Gonçalo Armijos Palácios
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A via do ser e a dúplice via do lógos
Desde o início da filosofia, às múltiples dimensões do ser somam-se as infinitas possibilidades exegéticas do lógos que o exprime
Há indícios, inúmeros, de que, desde o começo, o filosofar segue dois caminhos. Duas vias não necessariamente separadas. Muito pelo contrário, são sendas que se entrecruzam e confundem. Uma é a via do ser. Que via é essa? A que nos leva ao kósmos — ou, quiçá, a que vem do kósmos. Pois só para a consciência imediata, para o pensar empírico, o ser é kháos. O pensamento filosófico nasce, precisamente, na sua insurgência contra a consciência empírica vulgar, aquela que só tem noção do kháos. Pois o kháos é o aparente, o que imediatamente se oferece à consciência imediata, ao pensar empírico e vulgar. Se tudo for essencialmente caótico, nada pode ser explicado, e, assim, nada pode ser propriamente dito. Isto é, nada pode ser dito com propriedade, noutras palavras, racionalmente. Se, pelo contrário, o kháos é só aparente, algo há além dele. Algo o transcende. E é essa transcendência o que a mente filosofante procura: a ordem, o kósmos. O kósmos, enquanto realidade transcendente e ao mesmo tempo abrangente, é o ser das coisas. Sua essência, ou seja.
Se há tal essência, e se não é outra que o conjunto de propriedades de tudo o que é ou pode ser, ela só poderá ser dita por meio de uma linguagem que a exprima convenientemente. Tal linguagem, no entanto, só pode ser a do lógos. A de um fluir cósmico, não aleatório nem arbitrário. O ser mostra-se para nós. Não obstante, não fala para nós. Nós devemos falar por ele. Devemos, assim, construir uma linguagem, a que mais se lhe aproxime e convenha. Ao fazê-lo criamos uma confusão para a consciência vulgar. Pois devemos usar a nossa própria maneira de nos expressar. Desse modo, o lógos cósmico deve ser dito com palavras de um lógos humano. Um lógos humano que se afasta, e precisa se afastar, do verbo comum e da expressão vulgar. É assim que o pensar filosofante cria sua própria téchne. Ao fazê-lo, preocupa-se mais na comunicação direta do que é o ser transcendente das coisas do que na assimilação dessa comunicação por parte de outros que, obviamente, não têm nem jamais poderiam ter a necessidade dessa comunicação.
Cria-se, desse modo, uma outra necessidade. A de se compreender o lógos do ser. Nasce a necessidade exegética e hermenêutica do lógos que se atribui ao ser. Surge, portanto, um dia-lógos. O diálogo filosófico. O falar-se-a-través-e-por-causa-do-lógos-do-ser. Um falar que é diálogo e, ao mesmo tempo, apontamento. Apontam-se as propriedades transcendentes do real. É um diálogo fundamental: quer atingir o fundamento de tudo e, também, comunicá-lo. Noutras palavras: dizê-lo em comunidade. Mesmo que essa seja uma comunidade restrita. A daqueles que se interessam pelo lógos do ser. Daqueles que, por se interessar pelo lógos do ser, ingressam no diálogo filosofante sobre esse ser. Diálogo comunicativo, para esse grupo restrito, e alheio, incompreensível, para a consciência imediata.
Como conseqüência, à dificuldade da compreensão do ser, que é transcendente, que não se dá à consciência imediata, soma-se a aporia hermenêutica, imanente, do próprio lógos filosófico. É indicativo dessa dificuldade — e não é um mero detalhe — que Aristóteles teça hipótese sobre as causas que teriam levado Tales a propor a água como arché. Pois só por esse meio entenderíamos o alcance e a profundidade significativa desse conceito, como foi usado pelo milésio.
Assim, às dificuldades que nos apresenta a compreensão da via do ser, nas suas diversas dimensões e aspectos, somam-se as que surgem da exegese da téchne empregada para denotá-lo: a téchne do lógos filosofante.
GONÇALO ARMIJOS PALÁCIOS, filósofo e professor da UFG, é articulista do Jornal Opção.