Gonçalo Armijos Palácios
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A articulação da educação no Brasil (VI)
A articulação e integração da educação nacional só ocorrerá com a implementação de um plano nacional que reconheça as semelhanças e respeite as diferenças
O Documento-Referência, preparado pela Comissão Nacional Organizadora da Conferência Nacional (Conae), na sua Introdução, resume alguns do aspectos centrais do que está se propondo: “(10) Alguns pontos dessa agenda são imprescindíveis para assegurar, com qualidade, a função social da educação e da instituição educativa, dentre eles: a educação inclusiva; a diversidade cultural; a gestão democrática e o desenvolvimento social”.
Nos artigos anteriores destaquei alguns dos pontos que julgo importantes deste projeto de articular a educação básica e superior. Falei sobre inclusão, qualidade, universalidade. Neste artigo quero me referir ao problema fundamental da diversidade cultural e que está citado no trecho acima reproduzido. O Brasil é mais, muito mais, do que aparece na grande mídia e, particularmente, nas novelas e programas da Rede Globo. É um país com gente que não partilha dos valores dessa mídia que, querendo ou não, termina martelando nas mentes de milhões de brasileiros os valores que vieram de outras formas de viver, de outras maneiras de pensar, de outras formas de trabalhar e de outras formas de se relacionar com a natureza.
Os desafios para a educação brasileira, de fato, são enormes. Passos importantes, no entanto, estão sendo dados e constituem os alicerces de um futuro com muitas esperanças.
Se o projeto for levado como pede o documento, o país verá um crescimento no respeito das diferenças. Diferenças de toda índole, incluída, é claro, a diversidade cultural. O desenvolvimento social que o projeto almeja só pode se efetivado se as diversas formas de ser, de viver, de trabalhar, de pensar, são incorporadas num plano nacional de educação. E, com efeito, o documento quer assegurar a “organização de um Sistema Nacional de Educação que promova, em todo o País o regime de colaboração” que passa, necessariamente, pela “formação e valorização dos trabalhadores da educação”.
Um aspecto positivo da proposta é que ela insiste na necessidade da contínua avaliação das ações que forem realizadas. A proposta pressupõe, corretamente, o passo do tempo e as variações que ele provoca. As decisões, leis, decretos, não podem valer eternamente; são eles que devem adequar-se aos fatos, não os fatos aos decretos e às leis: “Todos esses aspectos remetem à avaliação das ações educacionais e, sobretudo, à avaliação do Plano Nacional de Educação, suas metas e diretrizes, visando a ajustá-lo às novas necessidades da sociedade brasileira”. Esta última frase, se dita em outros tempos, poderia ser interpretada como mais uma frase retórica num documento oficial. Se, pelo contrário, pensarmos no avanço da tecnologia, essa frase deve ser entendida literalmente. Precisamos que numa escola, num estabelecimento de ensino médio ou superior, os estudantes tenham não só salas de aula com carteiras de madeira e quadro negro com giz. Precisamos de laboratórios que tenham computadores e meios audiovisuais sofisticados. Mas um laboratório não se faz só com computadores ligados à internet. Precisamos também, por exemplo, de laboratórios de línguas, porque uma língua, para ser aprendida, precisa de muito mais do que um professor ou professora que ensine a ensine. Precisam-se fitas gravadas com conversas em que se escute o som da outra língua, vídeos, filmes, etc. Não só nos estabelecimentos das regiões consideradas nobres são necessários laboratórios como esses. É um preconceito que, por exemplo, comunidades indígenas da Amazônia não deveriam ser afetadas pelo que a nova tecnologia oferece. É um preconceito semelhante àquele segundo o qual há pessoas que, pela especificidade de suas necessidades, não podem ser realmente integradas ao tipo de educação que integra o resto dos seus concidadãos.
Um país é, por essência, a união de diferentes, dessa forma, toda política precisa de uma concepção da união articulada do todo e das partes, união e articulação que passam pelo conhecimento das semelhanças e do respeito das diferenças.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção.