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Gonçalo Armijos Palácios gonzalo.armijos@gmail.com
Foi a queda do Muro de Berlim o fim das ideologias?
Só aprendendo a superar nossa tendenciosidade e estreiteza mental e política descobriremos a verdade que escondem posicionamentos rivais
I
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Divulgação
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| Na década de 70, talvez pela influência do filósofo francês Louis Althusser, tudo virou ideologia. Com esse termo, pelo menos no ambiente acadêmico e político, se explicava e justificava praticamente tudo. Depois da queda do Muro de Berlim criou-se a expectativa de que tinha chegado, como pensou Francis Fukuyama, o fim da história e, com isso, o fim das ideologias. Se tivesse sido assim, estaríamos num período pós-ideológico.
Penso que, contrariamente à expectativa de Fukuyama, a disputa política, depois da queda do Muro de Berlim, do fim do chamado socialismo real e especialmente depois das duas últimas crises do capitalismo (a dos chamados “tigres asiáticos” e a atual), tomou renovado impulso. O sistema capitalista acabou por não entregar o que prometia. Cresceu o desemprego, a miséria, há conflitos armados, o terrorismo foi revigorado, e, em muitos aspectos, não mudou muita coisa nos últimos 20 anos.
Mas, em lugar de pensar no período posterior à queda do Muro e do fim do socialismo real, gostaria de refletir um pouco sobre o que Marx disse antes de 1845, ano em que escreveu, com Engels, a “Ideologia Alemã”. Acho esclarecedor, por exemplo, ler com cuidado o que escreveu nos anos de 1843 e 44. A verdade é que muitos dos que nos anos 60 e 70 se diziam marxistas mal passaram da leitura dos manuais sobre marxismo, praticamente deixando de lado a leitura das fontes — Marx, Engels e, depois, Lênin. (Muitos desses manuais publicados pela Academia de Ciências da URSS, que não passavam de ser um eivado de disparates e um verdadeiro assalto à razão.) O bom mesmo é ler os clássicos. E nesses escritos de juventude podemos ver Marx aprendendo das fontes. Refiro-me, particularmente, à leitura que fez dos clássicos da economia política, Adam Smith, Say, Ricardo e, em geral, de tudo o que se publicou sobre questões econômicas antes de 1843.
É notável que nos “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, de 1844, não apareçam uma vez sequer os termos ‘ideologia’ ou ‘ideológico’. Os “Manuscritos” são uma mostra esclarecedora de como estudava Marx. Na verdade, esse pequeno texto é um estudo singular dos economistas da época. Podemos ver o estudante Marx lendo os clássicos com extremo cuidado, o vemos transcrevendo passagens — às vezes páginas inteiras — sem fazer um comentário sequer. Em alguns casos, entre longas citações aparece um que outro comentário curto, de duas, três linhas. Podemos notar que só à medida que avança no seu estudo começa a criticar, cada vez com maior força e profundidade, teses propostas por esses economistas. Mas nem todos são criticados. Há alguns cujos textos são reproduzidos para mostrar o caráter perverso da produção capitalista, preocupada unicamente com o lucro, custe o que custar. E inclusive a um dos economistas que mais critica, Adam Smith, não deixa de lhe dar razão em várias passagens. De qualquer modo, não vemos nunca aparecer uma crítica em que se afirme que algum desses economistas é ‘ideológico’.
A ausência do termo ‘ideologia’, ou do adjetivo ‘ideológico’, não é sinal de que alguns dos economistas analisados não tivessem o que depois foi chamada de ‘posição ideológica’. Mas é sugestivo que o termo estivesse reservado, depois, para se estabelecer, não simplesmente uma diferença entre quem defendia uma posição favorável ao capitalismo e quem fazia sua crítica, mas entre quem pensava a realidade cientificamente e quem o fazia baseado numa posição absolutamente não científica — como é o caso dos ‘ideólogos’ criticados na “Ideologia Alemã”.
É notável, também, que os termos ‘ideologia’, ‘ideólogos’, ‘ideológico’ apareçam pouquíssimas vezes, ou não apareçam, nos textos econômicos posteriores à “Ideologia Alemã”. No próprio “Capital” não devem aparecer mais de cinco vezes.
O fato é que Marx pouco se importou por questões ideológicas. O que fez depois de 1845 foi, fundamentalmente, tentar entender a engrenagem que permite ao capital produzir mais-valia, por um lado, e analisar a possibilidade de uma grande crise final, que seria o passo para outra forma de vida em sociedade — nunca suficientemente explicada pelo próprio Marx.
II
Escrevi este artigo motivado por um artigo na Revista Educação (nº 151). Foi sobre ideologia minha monografia de graduação. E daquela época (final dos anos 70) até hoje, dificilmente utilizo dois termos: ideologia e dialética. O problema é que podem significar muitas coisas ou — e mesmo por isso — não significar absolutamente nada. São dos termos do triste legado daquela doença infantil do comunismo que é o esquerdismo, para roubar um título de um texto de Lênin. Naqueles anos, qualquer ‘argumentação’ contra o que se considerava de direita, ou ‘ideologia dominante’ era, essencialmente, ‘dialética’. A dialética e os superiores intelectualmente, por um lado, os reacionários, miseráveis espiritualmente e infradotados mentalmente, por outro.
Um bom exemplo que tresnoitados esquerdistas deveriam seguir é o do próprio Marx, que aprendeu, não de textos marxistas, que não existiam nem podiam existir na época, mas dos textos dos próprios economistas que depois, pejorativamente, foram adjetivados de ‘burgueses’, como se isso significasse a chancela de sua inaptidão.
Só quando aprendamos a superar nossa tendenciosidade e estreiteza mental e política poderemos enxergar o grão de verdade que escondem posições rivais.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção
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