Goiânia, 07 de setembro de 2010 (9:44)
De: 01 a 07 de março de 2009

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  Ideias
 

Gonçalo Armijos Palácios
gonzalo.armijos@gmail.com

De pais, de filhos

Há almas em nós que despertam um dia, são nossos antepassados, é nossa cultura

Portinari Carnaval
Quan­do mo­ra­va em Go­i­â­nia, o mês de fe­ve­rei­ro se tor­na­va in­su­por­tá­vel pe­lo bom­bar­deio in­ces­san­te das ce­nas e da mú­si­ca de car­na­val. Po­de­rão pen­sar que não te­nho o me­nor gos­to pe­la fes­ta e que acho tu­do is­so bo­ba­gem. Na­da dis­so. Já es­ti­ve no Rio de Ja­nei­ro pou­co an­tes dos des­fi­les das es­co­las de sam­ba, al­guns anos atrás, e fui le­va­do a uma ca­sa, per­to do Ma­ra­ca­nã, em que um ho­mem ter­mi­na­va os pre­pa­ra­ti­vos de ves­ti­dos car­na­va­les­cos. Vá­ri­as pes­so­as que co­nhe­cia es­ta­vam en­vol­vi­das num des­fi­le de fan­ta­si­as e fui lá, não pa­ra vi­si­tar, mas por­que os ami­gos que me hos­pe­da­vam pre­ci­sa­vam le­var al­go que fal­ta­va às fan­ta­si­as. Fui de­pois a um des­fi­le num sa­lão nu­ma ci­da­de pró­xi­ma cu­jo no­me não mais me lem­bro. Vi lá co­mo fi­ca­ram as fan­ta­si­as e pa­ra que era aqui­lo tu­do que ti­nha vis­to es­par­ra­ma­do pe­la pe­que­na e ba­gun­ça­da ca­sa.

Nos paí­ses da Amé­ri­ca La­ti­na há tam­bém uma for­te tra­di­ção de fes­tas de car­na­val. Meu pa­ís, Equa­dor, não é di­fe­ren­te. No en­tan­to, as tra­di­ções são mais for­tes no in­te­ri­or, e em co­mu­ni­da­des pe­que­nas — co­mu­ni­da­des de in­dí­ge­nas ou de ne­gros. Lá, cla­ro, é tu­do mui­to di­fe­ren­te. De qual­quer for­ma, aqui, a ex­plo­ra­ção co­mer­cial da te­le­vi­são, e par­ti­cu­lar­men­te de uma gran­de re­de de te­le­vi­são, tor­na in­su­por­tá­vel o car­na­val até pa­ra o mais aman­te da fes­ta.

Por es­tar vi­ven­do nu­ma ou­tra ci­da­de, e pa­ra re­sol­ver ques­tões de tra­ba­lho, te­nho vi­a­ja­do de car­ro com bas­tan­te fre­quên­cia nas úl­ti­mas se­ma­nas. Às ve­zes, in­do e vin­do en­tre Go­i­ás e Go­i­â­nia no mes­mo dia e vá­rios di­as por se­ma­na. Is­so me per­mi­tiu pas­sar ho­ras e ho­ras ou­vin­do mú­si­cas que guar­da­va, mais do que na me­mó­ria, nos lu­ga­res mais pro­fun­dos da mi­nha al­ma. Aque­las ho­ras, in­do e vin­do, tor­na­ram-se má­gi­cas. À mú­si­ca e às lem­bran­ças jun­ta­va-se a pri­mo­ro­sa pai­sa­gem des­sa be­lís­si­ma e se­re­na re­gi­ão do no­ro­es­te go­i­a­no. É no­tá­vel co­mo chei­ros e sons nos tra­zem lem­bran­ças as mais re­mo­tas. E elas pa­re­cem pu­xar ou­tras, co­mo em tur­bi­lhões. Uma mú­si­ca qua­se que me per­mi­tiu sen­tir o aro­ma do ca­fé da mi­nha ca­sa, quan­do de­via ter uns cin­co ou seis anos. Mas com o aro­ma veio es­se mo­men­to es­pe­ci­al das qua­tro, cin­co da tar­de, re­cons­tru­in­do a fi­gu­ra da­que­la se­nho­ra, qua­se es­que­ci­da, mas que­ri­da, que o pre­pa­ra­va. E o fa­zia, na­tu­ral­men­te, ao som des­sa can­ção que na­que­le mo­men­to es­ta­va es­cu­tan­do e que pra­ti­ca­men­te to­das as tar­des ou­via nes­sas ho­ras já per­di­das. Até es­sa épo­ca, ter­mi­nan­do meus cin­co anos, só me lem­bro que ou­via mú­si­cas em es­pa­nhol. Cu­ri­o­so no­tar is­so ago­ra. En­quan­to es­cre­via as úl­ti­mas li­nhas pa­rei pa­ra pen­sar, e per­gun­tei a mim mes­mo se de fa­to só ou­via mú­si­cas em es­pa­nhol. E é ver­da­de. Só ou­vi­ria, pe­lo rá­dio, mú­si­cas em in­glês, no ano se­guin­te, ao com­ple­tar os seis anos. E, cla­ro, se­ri­am as mú­si­cas dos Be­at­les, já nu­ma ou­tra ca­sa. Na an­te­ri­or, na ca­sa da se­nho­ra Na­tá­lia, só me lem­bro ter ou­vi­do mú­si­cas em es­pa­nhol. Du­as de­las, vin­te anos de­pois, apa­re­ce­ram mis­te­ri­o­sa­men­te, tom por tom e le­tra por le­tra, to­ca­das por mãos que eram e não eram as mi­nhas, can­ta­das e não can­ta­das por mim. To­ca­das e can­ta­das, tal­vez, por aque­le me­ni­no que de re­pen­te quis vol­tar à vi­da no meu vi­o­lão e usou as mãos e a voz do ho­mem que che­gou a ser.

De qual­quer for­ma, mi­nhas úl­ti­mas se­ma­nas têm si­do as­sim. Re­vi­ven­do sen­sa­ções, mo­men­tos, chei­ros e emo­ções que, aos pou­cos, fo­ram fi­can­do pa­ra trás. Al­gu­mas lem­bran­ças las­ti­mam um pou­co. Tal­vez por­que mui­tas coi­sas pas­sam por­que de­vem pas­sar. De­las te­mos nos­tal­gia, mas não do­em. Ou­tras se tor­nam lem­bran­ças por­que as dei­xa­mos pa­ra trás e de­ve­mos par­tir. Essas nos fe­rem um pou­co. O tris­te não é par­tir, mas ter de par­tir. E o mais tris­te, tal­vez, ter de par­tir pa­ra nun­ca mais vol­ver.

Fui ver o des­fi­le de car­na­val aqui, na Ci­da­de de Go­i­ás. Já ti­nha ou­vi­do, des­de mi­nha ca­sa, o som da ba­te­ria nos en­sai­os de uma es­co­la de sam­ba que es­cu­tei des­de que che­guei. Emo­ci­o­nei-me, con­tu­do, ao ver des­fi­lar, en­tre os pas­sis­tas, me­ni­nas de cin­co ou seis anos, se­nho­ras de mais de se­ten­ta, fan­ta­si­a­das, com­pro­me­ti­das, com­pe­ne­tra­das no que fa­zi­am. Com amor, com pai­xão. E, na ba­te­ria, ga­ro­tos to­can­do com fer­vor. Par­ti­cu­lar­men­te um me­ni­no, de uns seis anos, que ba­tia no seu pe­que­no ins­tru­men­to co­mo se fos­se o seu pró­prio co­ra­ção, pa­ra que não pa­ras­se de la­tir. Quem sa­be es­se me­ni­no, da­qui a vin­te, trin­ta anos, sem mais nem me­nos, pe­gue um ba­tu­que e co­me­ce a ba­ter ne­le can­tan­do a mar­cha que ou­vi na­que­la noi­te. Tal­vez, nes­se mo­men­to, eu tam­bém re­nas­ce­rei.

GON­ÇA­LO AR­MI­JOS PA­LÁ­CIOS, fi­ló­so­fo e pro­fes­sor da UFG, é ar­ti­cu­lis­ta do Jor­nal Op­ção.



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