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Gonçalo Armijos Palácios gonzalo.armijos@gmail.com
São todos os valores éticos convencionais e históricos?
Para além de uma ética universal, a vida no nosso pequeno planeta talvez mostre que há um microvalor ético — mesmo que só seja válido para este mundo
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Editoria de arte
| No texto que publicamos na seção Cartas, Marcus Valério levanta instigantes questões. No artigo que ele cita usei a questão do meio ambiente como um exemplo do que parece ser uma guerra entre o que podemos chamar de interesses gerais e interesses particulares. O problema que tratei nos últimos artigos é este: podemos realmente afirmar que não existem valores éticos que não sejam convencionais?
Ao que parece, só temos esta alternativa: os valores éticos são (todos) convencionais — meras criações humanas — ou, alguns pelo menos, estão fundamentados em algo que é divino ou natural. Quem acredita em Deus poderá se inclinar a defender, na segunda alternativa, que há valores humanos que decorrem de Deus. Já outros podem manter que há valores fundamentados, de alguma forma, na própria natureza.
No início do seu texto, o Marcus Valério menciona a questão que chama de cronocentrismo, a ideia de se pensar que estamos num momento histórico especial. Concordo com isso, o Iluminismo moderno, o positivismo de Comte, a tese do fim da história são exemplos da ideia de estarmos numa espécie de último momento insuperável, o momento do clímax, do topo. No entanto, quando fiz menção ao que nossa época está fazendo com o meio ambiente, desejava dirigir nosso olhar para essa luta entre os interesses gerais e os individuais, não para a questão ambiental em si. Como diz o próprio Marcus Valério, “ninguém é tão ingênuo para discordar disso”, sua posição é de que “isso não é especialidade de nossa época, sempre foi assim”. Posso discordar desta última afirmação e concordar com outras. Mas isso nos afasta da questão que levantei: podemos falar de valores éticos que decorram de algum fundamento não histórico?
É no segundo ponto que o Marcus Valério levanta o problema que me interessa discutir: “O segundo ponto é que subjaz, em praticamente todo discurso ambientalmente caracterizado, um estranho externalismo moral que parece apontar que temos alguma obrigação para com o meio ambiente que nos é imposta de fora. Como se ‘não extinguir espécies’ fosse algum tipo de mandamento divino ou natural.” Aí me parece estar o problema. De alguma forma, parece ser prevalente a tese de que não há valores éticos que não sejam produto da própria decisão humana, pelo que se rejeita a existência de valores éticos divinos ou naturais — nos dois casos, valores que independem da vontade humana.
O problema, no meu caso, é que eu assumia uma posição que, seguindo o discurso do Marcus Valério, se encaixaria nesse ´internalismo´ moral. Ou seja, os valores morais só fariam sentido, e encontrariam sua origem, no interior das comunidades. Isso me levou a discutir um assunto extremamente difícil, o do aborto, defendendo que, em determinadas circunstâncias, as mulheres têm o direito de escolha. Assim, o direito à vida não seria, dentro desse internalismo, um valor em si, ahistórico, dexcontextualizado. Para dizê-lo em palavras do Marcus Valério, não seria uma obrigação “imposta de fora”, ou uma espécie de “mandamento divino ou natural”.
No entanto, no internalismo que ele menciona pode haver uma possibilidade de, sem defendermos mandamentos divinos ou naturais universais, levantar a possibilidade da existência de algum tipo de valores moral determinado contextualmente. O contexto ao que me refiro, mesmo não sendo muito particular ou individual, é insignificante. O Marcus Valério pensa em termos de tempo geológico. Agora estou pensando na insignificância do nosso planeta em relação ao universo como um todo. O fato é que a existência de vida neste planeta insignificante, e a possibilidade de sua recuperação milenar, como diz o próprio Marcus Valério, talvez a torne um valor para os habitantes racionais deste planeta, nós, independentemente dos nossos microcontextos e estreitos interesses. Se a vida no planeta Terra tem, de fato, esse poder de recuperação, ou há essa teimosia em continuar, essa tendência a perseverar no ser, não mostraria isso que ela possui, para além de todo contexto e toda particularidade, um valor em si?
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção.
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