Goiânia, 07 de setembro de 2010 (9:36)
De: 09 a 15 de agosto de 2009

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  Ideias
 

Gonçalo Armijos Palácios
gonzalo.armijos@gmail.com

A ar­ti­cu­la­ção da edu­ca­ção no Bra­sil (VI)

A articulação e integração da educação nacional só ocorrerá com a implementação de um plano nacional que reconheça as semelhanças e respeite as diferenças

O Do­cu­men­to-Re­fe­rên­cia, pre­pa­ra­do pe­la Co­mis­são Na­ci­o­nal Or­ga­ni­za­do­ra da Con­fe­rên­cia Na­ci­o­nal (Conae), na sua In­tro­du­ção, re­su­me al­guns do as­pec­tos cen­tra­is do que es­tá se pro­pon­do: “(10) Al­guns pon­tos des­sa agen­da são im­pres­cin­dí­veis pa­ra as­se­gu­rar, com qua­li­da­de, a fun­ção so­ci­al da edu­ca­ção e da ins­ti­tu­i­ção edu­ca­ti­va, den­tre eles: a edu­ca­ção in­clu­si­va; a di­ver­si­da­de cul­tu­ral; a ges­tão de­mo­crá­ti­ca e o de­sen­vol­vi­men­to so­ci­al”.

Nos ar­ti­gos an­te­rio­res des­ta­quei al­guns dos pon­tos que jul­go im­por­tan­tes des­te pro­je­to de ar­ti­cu­lar a edu­ca­ção bá­si­ca e su­pe­ri­or. Fa­lei so­bre in­clu­são, qua­li­da­de, uni­ver­sa­li­da­de. Nes­te ar­ti­go que­ro me re­fe­rir ao pro­ble­ma fun­da­men­tal da di­ver­si­da­de cul­tu­ral e que es­tá ci­ta­do no tre­cho aci­ma re­pro­du­zi­do. O Bra­sil é mais, mui­to mais, do que apa­re­ce na gran­de mí­dia e, par­ti­cu­lar­men­te, nas no­ve­las e pro­gra­mas da Re­de Glo­bo. É um pa­ís com gen­te que não par­ti­lha dos va­lo­res des­sa mí­dia que, que­ren­do ou não, ter­mi­na mar­te­lan­do nas men­tes de mi­lhões de bra­si­lei­ros os va­lo­res que vi­e­ram de ou­tras for­mas de vi­ver, de ou­tras ma­nei­ras de pen­sar, de ou­tras for­mas de tra­ba­lhar e de ou­tras for­mas de se re­la­ci­o­nar com a na­tu­re­za.

Os de­sa­fi­os pa­ra a edu­ca­ção bra­si­lei­ra, de fa­to, são enor­mes. Pas­sos im­por­tan­tes, no en­tan­to, es­tão sen­do da­dos e cons­ti­tu­em os ali­cer­ces de um fu­tu­ro com mui­tas es­pe­ran­ças.

Se o pro­je­to for le­va­do co­mo pe­de o do­cu­men­to, o pa­ís ve­rá um cres­ci­men­to no res­pei­to das di­fe­ren­ças. Di­fe­ren­ças de to­da ín­do­le, in­cluí­da, é cla­ro, a di­ver­si­da­de cul­tu­ral. O de­sen­vol­vi­men­to so­ci­al que o pro­je­to al­me­ja só po­de se efe­ti­va­do se as di­ver­sas for­mas de ser, de vi­ver, de tra­ba­lhar, de pen­sar, são in­cor­po­ra­das num pla­no na­ci­o­nal de edu­ca­ção. E, com efei­to, o do­cu­men­to quer as­se­gu­rar a “or­ga­ni­za­ção de um Sis­te­ma Na­ci­o­nal de Edu­ca­ção que pro­mo­va, em to­do o Pa­ís o re­gi­me de co­la­bo­ra­ção” que pas­sa, ne­ces­sa­ria­men­te, pe­la “for­ma­ção e va­lo­ri­za­ção dos tra­ba­lha­do­res da edu­ca­ção”.

Um as­pec­to po­si­ti­vo da pro­pos­ta é que ela in­sis­te na ne­ces­si­da­de da con­tí­nua ava­li­a­ção das ações que fo­rem re­a­li­za­das. A pro­pos­ta pres­su­põe, cor­re­ta­men­te, o pas­so do tem­po e as va­ri­a­ções que ele pro­vo­ca. As de­ci­sões, leis, de­cre­tos, não po­dem va­ler eter­na­men­te; são eles que de­vem ade­quar-se aos fa­tos, não os fa­tos aos de­cre­tos e às leis: “To­dos es­ses as­pec­tos re­me­tem à ava­li­a­ção das ações edu­ca­cio­nais e, so­bre­tu­do, à ava­li­a­ção do Pla­no Na­ci­o­nal de Edu­ca­ção, su­as me­tas e di­re­tri­zes, vi­san­do a ajus­tá-lo às no­vas ne­ces­si­da­des da so­ci­e­da­de bra­si­lei­ra”. Es­ta úl­ti­ma fra­se, se di­ta em ou­tros tem­pos, po­de­ria ser in­ter­pre­ta­da co­mo mais uma fra­se re­tó­ri­ca num do­cu­men­to ofi­ci­al. Se, pe­lo con­trá­rio, pen­sar­mos no avan­ço da tec­no­lo­gia, es­sa fra­se de­ve ser en­ten­di­da li­te­ral­men­te. Pre­ci­sa­mos que nu­ma es­co­la, num es­ta­be­le­ci­men­to de en­si­no mé­dio ou su­pe­ri­or, os es­tu­dan­tes te­nham não só sa­las de au­la com car­tei­ras de ma­dei­ra e qua­dro ne­gro com giz. Pre­ci­sa­mos de la­bo­ra­tó­rios que te­nham com­pu­ta­do­res e mei­os au­dio­vi­su­ais so­fis­ti­ca­dos. Mas um la­bo­ra­tó­rio não se faz só com com­pu­ta­do­res li­ga­dos à in­ter­net. Pre­ci­sa­mos tam­bém, por exem­plo, de la­bo­ra­tó­rios de lín­guas, por­que uma lín­gua, pa­ra ser apren­di­da, pre­ci­sa de mui­to mais do que um pro­fes­sor ou pro­fes­so­ra que en­si­ne a en­si­ne. Pre­ci­sam-se fi­tas gra­va­das com con­ver­sas em que se es­cu­te o som da ou­tra lín­gua, ví­de­os, fil­mes, etc. Não só nos es­ta­be­le­ci­men­tos das re­gi­ões con­si­de­ra­das no­bres são ne­ces­sá­rios la­bo­ra­tó­rios co­mo es­ses. É um pre­con­cei­to que, por exem­plo, co­mu­ni­da­des in­dí­ge­nas da Ama­zô­nia não de­ve­ri­am ser afe­ta­das pe­lo que a no­va tec­no­lo­gia ofe­re­ce. É um pre­con­cei­to se­me­lhan­te àque­le se­gun­do o qual há pes­so­as que, pe­la es­pe­ci­fi­ci­da­de de su­as ne­ces­si­da­des, não po­dem ser re­al­men­te in­te­gra­das ao ti­po de edu­ca­ção que in­te­gra o res­to dos seus con­ci­da­dã­os.

Um pa­ís é, por es­sên­cia, a uni­ão de di­fe­ren­tes, des­sa for­ma, to­da po­lí­ti­ca pre­ci­sa de uma con­cep­ção da uni­ão ar­ti­cu­la­da do to­do e das par­tes, uni­ão e ar­ti­cu­la­ção que pas­sam pe­lo co­nhe­ci­men­to das se­me­lhan­ças e do res­pei­to das di­fe­ren­ças.

GON­ÇA­LO AR­MI­JOS PA­LÁ­CIOS, fi­ló­so­fo e pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de Go­i­ás (UFG), é ar­ti­cu­lis­ta do Jor­nal Op­ção.



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