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Gonçalo Armijos Palácios gonzalo.armijos@gmail.com
De pais, de filhos
Há almas em nós que despertam um dia, são nossos antepassados, é nossa cultura
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Portinari Carnaval
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Quando morava em Goiânia, o mês de fevereiro se tornava insuportável pelo bombardeio incessante das cenas e da música de carnaval. Poderão pensar que não tenho o menor gosto pela festa e que acho tudo isso bobagem. Nada disso. Já estive no Rio de Janeiro pouco antes dos desfiles das escolas de samba, alguns anos atrás, e fui levado a uma casa, perto do Maracanã, em que um homem terminava os preparativos de vestidos carnavalescos. Várias pessoas que conhecia estavam envolvidas num desfile de fantasias e fui lá, não para visitar, mas porque os amigos que me hospedavam precisavam levar algo que faltava às fantasias. Fui depois a um desfile num salão numa cidade próxima cujo nome não mais me lembro. Vi lá como ficaram as fantasias e para que era aquilo tudo que tinha visto esparramado pela pequena e bagunçada casa.
Nos países da América Latina há também uma forte tradição de festas de carnaval. Meu país, Equador, não é diferente. No entanto, as tradições são mais fortes no interior, e em comunidades pequenas — comunidades de indígenas ou de negros. Lá, claro, é tudo muito diferente. De qualquer forma, aqui, a exploração comercial da televisão, e particularmente de uma grande rede de televisão, torna insuportável o carnaval até para o mais amante da festa.
Por estar vivendo numa outra cidade, e para resolver questões de trabalho, tenho viajado de carro com bastante frequência nas últimas semanas. Às vezes, indo e vindo entre Goiás e Goiânia no mesmo dia e vários dias por semana. Isso me permitiu passar horas e horas ouvindo músicas que guardava, mais do que na memória, nos lugares mais profundos da minha alma. Aquelas horas, indo e vindo, tornaram-se mágicas. À música e às lembranças juntava-se a primorosa paisagem dessa belíssima e serena região do noroeste goiano. É notável como cheiros e sons nos trazem lembranças as mais remotas. E elas parecem puxar outras, como em turbilhões. Uma música quase que me permitiu sentir o aroma do café da minha casa, quando devia ter uns cinco ou seis anos. Mas com o aroma veio esse momento especial das quatro, cinco da tarde, reconstruindo a figura daquela senhora, quase esquecida, mas querida, que o preparava. E o fazia, naturalmente, ao som dessa canção que naquele momento estava escutando e que praticamente todas as tardes ouvia nessas horas já perdidas. Até essa época, terminando meus cinco anos, só me lembro que ouvia músicas em espanhol. Curioso notar isso agora. Enquanto escrevia as últimas linhas parei para pensar, e perguntei a mim mesmo se de fato só ouvia músicas em espanhol. E é verdade. Só ouviria, pelo rádio, músicas em inglês, no ano seguinte, ao completar os seis anos. E, claro, seriam as músicas dos Beatles, já numa outra casa. Na anterior, na casa da senhora Natália, só me lembro ter ouvido músicas em espanhol. Duas delas, vinte anos depois, apareceram misteriosamente, tom por tom e letra por letra, tocadas por mãos que eram e não eram as minhas, cantadas e não cantadas por mim. Tocadas e cantadas, talvez, por aquele menino que de repente quis voltar à vida no meu violão e usou as mãos e a voz do homem que chegou a ser.
De qualquer forma, minhas últimas semanas têm sido assim. Revivendo sensações, momentos, cheiros e emoções que, aos poucos, foram ficando para trás. Algumas lembranças lastimam um pouco. Talvez porque muitas coisas passam porque devem passar. Delas temos nostalgia, mas não doem. Outras se tornam lembranças porque as deixamos para trás e devemos partir. Essas nos ferem um pouco. O triste não é partir, mas ter de partir. E o mais triste, talvez, ter de partir para nunca mais volver.
Fui ver o desfile de carnaval aqui, na Cidade de Goiás. Já tinha ouvido, desde minha casa, o som da bateria nos ensaios de uma escola de samba que escutei desde que cheguei. Emocionei-me, contudo, ao ver desfilar, entre os passistas, meninas de cinco ou seis anos, senhoras de mais de setenta, fantasiadas, comprometidas, compenetradas no que faziam. Com amor, com paixão. E, na bateria, garotos tocando com fervor. Particularmente um menino, de uns seis anos, que batia no seu pequeno instrumento como se fosse o seu próprio coração, para que não parasse de latir. Quem sabe esse menino, daqui a vinte, trinta anos, sem mais nem menos, pegue um batuque e comece a bater nele cantando a marcha que ouvi naquela noite. Talvez, nesse momento, eu também renascerei.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da UFG, é articulista do Jornal Opção.
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