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| Editorial |
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| Político invisível e fogo cruzado |
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Se insistir apenas com o discurso técnico, Meirelles pode ter sua campanha soterrada pelo discurso político polarizado do peemedebista Iris Rezende e do tucano Marconi Perillo
Não é o realismo que faz as pessoas continuarem vivas e ativas. É a fantasia que a torna bem-humoradas e dispostas a enfrentar as adversidades. Mas quem quer entender as contradições da política deve despir-se de ilusões e auto-enganos. O primeiro passo é duvidar de certezas e de posições radicais. Quem leu os jornais de Goiânia na semana passada pode ter ficado com a impressão de que Henrique Meirelles está fora do processo e que está definido que o candidato da base do presidente Lula da Silva ao governo de Goiás é mesmo o prefeito Iris Rezende. O Jornal Opção tem reafirmado que o petista-chefe considera Iris como o candidato mais apto a enfrentar o senador Marconi Perillo. Porque o peemedebista tem experiência e coragem de enfrentar aquele que é tido, por muitos, como “imbatível” (em política, o ser “imbatível” é como o monstro do Lago Ness: não existe). Entretanto, é preciso dizer que a política de Goiás, como diria o italiano Umberto Eco, é uma obra aberta. Os dados estão sendo lançados, mas nem todos foram lançados.
Repórteres do Jornal Opção ouviram vários políticos goianos, como o deputado federal Rubens Otoni (PT), o senador Marconi Perillo (PSDB), o ex-deputado federal Vilmar Rocha (DEM), o deputado federal Luiz Bittencourt (PMDB), o secretário de Comunicação da Prefeitura de Goiânia, Lívio Luciano (PMDB), Sérgio Lucas (PP), entre outros. O que se vai ler a seguir contém alguma coisa do que pensam, mas a análise é de exclusiva responsabilidade do Jornal Opção. A 15 meses e 19 dias das eleições de 3 de outubro de 2009 — um ano, três meses e 19 dias —, há pouco consenso sobre o que poderá acontecer. Por exemplo: dois ou três candidatos fortes estarão na disputa? Não se sabe. Outra pergunta: o governador Alcides Rodrigues, possível fiel da balança, apoiará Iris, Marconi ou Meirelles? No primeiro turno, a tendência é o apoio a Meirelles. E no segundo turno? Os prefeitos pressionariam Alcides para apoiar Marconi, numa possível disputa entre o tucano e Iris? A pressão seria aceita? São dúvidas pertinentes, mas não há respostas precisas, porque os políticos precisam de tempo para maturar suas reflexões e tomar decisões.
O processo sucessório permanece, portanto, “nebuloso”. A única coisa definida, e sem possibilidade de mudança, é que tanto Iris quanto Alcides estão no projeto de Lula. De duas formas. Devem apoiar a ministra Dilma Rousseff para presidente da República. E não estarão no palanque de Marconi. Estarão, é quase certo, contra o senador tucano.
O projeto de Lula é eleger Dilma e uma bancada de senadores consistente. No caso específico de Goiás, o objetivo é eleger o governador — Iris, Meirelles ou Rubens Otoni (PT) — e dois senadores. Não será fácil, sabe o presidente. Mas a ampla aliança que tenta costurar, a partir de Brasília, tem a ver com a tese de que Dilma pode derrotar José Serra — usando Lula como principal cabo eleitoral (a eleição seria plebiscitária: contra ou a favor do presidente petista) — e que, no governo, precisará de uma base aliada sólida no Congresso Nacional.
Por conta da força do PSDB, que elegeu Marconi duas vezes para o governo e bancou Alcides uma vez, Lula nunca articulou bem em Goiás. O presidente avalia, nas conversações que mantém com os políticos goianos, que o quadro mudou. A conformação da política goiana hoje seria outra, na concepção do petista. Ele conta com o apoio do PT, do PP, do PMDB e do PR e, mais do que nunca, está bem próximo dos políticos locais, dando uma atenção especial a Iris e Alcides. Unidos, os quatro partidos terão o controle de praticamente 70% do tempo dos programas de televisão. Se a tevê decide uma eleição, é de algum interesse ficar atento ao número.
Se há algumas certezas, ou supostas certezas — como a observação dos petistas de que Alcides está fechado com Lula e rompido com Marconi de modo irremediável —, persiste uma dúvida. O lulismo, o socialismo do PT, bancará um ou dois candidatos? Num primeiro momento, o presidente sugeriu que dois nomes levariam a disputa para o segundo turno. Nas últimas semanas, tem sugerido que o melhor caminho é, partir de uma frente ampla e consolidada, bancar apenas um candidato — Iris, Meirelles ou Rubens Otoni (PT). Lula avalia que uma composição coesa, com tempo de tevê e recursos financeiros suficientes, pode derrotar um quase solitário Marconi. No primeiro turno.
Uma prova de que as certezas absolutas são corroídas pelo tempo é a união atual entre PMDB e PT. Durante anos, era mais fácil um rico entrar no reino do Céu do que o PT apoiar o PMDB, especificamente Iris Rezende. Hoje, é praticamente impossível desgrudar os dois partidos, que, depois de um namoro apaixonado, casaram-se na igreja, em 2008, na disputa pela Prefeitura de Goiânia, e devem se casar no civil, em 2010, na disputa pelo governo do Estado. A aliança derrotou os adeptos do coro dos que só olham para o passado. Portanto, é possível dizer que, ao contrário do que se costuma pensar, PP e PMDB podem, sim, se unir em 2010. Há sempre uma primeira vez e o raciocínio do tradicionalismo, de que UDN e PSD não se unem jamais, pode ser superado pelos fatos, pela necessidade de derrotar um oponente pertinaz e surpreendente, Marconi.
Na semana passada ouviu-se que Meirelles, temendo uma possível campanha muito acirrada, com ataques à honra, permaneceria no Banco Central. Em contato com o senador Demóstenes Torres, que se tornou uma espécie de confidente democrata do petista-mor, Lula sugeriu, mais do que disse, que Meirelles vai ficar no BC. O que poucos perceberam é que, se dissesse que Meirelles quer ser candidato, naquele momento Lula deflagraria diretamente a campanha do banqueiro a governador de Goiás. Não só. Palavras incautas poderiam derrubar as intranqüilas aplicações financeiras na Bolsa de Valores. Ao mesmo tempo, o petista, ao fazer de Meirelles “seu” candidato, lançando-o, afetaria Iris, ou seja, desaqueceria a quase pré-campanha do peemedebista. O que não interessa a Lula.
Na verdade, Lula prefere mesmo Iris, porque, como se disse, o vê como um homem experiente e corajoso. O político que tem tutano para enfrentar uma fera política. “Iris é o nosso Marconi”, diz um petista, e falando sério. “O homem é uma máquina de fazer política”, acrescenta o petista, que o acompanha, na prefeitura, em várias atividades. No entanto, preferir Iris não significa descartar Meirelles. Porque Lula sabe que Alcides, o político chave para abalar a base de Marconi, não quer apoiar Iris para governador e, por isso, articula Meirelles. Não é, como a visão tradicional sugere, apenas porque as bases não querem uma aliança com Iris. Na verdade, se Iris for eleito governador, o PP não será perseguido — acredita-se, entre os pepistas, que Marconi, se eleito, promoverá uma caça às bruxas muito maior do que entre 1999 e 2000 —, mas não terá o poder. Na hipótese de uma vitória de Meirelles, por mais que monte sua equipe com alguns técnicos de fora, a maioria dos integrantes do primeiro e do segundo escalão sairá do PP e de partidos aliados. O governo seria de Meirelles, mas a máquina permaneceria, de algum modo, com Alcides. Como Alcides fala pouco, as pessoas não percebem o óbvio: ele quer manter o poder, ainda que indiretamente.
Se quisesse barrar Meirelles, se quisesse jogar com apenas um candidato, Lula desautorizaria as ações de Meirelles junto aos escalões superiores do governo. Na articulação para a obtenção do empréstimo de 1,2 bilhão de reais — recursos do BNDES e do Banco do Brasil —, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, conversou, várias vezes, com o secretário da Fazenda, Jorcelino Braga. Por sua larga experiência no mercado financeiro, Meirelles deu informações decisivas de como conduzir o processo. Ao mesmo tempo, por conta de seu prestígio no governo Lula — o presidente gosta de sua discrição, de sua perspectiva não invasiva —, Meirelles contribuiu para abrir espaço junto ao corpo técnico dos bancos que emprestarão o dinheiro para requalificar (mais do que salvar) a Celg. Os técnicos goianos, capitaneados por Jorcelino Braga e pelo presidente da empresa, Carlos Silva, passaram a ter tratamento vip da área técnica dos bancos. Porque, se havia a decisão política de Lula, de que era para liberar o empréstimo, o escalão técnico do setor financeiro do governo relutou, o quanto pôde, a admitir que era possível fazer o acerto. A burocracia é anti-desenvolvimentista por natureza.
O fato é que, numa possível campanha para governador, Meirelles tende a ser apresentado como o tecnopolítico que, teoricamente, contribuiu para equilibrar as finanças da Celg. Pode parecer pouco, mas não é. Porque, no debate político, poderá ser apresentado como aquele que ajudou a “salvar” a empresa que possíveis oponentes “afundaram”.
Para encurtar a história, pelo quadro de hoje, pode-se dizer que Lula quer Iris ou Meirelles na disputa e Alcides quer bancar Meirelles. O problema de Alcides é menos Marconi do que Iris. Porque, numa disputa polarizada, a tendência do eleitor é prestar atenção nos contendores que discutem mais, que se apresentam como as alternativas realmente viáveis, do que no candidato discreto e meramente propositivo. Pesquisas dizem que há espaço para a renovação, para a hegemonia do discurso técnico, mas, nas campanhas, o que galvaniza a opinião pública é muito mais o debate político, com a técnica sendo usada como suporte. Um candidato que não passa alguma emoção, um certo humanismo, pode até ser elogiado por todos, mas o eleitor gosta mesmo é daqueles políticos que, como Marconi e Iris, têm alma. Por enquanto, falta alma a Meirelles. Pego no fogo cruzado, pode ser olimpicamente ofuscado, como foram Barbosa Neto e Demóstenes Torres em 2006, quando a eleição ficou polarizada entre Alcides Rodrigues e Maguito Vilela. Se não quiser se tornar um político quase invisível, Meirelles terá de entrar no jogo, que certamente será duro, implacável.
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