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Gonçalo Armijos Palácios gonzalo.armijos@gmail.com
Ética: o indivíduo, o grupo e o todo
Os impasses nas conferências mundiais sobre o clima mostram claramente que os interesses estreitos se sobrepõem aos interesses gerais
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Editoria de arte
| No artigo anterior comentei parte de uma mensagem enviada por Marcus Valério Xavier Reis publicada na seção cartas da mesma edição. No final da mensagem ele levanta este problema:
“Quero comentar um trecho do colega Gonçalo que me soou estranho: ‘O nazismo, as guerras e todas as mazelas dos séculos 20 e 21 podem ser o sintoma de que na luta entre uma ética positiva, geral, e a moralidade individual (motivada pelo que o indivíduo tem como bom), é esta, mais destrutiva do que construtiva, que vencerá.’ Como?! A mim isso só faria sentido se tais eventos estivessem sendo largamente dominantes nesses períodos, e se contabilizarmos as populações que estão diretamente envolvidas em guerras e as que não estão, os últimos ganham largamente em quantidade. Sem contar que a reprovação, ao menos manifestada, por tais atos, é praticamente universal. Não impede que os mesmos ocorram, mas sempre em escala local e oculta.
Fica a questão.”
Penso, de fato, que eventos não simplesmente negativos como destrutivos estão sendo largamente dominantes. E não pensava unicamente nas guerras, que tradicionalmente foram entre pessoas, mas a guerra entre o homem e o nosso planeta. Não disse no artigo em questão, mas as referências que fiz ao planeta Terra sugerem o que tinha em mente. Não é de hoje, ou das últimas duas décadas quando o tema começou a se tornar popular na mídia, que tenho me preocupado por questões ambientais. Meu contato com o assunto ocorreu quando, adolescente, meu pai comprou uma coleção da editora Salvat sobre a vida animal. A coleção está ainda na casa do meu pai. Intitula-se “Fauna”. Os volumes da coleção falavam sobre a vida animal, principalmente da África, e traziam matérias escritas por naturalistas. As melhores eram assinadas pelo ambientalista e naturalista espanhol – falecido num acidente de aviação em 1980 – Félix Rodríguez de la Fuente. Assim, foi aproximadamente 15 ou 16 anos que os artigos dele me alertaram sobre o perigo do desmatamento e, em geral, da ação predatória dos homens no planeta. Num sentido, minhas primeiras ideias sobre equilíbrio ecológico, alimentadas pela leitura dos textos de Rodríguez de la Fuente, tomaram corpo antes mesmo de ler os textos de filosofia política que tanta influência teriam para mim posteriormente – o que só ocorreu quando entrei na faculdade.
Volto, então, aos comentários do Marcus Valério e às ideias que defendi nos últimos artigos. A comunidade quer que seus membros tenham hábitos que tendam ao que seria um bem para ela e para sua conservação. Esses hábitos constituiriam o que em geral podemos chamar de conjunto de valores éticos. Essa ética geral, portanto, tem como objetivo o que considera – correta ou incorretamente – ser positivo para o todo. Os hábitos concretos que os indivíduos desenvolvem, por outro lado, estão condicionados pelo que eles pensam que é bom para cada um. Desse modo, a ética individual é condicionada por inclinações, gostos e, em geral, interesses particulares, que não só podem não coincidir com os princípios que interessa a essa outra ética geral como a ela se opõem.
O que a história recente mostra é que o interesse de indivíduos e grupos está tornando o nosso planeta um grande lixão. As florestas continuam diminuindo, mais e mais espécies estão em perigo de extinção, as calotas polares se derretendo e a temperatura do planeta em acelerado aumento. Tudo isso apesar das 18 conferências internacionais sobre clima (desde a de Estocolmo, em 1972, até a de Copenhague, poucos dias atrás). A esperança global de defendermos a vida no nosso planeta obviamente enfrenta um inimigo formidável e que parece que está vencendo, o ethos do interesse individual.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção
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