Goiânia, 09 de setembro de 2010 (16:25)
De: 04 a 10 de outubro de 2009

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  Ideias
 

Gonçalo Armijos Palácios
gonzalo.armijos@gmail.com

De co­mo en­si­nar o in­de­fi­ní­vel (IV)

Se a cri­a­ção de dog­mas des­trói e apri­si­o­na a cri­a­ti­vi­da­de, sua des­tru­i­ção li­ber­ta e es­ti­mu­la in­fi­ni­tas cri­a­ti­vi­da­des

Se pen­sar­mos que o tra­ba­lho com os es­tu­dan­tes de fi­lo­so­fia con­sis­te em le­vá-los a fi­lo­so­far, di­zer sim­ples­men­te que a fi­lo­so­fia é — úni­ca ou es­sen­cial­men­te — cri­a­ção de con­cei­tos po­de cri­ar al­gu­mas di­fi­cul­da­des. Pois, even­tual­men­te, de­ve­rí­a­mos ava­li­ar o cres­ci­men­to fi­lo­só­fi­co dos fu­tu­ros fi­ló­so­fos pe­la cri­a­ção, por par­te de­les, de um ou mais con­cei­tos fi­lo­só­fi­cos.

As­sim, se al­guém afir­mas­se que for­mou fi­ló­so­fos, de­ve­ria apre­sen­tar, co­mo pro­va dis­so, os con­cei­tos cri­a­dos por es­ses es­tu­dan­tes. E se o pro­fes­sor de fi­lo­so­fia se apre­sen­ta co­mo fi­ló­so­fo, ele mes­mo de­ve­ria di­zer qua­is con­cei­tos fi­lo­só­fi­cos cri­ou. E is­so se de­ve­ria apli­car, igual­men­te, pa­ra os tra­ba­lhos de con­clu­são de cur­so, se­ja de gra­du­a­ção ou pós-gra­du­a­ção. Se, no en­tan­to, da­mos uma olha­da nos tí­tu­los das dis­ser­ta­ções de gra­du­a­ção, mes­tra­do e dou­to­ra­do do Pa­ís ve­re­mos, qua­se in­va­ri­a­vel­men­te, que os pro­fes­so­res ori­en­tam tra­ba­lhos que na sua gran­de mai­o­ria é co­men­tá­rios de obras ou de con­cei­tos de fi­ló­so­fos con­sa­gra­dos, não dos seus, es­tu­dan­tes, pró­prios con­cei­tos.

O fa­to é que fa­zer a per­gun­ta “qual é o con­cei­to ou con­cei­tos fi­lo­só­fi­cos que vo­cê cri­ou?” é de­fen­der uma con­cep­ção de fi­lo­so­fia pro­ble­má­ti­ca em vá­rios sen­ti­dos. Em pri­mei­ro lu­gar, a con­cep­ção de fi­lo­so­fia que es­tá por trás da per­gun­ta pa­re­ce não res­ga­tar o que, de mo­do ge­ral, mas nem por is­so me­nos ver­da­dei­ro, po­de­mos cha­mar de ato de fi­lo­so­far. Des­de o iní­cio dos mais va­ri­a­dos atos de fi­lo­so­far ve­mos a iden­ti­fi­ca­ção de pro­ble­mas, que é pre­ci­sa­men­te o que mo­ti­va a re­fle­xão fi­lo­só­fi­ca. Lem­bre­mos que, se­gun­do Aris­tó­te­les, é o es­pan­to que le­va a fi­lo­so­far. Por ou­tro la­do, na bus­ca da so­lu­ção pa­re­ce não es­tar, em mo­men­to al­gum nem co­mo ob­je­ti­vo cen­tral, a ne­ces­si­da­de da cri­a­ção de um con­cei­to. Por exem­plo, se meu pro­ble­ma é des­co­brir se há va­lo­res es­té­ti­cos es­sen­ci­ais ou são es­tes me­ras con­ven­ções hu­ma­nas, não ve­jo que na so­lu­ção des­sa ques­tão de­va, ne­ces­sa­ria­men­te, che­gar a cri­ar al­gum con­cei­to. Pois é ób­vio que nem to­da so­lu­ção de um pro­ble­ma ter­mi­na com a cri­a­ção de con­cei­tos. Em al­guns ca­sos, ali­ás, a so­lu­ção do pro­ble­ma é sua dis­so­lu­ção, ou a cons­ta­ta­ção de que era um pseu­do-pro­ble­ma.

Se num cur­so de mú­si­ca for­ma­mos com­po­si­to­res, é cla­ro que os egres­sos des­se cur­so de­ve­rão for­mar-se apre­sen­tan­do su­as com­po­si­ções, pois é is­so que os tor­na com­po­si­to­res. Co­mo pin­tar tor­na os es­tu­dan­tes de pin­tu­ra pin­to­res, e atu­ar, aos de te­a­tro, ato­res. A um ar­qui­te­to que não ma­te­ri­a­li­zou um pro­je­to não o cha­ma­rí­a­mos de ar­qui­te­to, nem ao en­ge­nhei­ro, en­ge­nhei­ro. Se a fi­lo­so­fia é cri­a­ção de con­cei­tos, tan­to os fi­ló­so­fos con­sa­gra­dos co­mo os pro­fes­so­res de fi­lo­so­fia que se di­zem fi­ló­so­fos de­ve­ri­am ter tex­tos, ar­ti­gos ou li­vros em que es­ta­ri­am os con­cei­tos de sua cri­a­ção. Mas o mes­mo va­le­ria pa­ra os for­ma­dos em fi­lo­so­fia, ca­so se­jam fi­ló­so­fos. Mas não pa­re­ce ser is­so que ocor­re. Pois, na sua gran­de mai­o­ria, nin­guém se for­ma sob a con­di­ção de que de­fen­da um con­cei­to fi­lo­só­fi­co de sua cri­a­ção.

Vol­tan­do aos fi­ló­so­fos clás­si­cos: di­zem Pla­tão ou Aris­tó­te­les, em al­gum lu­gar, ser es­sa a exi­gên­cia do jo­vem que vai ser fi­ló­so­fo? Ou po­de­mos ver es­sa exi­gên­cia em to­dos os ou­tros fi­ló­so­fos clás­si­cos? Na sua ex­ten­sa e de­ta­lha­da aná­li­se dos pen­sa­do­res do pas­sa­do, faz Aris­tó­te­les a me­nor men­ção a al­go que lem­bre a no­ção de ´cri­a­ção de con­cei­tos´ co­mo cri­té­rio pa­ra cha­mar al­guém de ´fi­ló­so­fo´? O pro­ble­ma é que de­ve­ria es­tar ne­les es­sa exi­gên­cia se é ver­da­de que, es­sen­cial­men­te, a fi­lo­so­fia é cri­a­ção de con­cei­tos. Men­ci­o­no Pla­tão e Aris­tó­te­les co­mo exem­plo. Po­de­ria usar Kant, Marx, He­gel, Scho­pe­nhau­er, Ni­etzsche, Hus­serl, Hei­deg­ger, Wittgen­stein. Se to­dos eles fo­ram fi­ló­so­fos, co­mo se­ria pos­sí­vel que a to­dos eles lhes pas­sou inad­ver­ti­da es­sa que se­ria a ca­rac­te­rís­ti­ca dis­tin­ti­va e de­fi­ni­cio­nal da fi­lo­so­fia? Por que, nou­tras pa­la­vras, es­sa ca­rac­te­rís­ti­ca apa­ren­te­men­te tão pre­cí­pua, tão fun­da­men­tal, tão de­fi­ni­do­ra do que é fa­zer fi­lo­so­fia não é se­quer men­ci­o­na­da por al­gum fi­ló­so­fo con­sa­gra­do?

Pen­so que, con­tra­ri­a­men­te à in­ten­ção e à le­tra da po­si­ção de De­leu­ze, que pa­re­ce aber­ta­men­te não au­to­ri­tá­ria nem tra­di­cio­na­lis­ta, a for­ma co­mo pu­bli­ca­men­te se apre­sen­ta es­sa de­fi­ni­ção é com­ple­ta­men­te opos­ta ao que um de­fen­sor da cri­a­ti­vi­da­de in­te­lec­tu­al gos­ta­ria. Pois o que tem de des­tru­ti­vo es­se ti­po de de­fi­ni­ções au­to­ri­tá­rias de fi­lo­so­fia é que re­pre­sen­tam um ob­stá­cu­lo for­mi­dá­vel pa­ra o de­sen­vol­vi­men­to na­tu­ral do pen­sa­men­to fi­lo­só­fi­co, que não tem uma di­fe­ren­ça de na­tu­re­za res­pei­to de de­ter­mi­na­das for­mas de pen­sa­men­to hu­ma­no, mas de grau.

Co­mo po­de­mos sa­ber an­te­ci­pa­da­men­te que va­mos cri­ar um con­cei­to fi­lo­só­fi­co sem ter um pro­ble­ma que, even­tual­men­te, nos le­ve a pen­sar cri­a­ti­va­men­te? E aqui men­ci­o­no ou­tra ca­rac­te­rís­ti­ca da re­fle­xão fi­lo­só­fi­ca. Ela po­de ser igual­men­te fi­lo­só­fi­ca sen­do des­tru­ti­va ou ne­ga­ti­va. Por exem­plo, se é fi­lo­só­fi­co um ar­gu­men­to que quer pro­var de­ter­mi­na­da te­se, é igual­men­te fi­lo­só­fi­ca sua re­fu­ta­ção, que é, em es­pí­ri­to, ne­ga­ti­va, e que não pre­ten­de cri­ar po­si­ti­va­men­te na­da — cer­ta­men­te não um con­cei­to —, a não ser que con­si­de­re­mos po­si­ti­va a des­co­ber­ta de um er­ro. Por ou­tro la­do, nem to­da cri­a­ção é po­si­ti­va, as­sim co­mo nem to­da des­tru­i­ção, ne­ga­ti­va. A cri­a­ção de dog­mas des­trói a cri­a­ti­vi­da­de, en­quan­to que sua des­tru­i­ção li­ber­ta e abre o ca­mi­nho pa­ra in­fi­ni­tas cri­a­ções.

Terceira parte de um trabalho apresentado no 2º Encontro Nacional do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, ocorrido no Rio de Janeiro em 10 e 11 de setembro.

GON­ÇA­LO AR­MI­JOS PA­LÁ­CIOS, fi­ló­so­fo e pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Go­i­ás (UFG), é ar­ti­cu­lis­ta do Jor­nal Op­ção



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