Euler de França Belém
ffeubel@uol.com.br
Ele voltou
Sérgio Ricardo ficou famoso por ter quebrado um violão durante um festival da canção. Depois, nervosinho, sumiu do mapa.
Agora, volta com o disco "Ponto de partida".
Defesa de Uribe
Quatro leitores escrevem e dizem mais ou menos o seguinte: "Álvaro Uribe não é santo. Você está enganado ao defendê-lo". Bem, se defendi Uribe, não me lembro. Mas, quanto a ser santo, é muito bom que Uribe não seja santo. Porque, no fundo, ninguém é santo e quem tenta sê-lo não me agrada.
Agora, não defendo o terceiro mandato para Uribe, por não ser democrático. Mas, se fosse colombiano, estaria nas ruas pedindo pelo terceiro mandato de Uribe. Só um político de muita coragem e talento pode conter as ondas terroristas das Farc. O homem é mesmo Uribe. Putz!, acabei por defendê-lo, quando não era minha intenção.
Longe do jornalismo
Leticia Borges, formada pela UFG e jornalista experiente, com passagem pelo "Diário da Manhã", "Pop", TV Brasil Central e assessoria em Brasília, enfrentou 12 mil concorrentes (495 por vagas) e foi aprovada para fiscal de posturas da Agência Municipal de Meio Ambiente.
Por que Leticia Borges abandonou o jornalismo (pelo menos provisoriamente)? O velho motivo: ganha mais como fiscal e professora de redação na rede particular. A jornalista está concluindo a licenciatura em Língua Portuguesa na Universidade Estadual de Goiás.
Jane Austen
A Editora Landmark publica nova tradução de "Orgulho e Preconceito" (400 páginas), da escritora inglesa Jane Austen, com tradução de Marcella Furtado. A edição é bilíngüe, o que é excelente, pois permite que o leitor possa verificar a qualidade da versão e da prosa da autora inglesa.
A tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela Ediouro, não é ruim. Mas precisa de uma revisão caprichada, pois há dezenas de erros.
Mundo globalizado
José Luís Fiori é um dos poucos intelectuais brasileiros que tentam escrever livros abrangentes sobre a economia política mundial. Um bom aperitivo é "O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações" (Editora Boitempo).
O intelectual errante
Antes de comprar alguns livros, leio trechos, ou eventualmente o prefácio. Não adquiri "Mínima Mímica — Ensaios Sobre Guimarães Rosa" (Companhia das Letras, 350 páginas), da ótima crítica literária Walnice Nogueira Galvão. Li, na livraria, o ensaio "Um intelectual a contracorrente: Duglas Teixeira Monteiro" (lutei contra meu computador para escrever Duglas, pois, teimoso, corrigia para Douglas).
Trata-se de um texto amoroso a respeito do brilhante sociólogo que escreveu com rara sensibilidade sobre a revolta de Contestado. Mas não apenas a respeito do intelectual. Walnice conta a história do homem, que, a partir de certo momento, passou a usar botinas e ir para o trabalho de bicicleta.
Pesquisador infatigável, Duglas levantava-se de madrugada para assistir cultos evangélicos, pois não se interessava apenas pela teoria — queria ver de perto como se davam os cultos, como as pessoas os praticavam.
O ensaio, sensível e inteligente, vale o livro. Ressalve-se que o livro é sobre Guimarães Rosa.
Biografia do Padre Cícero
Autor de excelentes biografias do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, do escritor José Alencar e da cantora Maysa, o jornalista Lira Neto está escrevendo a biografia do Padre Cícero.
O livro terá 550 páginas, com muitas fotografias de época e fac-símiles. Lira Neto conta que teve "acesso a uma ótima documentação".
Stálin não era agente da Okhrana
O jornalista e historiador Jarbas Silva Marques, de Brasília, pergunta se o historiador inglês Simon Sebag Montefiore confirma, no livro "O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), que o ditador foi agente da Okhrana, a polícia política do czarismo.
Montefiore apresenta as acusações contra Stálin, mas conclui que não há evidências de que tenha sido agente duplo.
O esclarecimento definitivo está na página 273: "Há provas avassaladoras em muitos arquivos existentes da polícia secreta de que Stálin não era um agente czarista — a não ser que sejam derrubadas por algum documento decisivo escondido em arquivos provincianos da Okhrana".
Cantor e algemas
O livro "O Jovem Stálin" (Companhia das Letras), de Simon Sebag Montefiore, conta que, além de assaltante de bancos — para financiar a luta de Lênin —, o bolchevique era cantor e, durante certo período, esteve encantado pelo esperanto. No poder, baniu o esperando e prendeu quem o estudava.
"Não somos ladrões para sermos algemados", disse Stálin para um policial, antes de chegar ao poder. Ele preferia a companhia de bandidos à de revolucionários, que acha empolados, e levou alguns criminosos para o centro do poder.
Inveja positiva
Carlos Wilson pergunta se tenho inveja de alguém. Claro que tenho, e incontida. De Shakespeare, de Machado de Assis, de William Faulkner (o autor de "O Som e a Fúria" não saía de casa sem levar algum texto de Shakespeare), de Renato Borghetti (se eu soubesse tocar acordeom não precisaria de Gilberto Gil para conversar com Deus) e de Noel Rosa (o maior compositor brasileiro).
O fim do ditamole
Vi a fotografia do ditamole Fidel Castro e do Gabriel García Márquez. Os dois comemoram 50 anos de amizade. Escritores, em geral, são puxa-aquilo roxo de ditadores. Márquez não é o primeiro e não será o último. É, apenas, um dos piores.
Mas o que chamou a minha atenção mesmo não foi a canalhice de Márquez, já tradicional, e sim o rosto de Fidel Castro. O rosto do ditamole está se dissolvendo, assim como o socialismo cubano.
James Joyce do boxe
Quem não viu perdeu o Nobel do Boxe. Na quarta-feira, 23, o Premiere Combate exibiu quatro lutas do impecável Miguel Angelo Cotto, de Porto Rico.
Cotto e Zab Judah deram um espetáculo de boxe da maior magnitude. Um concerto ou, se preferir, um bale dos melhores. Dançaram, se tocaram e, no final, Cotto ganhou por nocaute, no 11º round. Judah é extremamente rápido e inteligente, daí a dificuldade de Cotto para tocá-lo. Judah chegou a acertar a boca de Cotto, que sangrou. A luta é de 2007.
Shane Mosley é um estrategista, mas não conseguiu derrotar Cotto. Mosley, apesar da idade, é lépido. Lutou bem. Mas Cotto é valente, forte e tecnicamente irrepreensível. Manteve o título de campeão dos meio-médios. A luta é de novembro de 2007.
Um crítico do quilate de Edmund Wilson certamente chamaria Cotto de "o James Joyce do boxe
Maiores boxeadores
Leio no site www.boxergs.com.br a lista dos maiores boxeadores do século 20. Robert Cassidy elaborou a lista a partir da opinião de quatro grandes treinadores.
Gil Glancy diz que o maior boxeador do século foi Willie Pep (nada sei a respeito). Angelo Dundee prefere Muhammad Ali. Lou Duva fica com Sugar Ray Robinson. Emanuel Steward repete Dundee.
Cassidy lista também a principal luta em que os quatro trabalharam. Clancy diz que a luta do século ocorreu entre Joe Frazier e Muhammad Ali. "Foi o evento esportivo do século", afirma.
Dundee escolhe a batalha do Zaire, entre Muhammad Ali e George Foreman.
Duva escolhe a peleja entre Evander Holyfield e Buster Douglas. O primeiro carrasco de Mike Tyson, o sujeito que provou que era possível vencer a fera, foi derrotado por nocaute por Holyfield.
Steward cita a luta entre Hilmer Kenty e Ernesto Espana. Ele cita também as guerras entre Thomas Hearns e Marvin Hagler. Escrevi guerras, porque foram verdadeiras batalhas. Hearns e Marvelous são autênticos samurais dos tempos modernos.
Luta histórica
Na terça-feira, a ESPN exibiu uma luta de boxe fantástica entre Aaron Pryor e Alexis Arguello, realizada em 1983, pelo título dos meio-médio-ligeiros.
Pyror venceu por nocaute, mas a resistência de Arguello era impressionante.
Durante a Revolução Sandinista, na Nicarágua, Arguello perdeu os bens. Foi usuário de cocaína, mas, quando subia aos ringues, era uma fera, apanhava mas não caía fácil.
Carlos Gracie
O poeta Carlos Willian Leite, editor do Opção Cultural, está lendo "Carlos Gracie — O Criador de uma Dinastia" (Editora Record, 560 páginas), de Reila Gracie.
Se tivesse certeza de que viveria pelo menos 101 anos, e lúcido, arranjaria dois ou três dias e leria o livro sobre o grande Carlos Gracie.
Como não tenho certeza que chegarei aos 60 anos, dou apenas uma nota sobre o livro que conta a história do pai "jiu-jítsu brasileiro" (para ser franco, nem sei o que isto quer dizer). "O Criador de uma Dinastia" é do tipo de livro que não li, não lerei, mas gostei.
O erro de Freud
A campanha política de Aparecida de Goiânia já chegou ao chiqueiro. A turma de Marlúcio Pereira costuma bater abaixo da linha de cintura. Joga pesado, desconhecendo regras mínimas de civilidade.
Mas agora quem saiu na frente, em termos de deselegância, foi Freud, não o Sigmund, e sim o "de Melo", ex-prefeito da cidade. Freud disse que Maguito Vilela merece ser eleito, pois é bonito. Marlúcio deve perder, pois é "feio".
Feio, no caso, deve ser sinônimo de "preto", de "negro".
Até os adversários sabem que o ex-senador Maguito Vilela não aprova esse jogo sujo. Maguito não tem a garra de Iris Rezende, mas é um político que não tolera o jogo baixo. Ele é indiferente ao lamaçal das campanhas. Por conta disso, de sua civilidade, tenho respeito e apreço pelo peemedebista.
Lições de uma recuperação
Autor do livro "Vida — Armadilha Sem Fim", no qual conta seu envolvimento com o crime, Gésio Passos é um empresário bem-sucedido, recuperado para o convívio social. Na quarta-feira, 30, dará uma palestra para 50 jovens reeducandos, no Batalhão Anhanguera,
A jornalista Elaine Freitas relata: "Gésio Passos, proprietário da marca Pactus, falará sobre sua adolescência e sobre sua vida de bandido, mostrando que, por meio da força de vontade, é possível ter uma vida melhor, honesta e com satisfação profissional. A palestra enfocará seu livro, ´Vida — Armadilha Sem Fim´, lançado em junho. O livro é uma autobiografia, contando todos os detalhes da vida de Gésio, desde sua infância desprovida, sua adolescência ´bandida´ e sua vida como empresário de sucesso".
Os reeducandos receberão exemplares do livro de Gésio. "O objetivo é que eles tenham minha história como exemplo, que eles saibam que é possível se reerguer", diz o empresário.
Mensalão
O jornalista Allan Kardec envia endereço no qual se pode ler "o livro que, supostamente, foi recusado por todas as editoras: http://www.escandalodomensalao.com.br/".
Poesia francesa
Leio, com raro prazer, uma das dessas maravilhas que encontramos nos sebos: "Antologia da Poesia Francesa — Do Século IX ao Século XX" (Editora Record, 462 páginas). As traduções são do especialista Cláudio Veiga, que tem o nome destacado na capa, tal a qualidade de seu trabalho, no qual une competência e sensibilidade.
Alguns dos poetas traduzidos: François Villon ("Balada dos Enforcados"), Louise Labé ("Foi predito"), Racine ("Pranto de um cristão"), André Chénier ("A Poesia"), Lamartine ("O Livro da Existência" Victor Hugo ("Mors"), Gérard de Nerval ("Artêmis"), Alfred de Musset ("Tristeza"), Baudelaire ("Spleen"), Mallarmé ("Brisa Marinha"), Verlaine ("Arte poética"), Rimbaud ("Aurora"), Jules Laforgue ("Pôr-de-sol de inverno"), Paulo Valéry ("Cemitério marinho"), Apollinaire ("A linda ruiva"), Saint-John Perse ("Neves III"), Henri Michaux ("Sai da parede uma cabeça"), René Char ("À saúde da serpente"), Yves Bonnefoy ("Envelhecemos...").
Provincianismo
Recebo de um jornalista: "Por provincianismo, o jornal ´O Popular´ não deu muita importância ao primeiro debate entre os candidatos a prefeito de Goiânia, realizado pela Rádio 730, concorrente da CBN, da Organização Jaime Câmara.
"O ´Diário da Manhã´, acertadamente, deu o destaque necessário. Além disso, fez a análise correta ao reportar a "falta de tempero" do debate e a ausência de propostas dos candidatos, que, preparando-se somente para atacar o favoritismo de Iris Rezende, esqueceram dos seus projetos para Goiânia.
"O candidato Gilvane Felipe cometeu a maior gafe do debate, ao sugerir a produção do programa que ´nos próximos debates, se o prefeito não quiser vir, que ele mande o vice, que, afinal de contas, será prefeito por metade do período´. Com essa declaração, Gilvane já dá como certa a vitória do prefeito Iris Rezende e, ainda, a vitória em uma possível candidatura ao governo do Estado. Nenhum dos jornais deu destaque a infeliz alegação do candidato do PPS".
Mestrado na França
Formada em jornalismo pela Faculdades Alfa, Denise Rodrigues, de 22 anos, vai fazer mestrado na França. "Fui aprovada depois de muito custo e ansiedade e parto, no dia 1° de agosto, para a cidade de Grenoble, situada na região Rhône-Alpes, a segunda maior cidade universitária da França. Minha mais nova universidade é a Universidade Stendhal Grenoble 3 e o mestrado se chama Master Recherche Sciences de l´Information et de la Communication (master pesquisa Ciências da Informação e da Comunicação)".
"Quero muito me aperfeiçoar, aprender mais em todos os sentidos e depois, retornar ao meu país e contribuir. Ainda tenho aquela ideologia de ajudar meu país, de ser um tijolo na construção de um mundo melhor", diz Denise. A jornalista deixou a assessoria de Comunicação da SSP, onde ficou três, "com o coração partido".
"Quem sabe daqui uns tempos eu não mando notícias Direto da Europa, assim como o Herbert Moraes Jr.?" Já é nossa convidada.
Omissão estranha
Nas resenhas do livro "Stasilândia — Como Funcionava a Polícia Secreta Alemã" (Companhia das Letras, 375 páginas), de Anna Funder, não vi nenhuma referência ao livro "O Homem Sem Rosto — Autobiografia do Maior Mestre de Espionagem do Comunismo" (Editora Record, 430 páginas), de Markus Wolf com Anne Anne McElvoy.
Não entendo os motivos da omissão, pois Markus Wolf, além de criar ou recriar a espionagem da Alemanha Oriental, é um dos forjadores do eficiente sistema secreto da Cuba de Fidel Castro. Um dos segredos da eficiência do serviço secreto cubano é a tecnologia e a disciplina alemãs.
O livro de Wolf, apesar de sua vaidade extremada, talvez daí seu sucesso como espião, é um retrato impagável da espionagem stalinista. Como se sabe, os modestos e os não-vaidosos costumam ser ineficazes, pois não têm pretensões.
Deus e futuro
O texto abaixo (de maio deste ano) é do bem-informado site Blue Bus (www.bluebus.com.br). O futuro, como se sabe, nem a Deus pertence. Mas o que diz no pequeno não é profecia, e sim constatação, pois o processo, por ser processo, está em andamento.
Futuro do jornal é ser gratuito e analítico
Por conta da competição com a internet, os jornais vão provavelmente se tornar gratuitos e colocar mais ênfase em comentários e opinião. É o que indica uma pesquisa realizada pela Zogby International para o Fórum Mundial de Editores e para a Reuters. O levantamento ouviu executivos de jornais em todo o mundo — a maior parte deles se mostrou otimista em relação ao futuro de suas publicações, mas admite que elas terão que se adaptar ainda mais na era digital.
Segundo a pesquisa 56 por cento dos pesquisados acreditam que a maioria das notícias, impressas ou online, será gratuita no futuro — contra 48 por cento que pensavam assim há um ano. Considerando apenas os editores de países emergentes, incluindo os da América do Sul, o percentual é mais alto, 61 por cento.
Os que acham que as redações devem ser mais integradas aos serviços digitais somam 86 por cento e dois em cada três executivos ouvidos acreditam que a forma mais comum de consumo de notícia, em 10 anos, será através da internet ou de celulares.
Para os 704 pesquisados, a maior ameaça para o mercado de jornais é a redução do numero de leitores jovens. Com relação à qualidade dos jornais, 45 por cento dos entrevistados pensam que vai melhorar, mas os que acham que vai piorar são cerca de 25%.
Crítica do leitor
Carlos Sampaio envia título do “Daqui” de 25 de junho (“antes tarde o que nunca, não é?”, diz): “Camila Rodrigues conta com apóio de Fernanda Souza para superar separação”. O próprio leitor faz a correção: “O jornal errou. Não é apóio, e sim apoio, sem acento”.
Nigerianos roubam U$ 242 milhões de banco brasileiro
O historiador e jornalista inglês Misha Glenny escreveu um livro muito bom, “McMáfia — Crime Sem Fronteiras” (Companhia das Letras, 440 páginas), no qual o Brasil figura como um dos personagens principais. Não é preciso esquecer as máfias italianas e americanas, mas o pesquisador mostra que há muitas outras máfias no mundo que devem ser conhecidas e, sobretudo, combatidas. Uma delas é a nigeriana.
No capítulo 8, “O teatro do crime”, Glenny conta a história do golpe que um grupo de criminosos nigerianos aplicou no Banco Noroeste, das famílias Simonsen e Cochrane, entre 1995 e 1997. Juntas, foram surrupiadas por africanos espertos em 242 milhões de dólares e só com muito custo conseguiram reaver parte do dinheiro. Na verdade, segundo o livro, conseguiram bloquear a grana. Mas gastaram uma fortuna para tentar retomá-la, pois tiveram de contratar especialistas caríssimos para fazer a operação de “retorno”. Desmoralizado, o banco acabou vendido para o Santander.
A história do golpe é surpreendente, e começou pelo fax e, depois, pela internet. O executivo Nelson Sakaguchi, responsável pelas operações do Banco Noroeste nas Ilhas Cayman, recebeu um fax de Tafida Williamns (na verdade, Bless Okereke), diretor de Orçamento e Planejamento do Ministério da Aviação da Nigéria. Williams explicou que o governo, que iria construir um novo aeroporto internacional em Abuja, a nova capital, precisava de investimentos.
Sakaguchi, homem do mercado financeiro, farejou uma grande oportunidade de investimentos. Articulou um encontro com Paul Ogwuma, diretor do Banco Central da Nigéria. Os nigerianos informaram que o governo queria 50 milhões de dólares para construir o aeroporto.
Mesmo sabendo que o capital do Noroeste era de apenas 500 milhões de dólares, o brasileiro, impressionado com o esquema, entusiasmou-se e liberou imediatamente 4 milhões de dólares para Emmanuel Nwude, “o mais exímio golpista da Nigéria”. Sakaguchi foi liberando dinheiro, até chegar à fabulosa soma de 242 milhões de dólares. O nome do golpe é “comissão adiantada”, ou 419. Os nigerianos foram pedindo dinheiro, antecipações, e, no final das contas, não havia aeroporto, nem os golpistas eram dirigentes do governo e do banco central da Nigéria.
“Todo mundo concorda que Sakaguchi foi vítima de uma fraude monumental” — uma das cinco maiores do mundo —, "mas ninguém entende como um banqueiro tão experiente caiu no golpe nem por que subtraiu o dinheiro de seu empregador no processo”, escreve Glenny. “Sakaguchi insiste que foi vítima pura e simples de um golpe e que não estava roubando dinheiro do banco. (...) A ingenuidade de Sakaguchi implora credibilidade. Não há provas de que ele estivesse mancomunado com os golpistas — foi uma vítima genuína. Mas estava financiando aquele jogo desvairado com o dinheiro dos outros.”
Sakaguchi assegura que seus patrões sabiam do “negócio”, mas as famílias Simonsen e Cochrane negam e o processaram.
Glenny relata que os nigerianos enviam, todos os dias, milhares de e-mails para pessoas do mundo inteiro com propostas de dinheiro fácil — milhões de dólares — e muitas acreditam, entram em contato e são lesadas. Dificilmente conseguem receber o dinheiro que, na verdade, deram de presente para nigerianos espertos. O e-mail se tornou um poderoso instrumento para os nigerianos arrancarem dinheiro dos incautos. Aliás, pode-se dizer que Sakaguchi, com anos de mercado financeiro, é incauto?
Noutro capítulo, Glenny relata como o delegado Protógenes Queiroz (o mesmo que prendeu o banqueiro Daniel Dantas) desbaratou a quadrilha do chinês Law Kin Chong. Nem mesmo a Polícia Federal em São Paulo foi avisada da Operação Shogun.
“Os cartéis de Cali e de Medellín começaram a negociar a expansão global da cocaína com representantes da Irmandade de Solntsevo de Moscou, com traficantes búlgaros e com inúmeros traficantes do Caribe e da América Central” por intermédio das famílias Cuntrera e Cuarana. O fundador do esquema, octogenário, mora, sem ser molestado, no Rio de Janeiro. Os filmes americanos estão certos: criminosos continuam fugindo para o Brasil.
O Primeiro Comando da Capital (PCC) também é discutido por Glenny, mas, nesse campo, seu trabalho de pesquisa é insatisfatório. Contentou-se em colher opiniões de promotores, um juiz aposentado e delegados de polícia e nada conta de relevante.
Há relatos interessantes sobre “ratos” da internet brasileiros e seus asseclas internacionais. Eles roubam milhões de contas de bancos. O brasileiro Kau, especialista em testar segurança de computadores, diz que “o único computador seguro é o que está desligado”.
Jornais goianos são escravos voluntários de agências de notícias
Leitores cobram avaliação da cobertura da Operação Satiagraha na imprensa goiana. O “Pop”, como de hábito, optou pela publicação de reportagens das agências de notícias, ou seja, fez a escolha óbvia. Embora tenha estrutura para cobrir fatos desta natureza em Brasília, São Paulo ou Rio de Janeiro, o jornal decidiu, não se sabe por quê, servir-se apenas do noticiário, correto mas frio e repetitivo, das agências. Assim como envia repórteres para cobrir uma festa literária e o dramático caso de prostitutas na Espanha, o jornal deveria enviar repórteres para cobrir histórias como a da prisão do banqueiro Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta. Daria o sabor local e seria útil para treinar seus repórteres em jornalismo investigativo.
O “Diário da Manhã”, como não tem estrutura, aderiu à cobertura baseada no trabalho da agências de notícias. Mas abriu espaço para articulistas escreverem sobre o assunto. Apesar de sua obsessão pela yoga, que está contaminando seus artigos, o advogado Deusimar Rolim, procurador da República aposentado, escreveu os melhores textos publicados pelo jornal. Pena que o “DM” não os viu como pautas.
No balanço geral, não se pode dizer que os jornais locais cobrem a Operação Satiagraha. Na verdade, apenas transcrevem os despachos das agências. Costumo chamar isto de servidão voluntária.
Família perfeita
é uma fantasia
Theíza Cristhine, do Diário da Manhã (edição de segunda-feira, 21), escreveu uma reportagem, com o título de “Adolescentes fogem para amar”, que retrata um drama das famílias. “Dos 86 casos de desaparecimento notificados em 2008 na DPCA, 95 por cento saíram de casa para viver com parceiros”, relata o subtítulo. A psicóloga Marluce de Oliveira conclui: “Em uma família que há um bom diálogo esses fatos não acontecem”.
A reportagem de Theíza Cristhine é correta, mas, no lugar de se fiar exclusivamente na estatística da polícia, deveria ter ouvido mais garotas e pais. E fica a curiosidade: por que os garotos não fogem? Ou eles também fogem?
A psicóloga Marluce de Oliveira, além do conhecimento científico, deve ter experiência. Mas não há família perfeita e, mesmo naquelas onde há diálogo, ocorrem fugas de garotas e outros problemas, como uso de drogas. Liev Tolstói talvez tenha feito o “diagnóstico” preciso na abertura de seu romance “Anna Kariênina” (Editora Cosacnaify, 814 páginas, tradução de Rubens Figueiredo): “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Mais do que perfeitas ou imperfeitas, há famílias diferentes e os valores de uma geração, em mutação cada vez mais rápida, não são inteiramente compreendidos e aceitos pela geração anterior. Há algum “remédio” ideal para a incompreensão entre gerações diversas? Talvez não, mas um caminho começa por tolerância e paciência.
A família perfeita, assim como a sociedade perfeita, é um sonho ou fantasia.
Time do Goiás
convence?
Adepto da teoria de que “menos é mais”, o Goiás derrotou Palmeiras e Cruzeiro, pelos placares de 2 a 1 e 1 a 0. Trata-se de um grande feito, pois Palmeiras e Cruzeiro são mesmo times de qualidade. Mas os resultados econômicos mostram que as vitórias podem ter resultado muito mais do esquema tático armado por Hélio dos Anjos — tipo “não tomar gol e, se der, fazer apenas um gol” — do que das qualidades reais do time.
Paulo Baier e Harlei, jogadores de certa qualidade, são líderes acomodados. Talvez Iarley possa assumir a posição do líder que, motivado, sabe motivar. Baier e Harlei, em fim de carreira, não parecem muito interessados em jogar pesado. Principalmente Baier, pois Harlei é muito mais esforçado e participante dos jogos.
Não é positivo que a imprensa se entusiasme tanto, mas claro que é preciso reconhecer os méritos do técnico e do time, que está melhorando, ainda que lentamente. Ressalva: dois novos revezes deixarão o Goiás na lona.
Real Privê
Título do Diário da Manhã de segunda-feira, 21: “Goiás vence mas não sai da zona”. O leitor deve ter estranhado, pois “zona”, na linguagem popular, significa “puteiro”, “bordel”.
O que ocorreu? Como não havia espaço para um título mais longo, o editor, ao retirar “de rebaixamento” (poderia ter ido para a retranca), provocou uma confusão bordeliana.
Woody Allen é o filho pródigo de Dostoiévski
Dois leitores contam que leram na “Revista Bula” (www.revistabula.com) que o escritor Flávio Paranhos escreveu que o filme “Crimes e Pecados”, do americano Woody Allen, é superior ao romance “Crime e Castigo”, do russo Fiódor Dostoiévski.
Não li o comentário de Flávio, mas é, certamente, mais uma opinião do que uma constatação. Suponho que a pergunta justa seja a seguinte: Allen, com seu “Crimes e Pecados”, excelente filme, existiria sem “Crime e Castigo”, fabuloso e reverberante romance? Talvez sim. Talvez não. Provavelmente, não. Isto significa que a obra posterior tem de ser pior, por ter sofrido influência da anterior? Não. Mas cinema, definitivamente, não tem a envergadura da literatura para dizer alguma coisa mais profunda aos homens. Cinema é o “digestivo” perfeito para quem gosta de pipoca e chocolate. Fico impressionando ao verificar como as pessoas comem dentro dos cinemas. Depois da exibição dos filmes, as salas parecem campos de batalhas de bárbaros, tal a quantidade de papel e plástico. No cinema, as pessoas pensam, vêem imagens, ouvem textos e comem ao mesmo tempo? O que psiquiatras, psicólogos e neurologistas têm a dizer a respeito da mistura fina?
Mas, se o comentário de Flávio é idiossincrático — acho-o, na verdade, extremamente perspicaz e uma abertura para o debate (não comigo, pois não entendo de cinema) —, os meus raramente ficam atrás; pelo contrário, são ainda mais idiossincráticos.
Primeiro, não vejo cinema como arte, e sim como entretenimento, pelo menos para 99,5 por cento dos espectadores. Para se tornar arte, como querem seus amantes, o cinema precisa da crítica, da elaboração de críticos com André Bazin e, no caso de Allen, de Flávio. É a crítica que faz (se faz) o cinema se tornar arte. Por si, o cinema é entretenimento, nada mais do que isto. O que, para mim, já é muito. Ser entretenimento é quase ser arte.
Segundo, e acrescento que chego às raias do absurdo, avalio que o boxe é arte superior ao cinema. Este é construído por várias pessoas, não é uma “arte” individual, como a literatura e a pintura. Como se trata de uma “arte” coletiva (um produto industrial), sendo impossível distinguir autoria, apesar dos críticos franceses terem inventado o “cinema de autor”, fica muito difícil, senão impossível, dizer que diretor de cinema é artista. No caso de Allen, não sei bem. Flávio considera-o um artista, talvez porque aparentemente tenha controle pessoal, restrito, de sua produção. Não sei se tem, pois, embora goste de seu cinema, não acompanho detalhes sobre seus trabalhos. No boxe, ao contrário do cinema, o grande lutador, como Sugar Ray Robinson, Roberto “Mãos de Pedra” Duran, Muhammad Ali, Floyd Mayweather, Miguel Cotto, é essencialmente um artista. A construção de sua vitória, de sua arte, depende, no geral, exclusivamente dele. Exagero? Claro. Mas útil para reforçar meu desprezo, profundo, pelo cinema, esse inimigo da literatura, da história, da filosofia, das artes em geral. O que me surpreende é a quantidade de gente inteligente, como Flávio, Ademir Luiz, Lisandro Nogueira, Enio Vieira e Lourival Belém, encantada com cinema. Sou quase tentado a dizer que, se não é arte, o cinema vira arte pelas mãos de gente eventualmente notável, os críticos. Sim, é o crítico que define a “arte-cinema”, não o público, que, com meu apreço, considera cinema tão-somente como um dos bons entretenimentos do mundo moderno.
No “Estadão” de domingo, 20, o escritor Rodrigo Lacerda diz que o filme “Apocalipse Now” é melhor do que sua matriz, “O Coração das Trevas”, romance (ou novela) do anglo-polaco Joseph Conrad. É discutível? É. Não aprecio nem o livro nem o filme. Embora saiba que “O Coração das Trevas”, obra de gênio, talvez seja o principal livro de Conrad, pela contenção e pela “denúncia” da “loucura” do colonialismo, que tanto agrada aos críticos, aprecio muito mais “O Negro do Narciso”, “Lord Jim”, “Sob os Olhos do Ocidente” e “Nostromo” (há uma tradução belíssima de José Paulo Paes. Quem quer entender Hugo Chávez deve ler “Nostromo”. Conrad o considerava a sua “maior tela”). A história de “Nostromo” se passa nas proximidades da Venezuela. Costaguana, o país inventado pelo autor, “parece ser uma mistura de México, Venezuela, Argentina, Paraguai e Colômbia, principalmente esta última”, diz José Paulo Paes. Marinheiro, Conrad esteve brevemente na Venezuela e na Colômbia.
Rodrigo Lacerda afirma que é uma bobagem dizer que o filme “O Poderoso Chefão” é superior ao livro homônimo de Mario Puzo. No caso, está errado. O filme é mesmo superior ao livro. O tradicional empolamento literário de Puzo não figura na obra expansiva e, ao mesmo tempo, contida de Francis Ford Coppola. Por falar nisso, vi na Livraria Saraiva cópias restauradas do notável filme.
Embora “O Poderoso Chefão” seja um filme pertinente, por tornar a máfia um assunto mais trivial, portanto mais fácil de ser entendido, a máfia de verdade é muito pior do que sugere o filme. Há menos sofisticação — a máfia não é tão filosófica e a glamourização quase ritualística é excessiva (embora encantadora) — e mais violência. A arte não tem o dever de traduzir a realidade tal como é, mesmo por que essa tradução é uma impossibilidade. O dever da arte, se existe um dever, é iluminar a realidade e encantar seus apreciadores. Quero dizer, então, que “O Poderoso Chefão” se aproxima de arte? É provável, como talvez “Crimes e Pecados”. Sou contraditório? Claro e fico feliz que seja assim. “Me contradigo? Tudo bem, então,/me contradigo;/Sou vasto, contenho multidões”, escreveu Walt Whitman, na bela tradução de Rodrigo Garcia Lopes (“Folhas de Relva”, Editora Iluminuras, 319 páginas).
Crise à vista?
Leitores escrevem para dizer que “Diário da Manhã” e “Pop” não percebem, em suas páginas de economia, a possibilidade de uma crise mundial e, por isso, não discutem seus possíveis reflexos no Brasil e, portanto, em Goiás.
Talvez por conta do bom momento da economia goiana, os jornais locais não tenham interesse em divulgar notícias sobre uma “possível” crise mundial. Mas os leitores estão certos, pois Goiás não é uma ilha e uma crise mundial atingiria brutalmente um Estado que depende, em grande parte, da exportação de produtos como soja e carne.
Economistas do governo dizem que os “fundamentos” da economia brasileiros são sólidos. São mesmo? É preciso debater.
Opinião e análise
Na edição de segunda-feira, 21, o “Diário da Manhã” publicou bons artigos de Elder Rocha Lima, Deusimar Rolim, João Alcântara, João Carvalho, José Luiz Bittencourt e Alexandre de Abreu e Silva.
A estratégia de publicar artigos não é ruim, pois aumenta o volume de opiniões sobre os fatos do dia-a-dia, mas o jornal não pode deixar de investir em análise. Parece contraditório, mas não é. Os artigos expressam, algumas vezes, opiniões bem pessoais ou de interesse de determinada categoria, sem embasamento nenhum, mas as análises, se forem feitas pelo jornal, tenderão a uma defesa mais ampla da sociedade e, portanto, dos leitores. Nenhum jornal consolida sua imagem se transferir sua opinião e capacidade de analisar os fatos para terceiros.
Erro editorial
O “Pop” faz a coisa certa, como diria o chato-boy Spike Lee, ao prestigiar repórteres como Vinicius Sassine, Rogério Borges, Almiro Marcos, Marília Assunção, Carla Borges, entre outros. A qualidade das reportagens melhorou. Muito. Ao mesmo tempo recebo e-mails da redação assegurando que a desmotivação é geral, por conta dos baixos salários.
Mas o “Pop” faz a coisa errada quando permite que a colunista política Cileide Alves saia de férias e não a substitui por outro jornalista. O?mesmo ocorre com Dora Kramer, a colunista nacional. Cadê seu substituto?
Perfil biográfico de Leonel Brizola
O jornalista Francisco das Chagas Leite Filho lança “El Caudilho — Leonel Brizola: Um Perfil Biográfico” (Editora Aquariana, 543 páginas).
Como não li, não posso opinar sobre a qualidade. Espero que não seja uma hagiografia, pois Leite Filho assessorou Brizola. O jornalista é experimentado e sua proximidade com o caudilho certamente possibilitou ter maior conhecimento do homem e do político.
Embora tenha sacudido o país, durante anos, até ser “substituído” por Lula da Silva — indiretamente, seu assassino político —, Brizola é um político pouco estudado.