|
 |
| Editorial |
|
| Orgulho e preconceito |
| |
|
A petista Marta Suplicy pode ter enterrado a carreira política ao esquecer sua história de luta contra discriminações e insinuar que o prefeito Gilberto Kassab é homossexual
|
|
Marta Suplicy (PT) e Gilberto Kassab (DEM): tática errada da primeira pode fortalecer ainda mais o segundo
| A psicanalista, sexóloga e política Marta Teresa Smith de Vasconcelos Suplicy, de 63 anos, é uma mulher de fibra e, embora não seja uma intelectual da estatura de Marilena Chauí e Maria Sylvia de Carvalho Franco, escreveu um livro, “Conversando Sobre Sexo”, que se tornou best seller na década de 1980. O objetivo da estudiosa era desmitificar a sexualidade e, na sua forma direta e incisiva, diminuir o poder destruidor dos preconceitos contra homossexuais, por exemplo, e afirmar como ativa a sexualidade feminina. O livro não é profundo, mas cumpre seu papel, sobretudo no esclarecimento de assuntos que, se parecem elementares para algumas pessoas, são verdadeiros tabus para a maioria.
Mais tarde, ao abandonar sua missão pedagógica no campo sexual, chegou a ter programa de televisão de ampla audiência, Marta seguiu os passos do ex-marido, o senador Eduardo Matarazzo Suplicy, na política. Elegeu-se deputada federal, em 1998, e prefeita de São Paulo, em 2000. Em 2001, aos 56 anos, divorciou-se de Eduardo Suplicy, mantendo, porém, o sobrenome, numa espécie de aceitação simbólica do patriarcalismo brasileiro. Era uma pequena revolução, pois no Brasil a praxe é o homem trocar a mulher na faixa de 50 a 60 anos por uma garota de 20 a 30 anos. Marta não apenas deixava Suplicy, um homem respeitado, que, publicamente, admitiu estar arrasado. A então prefeita casou-se com o franco-argentino Luis Favre Warmus, mais novo quatro anos, numa festa em que parecia uma colegial. Era a redescoberta da felicidade, diria Proust. Foi um ato de coragem, pois a tradição mandava que, pela idade e pelo fato de ser política, adotasse uma posição comportada. Certamente foi avisada de que perderia votos. De fato, perdeu a reeleição para o tucano José Serra, em 2004, mas não exatamente por conta de seu comportamento tido como muito avançado.
Marta Suplicy desgastou-se junto ao eleitor paulistano por conta de ouvir pouco e confrontar muito. Não só. Embora não possa ser classificada de política corrupta, seu governo cometeu algumas irregularidades e, sobretudo, não foi criativo. De uma mulher de tamanha energia, de capacidade de enfrentar e derrotar preconceitos, de impor sua idéia de que é possível à mulher buscar a felicidade depois dos 50 anos — e não se contentar com o papel de mãe e avó —, esperava-se muito mais. Entretanto, no poder na maior e mais rica prefeitura do país, a de São Paulo, Marta não demonstrou criatividade e decidiu brigar com a população por conta de desastres provocados pelas chuvas e pela má conservação de ruas e bueiros. Acabou por enterrar-se politicamente, até ser convocada, como compensação, para ser ministra do governo do presidente Lula.
No governo Lula, no Ministério do Turismo, assunto do qual entende tanto quanto de física nuclear, Marta, se não comprometeu em termos administrativos, cometeu o desatino, ao comentar a crise dos aeroportos, de dizer aos desconsolados brasileiros que não havia nada a fazer — exceto “relaxar e gozar”. Falou mais a sexóloga, uma sexóloga de língua destravada, e menos a política. Virou motivo de chacota nacional e tentou se explicar, mas não se justifica o inexplicável. O humor é igual pedra: quando cristaliza é difícil, senão impossível, ser respondido. A revista “Veja”, em tom sempre jocoso, passou a se referir à petista como Marta “Relaxa e Goza” Suplicy. Pode parecer grosseiro, e certamente é, mas usa-se, tão-somente, o que a própria Marta disse. A imprensa não inventou o “orgasmo de aeroporto”.
Entretanto, como tem sete vidas, Marta reagiu e, depois do enfrentamento com um grupo de petistas, que queria alguém mais palatável e que simbolizasse o novo, ganhou o apoio do presidente Lula e lançou-se candidata a prefeita de São Paulo pela terceira vez em oito anos. O tucano Geraldo Alckmin saiu na frente, mas, com aquele jeito de bom-moço, de chuchu pós-Hiroshima, foi atropelado por Marta, ou melhor, pelo prestígio e popularidade do presidente Lula da Silva. Um parêntese: os cientistas políticos se esbaldam, tucanamente, ao dizerem que Lula não transferiu votos em São Paulo. Enganam-se. Transferiu, sim, e muito. O problema é que Marta, e não Lula, não correspondeu. Um candidato pode absorver votos de um apoiador forte, como o presidente, mas tem de fazer a sua parte. Marta, ao falar o que lhe dá na telha, acaba por ver pedaços desta telha cair em sua cabeça e arrancar-lhe votos.
Enquanto Marta não fazia a sua parte, confiando apenas em Lula, o democrata Gilberto Kassab, com aquele ar de bebê johnson e rara capacidade de explicar detalhes técnicos com clareza, fazia a sua. Num certo sentido, a candidatura de Alckmin ajudou Kassab. A argumentação pode parecer estranha, porque não ortodoxa, mas o fato é que, como Alckmin era o candidato do partido do governador José Serra (o melhor articulador de todo o processo eleitoral deste ano), Kassab, embora tivesse o apoio verdadeiro de Serra, pôde firmar-se como candidato de luz própria, não-teleguiado. Com Serra ao lado, mas não integralmente, para não se queimar com o tucanato, Kassab tomou decisões sozinho, ou orientado por outros tucanos leais, e ganhou o apoio da população, quando esta percebeu que tinha chance de ganhar tanto de Alckmin quanto de Marta. Alckmin foi abandonado pelo eleitorado porque este intuiu que não tinha chance de derrotar a petista.
Os institutos de pesquisa erraram em São Paulo, pois Kassab foi para o segundo turno na frente de Marta. Mas não se trata de um erro intencional, da malandragem. Na verdade, Kassab cresceu rapidamente, na reta final, e os institutos perceberam que estava subindo mas não puderem enunciar a força de seu crescimento. A expectativa de poder, que galvaniza indecisos, adeptos do voto útil e mesmo alguns que haviam decidido anular o voto, quando muda de lado ninguém segura.
Na campanha do segundo turno, a Martinha paz e amor do primeiro turno desapareceu. No debate, uma Marta carrancuda, do mal, tentava, a todo momento, dizer que Kassab é mentiroso. Com certa tranqüilidade e ponderação, Kassab se explicava e desmentia a candidata do PT, mas não com o uso da palavra “mentira” e sim com dados e argumentos. Ao ouvir Marta gritar que Kassab mentia, sem apresentar provas contundentes, o eleitor deve ter ficado ainda mais desencantado com a petista. Marta cedeu ao estereótipo da mulher histérica e acabou virando o lobo mau da fábula.
Desespero maior pintou quando Marta decidiu insinuar que Kassab, por não ter filhos nem ser casado — o prefeito garante que há mulheres querendo casar-se com ele, um bom partido —, é homossexual. Pegou mal, não para Kassab, pois, para a maioria da população, a homossexualidade ou não do prefeito não está em jogo, e sim sua gestão, aprovada por mais de 60 por cento dos entrevistados, e suas propostas para o próximo governo. Pegou mal para Marta, por conta de sua trajetória de demolidora de preconceitos. “Orientada” pelos marqueteiros, que teriam dito que sua campanha estava perdida e que a única alternativa é impedir que Kassab discuta apenas questões técnicas, ou seja, é preciso puxá-lo para baixo, para a lama, para tirá-lo do eixo, Marta atacou sua própria história. Não foi apenas um tiro no pé. Foi um tiro na alma. A técnica de minar o indivíduo, com a exploração de questões íntimas, é um trabalho em geral feito com a participação de psicólogos. O dedo de Marta, e não apenas de marqueteiros, parece evidente.
A política ganha quando políticos não-contaminados pela corrupção, pelo baixo nível do é-dando-que-se-recebe, guardam seus preconceitos e ficam calados, mesmo sob risco de perder eleições. A sexualidade de Kassab, que só interessa mesmo a ele, pode ter enterrado a carreira de Marta, a sexóloga-política. A petista deixa patente, é a mensagem não mais subliminar, que — diante do conflito, a reação intempestiva, reforçando preconceitos — todos são iguais. É o novo “relaxa e goza” que o PT vai ter de carregar. Lula não tem mesmo como carregar a “pesada” Marta.
|
|
|
|
|