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| Editorial |
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| A razão e o interesse público |
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Pré-campanhas e campanhas são momentos de histeria coletiva, mas um chamamento à razão, à apresentação de propostas qualitativas, é vital para que os políticos entendam que o eleitor de Goiás modernizou-se junto com a economia
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Fotos: Edilson Pelikano/Jornal Opção
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Jorcelino Braga: a destruição do secretário que enxugou
a máquina pública não beneficia Goiás
| As crianças tendem a eternizar o presente, geralmente ignorando o passado e o futuro. O homem adulto não pode fazer o mesmo, mas vários políticos que detêm algum poder, sobretudo o controle do Executivo, costumam avaliá-lo como não transitório. Perdem o bom senso e, principalmente, a capacidade de entender seu lugar na história. O político não meramente pragmático, atento não apenas à circunstância, pensa sobre seu papel na história. Toma decisões firmes, desde que ancoradas no interesse público, mas sabem entender como serão julgados posteriormente e, por isso, são moderados e ponderados. Então, antes de discutir fatos recentes da política de Goiás, citemos o exemplo de Getúlio Vargas, presidente do Brasil por quase 20 anos.
Vargas assumiu o poder, em 1930, por intermédio de um golpe, chamado nos livros de Revolução de 30. Em 1937, por intermédio de um segundo golpe, implantou o Estado Novo — uma ditadura cruenta. Ficou 15 anos ininterruptos no poder. Perseguiu, prendeu, torturou e exilou oposicionistas. Baniu a democracia. Seu governo, rico em crueldades, merece investigações mais detidas e abrangentes dos historiadores, que, em geral, parecem tratá-lo com luvas de pelica. Enquanto cultivava a ditadura em termos políticos, travando o desenvolvimento das instituições pilares da democracia, como Legislativo, Judiciário e Imprensa, Vargas mostrava-se modernizador em termos de economia. Sua política de substituição de importações — repetida por Juscelino Kubitschek — foi decisiva para fortalecer o desenvolvimento industrial do país, ampliar o mercado interno e criar uma elite empresarial agressiva e moderna. A modernização em si não desculpa a ditadura — porque nada, nem desenvolvimento, justifica um governo ditatorial. Mas é fato que Vargas é tratado com moderação, até por historiadores críticos, como Boris Fausto, porque contribuiu para desenvolver e modernizar o parque industrial do país, para criar uma legislação trabalhista avançada para sua época — criou o salário mínimo, por exemplo — e reorganizar e redefinir o papel do Estado, quase sempre intervencionista.
Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, Vargas é derrubado por um golpe que uniu militares e políticos. O presidente eleito para sucedê-lo, Eurico Gaspar Dutra, que teve simpatia pelas ideias nazistas, chegou ao poder graças ao apoio do encanecido ex-ditador, por sinal, eleito senador. Dutra fez um governo medíocre e, em 1950, Vargas voltou ao poder, agora por meio de eleições diretas. Muitos consideravam que o “Velho” estava aposentado. Não estava. Entretanto, sem o “apoio” elástico da ditadura, tendo de conviver com a crítica dura dos oposicionistas, como o implacável Carlos Lacerda, e o “tempo” da democracia para aprovar seus projetos, Vargas desmoronou. Em agosto de 1954, esmagado pelas críticas da mídia e dos políticos, o presidente matou-se com um tiro no peito. O Palácio do Catete, de onde Vargas governava o país, era, segundo Lacerda, um “mar de lama”. Sabe-se que Vargas não roubava, mas, cansado e com escasso apoio político, teria permitido que aliados e amigos “privatizassem” as verbas públicas, notadamente as do Banco do Brasil.
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Fotos: Edilson Pelikano/Jornal Opção
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Alcides Rodrigues: o governador não pode ser subestimado; vai ser um grande jogador na disputa
| Hoje, quase 56 anos depois de sua morte, após ter sido achincalhado de todas as maneiras pela oposição, qual é o lugar de Vargas na história? Mais do que ditador, é visto como o gestor que contribuiu para modernizar a economia nacional e forjar um Estado nacional poderoso. O achincalhe parece esquecido e a pecha de corrupto não se tornou uma segunda pele. Porque a histeria passa e a história, positiva ou negativa, fica.
Pacto com a verdade — Há jornais que dizem fazer pacto com os leitores e, de fato, estes são essenciais para a sobrevivência de qualquer meio de comunicação. Mas o pacto que deve ser entabulado pelos jornais é com a verdade, porque a verdade, embora deva ser exposta, nem sempre agrada aos leitores. Muitos querem ver sangue, pessoas destroçadas pela pressa na apuração das notícias, desde que o sangue seja dos outros. O Jornal Opção se recusa a aderir ao “efeito manada”, a aderir às modas e, portanto, a repetir aquilo que “todo mundo diz”. A orientação editorial é para que se pense adiante e que seus repórteres não se limitem às circunstâncias, ao óbvio ululante. Os repórteres, a alma de um jornal, são incentivados a pensar pela própria cabeça e a não aceitar os primeiros argumentos como verdades supremas. Hoje, exatamente por se recusarem a pensar, muitos repórteres brasileiros se tornaram meros datilógrafos. Recolhem e transcrevem declarações e os jornais as publicam. Assim, os jornalistas ficam com a impressão de que não têm responsabilidade alguma sobre o que “escrevem”. Trata-se um trabalho tipicamente alienado, no qual o profissional deixa poucas marcas e, assim, não o reconhece como seu. Porque suas digitais não foram impressas junto com o jornal.
Ao pensar, ao sugerir que um fato seja interpretado e, às vezes, reinterpretado, muitas vezes o Jornal Opção foi mal entendido por alguns políticos. Muitos dizem que o jornal é “imprevisível”. Mas não é exatamente assim. Na verdade, o jornal não adere ao “coro dos contentes”, não repete a “verdade” do poderoso do momento, e sempre põe o interesse público em primeiro lugar. Os interesses de Goiás, do Brasil e dos indivíduos estão acima daquilo que o poderoso da circunstância pensa e quer. Por isso, não raras as vezes, o jornal disse algo que contrariou os homens do poder e, também, muitos de seus leitores. Adiante, com os fatos sopesados, praticamente todos deram razão à independência crítica do jornal. Por isso é um axioma na redação: toda denúncia merece ser apurada e, no caso de responsabilidade provada, a pessoa deve ser penalizada. Quer dizer, penalizada pela Justiça. O foro democrático para dizer que uma pessoa cometeu um erro grave, um desrespeito à lei, é o Judiciário. A mídia tem o direito e o dever de divulgar os fatos, ainda que haja apenas suspeição, mas quem julga e condena são os magistrados.
Estado recuperado — Na semana passada, a mídia divulgou, com imagens fortes e que mereceram repercussão no “Jornal Nacional”, o de maior audiência do país, que Ivone Francisco dos Santos supostamente foi extorquida por Aniela Braga, filha do secretário da Fazenda, Jorcelino Braga. Ivone disse que, para receber recursos do governo de Goiás para uma organização beneficente, a Renafé, repassava uma percentagem, cerca de 10%, para Aniela. As imagens mostram Aniela recebendo dinheiro de Ivone. Como disseram vários políticos, a denúncia é mesmo grave, merece investigação isenta do Ministério Público e posteriormente, se o caso chegar à Justiça, que os responsáveis sejam penalizados ou inocentados.
Como o país está numa fase pré-eleitoral, com os políticos se posicionando para a disputa de presidente da República, governador, senador e deputado, é natural que denúncias sejam divulgadas com mais intensidade. Em si, desde que acompanhadas de provas, denúncias são saudáveis. Porque assim se conhece os bastidores da sociedade — e não apenas da política. Contra Aniela, ainda que se possa falar em armação, há as imagens e suas palavras. Contra seu pai, apontado como suspeito apenas por ser seu pai e por tê-la atendido num pleito, os indícios são frágeis. Não há prova cabal de que Braga tenha tirado proveito algum da transação entre Aniela e Ivone. Tanto que, na semana passada, um promotor e um procurador de justiça disseram ao Jornal Opção que Braga dificilmente será indiciado, se a investigação for autônoma, sem ingerência política. O Ministério Público de Goiás, frise-se, tem uma história de isenção. A conduta do procurador-geral de Justiça, Eduardo Abdon Moura, tem sido exemplar. Não há uma mácula que seja no seu trabalho discreto e eficiente. Tanto que, na sua gestão, o MP não tem buscado, com a intensidade de antes, as luzes e as letras da mídia. As investigações e denúncias continuam a ser feitas, seguindo os ritos legais e com critérios, mas sem estardalhaço. Moura não é omisso — só não quer ver reputações desfiguradas por investigações apressadas que, na Justiça, são derrubadas com extrema facilidade, por conta de inquéritos malfeitos, que não acrescentam provas robustas.
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Fotos: Edilson Pelikano/Jornal Opção
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Iris Rezende, prefeito de Goiânia, e Marconi Perillo, senador: o peemedebista
e o tucano são políticos qualitativos e que enriquecem Goiás
| Especificamente sobre Braga, é imperativo dizer algumas palavras. Em Brasília, no governo Lula, o secretário é visto como bons olhos. Mas não necessariamente, como se costuma pensar, porque critica o senador Marconi Perillo com certa ferocidade, e sim porque operou um ajuste que enxugou a máquina do governo e, em pouco tempo, recuperou sua capacidade de investimento. Pode-se não se gostar de Braga, por conta de suas posições e opiniões sólidas, por sua intransigência no corte de gastos, que chegaram a irritar colegas de secretariado, mas não se pode negar sua competência técnica. Em sã consciência, ninguém — ninguém mesmo — pode negar que o governo Alcides recuperou-se, em larga medida, por causa da ação do indivíduo Braga. Por conta de sua coragem de enfrentar lobbies, de desagradar até aliados, em nome da recuperação do Estado. Se a imagem do governador Alcides começa a melhorar, aproximando-se dos 40% positivos, isto tem a ver, em grande medida, com o rígido programa de contenção de despesas e com o pagamento em dia de funcionários públicos e fornecedores do Estado. O governo, aparentemente, era mau pagador de fornecedores. Deixou de ser. Trata-se de um fato que o governador Alcides vai ser um “player” decisivo na eleição de outubro. O grupo que se reúne em torno dos líderes do PP pode não eleger o governador, mas pode contribuir para derrotar um dos candidatos.
Ao mesmo tempo, é preciso admitir que a denúncia afeta o governo e, em especial, Braga. Na verdade, o alvo da denúncia é Braga, não sua filha, que foi tão-somente instrumento. Mas o fato, apesar da suposta armação, existe. No momento em que o governo Alcides tenta costurar uma imagem de responsabilidade, de que está equilibrando as contas do Estado e recuperando a Celg, a denúncia o atinge de frente, especialmente se houver uso político intensivo daqui pra frente. A disposição de Braga para esclarecer os fatos — compareceu espontaneamente ao Ministério Público, antes mesmo que a notícia se tornasse pública — indica que ele e o governo não pretendem esconder nada. Sobretudo, o governo não foi atingido diretamente. Não há, a rigor, uma denúncia contra o governo. Nem mesmo contra Braga.
Temas essenciais — Nos últimos meses, o debate político tem se mostrado estéril. A denúncia que envolve a entidade beneficente pode ser mais um assunto com o objetivo de gerar especulação e nenhum esclarecimento. Como os temas do déficit do governo do Estado e da origem das dívidas da Celg. Enquanto são geradas denúncias nebulosas, para alimentar o debate meramente eleitoral, questões candentes são deixadas de lado pelos políticos. Pelo menos por alguns políticos. Mas não pela sociedade.
O problema da dengue raramente aparece em discursos de políticos. É como se não houvesse uma epidemia gravíssima. A violência é discutida às vezes episódica e politicamente, mas raramente com propostas adequadas para combatê-la. Na semana passada, o deputado federal Pedro Wilson, do PT, alertou, mais uma vez, para um assunto que a imprensa e os políticos de Goiás parecem não ter disposição para discutir: a questão do pré-sal. Pedro diz que, se a emenda do deputado Ibsen Pinheiro for aprovada, Goiás poderá receber 800 milhões de reais. O deputado federal Sandro Mabel, do PR, apresenta uma cifra mais modesta: 250 milhões de reais, para serem repartidos entre municípios e Estado, no caso de se aprovar a emenda de interesse do governo federal — e não a proposta de Ibsen. O tema, de alto interesse para os goianos, não apareceu, na semana passada, nas páginas dos jornais locais. Mas pelo menos uma das emendas a respeito do pré-sal deve ser votada na terça-feira, 9, ou na quarta-feira, 10. Neste momento, todos os políticos goianos, não apenas deputados federais e senadores, deveriam estar unidos em defesa dos interesses do Estado. Mas preferem brigar — trocando o essencial pelo acessório. Ao lado da Sudeco, a fundação do Banco do Centro-Oeste é outro tema que merece figurar na pauta dos políticos e dos jornalistas. Lúcia Vânia, a competente senadora do PSDB, e os deputados Pedro Wilson e Sandro Mabel falam do assunto, mas suas palavras se perdem no vento — por falta de apoio.
Do ponto de vista estritamente político, quais conclusões a serem retiradas do conflito da semana? Entre os líderes do PP, em especial nos bastidores, se disse que a denúncia que atingiu Braga tinha um destino maior — o governo do Estado. O objetivo seria enfraquecer o governador Alcides no momento em que, recuperando a imagem, começa a se tornar um jogador considerável. A denúncia teria sido armada por tucanos, mas ainda não foram apresentadas evidências cabais. De qualquer modo, com o confronto entre tucanos e pepistas, direta ou indiretamente, quem sai ganhando? O prefeito Iris Rezende. Por dois motivos. Primeiro, Iris, administrando Goiânia sossegadamente, exibindo uma poderosa capacidade para se reinventar — modernizando a prefeitura, com o apoio de uma equipe jovem e azeitada —, está num bom momento político e pessoal. Com a imagem recuperada, tornou-se um dos favoritos para a disputa do governo do Estado. Segundo, no caso de o grupo Alcides não lançar candidato a governador — tudo indica que vai lançar —, Iris pode obter seu apoio. Porque, como dizem os políticos, está varrendo para dentro. Articulado, Iris defende que o candidato do PMDB deve ser definido o mais cedo possível, até para que Marconi Perillo não fique sozinho na raia, mas, provando-se democrata, ouviu o partido e decidiu esperar. Em nenhum momento fechou as portas para o indeciso Henrique Meirelles.
O senador Marconi Perillo, pré-candidato do PSDB, é um político de rara habilidade e com uma capacidade de trabalhar e uma energia visceral difíceis de serem comparadas. Articula em tempo integral e parece alimentar-se de política. Parece onipresente. Trabalha em Brasília, visita o interior, reaparece na capital e conversa com líderes políticos, empresariais e religiosos. Seus aliados dizem que o rompimento com o governador Alcides Rodrigues é definitivo, que não há mais qualquer ponto de contato. A crise envolvendo Braga selou o rompimento e a disposição de Alcides de bancar um candidato ao governo. Mas os tucanos dizem contar com as “vozes” do interior e com as convenções partidárias. É aquela história: “Seus líderes não gostam de mim, mas seus liderados me amam”. Parte das bases do PP, do PR e do DEM realmente prefere ficar com Marconi, enquanto as cúpulas trabalham para lançar candidato ao governo e, ao mesmo tempo, se aproximam de Iris — para o primeiro ou, mais provavelmente, para o segundo turno.
Goiás está numa boa fase. A economia está crescendo mais do que a média do país, o agronegócio é sólido, o setor de serviços tem peso decisivo, e seus políticos, como Iris, Marconi, Alcides, Braga, Ernesto Roller, Rubens Otoni, Ronaldo Caiado, Lúcia Vânia, Leonardo Vilela, Antônio Gomide, Demóstenes Torres, Pedro Wilson, Maguito Vilela, entre outros, são sérios e qualitativos. Digamos que Iris, Marconi e Roller sejam escolhidos candidatos. Qualquer um que for eleito não vai envergonhar Goiás. Pelo contrário, só vai engrandecê-lo. Mas eles e os goianos só vão ganhar se a pré-campanha e a campanha foram mais propositivas do que cruentas. Denúncias podem e devem ser feitas, mas não devem ser o centro da disputa eleitoral. Denúncias não desenvolvem Estados, às vezes travam seu desenvolvimento. Destruir Braga, Marconi e Iris, para citar apenas três políticos, não beneficia Goiás. Pelo contrário.
Este Editorial não é contra nem a favor de ninguém, ou melhor, é a favor de Goiás e de todos os seus habitantes. Trata-se muito mais de um chamamento à razão, de um convite para o debate de propostas para modernizar, ainda mais, o Estado de Goiás. Calma, paciência e bom senso. É o que recomendamos aos políticos. O eleitor de Goiás é esclarecido e está de olho mais naquilo que os políticos fazem do que naquilo que pregam. Há uma classe média, em todo o Estado, que sabe avaliar, com máxima clareza, as diferenças entre os políticos, porque, embora se pareçam, eles não são iguais. Modernidade, entendem os goianos, não é discurso, e sim prática. Ninguém engana ninguém.
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