Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:17)
De: 27 de de­zem­bro de 2009 a 2 de janeiro de 2010

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  Ideias
 

Gonçalo Armijos Palácios
gonzalo.armijos@gmail.com

Ética: o indivíduo, o grupo e o todo

Os impasses nas conferências mundiais sobre o clima mostram claramente que os interesses estreitos se sobrepõem aos interesses gerais

Editoria de arte
No ar­ti­go an­te­ri­or co­men­tei par­te de uma men­sa­gem en­vi­a­da por Mar­cus Va­lé­rio Xa­vi­er Reis pu­bli­ca­da na se­ção car­tas da mes­ma edi­ção. No fi­nal da men­sa­gem ele le­van­ta es­te pro­ble­ma:

“Que­ro co­men­tar um tre­cho do co­le­ga Gon­ça­lo que me so­ou es­tra­nho: ‘O na­zis­mo, as guer­ras e to­das as ma­ze­las dos sé­cu­los 20 e 21 po­dem ser o sin­to­ma de que na lu­ta en­tre uma éti­ca po­si­ti­va, ge­ral, e a mo­ra­li­da­de in­di­vi­dual (mo­ti­va­da pe­lo que o in­di­ví­duo tem co­mo bom), é es­ta, mais des­tru­ti­va do que cons­tru­ti­va, que ven­ce­rá.’ Co­mo?! A mim is­so só fa­ria sen­ti­do se tais even­tos es­ti­ves­sem sen­do lar­ga­men­te do­mi­nan­tes nes­ses pe­rí­o­dos, e se con­ta­bi­li­zar­mos as po­pu­la­ções que es­tão di­re­ta­men­te en­vol­vi­das em guer­ras e as que não es­tão, os úl­ti­mos ga­nham lar­ga­men­te em quan­ti­da­de. Sem con­tar que a re­pro­va­ção, ao me­nos ma­ni­fes­ta­da, por tais atos, é pra­ti­ca­men­te uni­ver­sal. Não im­pe­de que os mes­mos ocor­ram, mas sem­pre em es­ca­la lo­cal e ocul­ta.

Fi­ca a ques­tão.”

Pen­so, de fa­to, que even­tos não sim­ples­men­te ne­ga­ti­vos co­mo des­tru­ti­vos es­tão sen­do lar­ga­men­te do­mi­nan­tes. E não pen­sa­va uni­ca­men­te nas guer­ras, que tra­di­cio­nal­men­te fo­ram en­tre pes­so­as, mas a guer­ra en­tre o ho­mem e o nos­so pla­ne­ta. Não dis­se no ar­ti­go em ques­tão, mas as re­fe­rên­cias que fiz ao pla­ne­ta Ter­ra su­ge­rem o que ti­nha em men­te. Não é de ho­je, ou das úl­ti­mas du­as dé­ca­das quan­do o te­ma co­me­çou a se tor­nar po­pu­lar na mí­dia, que te­nho me pre­o­cu­pa­do por ques­tões am­bien­tais. Meu con­ta­to com o as­sun­to ocor­reu quan­do, ado­les­cen­te, meu pai com­prou uma co­le­ção da edi­to­ra Sal­vat so­bre a vi­da ani­mal. A co­le­ção es­tá ain­da na ca­sa do meu pai. In­ti­tu­la-se “Fau­na”. Os vo­lu­mes da co­le­ção fa­la­vam so­bre a vi­da ani­mal, prin­ci­pal­men­te da Áfri­ca, e tra­zi­am ma­té­rias es­cri­tas por na­tu­ra­lis­tas. As me­lho­res eram as­si­na­das pe­lo am­bien­ta­lis­ta e na­tu­ra­lis­ta es­pa­nhol – fa­le­ci­do num aci­den­te de avi­a­ção em 1980 – Fé­lix Ro­drí­guez de la Fu­en­te. As­sim, foi apro­xi­ma­da­men­te 15 ou 16 anos que os ar­ti­gos de­le me aler­ta­ram so­bre o pe­ri­go do des­ma­ta­men­to e, em ge­ral, da ação pre­da­tó­ria dos ho­mens no pla­ne­ta. Num sen­ti­do, mi­nhas pri­mei­ras idei­as so­bre equi­lí­brio eco­ló­gi­co, ali­men­ta­das pe­la lei­tu­ra dos tex­tos de Ro­drí­guez de la Fu­en­te, to­ma­ram cor­po an­tes mes­mo de ler os tex­tos de fi­lo­so­fia po­lí­ti­ca que tan­ta in­flu­ên­cia te­ri­am pa­ra mim pos­te­rior­men­te – o que só ocor­reu quan­do en­trei na fa­cul­da­de.

Vol­to, en­tão, aos co­men­tá­rios do Mar­cus Va­lé­rio e às idei­as que de­fen­di nos úl­ti­mos ar­ti­gos. A co­mu­ni­da­de quer que seus mem­bros te­nham há­bi­tos que ten­dam ao que se­ria um bem pa­ra ela e pa­ra sua con­ser­va­ção. Es­ses há­bi­tos cons­ti­tu­i­ri­am o que em ge­ral po­de­mos cha­mar de con­jun­to de va­lo­res éti­cos. Es­sa éti­ca ge­ral, por­tan­to, tem co­mo ob­je­ti­vo o que con­si­de­ra – cor­re­ta ou in­cor­re­ta­men­te – ser po­si­ti­vo pa­ra o to­do. Os há­bi­tos con­cre­tos que os in­di­ví­duos de­sen­vol­vem, por ou­tro la­do, es­tão con­di­cio­na­dos pe­lo que eles pen­sam que é bom pa­ra ca­da um. Des­se mo­do, a éti­ca in­di­vi­dual é con­di­cio­na­da por in­cli­na­ções, gos­tos e, em ge­ral, in­te­res­ses par­ti­cu­la­res, que não só po­dem não co­in­ci­dir com os prin­cí­pios que in­te­res­sa a es­sa ou­tra éti­ca ge­ral co­mo a ela se opõ­em.

O que a his­tó­ria re­cen­te mos­tra é que o in­te­res­se de in­di­ví­duos e gru­pos es­tá tor­nan­do o nos­so pla­ne­ta um gran­de li­xão. As flo­res­tas con­ti­nuam di­mi­nu­in­do, mais e mais es­pé­ci­es es­tão em pe­ri­go de ex­tin­ção, as ca­lo­tas po­la­res se der­re­ten­do e a tem­pe­ra­tu­ra do pla­ne­ta em ace­le­ra­do au­men­to. Tu­do is­so ape­sar das 18 con­fe­rên­cias in­ter­na­cio­nais so­bre cli­ma (des­de a de Es­to­col­mo, em 1972, até a de Co­pe­nha­gue, pou­cos di­as atrás). A es­pe­ran­ça glo­bal de de­fen­der­mos a vi­da no nos­so pla­ne­ta ob­via­men­te en­fren­ta um ini­mi­go for­mi­dá­vel e que pa­re­ce que es­tá ven­cen­do, o ethos do in­te­res­se in­di­vi­dual.

GON­ÇA­LO AR­MI­JOS PA­LÁ­CIOS, fi­ló­so­fo e pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Go­i­ás (UFG), é ar­ti­cu­lis­ta do Jor­nal Op­ção



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