Gonçalo Armijos Palácios
gonzalo.armijos@gmail.com
De como ensinar o indefinível (IV)
Se a criação de dogmas destrói e aprisiona a criatividade, sua destruição liberta e estimula infinitas criatividades
Se pensarmos que o trabalho com os estudantes de filosofia consiste em levá-los a filosofar, dizer simplesmente que a filosofia é — única ou essencialmente — criação de conceitos pode criar algumas dificuldades. Pois, eventualmente, deveríamos avaliar o crescimento filosófico dos futuros filósofos pela criação, por parte deles, de um ou mais conceitos filosóficos.
Assim, se alguém afirmasse que formou filósofos, deveria apresentar, como prova disso, os conceitos criados por esses estudantes. E se o professor de filosofia se apresenta como filósofo, ele mesmo deveria dizer quais conceitos filosóficos criou. E isso se deveria aplicar, igualmente, para os trabalhos de conclusão de curso, seja de graduação ou pós-graduação. Se, no entanto, damos uma olhada nos títulos das dissertações de graduação, mestrado e doutorado do País veremos, quase invariavelmente, que os professores orientam trabalhos que na sua grande maioria é comentários de obras ou de conceitos de filósofos consagrados, não dos seus, estudantes, próprios conceitos.
O fato é que fazer a pergunta “qual é o conceito ou conceitos filosóficos que você criou?” é defender uma concepção de filosofia problemática em vários sentidos. Em primeiro lugar, a concepção de filosofia que está por trás da pergunta parece não resgatar o que, de modo geral, mas nem por isso menos verdadeiro, podemos chamar de ato de filosofar. Desde o início dos mais variados atos de filosofar vemos a identificação de problemas, que é precisamente o que motiva a reflexão filosófica. Lembremos que, segundo Aristóteles, é o espanto que leva a filosofar. Por outro lado, na busca da solução parece não estar, em momento algum nem como objetivo central, a necessidade da criação de um conceito. Por exemplo, se meu problema é descobrir se há valores estéticos essenciais ou são estes meras convenções humanas, não vejo que na solução dessa questão deva, necessariamente, chegar a criar algum conceito. Pois é óbvio que nem toda solução de um problema termina com a criação de conceitos. Em alguns casos, aliás, a solução do problema é sua dissolução, ou a constatação de que era um pseudo-problema.
Se num curso de música formamos compositores, é claro que os egressos desse curso deverão formar-se apresentando suas composições, pois é isso que os torna compositores. Como pintar torna os estudantes de pintura pintores, e atuar, aos de teatro, atores. A um arquiteto que não materializou um projeto não o chamaríamos de arquiteto, nem ao engenheiro, engenheiro. Se a filosofia é criação de conceitos, tanto os filósofos consagrados como os professores de filosofia que se dizem filósofos deveriam ter textos, artigos ou livros em que estariam os conceitos de sua criação. Mas o mesmo valeria para os formados em filosofia, caso sejam filósofos. Mas não parece ser isso que ocorre. Pois, na sua grande maioria, ninguém se forma sob a condição de que defenda um conceito filosófico de sua criação.
Voltando aos filósofos clássicos: dizem Platão ou Aristóteles, em algum lugar, ser essa a exigência do jovem que vai ser filósofo? Ou podemos ver essa exigência em todos os outros filósofos clássicos? Na sua extensa e detalhada análise dos pensadores do passado, faz Aristóteles a menor menção a algo que lembre a noção de ´criação de conceitos´ como critério para chamar alguém de ´filósofo´? O problema é que deveria estar neles essa exigência se é verdade que, essencialmente, a filosofia é criação de conceitos. Menciono Platão e Aristóteles como exemplo. Poderia usar Kant, Marx, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Wittgenstein. Se todos eles foram filósofos, como seria possível que a todos eles lhes passou inadvertida essa que seria a característica distintiva e definicional da filosofia? Por que, noutras palavras, essa característica aparentemente tão precípua, tão fundamental, tão definidora do que é fazer filosofia não é sequer mencionada por algum filósofo consagrado?
Penso que, contrariamente à intenção e à letra da posição de Deleuze, que parece abertamente não autoritária nem tradicionalista, a forma como publicamente se apresenta essa definição é completamente oposta ao que um defensor da criatividade intelectual gostaria. Pois o que tem de destrutivo esse tipo de definições autoritárias de filosofia é que representam um obstáculo formidável para o desenvolvimento natural do pensamento filosófico, que não tem uma diferença de natureza respeito de determinadas formas de pensamento humano, mas de grau.
Como podemos saber antecipadamente que vamos criar um conceito filosófico sem ter um problema que, eventualmente, nos leve a pensar criativamente? E aqui menciono outra característica da reflexão filosófica. Ela pode ser igualmente filosófica sendo destrutiva ou negativa. Por exemplo, se é filosófico um argumento que quer provar determinada tese, é igualmente filosófica sua refutação, que é, em espírito, negativa, e que não pretende criar positivamente nada — certamente não um conceito —, a não ser que consideremos positiva a descoberta de um erro. Por outro lado, nem toda criação é positiva, assim como nem toda destruição, negativa. A criação de dogmas destrói a criatividade, enquanto que sua destruição liberta e abre o caminho para infinitas criações.
Terceira parte de um trabalho apresentado no 2º Encontro Nacional do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, ocorrido no Rio de Janeiro em 10 e 11 de setembro.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção