Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:21)
De: 24 de fevereiro a 01 de março de 2008

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  Editorial
Os cúmplices de Fidel
 

Prisioneiros de consciência encarcerados com presos comuns e torturados diariamente são a prova de que a renúncia de Fidel Castro é uma farsa — Cuba continua sendo uma ilha-cárcere

Reprodução
Fidel Castro: ao contrário do que diz o Granma, órgão oficial do regime, o ditador que diz ter renunciado ao poder não poderá renunciar à condenação da história
Aparentemente, Fidel Castro abdicou do poder em Cuba. Na verdade, o poder abdicou de Fidel Castro. O histórico ditador cubano não renunciou ao governo de Cuba — sua completa incapacidade física é que o enxotou dele. Em sua última entrevista à televisão, pouco antes de Lula visitá-lo e dizer que estava muito bem, o ditador apareceu completamente decrépito, sem conseguir finalizar grande parte dos argumentos esdrúxulos que formulava. Mas, com a saída de Fidel, a ditadura não acaba em Cuba. O país não conhece democracia e, desde que a doença afastou Fidel Castro do comando, o poder foi transferido imediatamente para Raúl Castro, seu irmão, como se o regime fosse uma monarquia. Ainda que haja alguma abertura econômica (e é provável que haja, porque Raúl parece ser mais pragmático do que Fidel), isso não significa abertura política. Basta ver o exemplo da China, em que a abertura do país ao capital estrangeiro não significou mudanças políticas substanciais e a violenta repressão aos críticos do regime comunista continua sendo a norma no país. Mesmo sem Fidel no comando, continuarão existindo as masmorras para crimes de opinião em Cuba.

Enquanto as prisões brasileiras são freqüentemente esquadrinhadas pela ONU, que se mostra muito preocupada com o bem-estar de latrocidas e estupradores, as prisões de Cuba permanecem lacradas para o mundo. Todas as vezes em que observadores da ONU quiseram entrar em Cuba para averiguar o tratamento dispensado aos presos políticos cubanos, o regime de Fidel Castro recusou a entrada deles no país. Ocorre que o tratamento dispensado pelo regime cubano aos prisioneiros políticos nada fica a dever às piores torturas praticadas pelos mais sanguinários regimes de esquerda ou de direita da história. Além de colocar os presos políticos misturados com violentos presos comuns (como a ditadura Vargas fez com o escritor Graciliano Ramos), a ditadura de Fidel Castro é suspeita até mesmo de contaminar presos políticos com doenças graves. Racionar comida e água, perturbar o sono dos presos políticos e misturá-los com pacientes portadores de doenças contagiosas são algumas das estratégias utilizadas pelo governo cubano em seus cárceres.

Outra estratégia usada pelo governo cubano contra seus opositores é a intimidação dos familiares dos presos políticos. Começando pela prática de encarcerar esses presos o mais distante possível de sua cidade de origem. Ou seja, enquanto no Brasil, a esquerda é a principal defensora da tese de que até latrocidas e estupradores devem cumprir pena o mais próximo possível da família, em Cuba, o “paraíso socialista” dessa esquerda, a regra é outra — presos de consciência, cujo único “crime” é criticar o regime, são colocados até 700 quilômetros distantes da família. Além disso, enquanto no Brasil as visitas para presos comuns são dominicais, com duração de oito horas, incluindo as visitas íntimas, em Cuba, os presos políticos só podem ver familiares a cada 30 ou 45 dias, por no máximo duas horas. Sem visita íntima, obviamente.

Mais estarrecedor, entretanto, é a extensão das penas que o regime cubano impõe aos seus opositores. Em março de 2003, Fidel Castro deflagrou uma onda repressiva no país, que ficou conhecida como Primavera Negra ou Primavera de Cuba, numa referência à Primavera de Praga, que fora sufocada 35 anos antes pelos tanques soviéticos. Durante a onda repressiva, Fidel Castro mandou encarcerar 79 dissidentes políticos e condenou 75 deles a penas que chegam a 28 anos de prisão, sob a acusação de terem colaborado com uma suposta desestabilização do país promovida pelos Estados Unidos. Entre os presos há vários jornalistas que — pelo “crime” de terem feito críticas ao regime — foram condenados a 28 anos de prisão. E, em Cuba, ao contrário do Brasil, essas penas costumam ser cumpridas integralmente, salvo num ou noutro caso, quando Fidel Castro resolve libertar um preso político para dar alguma satisfação aos países europeus que o apóiam.

A ferocidade do regime cubano estarreceu o mundo — e até seus aliados, como o escritor José Saramago — quando condenou à morte três homens que seqüestraram uma lancha de passageiros na tentativa de fugir para os Estados Unidos. O caso foi considerado “ato grave de terrorismo” — uma ironia, em se tratando de Cuba, um dos países que mais incentivam o terrorismo internacional, inclusive no Brasil. E o modo como se deu o julgamento revelou ao mundo toda a barbárie do regime cubano. Os homens foram presos no dia 2 de abril de 2003, uma quarta-feira; seis dias depois, foram condenados à morte, num julgamento sumário e, no sábado, dia 12, apenas 10 dias após a prisão, a sentença foi executada e eles foram fuzilados, apesar dos pedidos de clemência de vários países. Ainda que o crime cometido pelos presos fosse merecedor de pena capital, é inadmissível que uma sentença dessa natureza seja proferida em dez dias, sem que os presos tenham direito à defesa e sem que contem com uma Justiça independente para apreciar o caso.

Todavia, Fidel Castro não é culpado sozinho por seus crimes: boa parte do mundo ocidental — inclusive o Brasil — é cúmplice do genocídio que ele pratica contra seu próprio povo. Em que pese ser um ditador tão sanguinário como o foi o chileno Augusto Pinochet, Fidel Castro é tratado como herói pela esmagadora maioria da imprensa mundial. E enquanto Pinochet fez do Chile a nação mais próspera da América Latina, Fidel Castro derramou à toa o sangue dos cubanos — porque Cuba é tão miserável quanto o Haiti. Desde que ficou sem os rublos soviéticos, o país vive literalmente de prostituição — seja a prostituição moral, representada pelos dólares dos exilados que conseguiram vencer os tubarões; seja a prostituição carnal, representada pelas mulheres que servem de repasto aos turistas para alimentar a própria família. Cuba é o maior engodo da história. É a Atlântida socialista — a miragem que a esquerda européia e terceiro-mundista inventou para confrontar os Estados Unidos.



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