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| Editorial |
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| O plano C de Lula |
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O petista não tem plano “A” para presidente da República. Mas, ao transferir Ciro Gomes para São Paulo, Lula pode estar tentando criar uma alternativa real ao tucano José Serra
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Ciro Gomes: se Dilma emplacar, o socialista pode disputar o governo de São Paulo; se não emplacar, o líder do PSB deve disputar a Presidência da República
| Políticos experimentados não trabalham apenas com uma alternativa para disputas eleitorais e não raro o candidato que é apresentado como principal pode, no fundo, ser o reserva, ainda que um reserva de luxo, mas que, no final, pode ser o nome efetivo. A posição do presidente Lula da Silva, um dos mais habilidosos políticos do País mas que não é mágico, é complexa. O líder petista não chega a ter alternativas reais, comparáveis aos governadores tucanos José Serra (São Paulo) e, mesmo, Aécio Neves (Minas Gerais). Tanto que trabalhou, pelo menos durante certo tempo, para atrair Aécio, com o objetivo de dividir o tucanato. Como não tem “o” candidato, o plano “A”, Lula investe “nos” candidatos, os planos B, Dilma Rousseff (PT), e C, Ciro Ferreira Gomes (PSB). Em determinado momento, o presidente terá de escolher aquele que avalia como mais competitivo ou mesmo optar por duas candidaturas, com o objetivo de garantir o segundo turno.
Numa operação complicada, marcada por marchas e contramarchas, Lula conseguiu convencer Ciro a transferir o domicílio eleitoral para São Paulo. O líder do Partido Socialista Brasileiro não queria, porque, como o Nordeste é bairrista, pode ficar com a imagem de que “traiu” a região. Lula argumentou, com acerto, que São Paulo é uma espécie de capital dos nordestinos — há um Nordeste em cada esquina do Estado, principalmente na capital.
A transferência de Ciro para São Paulo resulta de algumas táticas de Lula e de seus articuladores. Primeiro, com Ciro em São Paulo, se candidato a governador, o Nordeste teoricamente sobra para Dilma. Porque é desta região, onde o Programa Bolsa Família terá peso decisivo no resultado das eleições, que o PT espera compensar o peso de São Paulo, que tende a priorizar, em tese, Serra. Se permanece como candidato a presidente, Ciro pode retirar mais votos de Dilma no Nordeste do que o tucano.
Segundo, Ciro, de 52 anos, nasceu em Pindamonhangaba, São Paulo. Por mais que tenha forjado sua carreira no Ceará, é paulista, e do interior. Não pode, portanto, ser acusado de “estrangeiro”.
Terceiro, o PT paulista está combalido e não se oxigenou nos últimos anos. Tornou-se freguês do PSDB de Serra. Ciro, mesmo no PSB, pode renová-lo, tendo um petista na vice.
Quarto, se Dilma não emplacar, Ciro passa a ser a alternativa real a Serra. Ao contrário da petista, é político, foi ministro da Fazenda e é, quando calmo e menos explosivo, um grande debatedor. Candidato a presidente, filiado em São Paulo, Ciro tende a dividir, em maior escala, os votos regionais. Serra deixa de ser o único candidato “de” São Paulo a presidente da República. O PSB pode ser ficção no Estado, mas, com o apoio do PT, Ciro passa a contar com uma força considerável — apoio político, estrutura financeira e quadros acostumados a duros embates com o PSDB de Serra e Fernando Henrique Cardoso. Deixa, portanto, de ser plano “C” e se torna plano “A”.
Quinto: São Paulo não é apenas um Estado, é praticamente um País, ou a locomotiva do Brasil. Por tradição, sua elite cultural, política e econômica tem um contencioso com o Rio Grande do Sul de Dilma (mineira que se fez politicamente nos pampas). Os fatos são antigos e foram esquecidos pela maioria das pessoas, mas ressentimentos ficam adormecidos por décadas e, quando realimentados, voltam com alguma “energia”. Em 1932, os paulistas organizaram o que ficou conhecido como Revolução Constitucionalista e foram massacrados pelo governo do gaúcho Getúlio Vargas. De 1930 a 1945, a elite paulista viveu sob o tacão varguista. O presidente perseguiu, de modo implacável, sua liderança política, empresarial e cultural. O presidente Washington Luís e o jornalista Júlio de Mesquita, diretor de “O Estado de S. Paulo”, para citar dois exemplos, foram exilados. O eleitor comum certamente não sabe disso e nem se preocupa com o fato, mas as elites, que acabam por contaminar toda a sociedade, lembram-se. Lula não é dado a filosofices, mas sabe das coisas — tanto que operou com eficiência a “exportação” de Ciro para São Paulo, possivelmente contrariando dezenas de petistas, que se sentiram ofendidos por terem sido desprezados.
Sexto: nada preocupa mais Lula do que os caminhos e descaminhos do PMDB. Os líderes do partido descobriram a “pólvora”, quer dizer, não precisam ter o presidente para governar o País. Precisam, tão-somente, estar no poder, seja qual for o governante. Nesse sentido, seus caciques não são leais a partidos e líderes, e sim ao poder, ao governo. Apoiaram Fernando Henrique Cardoso com a mesma volúpia com que apoiam Lula e com que apoiarão o próximo governante. Mais do que meros oportunistas, porque a avaliação política não pode ser puramente moral, os peemedebistas se tornaram reis do mais puro pragmatismo. Experiente e adepto da realpolitik, Lula não se ilude, mas faz o jogo apropriado e disputa o PMDB, palmo a palmo, como o tucanato.
Porque Lula sabe que, se perder o PMDB e como não tem um candidato(a) altamente competitivo(a), pode perder a Presidência da República para o PSDB. Muito bem informado, o petista sabe que ninguém “leva” o PMDB inteiro, mas quer ficar com uma ampla fatia, rachando especialmente o partido em São Paulo. Orestes Quércia, apresentado como “dono” do PMDB paulista, trabalha para Serra e deve ganhar, em troca, uma vaga na chapa majoritária. Deve disputar mandato de senador. Talvez seja a única forma de retornar à política nacional. Sem constrangimento e sem ira, porque articuladores têm de ser diplomatas e tão frios quanto o Polo Norte, Lula trabalha a parte do PMDB que, embora seja próxima do quercismo, e tende a ser vista como quercista, tem amplos interesses no governo federal e quer mantê-los. O presidente da Câmara dos Deputados, o peemedebista Michel Temer, é cotado para ser vice de Dilma, o que empurraria parte significativa do PMDB para um compromisso com a candidata petista. Pensa-se num vice do PMDB do Nordeste, mas Lula trabalha mais intensamente um vice de São Paulo, porque avalia que no Nordeste nada de braçadas, transferindo votos para Dilma.
A pergunta que todos do meio político fazem é: Lula pode retirar Dilma da disputa? Pode, mas talvez não queira ou não possa. Por dois motivos: o presidente sabe que o PT o apoia porque é uma liderança inconteste, mas sobretudo porque tem a caneta mágica, a que nomeia e demite, a que autoriza e corta investimentos. Lula pode decidir apoiar um candidato de fora do partido, mas suas lideranças, por mais que estejam contidas pelo poderio do presidente da República, exigem um candidato, ainda que Dilma seja da máquina do governo lulista, e não exatamente do petismo.
Segundo, e talvez mais importante, a retirada de Dilma, para apoiar Ciro ou outro nome, poderia desequilibrar a disputa, não a favor do líder do PSB, e sim de Serra. Mesmo que Dilma se desidrate durante a campanha, e quem tem o apoio do governo federal e da máquina petista tende a não se desidratar muito — pelo contrário, pode crescer, ainda que lentamente —, sua candidatura deve ser mantida, com o objetivo de garantir o segundo turno, quando, então, todas as forças da base lulista se alinhariam contra o tucano.
A tendência, portanto, é que Lula trabalhe para evitar uma eleição polarizada. É o que garante a permanência de Dilma, mas, ao mesmo tempo, Lula fortalece Ciro, porque, sem o nome do PSB na parada, Serra tende a “levar” no primeiro turno, o que teria um efeito devastador no segundo turno das eleições estaduais.
Como as articulações ainda estão sendo feitas, e muita água vai rolar por baixo da ponte, como gostam de dizer os políticos, o mais certo é que Antônio Palocci, o queridinho de Lula, dispute o governo de São Paulo e Dilma e Ciro enfrentem Serra. Mas é possível acrescentar que a tibieza político-eleitoral de Dilma fortalece Ciro, muito mais articulado do que a petista.
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