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Gonçalo Armijos Palácios gonzalo.armijos@gmail.com
Sobre um possível fundamento dos valores
Mesmo nos indivíduos com tendências suicidas parece observar-se uma tendência contrária: a de se perseverar no ser
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Editoria de arte
| Existem, realmente, valores éticos? Haveria algo que possua valor em si? Por exemplo, é a vida — ou, dentro dela, a vida humana — um valor em si? Quando nossa reflexão filosófica se estende pelo tempo não é raro que ocorra o seguinte: muitas posições que defendíamos firmemente já não nos parecem tão sólidas como antigamente, e muitas são abandonadas. Em alguns casos começamos a descobrir boas razões, não só para abandonar determinadas posições, como para mudar completamente de parecer. Seguramente já disse isto antes: houve um momento em que me parecia impossível haver essências ou algo que tenha permanência metafísica, intemporal. Como consequência disso, era contrário à existência de valores que não fossem históricos, que não fossem contextuais, determinados pela cultura e por tudo aquilo que ocorre num período e numa região específicos.
Essas convicções me levaram a concordar com Aristóteles, por considerar que o valor de uma ação o determina a situação em que o agente moral se encontra. Comentando um artigo anterior, Marcus Valério Xavier Reis afirma que “a única forma de ancorar o valor ético é sobre uma valoração da ‘Existência’”. Põe-se, então, a questão: possui a existência um valor em si?
Esse é um tipo de problema em que podemos ver a relação íntima entre questões éticas, ontológicas, cosmológicas e metafísicas. Pois o fato é que há entes, de que eles formam parte de um universo e de que, seja lá o que for, o universo é, e é o que é. Aquilo que o universo é, ao que parece, influencia, mesmo que não determine, o que os entes são. Se todo ente, como diz um princípio metafísico, persevera no seu ser, tal insistência no ser pode ser um indício de que nos entes que podem decidir — como nós — haja uma espécie de princípio de ação: aquele que o move a perseverar no seu ser. Noutras palavras, se, metafisicamente, tudo aquilo que é persevera no seu ser, a existência dos seres com inteligência e vontade, os seres com liberdade, quiçá tenham uma obrigação, ou tendência, a permanecer na existência. Assim, Marcus Valério teria razão ao afirmar que “a única forma de ancorar o valor ético é sobre uma valoração da ‘Existência’”. Se isso for verdade, de ter a existência um valor em si decorreriam valores e, com eles, uma escala valorativa, uma espécie de tabela de deveres. Se o ente persevera no ser, talvez seja uma obrigação para os entes dotados de liberdade perseverar no seu ser, e, por isso, se manter vivos, defender sua existência. Caso essa obrigação moral esteja mesmo baseada no princípio metafísico de que tudo que é persevera no ser, e se esse princípio é verdadeiro e vale para tudo, poderia haver fundamento para se defender que a existência é um valor fundamental. E a obrigatoriedade da defesa da vida seria uma consequência do anterior.
Pode parecer que está aqui envolvida uma falácia, e de que não devemos concluir, porque algo é, que outra coisa deva ser. No entanto, o fato é que as coisas são, que os seres com inteligência e vontade — seres livres, isto é — existem e fazem parte de um conjunto admiravelmente harmonioso em torno da vida: a vida no planeta Terra. Se nós, seres humanos, fazemos parte de um elo vital no nosso planeta, sem ser nem mais nem menos valiosos, parece difícil não concluir que, de um ponto de vista natural, de pura constatação do que existe na Terra, somos parte de um conjunto orientado a manter a vida (vegetal e animal) no nosso planeta. Por isso é pertinente o que afirma depois Marcus Valério: “É claro que penso que partir do pressuposto contrário, do desvalor da existência, pode ser ontologicamente muito interessante e trazer notáveis discussões. Mas é impossível estabelecer uma Ética nesse sentido. Nesse caso, creio que uma Ética Negativa é, na verdade, uma Anti-Ética, ou seja, uma demonstração de sua impossibilidade”.
O fato é que, em rigor, ‘ética’ aponta a hábitos, e é difícil, se não impossível, falarmos em hábitos completamente destrutivos. Pois se uma ação é destrutiva — pensemos no suicídio —, ela termina com o agente moral antes mesmo de que essa ação possa se tornar, propriamente, um hábito. Não há suicidas ‘habituais’. Há indivíduos com tendências suicidas, ou destrutivas, que é diferente. O que, por outro lado, pode ser um argumento contra a tese do valor em si da existência. No entanto, a existência desse tipo de pessoas parece fugir à esfera da discussão ética e nos aproximar de questões de patologia psicológica ou psiquiátrica. Talvez devamos falar em hábitos parcialmente destrutivos, aqueles que não levam o agente moral a sua aniquilação imediatamente, mas paulatinamente. Neste último caso poderíamos falar da existência de um hábito que tende a destruição sem ser esta imediata. Mas, que o hábito não seja completamente destrutivo talvez aponte a uma luta interna no agente. Uma luta entre uma tendência para se manter vivo e outra para morrer. O que levanta, mais uma vez, a questão. A ação individual poderia ser destrutiva, mas haveria, no fundo, uma base material, biológica, que leva o indivíduo a perseverar no seu ser. Se a tudo isso se soma o fato de que nós, seres humanos, não simplesmente tendemos à vida e a perseverar no nosso ser, mas a uma vida digna e feliz, a tese de a ética ser fundamentalmente positiva parece apontar a uma propriedade inerente ao hábito: sua finalidade positiva. [Continua na próxima edição]
1 Estudante do curso de pós-graduação da UnB. Veja-se sua mensagem, objeto deste artigo, na seção “Cartas”.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção
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