O ocaso de um líder?
O grande líder, comparado a Pedro Ludovico, não morreu, mas diminuiu sua expressão, processo que é tido como irreversível
ANDRÉIA BAHIA
Iris Rezende Machado é, depois de Pedro Ludovico, um dos maiores fenômenos políticos do Estado. “Dá para comparar Iris com a liderança da mais alta representatividade, que é Pedro Ludovico”, afirma o professor e mestre em ciências políticas pela UFG e doutor em sociologia pela USP Francisco Rabelo. Iris Rezende nasceu no interior do Estado, em Cristianópolis, foi vendedor de lenha, formou-se em direito com muito esforço, foi vereador, deputado estadual e prefeito de Goiânia de 1965 a 1968. Foi personagem de uma reportagem da revista Realidade, correspondente à Veja da época, que teve como título: “Nasce um novo líder”.
Iris Rezende reunia as características políticas de Jânio Quadros e de Juscelino Kubtschek. Tinha um estilo populista, de homem de ação e defensor dos pobres, perfil que acabou por incomodar os militares, que o cassaram em 1968. Iris Rezende era candidato natural ao governo do Estado em 1970, mas, com a cassação, teve de abandonar a política e foi advogar. Retornou à cena política para disputar o governo, em 1982, e derrotou o candidato da PDS — Otávio Lage, apoiado pelos militares —, com o argumento da luta contra a ditadura militar. Posteriormente, foi ministro do governo José Sarney e novamente eleito governador do Estado, em 1990, em uma eleição na qual enfrentou Paulo Roberto Cunha. Em 1994, elege Maguito Vilela governador, em uma disputa com Ronaldo Caiado e Lúcia Vânia. Diziam, à época, que Iris Rezende elegeria até mesmo uma pedra, devido à sua expressão política no Estado.
Seu declínio tem início em 1998, com a derrota para Marconi Perillo (PSDB), na disputa pelo governo do Estado, e, na mesma eleição, Maguito Vilela se elege senador com uma votação extraordinária. Nessa eleição, o eleitor dissociou Iris Rezende de Maguito Vilela. Quatro anos depois, Iris Rezende sofre sua segunda derrota consecutiva, desta vez para Demóstenes Torres e Lúcia Vânia, na disputa por uma das duas vagas de Goiás ao Senado. Alguns analistas políticos chegaram a declarar sua morte política. Iris Rezende, pela segunda vez, abandonou a política e foi cuidar de seus outros interesses. Decide voltar, em 2004, para disputar a Prefeitura de Goiânia, e vence Pedro Wilson, do PT — que tinha o apoio do governo federal e concorria à reeleição —, e Sandes Júnior (PP), que era apoiado pelo governo do Estado. Provou, ao participar e ganhar a eleição municipal, ter humildade e força. Em tese, estava mais forte, mas, na prática, saiu menor do pleito. Ele, que por duas vezes fora governador do Estado, senador e ministro, passou a ocupar o cargo de prefeito, sinalizando que seu papel como político começava a diminuir.
Os iristas acreditavam que Iris Rezende sairia candidato a governador em 2006, o que, de certa forma, justificaria sua passagem pela Prefeitura de Goiânia. No entanto, o grande líder do PMDB foi desafiado por Maguito Vilela, que impôs sua candidatura. E, ao que tudo indica, Iris Rezende não tem força sequer para indicar o vice na chapa de Maguito Vilela.
O declínio de Iris Rezende dentro do PMDB é regra, não exceção, afirma o professor Francisco Rabelo. Segundo ele, toda liderança forte cria atritos definitivos dentro de seu próprio partido, divergências que provocam divisões ao longo do processo. “É mais uma questão de sobrevivência da liderança política do que o fato de ele ter perdido o poder”, avalia. O professor explica que, para se manter no poder, a liderança tende a criar atritos que, às vezes, são incontornáveis, mesmo ela se mantendo na posição de poder. “No caso de Iris, ele experimentou uma grande perda de poder, o que tornou essa situação ainda mais difícil para ele.”
Francisco Rabelo explica que, a partir do momento em que Iris Rezende perde a eleição para Marconi Perillo, sua liderança começa a fraquejar. “E o cúmulo da situação foi a perda para o Senado”, completa. A derrota de Iris Rezende para o Senado, em 2002, contrariou uma tese que Francisco Rabelo sustentou, em 1998, de que o PMDB teria oportunidades na esfera legislativa, mas não na executiva. “E foi pior do que previa.”
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O prefeito Iris Rezende e o fundador da cidade, Pedro Ludovico, em julho de 1969
| Vazio político — A vitória eleitoral em 2004, que assegurou a Prefeitura de Goiânia para o PMDB, é, segundo Francisco Rabelo, muito significativa, “principalmente porque Iris fez sua carreira política em Goiânia”. Todavia, não representa a retomada do poder por parte do partido. “A vitória de Iris é pessoal, é a recuperação de sua liderança política, e não do PMDB”, ressalva o professor. E os fatores que possibilitaram a Iris Rezende essa recuperação estão mais vinculados ao vazio político que havia naquele momento do que à sua articulação. “Marconi não conseguiu transferir votos para seu candidato, Pedro Wilson não conseguiu se impor como liderança e o PT não conseguiu se impor como partido majoritário.”
O PMDB não se beneficiou da vitória de Iris Rezende porque, segundo o professor, à medida em que a liderança vai se desgastando, o partido deixa de oferecer o respaldo necessário. Por isso, a vitória de Iris Rezende em Goiânia foi pessoal, e não partidária. Esse cenário se evidencia a partir dos diversos conflitos internos que ocorreram, principalmente entre Iris Rezende e Maguito Vilela. O mais recente diz respeito ao compromisso de Maguito Vilela em ceder a cadeira no Senado a sua suplente, Iris Araújo. O que não ocorreu.
Desvinculado de Iris Rezende, Maguito Vilela tornou-se um líder político com uma capacidade de mobilidade muito maior do que a de Iris Rezende, apesar de não ter a mesma respeitabilidade que Iris. “Atualmente, Maguito tem maior capacidade de diálogo dentro do partido e uma visibilidade maior fora dele.” Na opinião do professor, o que dá mais visibilidade a Maguito Vilela é o fato de ele estar dialogando com as outras forças políticas com muito mais abertura que Iris Rezende. “Quanto mais a liderança se fecha em si mesma, acreditando que, desta forma, é capaz de mobilizar politicamente, mais ela se isola”, explica, se referindo ao isolamento de Iris Rezende.
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Francisco Rabelo:“Iris continua sendo o maior líder do PMDB, e o que está em jogo é a eleição”
| O fato de Maguito Vilela pertencer a uma geração de políticos mais nova que a de Iris Rezende não encerra em si um dos fatores da queda de Iris Rezende e da ascensão do senador. “Como analista político, tem que se ter muito cuidado com essa questão”, observa. Mas é inquestionável o fato de que as bandeiras de Iris Rezende envelheceram. Ele foi eleito governador, em 1982, por intermédio da luta contra a ditadura em Goiás — apesar de ter sido uma peça-chave no processo de redemocratização, por ter se associado às lideranças nacionais mais representativas, mas não lutou efetivamente contra a ditadura. “Henrique Santillo foi muito mais atuante e representativo nessa luta do MDB, depois PMDB, contra a ditadura que o próprio Iris”, observa o professor.
Segundo ele, todo o PMDB foi altamente capaz de se mobilizar em torno da bandeira da redemocratização. Entretanto, o processo democrático precisava avançar — e ainda precisa. “Mas essas lideranças não foram capazes de ir além dessa democracia formal que se instaurou e está em vigência”, analisa Francisco Rabelo. Com isso, o PMDB perdeu terreno para grupos e forças políticas que precisavam ocupar o espaço e abraçaram a bandeira da democracia. “O PT, por exemplo, até chegar ao poder.”
Esse discurso de luta contra a ditadura militar ficou para trás. “A luta pela redemocratização foi concluída, e o que se precisava era avançar no processo democrático, para que as instituições respondessem às questões mais altas do processo político. E elas não têm esse poder. Quando digo isso, estou pensando no desastre que foi o governo Lula”, Aponta francisco Rabelo.
Iris Rezende também se consolidou como um político “obreiro”, da casa e do asfalto, bandeira que, pelo menos em tese, estaria superada. Todavia, observa o professor, ela ainda tem efeito eleitoral, “tanto que todos políticos a usam”. Francisco Rabelo explica que, enquanto não se desencadeia o processo eleitoral, a maioria da população sinaliza para a necessidade de governos ágeis e presentes no dia-a-dia da sociedade. Mas, nos seis meses que precedem as eleições, predomina quase que uma outra lógica, porque, neste período, são introduzidos elementos de mídia e de marketing, sendo que este marketing concentra-se fundamentalmente em obras. “A lógica muda porque nós nos modernizamos, mas o marketing não.”
O declínio de Iris Rezende, todavia, não ameaça sua hegemonia no partido, segundo Francisco Rabelo. “Iris continua sendo a maior liderança do PMDB.” Segundo ele, o que está em jogo no momento não é a liderança dentro do partido, mas a disputa interna, visando o processo eleitoral. “E Maguito, embora não estivesse em posição de poder, teve mais agilidade, conversou com mais prefeitos, e isso funcionou para que ele conquistasse o respaldo que tem tido.” E ele analisa ainda que a situação é muito favorável à candidatura de Maguito Vilela, visto que Marconi Perillo ganha eleição mas não transfere voto. “Como o PT também perdeu muito espaço, seria uma completa incompetência de Maguito não despontar nas pesquisas.”
‘‘Fadiga de material’’
Para o professor de ciências políticas do Departamento de Ciências Sociais da UFG Robinson de Sá Almeida, o declínio da liderança de Iris Rezende reflete o que, em ciência política, se convencionou chamar fadiga de material. “A liderança antiga sofre o cansaço e o envelhecimento da própria liderança, bem como de seu estilo de liderar, uma mesmice do ponto de vista das propostas que a mesma traz para o partido, Estado e para o eleitorado.” Segundo o professor, isso fatalmente ocorre com personalidades que ficam em evidência no plano político como uma referência há muito tempo. No caso de Iris Rezende, desconsiderando os períodos de ostracismo, são 40 anos de carreira política. “Depois que foi prefeito pela primeira vez, mesmo se afastando da política durante o período em que foi cassado, ele continuou em evidência, e a vitória contra o regime militar, em 1982, é prova disso.”
Robinson de Almeida ressalta, todavia, que nem todas as personalidades mais antigas do plano político vão necessariamente caducar ou finalizar a carreira em baixa. “Mas é muito difícil para o político se manter por cima durante tanto tempo, porque isso vai exigir dessa grande liderança uma capacidade de renovação constante, de adaptação a novas conjunturas, novos momentos e uma grande habilidade para lidar com os novos tempos, novos problemas sociais e tipos diferentes de conflitos sociais.”
Aquele Goiás dos anos 60 é muito diferente de Goiás neste início de século 21, quando se tem uma sociedade muito mais urbanizada, um processo de industrialização bem mais avançado, setores de classe média mais amplos e uma nova base social, sobre a qual se faz a política. “Para alguém ser uma referência política sempre de ponta, é preciso ter uma capacidade de adaptação a essas novas realidades, a novas lideranças que vão surgir, setores novos e, inclusive, às novas lideranças que surgem dentro do próprio grupo lidera.” No caso de Iris Rezende, novas lideranças que surgem dentro do PMDB.
Segundo Robinson Almeida, Iris Rezende foi o cacique de Goiás durante os 16 anos que o PMDB esteve no poder. Houve conflitos, o mais emblemático com Henrique Santillo, que deu origem a uma dissidência e a questionamentos sobre o poder de Iris Rezende, que sufocava novas lideranças. “Uma liderança centralizadora, abafadora e que impediu a oxigenação do PMDB e o surgimento de novas lideranças.” Essa forma de exercer seu poder, dentro do partido e fora dele, tem reflexos em seu declínio, segundo o professor. “É muito difícil passar incólume tendo ocupado governo. Muito difícil não sofrer o desgaste do tempo.”
Iris Rezende também sofre com o envelhecimento de suas bandeiras. O perfil obreiro, sob o aspecto de administrador competente, ainda persiste, segundo o professor, porque não se trata de uma questão ideológica, de direita ou esquerda. “A vitória de Iris para a Prefeitura de Goiânia se deveu em grande parte a esse contraponto à imagem, verídica ou não, de Pedro Wilson como alguém que não era tão ágil administrativamente.”
Mas é preciso analisar, segundo o professor, qual tipo de obra e de competência administrativa é requerido pela sociedade nesse momento. Talvez, explica ele, a sociedade goianiense ainda queira asfalto e Iris ainda seja compatível a um perfil desejado. “Todavia, o Estado tem vivido, nos últimos anos — e isso não é uma apologia ao governo Marconi Perillo, pois essa fase começa antes dele — um processo de modernização econômica e de sua infra-estrutura. Com isso, os eleitores podem achar que Marconi e Maguito são políticos com perfis mais adequados a essa nova realidade.” Ou seja, políticos ‘‘modernos’’, competentes administrativamente, que fazem obras, mas obras modernas — não mais como o tocador de obras de mutirão de bairro, de asfalto, que é uma característica que fica mais restrita à esfera do município. Segundo Robinson, Iris Rezende colou-se a essa imagem de obreiro e, para se apresentar como moderno e alguém capaz de continuar dando competência dentro dos novos tempos, seria necessária uma grande capacidade de renovação e de adaptação.
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Robinson de Sá Almeida: “Iris Rezende não morreu, mas diminuiu porque outros cresceram”
| O segundo aspecto do declínio de Iris Rezende é o da derrota. Fazendo uma analogia ao futebol, o professor afirma que, em time que está vencendo, não se mexe. Mas se ele começa a perder... “Enquanto a liderança Iris Rezende, sem ignorar os conflitos internos, consegue controlar esses conflitos e manter o poder em suas mãos, o PMDB ganha e a contestação, a oposição interna à liderança de Iris, é mais fácil de se controlar ou não tem tanto argumento nem tanta motivação para se opor e buscar espaço.” Os peemedebistas se acomodam debaixo do grande líder.
Todavia, quando ele perde e cai a mística do líder, daquele que lidera a vitória, começam a surgir o descontentamento, o desconforto e pessoas que acham que poderiam ter feito melhor. “As que estavam confortáveis começam a ficar desconfortáveis e aqueles que já se sentiam desconfortáveis têm espaço para expressar seu desconforto. Isto leva ao anseio de renovação do partido”, explica.
Iris Rezende, analisa Robinson Almeida, perdeu as duas eleições por uma margem muito pequena de votos. “E houve gente que se apressou em dizer que ele estava morto e enterrado.” No entanto, ele conseguiu se eleger em Goiânia, cidade que não vinha de prefeitos peemedebistas, e contra os governos estadual e federal. “Iris conseguiu reverter uma situação de inferioridade peemedebista na capital, e isso não é pouca coisa. Não é o grande triunfo almejado para alguém que já alcançou a estatura que Iris alcançou, mas continua sendo um grande feito.”
Segundo Robinson Almeida, não é possível afirmar que Iris Rezende morreu, “mas dá para dizer que ele diminuiu, porque outros que ele abrigava cresceram e ganharam espaço”. Ele cita o exemplo de Maguito Vilela, que cresceu e se afastou da influência de Iris Rezende. Na avaliação do professor, o envelhecimento e a derrota estão interligados nesse processo de declínio de Iris Rezende. A derrota sofrida em 1998 pode ser interpretada como efeito de envelhecimento. Essa redução do papel de Iris Rezende é, segundo Robinson Almeida, irreversível. “Não sei se vai continuar até ele desaparecer.” Segundo o professor, Iris pode se manter nessa mesma estatura em que se encontra agora, mas quanto a voltar a ser o antigo Iris Rezende, o professor considera impossível, devido a essa lógica do envelhecimento e da derrota. “São bons os argumentos para projetar que Iris Rezende não retornará ao antigo Iris, o centralizador, a figura dominante. Isto não significa que ele vá sumir, mas deve passar a coexistir com Maguito e mais uma terceira liderança que aparecer.” É provável que, mesmo jogando pesado, Iris não consiga impor o nome de Mauro Miranda para vice de Maguito Vilela. O preferido deste é Frederico Jayme. |