e fi­co fe­liz que se­ja as­sim. “Me con­tra­di­go? Tu­do bem, en­tão,/me con­tra­di­go;/Sou vas­to, con­te­nho mul­ti­dões”, es­cre­veu Walt Whit­man, na be­la tra­du­ção de Ro­dri­go Gar­cia Lo­pes (“Fo­lhas de Rel­va”, Edi­to­ra Ilu­mi­nu­ras, 319 pá­gi­nas).

Cri­se à vis­ta?

Lei­to­res es­cre­vem pa­ra di­zer que “Di­á­rio da Ma­nhã” e “Pop” não per­ce­bem, em su­as pá­gi­nas de eco­no­mia, a pos­si­bi­li­da­de de uma cri­se mun­di­al e, por is­so, não dis­cu­tem seus pos­sí­veis re­fle­xos no Bra­sil e, por­tan­to, em Go­i­ás.

Tal­vez por con­ta do bom mo­men­to da eco­no­mia go­i­a­na, os jor­nais lo­ca­is não te­nham in­te­res­se em di­vul­gar no­tí­cias so­bre uma “pos­sí­vel” cri­se mun­di­al. Mas os lei­to­res es­tão cer­tos, pois Go­i­ás não é uma ilha e uma cri­se mun­di­al atin­gi­ria bru­tal­men­te um Es­ta­do que de­pen­de, em gran­de par­te, da ex­por­ta­ção de pro­du­tos co­mo so­ja e car­ne.

Eco­no­mis­tas do go­ver­no di­zem que os “fun­da­men­tos” da eco­no­mia bra­si­lei­ros são só­li­dos. São mes­mo? É pre­ci­so de­ba­ter.

Opi­ni­ão e aná­li­se

Na edi­ção de se­gun­da-fei­ra, 21, o “Di­á­rio da Ma­nhã” pu­bli­cou bons ar­ti­gos de El­der Ro­cha Li­ma, Deu­si­mar Ro­lim, Jo­ão Al­cân­ta­ra, Jo­ão Car­va­lho, Jo­sé Lu­iz Bit­ten­court e Ale­xan­dre de Abreu e Sil­va.

A es­tra­té­gia de pu­bli­car ar­ti­gos não é ru­im, pois au­men­ta o vo­lu­me de opi­ni­ões so­bre os fa­tos do dia-a-dia, mas o jor­nal não po­de dei­xar de in­ves­tir em aná­li­se. Pa­re­ce con­tra­di­tó­rio, mas não é. Os ar­ti­gos ex­pres­sam, al­gu­mas ve­zes, opi­ni­ões bem pes­so­ais ou de in­te­res­se de de­ter­mi­na­da ca­te­go­ria, sem em­ba­sa­men­to ne­nhum, mas as aná­li­ses, se fo­rem fei­tas pe­lo jor­nal, ten­de­rão a uma de­fe­sa mais am­pla da so­ci­e­da­de e, por­tan­to, dos lei­to­res. Ne­nhum jor­nal con­so­li­da sua ima­gem se trans­fe­rir sua opi­ni­ão e ca­pa­ci­da­de de ana­li­sar os fa­tos pa­ra ter­cei­ros.

Er­ro edi­to­ri­al

O “Pop” faz a coi­sa cer­ta, co­mo di­ria o cha­to-boy Spike Lee, ao pres­ti­gi­ar re­pór­te­res co­mo Vi­ni­ci­us Sas­si­ne, Ro­gé­rio Bor­ges, Al­mi­ro Mar­cos, Ma­rí­lia As­sun­ção, Car­la Bor­ges, en­tre ou­tros. A qua­li­da­de das re­por­ta­gens me­lho­rou. Mui­to. Ao mes­mo tem­po re­ce­bo e-mails da re­da­ção as­se­gu­ran­do que a des­mo­ti­va­ção é ge­ral, por con­ta dos bai­xos sa­lá­ri­os.

Mas o “Pop” faz a coi­sa er­ra­da quan­do per­mi­te que a co­lu­nis­ta po­lí­ti­ca Ci­lei­de Al­ves saia de fé­rias e não a sub­sti­tui por ou­tro jor­na­lis­ta. O?mes­mo ocor­re com Do­ra Kra­mer, a co­lu­nis­ta na­ci­o­nal. Ca­dê seu sub­sti­tu­to?

Per­fil bi­o­grá­fi­co de Le­o­nel Bri­zo­la

O jor­na­lis­ta Fran­cis­co das Cha­gas Lei­te Fi­lho lan­ça “El Cau­di­lho — Le­o­nel Bri­zo­la: Um Per­fil Bi­o­grá­fi­co” (Edi­to­ra Aqua­ri­a­na, 543 pá­gi­nas).

Co­mo não li, não pos­so opi­nar so­bre a qua­li­da­de. Es­pe­ro que não se­ja uma ha­gi­o­gra­fia, pois Lei­te Fi­lho as­ses­so­rou Bri­zo­la. O jor­na­lis­ta é ex­pe­ri­men­ta­do e sua pro­xi­mi­da­de com o cau­di­lho cer­ta­men­te pos­si­bi­li­tou ter mai­or co­nhe­ci­men­to do ho­mem e do po­lí­ti­co.

Em­bo­ra te­nha sa­cu­di­do o pa­ís, du­ran­te anos, até ser “sub­sti­tu­í­do” por Lu­la da Sil­va — in­di­re­ta­men­te, seu as­sas­si­no po­lí­ti­co —, Bri­zo­la é um po­lí­ti­co pou­co es­tu­da­do.



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