Goiânia, 09 de fevereiro de 2010
De: 01 a 07 de novembro de 2009

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MOVIMENTO NEGRO
 

A fabricação do racismo

No livro “Uma Gota de Sangue”, o sociólogo Demétrio Magnoli demonstra que o movimento negro não passa de uma cria artificial e bem paga da Fundação Ford, mas defende — de modo equivocado — que raças não existem

JO­SÉ MA­RIA E SIL­VA - Especial para o Jornal Opção

Edilson Pelikano Jornal Opção
Magnoli: “Movimentos sociais têm um caráter mercenário”
Pu­nhos er­gui­dos, olhos fe­cha­dos, mãos da­das. Na bo­ca, pa­la­vras; nos olhos, es­pe­ran­ça. E a mul­ti­dão de ros­tos ne­gros, sob a re­gên­cia da be­lís­si­ma voz de Jo­seph Sha­ba­la­la, en­toa a co­mo­ven­te can­ção: “Nko­si Sike­lel´ iA­frika (Deus aben­çoe a Áfri­ca) / Ma­lup­hakanyisw´ up­hon­do lwa­yo (Que se exal­te a sua gló­ria) / Yizwa imi­than­da­zo ye­thu (Ou­vi as nos­sas pre­ces) / Nko­si sike­le­la, thi­na lu­sap­ho lwa­yo (Deus nos aben­çoe a nós, seus fi­lhos)”. A lín­gua é o zu­lu. O ano é 1987. O ce­ná­rio é a Áfri­ca do Sul. Dez anos an­tes, o jo­vem lí­der ne­gro Ste­ve Biko ha­via mor­ri­do no chão do hos­pi­tal de uma pri­são. Qua­tro anos de­pois, um ir­mão do pró­prio Sha­ba­la­la tam­bém se­ria ví­ti­ma da lu­ta ra­ci­al. Ain­da fal­ta­vam se­te anos pa­ra que a elei­ção de Nel­son Man­de­la pu­ses­se fim ao apar­theid, por is­so, a can­ção Nko­si Sike­lel´ iA­frika, pa­ra a mul­ti­dão que ali es­ta­va, era mais do que o hi­no do Con­gres­so Na­ci­o­nal Afri­ca­no – era a pre­ce dos ne­gros di­ri­gi­da aos deu­ses, em for­ma de dor e es­pe­ran­ça.

É qua­se im­pos­sí­vel não se co­mo­ver com es­sa can­ção. Nko­si Sike­lel´ iA­frika é pa­ra a Áfri­ca do Sul o que Asa Bran­ca é pa­ra o Nor­des­te. Tal­vez com mais dor. Ela tra­duz a al­ma do po­vo zu­lu e, na­que­le con­cer­to de 22 anos atrás, a can­to­ra Mi­ri­am Make­ba, que o en­to­a­va com Sha­ba­la­la e ou­tros ar­tis­tas, ti­nha ple­na con­sci­ên­cia dis­so. A cir­cun­spec­ta fi­gu­ra de “Mam­ma Áfri­ca” (que mor­re­ria em no­vem­bro do ano pas­sa­do, num pal­co da Itá­lia, aos 76 anos) em na­da lem­bra­va a be­la jo­vem de olhos es­ga­ze­a­dos, que, na dé­ca­da de 70, acom­pa­nha­da por um trio jaz­zís­ti­co, con­tor­cia-se, car­nal, ao som do vi­o­lão de Si­vu­ca. E tan­to na sú­pli­ca, quan­to na las­cí­via, Mi­ri­am Make­ba pa­re­cia nas­cer da ter­ra. Por is­so era cha­ma­da de “Mam­ma Áfri­ca”, ra­i­nha do his­tó­ri­co con­cer­to do Ladysmith Black Mam­ba­zo, em que Jo­seph Sha­ba­la­la, lí­der do gru­po, com a ben­ção do nor­te-ame­ri­ca­no Pa­ul Si­mon, res­ga­ta­va as raí­zes do zu­lu.

No en­tan­to, es­sas raí­zes são frá­geis e, em mui­tos ca­sos, in­ven­ta­das, com­pon­do uma Áfri­ca de car­tão pos­tal, co­mo o Rio das Olim­pía­das, que faz Lu­la cho­rar. É o que nos ga­ran­te o so­ci­ó­lo­go De­mé­trio Mag­no­li. Ele aca­ba de lan­çar o li­vro “Uma Go­ta de San­gue“(Edi­to­ra Con­tex­to, 2009, 400 pá­gi­nas), em que con­ta a his­tó­ria da cons­tru­ção das ra­ças, com­ba­te as ações afir­ma­ti­vas e de­mons­tra que o mo­vi­men­to ne­gro, ao de­fen­der as co­tas ra­ci­ais, ape­nas sub­sti­tui um ra­cis­mo por ou­tro — em vez de bi­o­ló­gi­co, cul­tu­ral. O li­vro é um ins­ti­gan­te pas­seio pe­la his­tó­ria, bi­o­lo­gia, so­ci­o­lo­gia, ge­o­gra­fia, an­tro­po­lo­gia, di­rei­to, ci­ên­cia po­lí­ti­ca e ou­tras dis­ci­pli­nas. Se­di­men­ta­do em da­dos pre­ci­sos e es­cri­to num es­ti­lo flu­en­te, “Uma Go­ta de San­gue” des­toa da glos­so­la­lia de ins­pi­ra­ção fran­ce­sa que re­i­na nas uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras. De­mé­trio Mag­no­li fi­lia-se à cla­re­za da tra­di­ção an­glo-ame­ri­ca­na e é com ba­se ne­la que des­mas­ca­ra o mo­vi­men­to ne­gro no mun­do e no Bra­sil. Pa­ra ele, as co­tas ra­ci­ais ba­sei­am-se num pas­sa­do de fic­ção e, ao de­fen­dê-las, os ne­gros de pas­se­a­ta hi­po­te­cam o fu­tu­ro do pa­ís.

Pol-Pot afri­ca­no — Mag­no­li não tra­ta da can­ção afri­ca­na, mas ela ser­ve pa­ra ilus­trar o quan­to o pas­sa­do de um po­vo é, em lar­ga me­di­da, uma re­cons­tru­ção do seu pre­sen­te, ain­da por ci­ma iman­ta­do pe­lo fu­tu­ro. Nko­si Sike­lel´ iA­frika, ape­sar da un­ção com que os mú­si­cos ne­gros de vá­rios paí­ses da Áfri­ca a in­clu­em em seu re­per­tó­rio, não é uma cri­a­ção au­tóc­to­ne — ela de­ve mui­to aos co­lo­ni­za­do­res bran­cos. A can­ção — que se tor­nou hi­no do Con­gres­so Na­ci­o­nal Afri­ca­no em 1912 e ho­je é o hi­no ofi­ci­al da Áfri­ca do Sul – é um bor­da­do ét­ni­co, com­pos­to em zu­lu, cho­sa, se­so­to, afri­câ­ner e du­as pa­la­vras em in­glês (“South Afri­ca”). A me­lo­dia e os qua­tro ver­sos ini­ci­ais, em zu­lu e cho­sa, fo­ram com­pos­tos em 1897 por Enoch Son­ton­ga (c.1875-c.1902), um na­ti­vo tem­bo. Mas ele nas­ceu, cres­ceu e se for­mou em tor­no de uma mis­são evan­gé­li­ca eu­ro­péia, tor­nan­do-se pro­fes­sor e re­gen­te de co­ro da Igre­ja Me­to­dis­ta até sua mor­te pre­co­ce.

O pró­prio Ladysmith Black Mam­ba­zo, que dis­se­mi­nou a can­ção pe­lo mun­do, é fru­to da im­bri­ca­ção en­tre tra­di­ções na­ti­vas e cul­tu­ra oci­den­tal. Jo­seph Sha­ba­la­la, que fun­dou o gru­po em 1964, nas­ceu nas ter­ras de um pro­pri­e­tá­rio bran­co, fi­cou ór­fão ain­da cri­an­ça e re­sol­veu mi­grar pa­ra a ci­da­de em bus­ca de tra­ba­lho pa­ra aju­dar no sus­ten­to da fa­mí­lia. Co­me­çou a gra­var e fa­zer su­ces­so no pa­ís em 1972, mas nem a pro­je­ção in­ter­na­ci­o­nal com a par­ti­ci­pa­ção do Mam­ba­zo no dis­co Gra­ce­land, de Pa­ul Si­mon, em 1986, li­vrou-o das tra­gé­di­as tí­pi­cas de uma na­ção di­vi­di­da. Em 1991, seu ir­mão He­ad­man Sha­ba­la­la foi mor­to por um se­gu­ran­ça bran­co. Em 2002, sua es­po­sa Nel­lie, 31 anos mais no­va do que ele, foi as­sas­si­na­da num su­pos­to as­sal­to e um dos fi­lhos do can­tor foi con­si­de­ra­do sus­pei­to pe­la po­lí­cia. Em 2006, ou­tro de seus ir­mãos, Ben Sha­ba­la­la, tam­bém foi ba­le­a­do e mor­to.

Quan­do sua es­po­sa e tam­bém can­to­ra foi mor­ta, Jo­seph Sha­ba­la­la te­ve a mão fe­ri­da ao ten­tar de­fen­dê-la. Nos jor­nais da épo­ca, ele apa­re­ceu de re­pen­te en­ve­lhe­ci­do, com a mão en­fai­xa­da, ne­gan­do que o pró­prio fi­lho ti­ves­se pro­ta­go­ni­za­do o as­sas­si­na­to da ma­dras­ta. Nem pa­re­cia o mú­si­co ven­ce­dor de vá­rios Grammy, par­cei­ro de ar­tis­tas de su­ces­so em to­do o mun­do (in­clu­in­do Ma­ria Be­tha­nia) e fi­gu­ra cons­tan­te nos prin­ci­pa­is pal­cos da Eu­ro­pa e da Amé­ri­ca do Nor­te com os be­lís­si­mos ar­ran­jos vo­ca­is que cria e li­de­ra. Es­sa mis­tu­ra de li­ris­mo e bru­ta­li­da­de das gran­des me­tró­po­les sul-afri­ca­nas lem­bra o Rio de Ja­nei­ro, on­de a fa­ma fler­ta com a la­ma e um cra­que in­ter­na­ci­o­nal po­de en­vol­ver-se com um gâng­ster de mor­ro. Em par­te, es­sa tra­gé­dia de lu­xo e mi­sé­ria é fru­to da mis­tu­ra e de seu re­ver­so, a se­gre­ga­ção — que é ra­ci­al, na Áfri­ca do Sul, e eco­nô­mi­ca, no Rio de Ja­nei­ro — ao me­nos, por en­quan­to.

O gru­po Ladysmith Black Mam­ba­zo é re­co­nhe­ci­do co­mo em­bai­xa­dor cul­tu­ral da Áfri­ca do Sul, sen­do con­vi­da­do pe­lo pró­prio Nel­son Man­de­la pa­ra can­tar na ce­ri­mô­nia em que lhe foi en­tre­gue o No­bel da Paz, em 1993. En­tre as tra­di­ções afri­ca­nas que o gru­po le­va pa­ra o mun­do es­tá a me­mó­ria do rei Shaka Zu­lu (c.1778-1828), “ve­ne­ra­do co­mo uma fi­gu­ra sin­gu­lar que fez nas­cer o in­do­má­vel es­pí­ri­to de lu­ta dos zu­lus — o mes­mo es­pí­ri­to que per­mi­tiu aos sul-afri­ca­nos per­se­ve­rar em meio à do­mi­na­ção eu­ro­péia de sua pá­tria por qua­se dois sé­cu­los de apar­theid”. Es­sa ver­são da his­tó­ria con­ta­da pe­lo Mam­ba­zo e re­con­ta­da nu­ma “nar­ra­ti­va de san­gue e hon­ra” (nas pa­la­vras de De­mé­trio Mag­no­li ao se re­fe­rir ao na­ci­o­na­lis­mo ne­gro da eli­te po­lí­ti­ca zu­lu) nas­ce não dos fa­tos, mas da em­ba­la­gem ide­o­ló­gi­ca que os trans­for­ma em ar­ma.

O rei Shaka Zu­lu no­ta­bi­li­zou-se por es­ma­gar tri­bos vi­zi­nhas — ne­gras co­mo a sua pró­pria tri­bo — atra­vés do ter­ror nas guer­ras. Seu cur­to im­pé­rio de 12 anos fez de­le o “Na­po­le­ão Ne­gro” ou o “Áti­la da Áfri­ca”, no di­zer de his­to­ri­a­do­res. O eco­no­mis­ta e psi­ca­na­lis­ta ho­lan­dês Man­fred Kets de Vri­es, es­pe­cia­lis­ta em li­de­ran­ça em­pre­sa­ri­al, co­lo­ca Shaka Zu­lu ao la­do de Pol-Pot, Mao Tsé-Tung e Fi­del Cas­tro e ana­li­sa sua tra­je­tó­ria co­mo pro­tó­ti­po do lí­der to­ta­li­tá­rio. O Im­pé­rio Zu­lu fun­da­do pe­lo ter­ror de Shaka é um exem­plo de que não exis­te a te­lú­ri­ca Áfri­ca an­ces­tral do mo­vi­men­to ne­gro, li­ga­da à pu­re­za da ter­ra e in­fen­sa à ga­nân­cia de po­der. Pe­lo con­trá­rio, o pró­prio trá­fi­co ne­grei­ro pra­ti­ca­do pe­los eu­ro­peus se as­sen­ta­va na es­cra­vi­dão pré-exis­ten­te na Áfri­ca.

Pro­fes­so­res as­sas­si­nos — Em seu li­vro, De­mé­trio Mag­no­li ana­li­sa pas­sa­do e pre­sen­te de mui­tas na­ções afri­ca­nas e des­nu­da a in­trin­ca­da teia que en­vol­ve co­lo­ni­za­do­res e na­ti­vos, ca­paz de en­re­dar o ne­gro em fic­tí­cias iden­ti­da­des ét­ni­cas cri­a­das pe­lo bran­co. Na Áfri­ca do Sul, por exem­plo, as no­ve et­ni­as que emer­gi­ram das leis ra­ci­ais de me­a­dos do sé­cu­lo pas­sa­do eram re­cri­a­ções et­no­ló­gi­cas do im­pé­rio bri­tâ­ni­co: “Os sá­bi­os clas­si­fi­ca­do­res não se en­ver­go­nha­ram se­quer de in­ven­tar a et­nia nde­be­le, mes­mo ´nde­be­le´ sen­do ape­nas um ter­mo da lín­gua sho­to usa­do pa­ra de­sig­nar os zu­lus”. E aí mo­ra o pe­ri­go: “Quan­do um ró­tu­lo ét­ni­co tem po­ten­ci­ais re­per­cus­sões na vi­da prá­ti­ca, as pes­so­as for­jam no­vas iden­ti­da­des ou se­le­ci­o­nam, en­tre mais de uma iden­ti­da­de vi­á­vel, aque­la mais bem adap­ta­da a seus in­te­res­ses”. Co­mo es­tão fa­zen­do os ves­ti­bu­lan­dos bra­si­lei­ros pa­ra se adap­ta­rem aos tri­bu­nais de ra­ça das uni­ver­si­da­des.

Os di­ta­do­res afri­ca­nos e os de­fen­so­res das co­tas ra­ci­ais no Bra­sil têm al­go em co­mum — a rei­vin­di­ca­ção de iden­ti­da­des ét­ni­cas su­pos­ta­men­te an­ces­tra­is, bro­ta­das do so­lo afri­ca­no. “In­vo­ca-se o se­lo de au­ten­ti­ci­da­de ét­ni­co com ba­se em su­pos­tas tra­di­ções pré-co­lo­ni­ais, mas um exa­me des­sas nar­ra­ti­vas evi­den­cia que as ´et­ni­as´ e as ´tri­bos´ em no­me das qua­is fa­lam as li­de­ran­ças po­lí­ti­cas não pas­sam, no mais das ve­zes, de re­fe­rên­cias es­ta­be­le­ci­das jus­ta­men­te pe­las ad­mi­nis­tra­ções co­lo­ni­ais”, sus­ten­ta Mag­no­li. O pró­prio con­cei­to de “ne­gro” — que na lin­gua­gem po­li­ti­ca­men­te cor­re­ta se opõe a “pre­to”, por car­re­gar uma su­pos­ta an­ces­tra­li­da­de afri­ca­na — não pas­sa de in­ven­ção do co­lo­ni­za­dor. Co­mo ob­ser­va Mag­no­li, “nos tem­pos pré-co­lo­ni­ais os afri­ca­nos não eram ´ne­gros´, mas ape­nas in­te­gran­tes de um clã, uma co­mu­ni­da­de, um rei­no; a ra­ça foi im­por­ta­da da Eu­ro­pa e da Amé­ri­ca, co­mo con­cei­to di­fe­ren­cia­dor”. Cons­ta­ta­ção que le­vou o jor­na­lis­ta po­lo­nês Ryszard Ka­pus­cinski, au­tor de “Éba­no”, a di­zer que a Áfri­ca não exis­te. O que va­le tam­bém pa­ra o nos­so ín­dio: uma fic­ção que se de­fi­ne a par­tir de ou­tra — o “bran­co”.

Mes­mo em Ru­an­da, on­de as fron­tei­ras en­tre hu­tus e tut­sis são de­mar­ca­das pe­lo san­gue que jor­ra de cor­pos igual­men­te ne­gros, pi­co­ta­dos a fa­cão, qua­se na­da sus­ten­ta os mi­tos ét­ni­cos que le­vam os dois po­vos ao ge­no­cí­dio re­cí­pro­co. Co­mo in­for­ma Mag­no­li, as di­fe­ren­ças en­tre tut­sis (pro­pri­e­tá­rios de re­ba­nho), hu­tus (cam­po­nes­es) e tu­ás (em­pre­ga­dos do­més­ti­cos) fo­ram in­ten­si­fi­ca­das com a opres­si­va co­lo­ni­za­ção bel­ga, após a Se­gun­da Guer­ra, quan­do a ri­va­li­da­de in­ter­na da Bél­gi­ca en­tre va­lões e fla­men­gos in­ten­si­fi­cou os con­fli­tos na co­lô­nia. O ba­nho de san­gue co­me­çou em 1959, quan­do uma in­sur­rei­ção dos cam­po­nes­es, “des­cri­ta pe­los in­te­lec­tu­ais hu­tus co­mo uma Re­vo­lu­ção Fran­ce­sa na Áfri­ca”, ma­tou de­ze­nas de mi­lha­res de tut­sis e le­vou ou­tros 150 mil a fu­gi­rem do pa­ís, com des­ti­no a Ugan­da.

Divulgação
Livro passa a mensagem de que o sistema de cotas é troca de racismo
E o que é mais gra­ve: o no­vo ge­no­cí­dio de­fla­gra­do pe­lo go­ver­no hu­tu em 1994, res­pon­sá­vel pe­lo mas­sa­cre de cer­ca de 1 mi­lhão de pes­so­as, te­ve ori­gem nas cá­te­dras uni­ver­si­tá­rias, co­mo afir­ma Mi­cha­el Che­ge, do Cen­tro de Es­tu­dos Afri­ca­nos da Uni­ver­si­da­de da Fló­ri­da. No ar­ti­go “Afri­ca´s Mur­de­rous Pro­fes­sors” (“Os Pro­fes­so­res As­sas­si­nos da Áfri­ca), pu­bli­ca­do em 1996, ele sus­ten­ta que o “ca­te­cis­mo da lou­cu­ra” que se aba­teu so­bre Ru­an­da “não era da au­to­ria de al­gum má­gi­co afri­ca­no exal­tan­do a su­pre­ma­cia da ra­ça hu­tu em an­ti­gas guer­ras ´tri­bais´, mas uma re­a­li­za­ção de his­to­ri­a­do­res pro­fis­si­o­nais, jor­na­lis­tas e so­ci­ó­lo­gos ru­an­de­ses”. En­tre es­ses in­te­lec­tu­ais es­ta­vam Fer­di­nand Na­hi­ma­na (dou­tor em his­tó­ria pe­la Uni­ver­si­da­de de Pa­ris, com te­se so­bre as ori­gens do Es­ta­do ru­an­dês), Ca­si­mir Bi­zi­mun­go (mé­di­co com dou­to­ra­do nos Es­ta­dos Uni­dos), o his­to­ri­a­dor Le­on Mu­ge­si­ra e o jor­na­lis­ta e edi­tor Has­san Nge­ze. “To­do o mor­ti­cí­nio em Ru­an­da foi cui­da­do­sa­men­te pla­ne­ja­do por in­te­lec­tu­ais e es­ses in­te­lec­tu­ais pas­sa­ram por es­ta uni­ver­si­da­de”, ad­mi­tiu Em­ma­nu­el Bu­gin­go, o no­vo rei­tor da Uni­ver­si­da­de de Ru­an­da após o ge­no­cí­dio.

Bal­ca­ni­za­ção ar­ti­fi­cial — Ou­tras Ru­an­das po­dem es­tar em ges­ta­ção nas uni­ver­si­da­des do mun­do - in­clu­si­ve nas bra­si­lei­ras. Tal­vez o mai­or mé­ri­to do li­vro de De­mé­trio Mag­no­li se­ja a de­mons­tra­ção de que as es­tri­den­tes mi­no­ri­as con­tem­po­râ­ne­as — com seu en­jo­a­ti­vo dis­cur­so au­to­fla­ge­lan­te — não pas­sam de cri­as bas­tar­das do cru­za­men­to de ONGs com uni­ver­si­da­des, nu­tri­das pe­lo di­nhei­ro far­to da Fun­da­ção Ford. Abo­rí­ge­nes da Aus­trá­lia, tár­ta­ros da Cri­méia, na­ti­vos da Cor­dil­le­ra fi­li­pi­na e até o go­ver­no se­pa­ra­tis­ta da Che­chê­nia, en­tre de­ze­nas de ou­tras mi­no­ri­as, in­te­gram a Or­ga­ni­za­ção das Na­ções e Po­vos Não Re­pre­sen­ta­dos (Un­po), que re­ce­be ge­ne­ro­sas do­a­ções da Uni­ão Eu­ro­péia, de agên­cias pú­bli­cas de Taiwan, Ho­lan­da, Su­í­ça e paí­ses nór­di­cos, da Fun­da­ção Ma­cAr­thur e, so­bre­tu­do, da Fun­da­ção Ford. Ca­da uma des­sas mi­no­ri­as quer cri­ar um re­gi­me de au­to­no­mia re­gi­o­nal em seus res­pec­ti­vos paí­ses. É a bal­ca­ni­za­ção ar­ti­fi­cial do mun­do fi­nan­cia­da pe­las ONGs trans­na­cio­nais — com as bên­çã­os da ONU, a no­va In­ter­na­ci­o­nal Co­mu­nis­ta.

De­mé­trio Mag­no­li é ta­xa­ti­vo ao des­cre­ver es­se fe­nô­me­no: “Di­fe­ren­te­men­te das na­ções, que ema­nam de um pro­ces­so com­ple­xo de fa­bri­ca­ção de uma his­tó­ria, uma li­te­ra­tu­ra e uma ge­o­gra­fia, as ´mi­no­ri­as´ da glo­ba­li­za­ção emer­gem ape­nas de uma pos­tu­la­ção ét­ni­ca su­per­fi­ci­al. Na­ções po­dem até ser in­ter­pre­ta­das co­mo im­pos­tu­ras, mas são im­pos­tu­ras nas qua­is o po­vo acre­di­ta. As ´mi­no­ri­as´, em con­tras­te, são im­pos­tu­ras nas qua­is nem mes­mo os im­pos­to­res acre­di­tam”. Pa­ra Mag­no­li, as eli­tes mul­ti­cul­tu­ra­lis­tas que for­mam es­sas mi­no­ri­as ar­ti­fi­ci­ais “não pre­ci­sam de apoio po­pu­lar, pois a sua le­gi­ti­mi­da­de se con­quis­ta nos sa­lões sun­tu­o­sos das ins­ti­tu­i­ções in­ter­na­cio­nais”. Os “po­vos in­dí­ge­nas” - que Mag­no­li gra­fa en­tre as­pas — são par­te sig­ni­fi­ca­ti­va des­sa far­sa.

Com um pa­tri­mô­nio de 13,7 bi­lhões de dó­la­res, a Fun­da­ção Ford des­ti­nou 280 mi­lhões de dó­la­res, em 2001, pa­ra cri­ar pro­gra­mas de pós-gra­du­a­ção vol­ta­dos pa­ra a for­ma­ção de “li­de­ran­ças emer­gen­tes de co­mu­ni­da­des mar­gi­na­li­za­das fo­ra dos EUA”. Se­gun­do Mag­no­li, “as sub­ven­ções da Fun­da­ção re­pli­ca­ram nas uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras os mo­de­los de es­tu­dos ét­ni­cos e de ´re­la­ções ra­ci­ais´ apli­ca­dos nos EUA e con­so­li­da­ram uma re­de de or­ga­ni­za­ções ra­ci­a­lis­tas que co­me­ça­ram a pro­du­zir os dis­cur­sos e de­man­das dos si­mi­la­res nor­te-ame­ri­ca­nos”. Ho­je, as or­ga­ni­za­ções não go­ver­na­men­tais di­vi­dem com as uni­ver­si­da­des o ou­ro de Ford: elas já fi­cam com 54% das do­a­ções, quan­do na dé­ca­da de 70 fi­ca­vam com 4%. Mas pra­ti­ca­men­te to­das elas têm um gru­po uni­ver­si­tá­rio de pes­qui­sa por trás, o que dá no mes­mo.

Ao fi­nan­ciar uni­ver­si­da­des bra­si­lei­ras, a Fun­da­ção Ford pri­vi­le­giou aque­las que ins­ti­tu­í­ram po­lí­ti­cas de co­tas ra­ci­ais. Va­le a pe­na tran­scre­ver o que diz De­mé­trio Mag­no­li so­bre as do­a­ções fei­tas pe­lo es­cri­tó­rio da Fun­da­ção Ford no Bra­sil, ins­ta­la­do em 1962 no Rio de Ja­nei­ro: “A Uni­ver­si­da­de Es­ta­du­al do Rio de Ja­nei­ro re­ce­beu uma do­a­ção de 1,3 mi­lhão de dó­la­res, que fi­gu­ra na lis­ta das mai­o­res da his­tó­ria do es­cri­tó­rio, em 2001, quan­do im­plan­tou seu pro­gra­ma pi­o­nei­ro de co­tas ra­ci­ais. A Uni­ver­si­da­de de Bra­sí­lia im­plan­tou seu pro­gra­ma em 2004 e nos anos se­guin­tes re­ce­beu su­ces­si­vas do­a­ções. A Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio Gran­de do Sul re­sis­tiu até 2007, quan­do ins­ti­tu­iu co­tas ra­ci­ais e re­ce­beu 130 mil dó­la­res. A Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral de São Car­los, ou­tra ´re­tar­dá­ria´, foi con­tem­pla­da com uma do­a­ção ex­cep­cio­nal de 1,5 mi­lhão de dó­la­res, em 2007, ano em que ade­riu ao sis­te­ma de co­tas”.

Ao lon­go dos úl­ti­mos dez anos, o fi­ló­so­fo Ola­vo de Car­va­lho tem es­cri­to que o mo­vi­men­to so­ci­al e os aca­dê­mi­cos mi­li­tan­tes são fi­nan­cia­dos pe­la Fun­da­ção Ford e or­ga­ni­za­ções do gê­ne­ro, mas os in­te­lec­tu­ais nun­ca de­ram cré­di­to a es­sa in­for­ma­ção, ale­gan­do que o fi­ló­so­fo é um “di­rei­tis­ta”. Ago­ra, quem es­tá mos­tran­do o ca­rá­ter ide­o­ló­gi­co e até mer­ce­ná­rio do mo­vi­men­to so­ci­al e de boa par­te das pes­qui­sas di­tas ci­en­tí­fi­cas é um in­te­lec­tu­al in­te­gra­do ao pró­prio sis­te­ma uni­ver­si­tá­rio. O so­ci­ó­lo­go De­mé­trio Mag­no­li é dou­tor em ge­o­gra­fia hu­ma­na pe­la USP e mem­bro do Gru­po de Aná­li­se de Con­jun­tu­ra In­ter­na­ci­o­nal da mes­ma ins­ti­tu­i­ção. Sua ati­tu­de é de uma ra­ra co­ra­gem pa­ra um aca­dê­mi­co bra­si­lei­ro, o que o co­lo­ca ao la­do do fi­ló­so­fo ga­u­cho De­nis Ler­rer Ro­sen­fi­eld, pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Rio Gran­de do Sul, que tam­bém des­mas­ca­ra mui­tas far­sas aca­dê­mi­cas.

De­mé­trio Mag­no­li faz es­sa de­nún­cia com ba­se em du­as fon­tes in­sus­pei­tas: re­la­tó­rios da Fun­da­ção Ford, in­clu­in­do o li­vro “Os 40 Anos da Fun­da­ção Ford no Bra­sil: Uma Par­ce­ria pa­ra a Mu­dan­ça So­ci­al”, or­ga­ni­za­do por Ni­gel Bro­oke e pu­bli­ca­do em 2002 pe­la pró­pria fun­da­ção em co-edi­ção com a Edi­to­ra da USP; e o li­vro “Foun­da­ti­ons and Pu­blic Po­licy: The Mask of Plu­ra­lism” (Fun­da­ções e Po­lí­ti­cas Pú­bli­cas: A Más­ca­ra do Plu­ra­lis­mo), pu­bli­ca­do em 2003 pe­la ci­en­tis­ta po­lí­ti­ca Jo­an Ro­e­lofs, pro­fes­so­ra emé­ri­ta da Uni­ver­si­da­de do Ke­e­ne, nos Es­ta­dos Uni­dos, e mar­xis­ta, além de ter si­do mi­li­tan­te de uma ONG al­ter­na­ti­va. Jo­an Ro­e­lofs ana­li­sa no mun­do o que Ni­gel Bro­oke con­fir­ma no Bra­sil: de 1962 a 2001, a Fun­da­ção Ford in­ves­tiu no pa­ís 347 mi­lhões de dó­la­res, em va­lo­res cor­ri­gi­dos pe­la in­fla­ção. In­dí­ge­nas, ne­gros e ou­tras mi­no­ri­as ar­ti­fi­cial­men­te cri­a­das por mi­li­tan­tes tra­ves­ti­dos de ci­en­tis­tas so­ci­ais fo­ram os prin­ci­pa­is be­ne­fi­ciá­rios des­ses re­cur­sos.

Ata­que aos mes­ti­ços —”Uma Go­ta de San­gue” mos­tra que o mul­ti­cul­tu­ra­lis­mo atua em du­as fren­tes: uma te­ó­ri­ca, den­tro da aca­de­mia, e ou­tra prá­ti­ca, atra­vés do ati­vis­mo so­ci­al. Foi as­sim em pra­ti­ca­men­te to­dos os paí­ses que ado­ta­ram ações afir­ma­ti­vas e no Bra­sil não é di­fe­ren­te. O mar­co da lu­ta te­ó­ri­ca no pa­ís é a te­se de cá­te­dra do so­ci­ó­lo­go Flo­res­tan Fer­nan­des, A In­te­gra­ção do Ne­gro na So­ci­e­da­de de Clas­ses, de­fen­di­da em 1964 na USP. De­mé­trio Mag­no­li ad­mi­te que “a pu­bli­ca­ção da obra de Flo­res­tan inau­gu­rou uma eta­pa de re­vi­são ide­o­ló­gi­ca im­pla­cá­vel de Ca­sa Gran­de & Sen­za­la”, a clás­si­ca obra de Gil­ber­to Freyre, pu­bli­ca­da em 1933 e res­pon­sá­vel por va­lo­ri­zar a mis­ci­ge­na­ção ocor­ri­da na so­ci­e­da­de bra­si­lei­ra, con­so­li­dan­do-a num ar­ca­bou­ço te­ó­ri­co pro­fun­do, já que, em si, a te­se de Freyre não era ra­di­cal­men­te no­va e es­ta­va pre­sen­te, por exem­plo, no pró­prio es­pí­ri­to da Se­ma­na de Ar­te Mo­der­na de 1922.

A pró­pria Unes­co, quan­do fi­nan­ciou o es­tu­do de Flo­res­tan Fer­nan­des so­bre os ne­gros, ti­nha o ob­je­ti­vo de com­pre­en­der a “har­mo­nia que exis­te no Bra­sil” en­tre as ra­ças, sem ima­gi­nar que o ti­ro sai­ria pe­la cu­la­tra, pois o pa­tri­ar­ca da so­ci­o­lo­gia us­pi­a­na, com o olho en­vi­e­sa­do pe­lo mar­xis­mo, con­so­li­dou o ca­mi­nho pa­ra a fa­bri­ca­ção do ra­cis­mo no pa­ís, atra­vés da im­por­ta­ção pa­ra o Bra­sil do ce­ná­rio ra­ci­al dos Es­ta­dos Uni­dos. Flo­res­tan Fer­nan­des re­for­çou o “pu­lo do ga­to” que já ti­nha si­do da­do dez anos an­tes por Oracy No­guei­ra, alu­no do bra­si­lia­nis­ta Do­nald Pi­er­son e fi­li­a­do ao Par­ti­do Co­mu­nis­ta, que, em 1954, dis­tin­guiu o ra­cis­mo nor­te-ame­ri­ca­no, cal­ca­do na “ori­gem”, e o su­pos­to ra­cis­mo bra­si­lei­ro, ba­se­a­do na “apa­rên­cia”. “O con­tras­te en­tre os dois paí­ses era ób­vio de­mais pa­ra ser ig­no­ra­do, mas os so­ci­ó­lo­gos do pós-guer­ra es­ta­vam pro­pen­sos a bom­bar­de­ar Freyre e a mes­ti­ça­gem que lhes pa­re­ci­am uma or­dem so­ci­al in­jus­ta. A ofen­si­va se deu por meio da im­por­ta­ção das ca­te­go­ri­as bi­po­la­res nor­te-ame­ri­ca­nas [bran­co e ne­gro]”, afir­ma Mag­no­li.

O so­ci­ó­lo­go e ex-pre­si­den­te Fer­nan­do Hen­ri­que Car­do­so da­ria con­ti­nui­da­de a es­sa ten­dên­cia com a pu­bli­ca­ção, em 1962, dos es­tu­dos “Cor e Mo­bi­li­da­de So­ci­al em Flo­ri­a­nó­po­lis e Ca­pi­ta­lis­mo e Es­cra­vi­dão no Bra­sil Me­ri­dio­nal”, cri­ti­ca­dos com mui­ta pro­pri­e­da­de pe­lo so­ci­ó­lo­go e jor­na­lis­ta Ali Ka­mel, di­re­tor de jor­na­lis­mo da TV Glo­bo, no li­vro “Não So­mos Ra­cis­tas”. To­da es­sa pro­du­ção mar­xis­ta so­bre os ne­gros, ca­pi­ta­ne­a­da pe­la USP, se­ria aben­ço­a­da pe­lo bra­si­lia­nis­ta Tho­mas Skid­mo­re, au­tor de “Pre­to no Bran­co”, pu­bli­ca­do em 1976, e crí­ti­co vis­ce­ral de Gil­ber­to Freyre. “Os bra­si­lia­nis­tas de me­a­dos do sé­cu­lo XX ins­pi­ra­vam-se no Bra­sil pa­ra ata­car a se­gre­ga­ção ra­ci­al nos EUA. Skid­mo­re ins­pi­rou-se nos EUA pa­ra ata­car, com uma mis­tu­ra de vi­ru­lên­cia e de­sin­for­ma­ção, a iden­ti­da­de na­ci­o­nal bra­si­lei­ra”, cri­ti­ca De­mé­trio Mag­no­li, com uma fran­que­za inu­si­ta­da nos mei­os aca­dê­mi­cos bra­si­lei­ros.

Es­se ra­cis­mo à bra­si­lei­ra — fa­bri­ca­do pe­las uni­ver­si­da­des — aca­bou re­per­cu­tin­do nas leis. O es­for­ço pa­ra di­vi­dir le­gal­men­te o pa­ís en­tre bran­cos e ne­gros, ne­gan­do o as­pec­to po­si­ti­vo da mis­ci­ge­na­ção, foi da­do em 13 de maio de 1996, com o Pro­gra­ma Na­ci­o­nal de Di­rei­tos Hu­ma­nos, de Fer­nan­do Hen­ri­que Car­do­so. En­tre os ob­je­ti­vos do pro­gra­ma cons­ta­va: “De­ter­mi­nar ao IB­GE a ado­ção do cri­té­rio de se con­si­de­rar os mu­la­tos, os par­dos e os pre­tos co­mo in­te­gran­te do con­tin­gen­te da po­pu­la­ção ne­gra”. Pa­ra Mag­no­li, “o so­ci­ó­lo­go fei­to pre­si­den­te, usan­do al­go me­nos que um de­cre­to, as­si­na­va o ter­mo de exe­cu­ção sim­bó­li­ca de Gil­ber­to Freyre”. Se­gun­do ele, en­tre os go­ver­nos FHC e Lu­la “há con­ti­nui­da­de e rup­tu­ra no te­ma das po­lí­ti­cas ra­ci­ais”. Lu­la con­ti­nuou o tom mul­ti­cul­tu­ra­lis­ta de seu an­te­ces­sor, mas rom­peu a mo­de­ra­ção prá­ti­ca, dan­do mais au­to­no­mia às or­ga­ni­za­ções ra­ci­a­lis­tas den­tro do apa­re­lho de Es­ta­do.

Com a cri­a­ção da Se­cre­ta­ria de Pro­mo­ção da Igual­da­de Ra­ci­al, o go­ver­no Lu­la im­plan­tou uma sé­rie de po­lí­ti­cas ra­ci­a­lis­tas, co­mo a “clas­si­fi­ca­ção ra­ci­al com­pul­só­ria dos es­tu­dan­tes em to­dos os ní­veis” e a cri­a­ção do Pro­gra­ma de Sa­ú­de da Po­pu­la­ção Ne­gra, que, pa­ra Mag­no­li, “tem vas­tas re­per­cus­sões iden­ti­tá­ri­as”. Es­sas po­lí­ti­cas fo­ram sin­te­ti­za­das no Es­ta­tu­to da Igual­da­de Ra­ci­al, pro­pos­to pe­lo se­na­dor Pau­lo Paim, do PT do Rio Gran­de do Sul. Se­gun­do Mag­no­li, a pre­tex­to de pro­mo­ver o ne­gro, o Es­ta­tu­to su­pri­me a igual­da­de e a ci­da­da­nia de to­dos: “Co­mo na Ru­an­da dos bel­gas ou na Áfri­ca do Sul do apar­theid, os bra­si­lei­ros pas­sa­ri­am a por­tar um ró­tu­lo ofi­ci­al de ra­ça”. O ver­bo es­tá no con­di­cio­nal por­que, quan­do Mag­no­li con­clu­iu o li­vro, em me­a­dos des­te ano, o Es­ta­tu­to da Igual­da­de Ra­ci­al ain­da es­ta­va pa­ra­do na Câ­ma­ra, bar­ra­do pe­la ban­ca­da ru­ra­lis­ta, mas, em 8 de se­tem­bro úl­ti­mo, ele foi apro­va­do e vol­tou pa­ra o Se­na­do, que de­ve apro­vá-lo, cre­man­do o que so­brou de Gil­ber­to Freyre – sim­bo­li­ca­men­te exe­cu­ta­do por Fer­nan­do Hen­ri­que e es­quar­te­ja­do por Lu­la.

As con­se­qüên­cias des­sa po­lí­ti­ca de Es­ta­do vol­ta­da pa­ra a ra­ci­a­li­za­ção com­pul­só­ria do Bra­sil são im­pre­vi­sí­veis. A mis­ci­ge­na­ção en­tre bran­cos e ne­gros é um fa­to que des­men­te a te­se de que no Bra­sil exis­te um ra­cis­mo igual ou pi­or do que o que hou­ve nos Es­ta­dos Uni­dos. O ob­je­ti­vo das po­lí­ti­cas de co­tas é cri­ar o ódio ra­ci­al no Bra­sil — des­co­nhe­ci­do até mes­mo no tem­po da es­cra­vi­dão. Tan­to que, em 1849, o na­tu­ra­lis­ta ale­mão Karl Fri­e­drich Von Mar­ti­us de­fen­dia que o Bra­sil se ori­gi­nou da “mes­cla de três ra­ças”, que ele cha­mou de “con­flu­ên­cia de três rios, que sim­bo­li­za­ri­am as ra­ças bran­ca, ne­gra e in­dí­ge­na”. Mas os arau­tos do mul­ti­cul­tu­ra­lis­mo, co­mo ob­ser­va Mag­no­li, “es­tão di­zen­do que o Bra­sil fra­cas­sou co­mo na­ção e de­ve co­me­çar de no­vo”, pois, pa­ra eles, “a mes­ti­ça­gem é uma men­ti­ra abo­mi­ná­vel” so­bre a qual o pa­ís se er­gueu.

Dog­ma do DNA — In­sur­gin­do-se con­tra es­sa pre­ga­ção ra­ci­a­lis­ta, De­mé­trio Mag­no­li en­cer­ra seu li­vro afir­man­do que “há al­go de mui­to po­si­ti­vo, pa­ra to­da a hu­ma­ni­da­de, no pro­je­to na­ci­o­nal do Bra­sil” e, re­to­man­do a me­tá­fo­ra de Von Mar­ti­us, con­clui: “Nós ima­gi­na­mos que as águas po­dem e — e de­vem! — se mis­tu­rar. Que a úni­ca ra­ça im­por­tan­te é a ra­ça hu­ma­na”. Es­sa afir­ma­ção do au­tor é fei­ta com ba­se nos úl­ti­mos acha­dos da ge­né­ti­ca que con­tes­tam a exis­tên­cia de ra­ças. Mag­no­li lem­bra que, no ano 2000, os ge­ne­ti­cis­tas Fran­cis Col­lins e Cra­ig Ven­ter, li­de­res do pro­je­to de ma­pe­a­men­to do ge­no­ma hu­ma­no, de­cla­ra­ram con­jun­ta­men­te que “nós to­dos so­mos 99,9% ge­ne­ti­ca­men­te igua­is, in­de­pen­den­te de ra­ças”. Pa­ra in­te­lec­tu­ais co­mo De­mé­trio Mag­no­li, es­sa cons­ta­ta­ção com­pro­va que não exis­tem ra­ças, lo­go, não po­de ha­ver co­tas ra­ci­ais.

Ao pen­sar as­sim, Mag­no­li, sem per­ce­ber, fler­ta com o ra­cis­mo ci­en­tí­fi­co do sé­cu­lo XIX, que ele tan­to con­de­na. An­co­rar-se na igual­da­de bi­o­ló­gi­ca su­pos­ta­men­te di­ta­da pe­lo DNA pa­ra com­ba­ter o ra­cis­mo é tão pe­ri­go­so quan­to nu­trir-se da fa­la­cio­sa an­ces­tra­li­da­de ét­ni­ca que, a pre­tex­to de pro­te­ger as mi­no­ri­as, des­trói a pró­pria igual­da­de hu­ma­na. Não exis­te a cer­te­za bi­o­ló­gi­ca de que não há as ra­ças (até por­que uma ver­da­dei­ra ci­ên­cia só tem cer­te­zas pro­vi­só­rias) — o que há é a pro­i­bi­ção de se to­car no as­sun­to. Di­ver­sos ci­en­tis­tas de pe­so con­ti­nuam acre­di­tan­do em ra­ças e até mes­mo em di­fe­ren­ças en­tre elas. Mas es­sa vi­são po­de cus­tar o em­pre­go do ci­en­tis­ta, co­mo afir­mou o so­ci­ó­lo­go nor­te-ame­ri­ca­no Char­les Mur­ray, au­tor do li­vro “The Bell Cur­ve” (“A Cur­va do Si­no”) em par­ce­ria com o psi­có­lo­go Ri­chard Hernstein (1930-1994), nu­ma en­tre­vis­ta à “Fo­lha de S. Pau­lo”, em 5 de no­vem­bro de 2007, a pro­pó­si­to de uma po­lê­mi­ca de­cla­ra­ção de Ja­mes Wat­son (Prê­mio No­bel de 1979 e um dos des­co­bri­do­res do DNA) a res­pei­to da in­te­li­gên­cia dos ne­gros, que, se­gun­do ele, se­ria me­nor que a dos bran­cos.

Mag­no­li es­tá con­vic­to de que a ge­né­ti­ca de­mons­trou “a na­tu­re­za li­te­ral­men­te su­per­fi­ci­al das di­fe­ren­ças en­tre as cha­ma­das ra­ças”. Ora, a di­fe­ren­ça ge­né­ti­ca en­tre ho­mem e mu­lher tam­bém é su­per­fi­ci­al, en­tão, por que não ne­gar­mos o se­xo bi­o­ló­gi­co, co­mo quer o mo­vi­men­to gay, ins­tau­ran­do o Es­ta­tu­to da Igual­da­de de Gê­ne­ros, que trans­for­ma­ria tran­se­xu­ais de to­da or­dem nu­ma ca­te­go­ria tão con­cre­ta quan­to “ho­mem” e “mu­lher”? Os ob­ste­tras, no ato do par­to, se­ri­am pro­i­bi­dos de di­zer à mãe: “É me­ni­no” ou “É me­ni­na”. Te­ri­am que di­zer: “Seu fi­lho é ge­ni­tal­men­te mas­cu­li­no, mas ain­da não sa­be­mos qual se­rá a sua ori­en­ta­ção de gê­ne­ro”. Pa­re­ce pia­da, mas não é. Na prá­ti­ca, é o que já co­me­ça a ocor­rer, pois as es­co­las pú­bli­cas de to­do o pa­ís es­tão sen­do obri­ga­das a per­mi­tir que tra­ves­tis usem o ba­nhei­ro fe­mi­ni­no, ca­so quei­ram, ain­da que uma me­ni­na de 11 anos ve­nha a se as­sus­tar com o pê­nis avan­ta­ja­do da­que­la su­pos­ta mo­ci­nha de 16 anos que se des­pe di­an­te de­la no ba­nhei­ro es­co­lar fre­qüen­ta­do por pré-ado­les­cen­tes e ado­les­cen­tes de vá­ri­as ida­des.

Mas o pe­ri­go de fa­zer do DNA a pa­la­vra fi­nal so­bre ra­ças vai mui­to além. Se não po­de­mos fa­lar de ra­ças por­que as di­fe­ren­ças ge­né­ti­cas en­tre elas não pas­sam de 6%, co­mo lem­bra Mag­no­li, lo­go não po­de­re­mos fa­lar de “homens” em re­la­ção a “ani­mais”, pois a si­mi­la­ri­da­de ge­né­ti­ca en­tre ho­mens e chim­pan­zés che­ga a 99,4%. Sem dú­vi­da, a ge­né­ti­ca vem em­ba­ra­lhan­do não só as fron­tei­ras en­tre as ra­ças, mas até mes­mo en­tre as es­pé­ci­es. Em 1999, o po­lê­mi­co ge­ne­ti­cis­ta ita­li­a­no Se­ve­ri­no An­ti­no­ri fe­cun­dou es­per­ma de qua­tro ho­mens es­té­reis em tes­tí­cu­los de ra­to, ge­ran­do qua­tro cri­an­ças. E, em 2002, ci­en­tis­tas da Uni­ver­si­da­de da Pen­sil­vâ­nia, nos Es­ta­dos Uni­dos, con­se­gui­ram fa­zer com que tes­tí­cu­los de ra­tos pro­du­zis­sem es­per­ma fun­cio­nal de por­cos e bo­des.

Co­mo a di­fe­ren­ça en­tre o ma­te­ri­al ge­né­ti­co de ho­mens, ra­tos e ma­ca­cos é des­pre­zí­vel, le­var em con­ta ape­nas o DNA é abrir ca­mi­nho pa­ra que a ci­ên­cia rei­vin­di­que o ho­mem co­mo co­baia. O pre­me­di­ta­do as­sas­si­na­to de Terry Schi­a­vo é um pre­nún­cio des­se som­brio “ad­mi­rá­vel mun­do no­vo” que a ci­ên­cia nos re­ser­va, co­mo pro­fe­ti­zou Al­dous Hux­ley. Se a cul­tu­ra, in­ter­pre­tan­do mal a bi­o­lo­gia, le­va à se­gre­ga­ção ra­ci­al, a bi­o­lo­gia, des­pre­zan­do com­ple­ta­men­te a cul­tu­ra, le­va a ex­pe­ri­men­tos ma­ca­bros. No fun­do, a al­ter­na­ti­va que nos pro­põe Mag­no­li é en­tre Go­bi­ne­au e Men­ge­le. Ou se­ja, se des­pre­zar­mos com­ple­ta­men­te a cul­tu­ra, que — com ba­se em di­fe­ren­ças bi­o­ló­gi­cas — cri­ou as ra­ças, o re­sul­ta­do não se­rá uma hu­ma­ni­da­de mais igual e, sim, uma hu­ma­ni­da­de nu­la.

O outro lado do AfroReggae

“As pes­qui­sas in­di­cam que a per­se­gui­ção ra­ci­al no Bra­sil é per­ce­bi­da co­mo um fe­nô­me­no bas­tan­te mi­no­ri­tá­rio, ain­da que al­gu­mas de su­as ma­ni­fes­ta­ções se­jam in­ten­sas. O exem­plo no­tó­rio de uma des­sas ma­ni­fes­ta­ções é a se­le­ção, por agen­tes po­li­ci­ais, de jo­vens de pe­le mais es­cu­ra co­mo sus­pei­tos pré­vi­os de atos ilí­ci­tos.” Es­sa afir­ma­ção é de De­mé­trio Mag­no­li no mo­men­to mais in­fe­liz das 400 pá­gi­nas de “Uma Go­ta de San­gue”. Era de se es­pe­rar que um au­tor tão pre­pa­ra­do não re­pe­tis­se es­se pre­con­cei­to ta­ca­nho con­tra os po­li­ci­ais, acu­san­do-os ex­pli­ci­ta­men­te de “per­se­gui­ção ra­ci­al”. Por aca­so, nos­sa po­lí­cia é cons­ti­tu­í­da de gen­dar­mes teu­tô­ni­cos que fa­zem do ne­gro o seu ju­deu pre­di­le­to?

Co­mo o pró­prio Mag­no­li não se can­sa de di­zer em seu li­vro, o Bra­sil é par­do. Ora, po­li­ci­ais e ban­di­dos tam­bém são par­dos – e há mui­tos pre­tos en­tre eles, pois tam­bém são po­bres. Es­sa idéia de que a po­lí­cia é ra­cis­ta e per­se­gue os ne­gros de­via acar­re­tar pro­ces­sos por ca­lú­nia e di­fa­ma­ção con­tra os in­te­lec­tu­ais uni­ver­si­tá­rios. Quem sa­be as­sim eles não ab­di­cas­sem de sua em­pá­fia e ten­tas­sem com­pre­en­der me­lhor a psi­co­lo­gia de um po­li­ci­al, que — pa­ra ga­ran­tir a nos­sa tran­qüi­li­da­de — é obri­ga­do a vi­ver en­tre lo­bos.

Ima­gi­nar que um po­li­ci­al es­co­lhe sus­pei­tos pe­la cor é pri­mi­ti­vis­mo men­tal de quem não co­nhe­ce o di­na­mis­mo da vi­da. Na ca­be­ça de in­te­lec­tu­al bra­si­lei­ro, po­li­ci­al é me­nos do que ver­me. A so­ci­ó­lo­ga Áu­rea Gui­ma­rã­es, dou­to­ra pe­la Uni­camp, con­ver­san­do com um po­li­ci­al da es­co­la que lhe ser­viu de ob­je­to de pes­qui­sa, fi­cou es­pan­ta­da ao ver que ele “con­se­guiu per­ce­ber que ha­vi­am di­fe­ren­ças não só en­tre as pes­so­as mas en­tre as es­co­las”. Ora, se até os cã­es per­ce­bem di­fe­ren­ça en­tre as pes­so­as, por que a dou­to­ra da Uni­camp achou que um po­li­ci­al não fos­se ca­paz de per­ce­bê-las?

Mas De­me­trio Mag­no­li não é me­nos de­pre­cia­ti­vo em re­la­ção à po­lí­cia. A sua acu­sa­ção de que os po­li­ci­ais per­se­guem os ne­gros im­pli­ca em con­si­de­rar du­as hi­pó­tes­es: ou os po­li­ci­ais são con­sci­en­te­men­te ra­cis­tas ou eles agem ex­clu­si­va­men­te por ins­tin­to. A pri­mei­ra hi­pó­te­se é o pró­prio Mag­no­li quem a des­car­ta, uma vez que ele não re­co­nhe­ce ra­cis­mo no Bra­sil e os po­li­ci­ais são bra­si­lei­ros, não são ETs. Res­ta a se­gun­da hi­pó­te­se e, nes­se ca­so, De­mé­trio Mag­no­li se com­por­ta co­mo Áu­rea Gui­ma­rã­es, ou se­ja, não con­se­gue ver no po­li­ci­al mais do que um cão es­tru­ma­do pe­lo sol­do que re­ce­be.

Não pas­sa pe­la ca­be­ça da eli­te uni­ver­si­tá­ria que o tra­ba­lho da po­lí­cia é mui­to mais di­nâ­mi­co do que sua bu­ro­crá­ti­ca ati­vi­da­de aca­dê­mi­ca e que um po­li­ci­al, em sua ron­da no­tur­na, ele­ge o sus­pei­to não por con­ta de um úni­co fa­tor, mas com ba­se nu­ma sé­rie de fa­to­res, no mais das ve­zes, cor­re­tos. A sus­pei­ção não es­tá na cor, mas no olhar, nos ges­tos, na lin­gua­gem, no an­da­do, nas com­pa­nhi­as, no lo­cal, no ho­rá­rio, en­fim, num con­jun­to de si­nais que o po­li­ci­al ex­pe­ri­en­te sa­be per­ce­ber e ana­li­sar com mais ar­gú­cia do que a de mui­tos se­mi­ó­ti­cos das uni­ver­si­da­des.

Sem con­tar que a po­lí­cia acom­pa­nha a so­ci­e­da­de e o que on­tem era fa­tor de sus­pei­ção ho­je não é mais. Na mi­nha in­fân­cia, to­do e qual­quer ca­re­ca, se não fos­se ves­ti­bu­lan­do ou re­cru­ta, ten­dia a ser egres­so da ca­deia, e a po­lí­cia — cum­prin­do seu de­ver — tra­ta­va-o co­mo sus­pei­to. A mes­ma coi­sa ocor­ria com os ta­tu­a­dos. Ho­je, ta­tu­a­gem e ca­be­ça ras­pa­da — dois bár­ba­ros cos­tu­mes que nas­ce­ram nas pe­ni­ten­ci­á­rias — ga­nha­ram a ca­be­ça da po­pu­la­ção e a po­lí­cia, ob­via­men­te, já não sai re­vis­tan­do to­do ta­tu­a­do e ca­re­ca.

A acu­sa­ção le­vi­a­na de que a po­lí­cia é ra­cis­ta tor­na os in­te­lec­tu­ais uni­ver­si­tá­rios ain­da mais res­pon­sá­veis pe­la tra­gé­dia do Rio de Ja­nei­ro, que não de­cor­re da fal­ta de Es­ta­do nas fa­ve­las, co­mo di­zem os aca­dê­mi­cos, mas da fal­ta de leis nas pe­ni­ten­ci­á­rias. O po­der de fo­go do trá­fi­co só é pos­sí­vel por­que os pró­prios pre­sos con­tro­lam to­das as pe­ni­ten­ci­á­rias do pa­ís. Ne­las, sim, o Es­ta­do não en­tra. A par­tir das ca­dei­as, in­clu­si­ve as de se­gu­ran­ça má­xi­ma, os pre­sos de­fla­gram as mais va­ri­a­das ações cri­mi­no­sas, des­de as­sas­si­na­tos por en­co­men­da até a pros­ti­tu­i­ção de me­ni­nas, pas­san­do por guer­ras ur­ba­nas co­mo a do Rio de Ja­nei­ro, cu­ja to­po­gra­fia pe­cu­li­ar aju­da su­as ope­ra­ções.

A le­ni­ên­cia do Es­ta­do com os ban­di­dos foi re­for­ça­da pe­lo mi­to cri­a­do nas aca­de­mi­as de que a po­lí­cia per­se­gue os mais es­cu­ros. Gran­de par­te das be­nes­ses con­ce­di­das pe­lo Es­ta­do aos pre­si­di­á­rios de­cor­re da te­se de que eles fo­ram pre­sos por se­rem ne­gros e po­bres. No Rio de Ja­nei­ro, há to­da uma cul­tu­ra que re­for­ça es­se mi­to. Pro­va dis­so é que o aba­te do he­li­cóp­te­ro pe­los ban­di­dos foi fa­cil­men­te eclip­sa­do pe­la mor­te de Evan­dro Jo­ão da Sil­va, o lí­der do Afro­Reg­gae. An­tes mes­mo de qual­quer in­ves­ti­ga­ção, já se ti­nha o cul­pa­do por es­sa mor­te — a po­lí­cia. Ali­ás, se há um sus­pei­to de to­dos os cri­mes no Bra­sil, in­clu­si­ve da­que­les cri­mes que não co­me­te, es­se sus­pei­to cha­ma-se “po­lí­cia”.

Di­an­te de qual­quer ca­dá­ver, o in­ves­ti­ga­dor de­ve fa­zer a per­gun­ta bá­si­ca: “A quem in­te­res­sa o cri­me?” No ca­so de Evan­dro Jo­ão da Sil­va, a res­pos­ta é ób­via: sua mor­te in­te­res­sa aos ban­di­dos. Jus­ta­men­te quan­do a ação mais ci­ne­ma­to­grá­fi­ca dos tra­fi­can­tes ame­a­ça­va re­ver­ter-se con­tra eles (uma vez que a que­da do he­li­cóp­te­ro po­de­ria le­var a na­ção a exi­gir uma re­pre­sá­lia à al­tu­ra), o lí­der do Afro-Reg­gae foi mor­to com a su­pos­ta cum­pli­ci­da­de de po­li­ci­ais, que, an­tes de qual­quer in­ves­ti­ga­ção, fo­ram tra­ta­dos pe­lo pró­prio go­ver­na­dor Sér­gio Ca­bral co­mo cúm­pli­ces do as­sas­si­na­to.

O mor­to era ami­go da ban­di­da­gem dos mor­ros, pro­va dis­so é que an­da­va so­zi­nho, al­tas ho­ras da ma­dru­ga­da, em ple­na guer­ra do trá­fi­co. De­ve ter re­a­gi­do por achar im­pen­sá­vel ser mor­to por pes­so­as que pro­va­vel­men­te o co­nhe­ci­am. (Ali­ás, a im­pren­sa, que con­de­na apres­sa­da­men­te a re­a­ção de qual­quer ví­ti­ma, não con­de­nou a de­le.) Qual­quer po­lí­cia do mun­do, na pri­mei­ra en­tre­vis­ta à im­pren­sa so­bre o ca­so, aven­ta­ria a hi­pó­te­se de que o cri­me po­de ter si­do en­co­men­da­do pe­los che­fões do trá­fi­co pa­ra acu­ar a po­lí­cia. Mes­mo se fi­cas­se com­pro­va­da a par­ti­ci­pa­ção dos po­li­ci­ais, es­sa hi­pó­te­se não po­de­ria ser des­car­ta­da, uma vez que tam­bém há po­li­ci­ais na fo­lha de pa­ga­men­to dos tra­fi­can­tes.

Mas o que não po­de­ria ocor­rer aca­bou ocor­ren­do — o cri­me dos ban­di­dos con­tra a po­pu­la­ção do Rio foi to­tal­men­te eclip­sa­do pe­lo cri­me dos po­li­ci­ais. E nem há cer­te­za de que eles re­al­men­te co­me­te­ram o cri­me de omis­são de so­cor­ro de que es­tão sen­do acu­sa­dos. Eles po­dem não ter vis­to mes­mo o cor­po ago­ni­zan­te de Evan­dro ou po­dem tê-lo con­fun­di­do com um mo­ra­dor de rua bê­ba­do. Tal­vez os po­li­ci­ais es­te­jam fa­lan­do par­ci­al­men­te a ver­da­de, omi­tin­do ape­nas o fa­to de que rou­ba­ram os ban­di­dos. Mas es­se é um cri­me qua­se nor­mal, le­van­do em con­ta que o Rio é uma ter­ra sem lei, on­de po­li­ci­al bom é po­li­ci­al mor­to.

Se­não ve­ja­mos. Em 7 de maio de 2006, a “Fo­lha de S. Pau­lo” pu­bli­cou re­por­ta­gem so­bre a vi­si­ta que 21 mem­bros do Co­mi­tê de Jo­vens Em­pre­en­de­do­res da Fi­esp fi­ze­ram a fa­ve­las do Rio. A con­vi­te de Jo­sé Jú­ni­or, lí­der do Afro­Reg­gae, eles vi­si­ta­ram al­guns dos fa­mo­sos re­du­tos do nar­co­trá­fi­co — Vi­gá­rio Ge­ral, Can­ta­ga­lo, Com­ple­xo do Ale­mão e Pa­ra­da de Lu­cas. No mor­ro do Can­ta­ga­lo, fo­ram re­ce­bi­dos num pré­dio de 40 an­da­res, on­de fun­cio­na uma es­pé­cie de “on­go­lân­dia”, se­gun­do Lau­ra Ca­pri­gli­o­ne, au­to­ra da re­por­ta­gem. Ela ob­ser­vou que os mo­ra­do­res da fa­ve­la es­tão tão acos­tu­ma­dos com ce­le­bri­da­des su­bin­do e des­cen­do o mor­ro que nem li­ga­ram pa­ra os jo­vens da Fi­esp.

“Os vi­si­tan­tes no­ta­ram a pro­fu­são de tê­nis lin­dos, no­vís­si­mos e cus­tan­do até R$ 700 nos pés dos fa­ve­la­dos, que tam­bém ti­nham ´bom­be­tas´ (bo­nés) e ca­mi­sas Nike. En­quan­to is­so, o di­re­tor do Co­mi­tê de Jo­vens Em­pre­en­de­do­res da Fi­esp, Ro­nal­do Ko­los­zuk, ti­nha um me­ro All Star de R$ 54 nos pés”, con­tou a re­pór­ter. De­pois, os jo­vens da Fi­esp fo­ram le­va­dos pa­ra o Com­ple­xo do Ale­mão, sen­do re­ce­bi­dos por cri­an­ças: “Me­ni­nos ri­so­nhos fa­zem ges­tos es­tra­nhos com os de­dos da mão di­rei­ta. Pa­re­ce um ´v´ da vi­tó­ria que cai de la­do e vol­ta a fi­car de pé”. Um ci­ce­ro­ne es­cla­re­ceu aos vi­si­tan­tes: era o “CV” de Co­man­do Ver­me­lho.

Mas o pi­or vem a se­guir: “Os pau­lis­tas des­cem das vans. Um de­les vê uma fi­la bem or­ga­ni­za­da e, pau­lis­ta que é, en­tra ne­la, ima­gi­nan­do ser a fi­la pa­ra en­trar no bai­le funk que to­dos sa­bi­am ser o des­ti­no do pas­seio. Lo­go, no­ta que en­tra­ra na fi­la de uma bar­ra­ca de co­ca­í­na, on­de ga­ro­tos es­ti­ca­vam ca­pri­cho­sa­men­te car­rei­ras de pó, pa­ra con­su­mo de na­ri­zes vo­ra­zes. ´Pro­i­bi­do fo­to­gra­far´, avi­sa o pro­du­tor JB, do Afro­Reg­gae, ele mes­mo ex-tra­fi­can­te, vin­cu­la­do ao CV”.

E tem mais: “A pas­se­a­ti­nha de pau­lis­tas vai an­dan­do pe­la rua prin­ci­pal e trom­ban­do com de­ze­nas de fa­ve­la­dos que des­pe­jam — sem eco­no­mi­zar — co­ca­í­na em ci­ma de fo­lhas de pa­pel, de­pois en­ro­la­das co­mo ca­nu­dos que se­rão ver­ti­dos di­re­ta­men­te nas na­ri­nas dos usu­á­rios. Dro­ga de­mais. O ci­gar­ro de ma­co­nha nor­mal, lá, não po­de ser ape­li­da­do de ´fi­ni­nho´. Com di­â­me­tro de 1,5 cm e com­pri­men­to de 10 cm, a bra­sa gran­de bri­lhan­do na es­cu­ri­dão, pa­re­ce um cha­ru­to”.

O pas­seio dos jo­vens da Fi­esp nos mor­ros con­tro­la­dos pe­lo trá­fi­co te­ve até um car­ro des­fi­lan­do de­va­gar, com oi­to fu­zis apon­ta­dos em su­as ja­ne­las aber­tas. “Os tra­fi­can­tes que­ri­am ser vis­tos”, con­ta a re­pór­ter. Tu­do is­so, é bom lem­brar, sob a co­or­de­na­ção do Afro­Reg­gae, cri­a­do em 1993 com o ob­je­ti­vo de va­lo­ri­zar e di­vul­gar a cul­tu­ra ne­gra, se­gun­do in­for­ma a pá­gi­na do gru­po na In­ter­net. Se es­se ce­ná­rio des­cri­to pe­la re­pór­ter fos­se de fa­to “cul­tu­ra ne­gra”, De­mé­trio Mag­no­li não po­de­ria se quei­xar de ra­cis­mo ca­so a po­lí­cia fi­zes­se a per­gun­ta ób­via: de que la­do es­tá o Afro­Reg­gae? Da lei ou do cri­me? (Jo­sé Ma­ria e Sil­va)



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