Goiânia, 09 de setembro de 2010 (17:41)
De: 13 a 19 de Junho de 2004

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ESPECIAL 30 ANOS - Entrevista Histórica

Otávio fala

ex-governador explica a sua posição no processo sucessório e diz por que está dialogando com todas as facções políticas do Estado

“Visitei o capitão Fleury. Ele me disse que, se a escolha vier de Brasília, acredita no nome do Danilo”
O Jornal Opção publica mais uma entrevista histórica. A entrevista de Otávio Lage é de 1977. As palavras do ex-governador eram história em curso, ou seja, tentativa de interferir na história. Como se sabe, Ary Valadão substituiu Irapuan Costa Junior no governo do Estado, surpreendendo parte das elites políticas, inclusive Otávio Lage. Ary era tido como um político intelectualmente menos dotado e se confundiu isso com incapacidade de articulação (local e, sobretudo, nacional). Mas Ary aproximou-se do general Golbery do Couto e Silva, que foi decisivo para sua indicação. Os militares, que não repetiram nenhum governador em Goiás, deixaram perplexos políticos aparentemente mais habilidosos, que estavam unidos para “fazer” o governador. Otávio Lage estava cotado. Porém não chegou lá. Nesta entrevista, uma revelação: Otávio Lage conta que não tem vocação para cargos legislativos. Com seus filhos, Jalles Fontoura e Otavinho, parece ocorrer o mesmo. O segundo, reeleito prefeito de Goianésia e, xodó do pai, pode estar sendo preparado para vôos mais altos.

Falando ao Jornal Opção no final desta semana, o ex-governador Otávio Lage afirmou que acredita na viabilidade do projeto em que ele, o governador Irapuan Costa Junior e o ex-governador Leonino Caiado estão empenhados: ganhar as lideranças arenistas para um consenso em torno da unidade do partido no processo sucessório, em benefício dos interesses permanentes do Estado — a fim de que a Arena melhore sua posição eleitoral para 1978 e, finalmente, como um fator de fortalecimento da classe política em Goiás.

Entretanto, mais importante do que ganhar as lideranças é, para Otávio Lage, convencer a opinião pública, pois, “em última análise, dela é que dependerá o sucesso dos planos concebidos, e não das cúpulas”.

É que, segundo afirma o ex-governador, o projeto em que os “três grandes” da Arena trabalham não tem como objetivo máximo indicar para a governadoria um nome que sirva ao conjunto do situacionismo. Mais importante, segundo ele, é que esse candidato galvanize a opinião pública e seja capaz de levar a Arena a uma vitória expressiva em 1978, dando a esse futuro governador uma forte bancada no Congresso e tranqüila maioria na Assembléia Legislativa.

Otávio está consciente das dificuldades que se anteporão aos negociadores arenistas até chegar a um denominador comum, e conhece até mesmo as suspeitas que podem dividir os integrantes dos diversos grupos arenistas, mas, com invencível otimismo dá a receita para neutralizar esses aspectos negativos: “O que é preciso é não se falar em nomes nessa fase das conversações. Os nomes surgirão naturalmente, no momento oportuno e a seleção se dará quase automaticamente, à luz dos princípios e bases estabelecidos no curso do diálogo.”

Pessoal — Feito esse preâmbulo, Otávio Lage se submeteu ao bombardeio de perguntas. Está bem, os nomes surgirão naturalmente, mas acabarão surgindo e, pela evidência dos fatos, ele mesmo será um dos cogitados. Nesse caso, Otávio aceitaria ser candidato a governador ou senador? A resposta vem rápida: “A senador, de maneira nenhuma. Não tenho vocação legislativa”. E, como que fechando a questão: “Não adianta querer me enfeitar, porque não aceito mesmo. Em 1974, alguns amigos meus, juntamente com jornalistas, andaram dizendo que, se as lideranças exigissem, eu concordaria em ser candidato a senador. Mas na verdade nunca houve essa possibilidade, nem então, nem agora.” E candidato a governador, admite a hipótese? Otávio nem pensa para responder: “Agora, não admito nada. No momento em que se estiver cogitando de nomes, discutirei o problema. Posso adiantar, porém, que não desejo mesmo ser candidato, por diversas razões. Em primeiro lugar, sem falsa modéstia, creio que fiz um bom governo. Isso é um patrimônio meu, de minha esposa e filhos, de minha família e de meus amigos, uma coisa que, eu confesso, me dá satisfação e justo orgulho. Ora, eu não acredito que possa ao menos repetir, quanto mais superar a administração que fiz, diante das dificuldades econômicas e financeiras crescentes para os Estados. É um problema pessoal meu, mas não quero me arriscar a quebrar o encantamento”. Opção pondera que as dificuldades financeiras dos Estados decorrem da atual sistemática de distribuição de rendas entre eles e a União, e que provavelmente uma ampla abertura democrática incluiria uma reformulação dessa política que asfixia as administrações regionais. Otávio aparentemente mostra-se surpreso com essa vinculação do próprio financeiro dos Estados à normalização institucional do país, mas comenta: “É, essa questão é muito séria e exige soluções corajosas”. E ironicamente: “É preciso fazer com que a Federação exista efetivamente e não apenas formalmente”.

Cúpula — De qualquer maneira, Otávio Lage insiste em que é extemporâneo e prejudicial falar em nomes agora, mas não se nega a uma especulação limitada em torno do assunto: “Não acredito em candidato imposto, principalmente no caso específico do próximo governador de Goiás. Quero dizer, não acredito que ninguém possa impor o seu nome. Gostei do perfil traçado pelo governador Irapuan Costa Junior para esse candidato. Também acho que ele precisa ser político e, fundamentalmente, ter prestígio eleitoral. E essa condição será essencial”.

Otávio Lage, numa fotografia atual: preparando o terreno para os filhos Jalles e Otavinho

“Estou dialogando com todas as áreas e já sei que, se não houve unanimidade, haverá maioria”
Uma pergunta incômoda: “O que diz a respeito das especulações acerca de possíveis acordos bilaterais entre Irapuan e Otávio, ou entre Otávio e Leonino visando excluir ou neutralizar a influência de um em benefício dos outros dois?” A resposta de Otávio Lage é incisiva: “Como estão colocadas as coisas, não funcionam espertezas de cúpula. Na hora da verdade, o candidato a governador precisa estar em condições de liderar uma campanha que leve à vitória o candidato ao Senado e eleja maiorias expressivas para a Câmara e a Assembléia”. O deputado Jarmund Nasser, presente à entrevista, comenta: “O que não pode se repetir é o que ocorreu na campanha do Manoel dos Reis para o Senado. O governador já escolhido, que o acompanhava nos comícios, não era ainda conhecido das lideranças do interior, que perguntavam aflitas: ‘Quem daqueles ali no palanque é o Irapuan?’”.

Outra objeção deste jornal: a entrevista do Leonino foi interpretada como uma reação contra esse tipo de manobra. Otávio não concorda com essa interpretação: “Gostei da entrevista do Leonino. Acho mesmo que ele interpretou com muita felicidade e oportunidade a filosofia que tem orientado as conversações em curso”. Em seguida, mais uma intervenção de Jarmund: “A impressão que se tem é que o Leonino até agora vinha se mantendo inibido e que essa entrevista é o sinal de que ele vai deslanchar, participar mais do processo, conversar, dar uma contribuição mais efetiva. Isso é bom e é o que devem fazer todos os lideres, a começar dos que têm mais influência e responsabilidade”.

Tripé — De uma colocação feita por Opção, refletindo a opinião de setores da própria Arena, o ex-governador Otávio Lage não gostou mesmo: “Não existe nenhuma ditadura do tripé. Tudo começou por iniciativa do governador Irapuan Costa Júnior que me disse de sua intenção de conversar com todas as lideranças arenistas, incluindo-se nessa relação o Leonino e eu. Concordei. Dos contatos iniciais surgiu a idéia e nós três assumirmos a responsabilidade de ampliar o número de pessoas a serem ouvidas, a partir daqueles que tivessem mais relacionamento ou vinculação com cada um de nós. Mas não há ditadura alguma: apenas, pela posição que ocupa, o governador comanda o processo, mas o dialogo é livre e todas as contribuições são válidas para que se conheça o verdadeiro pensamento da Arena goiana”.

Contatos — Otávio Lage reage quando lhe é proposta a suspeita de alguns círculos de que possa estar havendo discriminação nos contatos. Diz ele que, todos, a começar do governador Irapuan Costa Junior, estão abertos ao diálogo e convencidos de que ele deve se estender ao maior número possível de líderes. E confirma que já falou com o coronel Danilo Cunha, com o engenheiro Marcus Fleury, com os deputados Mário Cavalcante, Sérgio Caiado, Hélio Levy, José de Assis e Ary Valadão, dentre outros. E o que falou com eles? Otávio explica: “O coronel Danilo esteve comigo lá em Goianésia. Visitei o capitão Fleury e este me disse que, se a escolha for feita a partir de Brasília, reserva-se o direito de acreditar que Danilo Cunha tenha chances decisivas, mas, se a regra do jogo for o consenso entre as lideranças goianas, considera válido o dialogo em curso. A conversa com os integrantes do grupo que vocês jornalistas chamam de rebeldes se me afigurava quase impossível, mas apreciei a objetividade e a franqueza dos deputados Mário Cavalcante e Sérgio Caiado. Eles me disseram que qualquer solução partida desse projeto defendido por nós resultaria em prejuízo para eles, pois se julgavam sem chance de influir no processo. Então eu lhes disse que procurávamos dentro dos quadros da Arena os nomes capazes de inspirar mais confiança a um número maior de pessoas. E passei a lhes perguntar: “Entre fulano e beltrano, em quem vocês acreditam mais?” E, diante das respostas deles, pude lhes mostrar como a busca do consenso funciona na prática. Na conversa com Hélio Levy, José de Assis e Ary Valadão, eles disseram que são pretendentes à candidatura a governador, mas que aceitam integralmente a busca do consenso antes da definição de nomes. “Sendo assim, tudo bem” — eu lhes disse.

Mas, perguntamos: “E a Arena, como fica nisso tudo?”. Desde que se falou em diálogo, apenas na entrevista de Leonino foi mencionado o nome do presidente do diretório regional, Hélio de Britto. É evidente que ele não está tendo, nas conversações em curso em Goiás, o mesmo destaque que tem, no plano nacional, o presidente nacional, Francelino Pereira.

Otávio Lage considera o assunto delicado, mas não foge dele: “Em primeiro lugar, o doutor Hélio não está alheio ao diálogo. Ao contrário, foi uma das primeiras lideranças a serem procuradas e está a par do desenvolvimento de todas assembléia conversações. Pela sua experiência, pelo seu prestígio entre os companheiros, merece todo o nosso respeito, e o governador Irapuan mesmo está pronto a dialogar com ele. Quanto ao diretório regional, nada impede que ele também tome suas iniciativas em favor da busca do consenso, apesar da imprensa já ter dito inúmeras vezes que, por circunstâncias que não cabe discutir aqui, ele não representa convenientemente todas as forças partidárias”.

A questão seguinte apresentada ao ex-governador é a respeito da suspeita de círculos próximos a Leonino Caiado e que Irapuan teria preferência pelo nome de José de Assis e que ele mesmo, Otávio, estaria inclinado a aceitá-lo para impingí-lo às demais lideranças. E Opção lhe disse: “Observadores dizem mesmo que o motivo real da entrevista de Leonino foi o de tentar rasgar esse tumor”. Otávio recebe qualquer observação com notável bom humor e comenta: “Interessante é que o José de Assis comentou comigo essa tese veiculada pelo jornal de vocês. Para ele, por trás dela há uma tentativa de queimar a sua candidatura”. E prossegue: “É natural que cada líder tenha suas preferências pessoais. Julgo o José de Assis um moço de muito valor e um político de grande prestígio, mas ele não tem prioridade entre as minhas preferências. Quanto ao Irapuan, nunca me disse de suas preferências pessoais, mas não me admiraria que entre elas estejam nomes como José de Assis e Ary Valadão. Afinal, são seus auxiliares direitos”.

A pergunta final parecia óbvia. O repórter quer saber se Irapuan, Otávio e Leonino esperam, ao fim de suas conversações, obter a unanimidade de pontos de vista. Eis a resposta do ex-governador Otávio Lage: “Sinceramente, não esperamos a unanimidade. Aliás, o ideal da democracia que parece ser apenas a maioria. As unanimidades, freqüentemente, são difíceis e perigosas”.



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