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| Editorial |
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| Plebiscito lá e cá |
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O presidente Lula da Silva “move” a opinião pública para decidir, em 2010, se votará com ou contra ele. Em Goiás, o eleitor tende a decidir entre Iris Rezende e Marconi Perillo. Não será fácil Henrique Meirelles “entrar” numa disputa sem muito espaço para alternativas
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Dilma Rousseff e Lula da Silva: a insossa ministra petista, se eleita na disputa de 2010, representa o terceiro mandato do presidente, mas sem casuísmo
| A ex-guerrilheira Dilma Rousseff representa o terceiro mandato do presidente Lula da Silva. Sem casuísmo. O petista-chefe, se Dilma derrotar José Serra, será reeleito. Se a ministra vencer, o barbudo simpático não governará, diretamente, mas o PT continuará no poder e, com sua lábia proverbial, deverá tentar voltar em 2014. O sonho do PSDB de ficar 20 anos no poder foi destroçado pela imperícia política do sociólogo nefelibata Fernando Henrique Cardoso — o João Baptista Figueiredo dos civis, pois parece gostar do cheiro do povo só no papel, nos livros, não na vida real. Mais hábil, Lula e o PT “tomaram” o sonho dos tucanos e, se Dilma sagrar-se vitoriosa, ficarão 12 anos no poder. Se o “operário” retornar em 2014, serão 16 anos, quase uma ditadura. O PT terá se tornado uma espécie de PRI mexicano, sem solapar a democracia, mas subordinando a maioria dos outros partidos ao seu projeto de poder, concedendo-lhes, porém, a chance de governar os Estados. De algum modo, Lula é o Campos Sales do século 21. Adotou a “política dos governadores”, abrindo espaço provincial para o PMDB e outros partidos, como o PP do governador Alcides Rodrigues, mas preservando o poder central, que concentra a maior parte dos recursos do País.
Com seu instinto à flor da pele, calibrado pelas informações do marketing político e por pesquisas frequentes e elaboradas com rigor, Lula descobriu o óbvio: o povão, mesmo que a democracia exija alternância, às vezes quer manter aquele presidente que julga ter dado certo. Ao abandonar o discurso radical, ao esquecer que o pessimismo projetado e potencializado pela esquerda só é útil quando se está “fora” da máquina governamental, Lula se tornou (mais) “brasileiro”, fundindo os arroubos populistas e autoritários de Getúlio Vargas (sem levá-los às últimas consequências), o “pai dos pobres”, com as feições bonachonas do “mezzo” aristocrático Juscelino Kubitschek. O segredo de Lula está na facilidade com que fala direto ao coração do povão e ao indicar às elites que não representa nenhuma ameaça à sua margem de lucro (o presidente vermelho recria a noção de “brasileiro”, de que todos são “iguais”, dissolvendo as classes sociais, o que, para um esquerdista, não deixa de ser surpreendente). “Todos ganham com Lula” — poderia ser o slogan do governo. Os pobres têm a Bolsa Família; os ricos, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Não falta dinheiro para quem abrir ou ampliar negócios. A classe média é menos assistida, mas o governo tem atuado para garantir a aquisição de carros, com a redução do IPI, e facilitar a compra da casa própria. Mesmo assim, a classe média está quebrada — deve o cheque especial, o cartão de crédito — e quem tiver um discurso para ela, de modo consistente, e infelizmente para os tucanos José Serra, um ortodoxo, não tem, pode desequilibrar as eleições de 2010. Mas este aspecto não é o objeto deste Editorial.
Se o povão quer a permanência de Lula, mas o petista não pode disputar as próximas eleições, apesar da vontade de alguns deputados, que são adeptos de Hugo Chávez, o que o PT pode fazer? Nada, aparentemente. Na prática, tudo. Lula e seus marqueteiros trabalham, com energia e eficiência, a tese de que as eleições de 2010 serão plebiscitárias. O País não estará dizendo “sim” ou “não” a Dilma, mas “sim” e “não” a Lula. Quem votar contra Dilma, apoiando Serra, estará votando contra Lula. O discurso está “colando”, pois Dilma está se aproximando, perigosamente para Serra, dos 30%. Nem Lula nem seus marqueteiros esperavam que a ministra avançasse de forma tão veloz, o que, no lugar de beneficiá-la, pode atrapalhar a estratégia, sobretudo porque levará o governador paulista (e o PSDB) a mudar sua estratégia. A frente tranquila do tucano nas pesquisas levou a uma certa inação, porque Dilma era vista como uma espécie de bedel levada ao sacrifício para perder e, em 2014, possibilitar a volta de Lula. O erro de interpretação, não infrequente, não leva em consideração que quem está no poder não quer abrir espaço de maneira alguma, porque, se perder, terá sua máquina político-eleitoral desmontada. No caso específico de Lula, articulou-se, no governo federal, uma máquina petista tão azeitada, tão entranhada nos poros do poder, que o próximo presidente, se for de oposição, como Serra, terá dificuldade para fazê-lo funcionar. O PT no governo Lula se tornou “Constituição” ou, no mínimo, “jurisprudência”. A desmontagem do aparelhamento, político e sindical, não será fácil e vai demorar anos.
As pretensões de Aécio Neves, que disputa internamente com Serra, são ótimas... para o próprio Aécio, mas péssimas para o tucano paulista. Porque, enquanto o PT tem candidata definida e em ação, Dilma, o PSDB, que está fora do poder, discute a possibilidade de realização de prévias. Serra articulou bem em São Paulo, elegendo Gilberto Kassab para prefeito e, mesmo, abrindo a possibilidade de o democrata disputar o governo do Estado mais rico do País. A tese do tucano, embora não explícita, é simples: entregando São Paulo para o DEM, que conquistaria (possivelmente) o poder num Estado com vocação para país, estaria livre para negociar sua vice com o próprio tucanato, com Aécio Neves, por exemplo, ou com outro partido, preferencialmente o PMDB de Orestes Quércia e Michel Temer. O jogo de Serra é inteligente, porque o PMDB é o partido que melhor compreende as entranhas políticas do Brasil, tanto que “manda” (em termos relativos) no governo Lula sem ter o presidente, e se for retirado do controle do governo federal, Dilma perderia força nacional. Ocorre que o contraditório, no caso Lula, (re)agiu com rapidez. O presidente articulou, com certa mestria, e praticamente neutralizou a volúpia de Serra. O PMDB não está inteiramente nas mãos de Lula, mas quase. Porque Lula, diferentemente de Serra, pode “deixar” que o PMDB governe os Estados, neutralizando o PT. O PSDB tem ampla estrutura nos Estados e vai lançar candidatos a governador na maioria deles, por isso não terá como fazer concessões ao PMDB, em geral seu maior adversário nas províncias. O PT, pelo contrário, é incipiente na maioria dos Estados.
Lula e seus luas-vermelhas são lúcidos e ilusionistas também no “debate intelectual”. No fundo, o projeto do presidente, com Dilma, é o de continuidade “no” e “de” poder. Pura e simplesmente. Mas os intelectuais do PT camuflam o continuísmo político, a manutenção de um projeto de poder, não inteiramente progressista (a Bolsa Família é o curral eleitoral disfarçado de programa social), sob a tese de que se trata da continuidade de um projeto de governo voltado para as necessidades populares e o desenvolvimento do País.
Se as eleições nacionais tendem a ser plebiscitárias, um julgamento de Lula, mais, e de seu governo, menos, as eleições de Goiás não serão exatamente iguais, mas não deixam de ser parecidas. Dois nomes fortes pretendem disputar o governo: o prefeito de Goiânia, Iris Rezende, do PMDB, e o senador Marconi Perillo, do PSDB. Iris “exige” Marconi e o senador “exige” o prefeito. Porque, além de os dois partidos disputarem a hegemonia, Iris e Marconi travam, desde 1998, uma guerra particular. Se derrotar Marconi, Iris pode contribuir para soterrar, pelo menos por alguns anos, a carreira política do tucano. Se derrotar Iris, Marconi pode aposentar, de vez, o peemedebista. Então, em 2010, o eleitor de Goiás tende a votar de modo quase plebiscitário: “sim” ou “não” a Iris e Marconi. Há espaço para a terceira via, Henrique Meirelles?
O Jornal Opção registrou, de modo pioneiro, que candidato apoiado por governo tende a ser considerado como postulante da primeira via, não da terceira via. Mas, quando se tem dois políticos experimentados no jogo, como Iris e Marconi, é difícil aceitar que Meirelles chega como primeira via. Chegaria como primeira via, ou segunda, se contasse com o apoio do peemedebista ou do tucano. Não é fácil Iris apoiar Meirelles porque, se este for eleito, constituirá um novo grupo político em Goiás, retirando o PMDB do páreo por mais quatro anos. O mesmo ocorre com Marconi. Então, se quiser ser candidato, Meirelles, mesmo como terceira via, terá de enfrentar o prefeito e o senador. Se fizer um discurso meramente técnico, deixando de mirar-se no exemplo de Lula e Dilma, que combinam política (Lula) e discurso técnico (Dilma) na mesma proporção e à perfeição, Meirelles tende a ser demolido pelos experimentados adversários. Ninguém, nem Iris, vai tratá-lo com luvas de pelica na campanha. Política é guerra. Meirelles está preparado e tem convicção? Não se sabe. É uma incógnita.
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