Estado cancela
contrato com Faugo
Fiat poderá
continuar a utilizar circuito, mas terá de contratar
diretamente com Goiás Turismo e
pagar preço correto
HÉLMITON PRATEADO
A Federação Goiana de Automobilismo (Faugo) não poderá mais ser a intermediária entre o Estado de Goiás — proprietário do Autódromo Internacional Ayrton Senna — e a Fiat do Brasil. O contrato, pelo qual a Fiat pagava à Faugo R$ 2,8 mil por dia para utilizar o circuito do autódromo internacional de Goiânia foi cancelado na tarde de sexta-feira, 17.
Depois que o Jornal Opção mostrou, com exclusividade, que a Faugo terceirizou o uso do autódromo para explorar comercialmente com a Fiat, as atenções sobre o contrato foram despertadas. Técnicos do Gabinete de Controle Interno da Governadoria passaram a pente-fino o contrato e as informações descritas na reportagem e recomendaram a imediata interrupção do contrato.
Pelo contrato a Faugo, representada por seu presidente, José Ney Lins Rocha, obteve do então administrador do autódromo, Sérgio Câmara, desde agosto do ano passado, autorização para firmar esse acordo com a Fiat. Pelo "Termo de Autorização Remunerada" assinado por Câmara e José Ney a Faugo usou de sua condição de entidade federada com direito a um desconto de 50% na diária para utilizar o autódromo e terceirizar o uso do circuito para a Fiat. A diária do autódromo de Goiânia é de R$?1 mil e a Faugo paga apenas 500 reais. A montadora sediada em Betim-MG testa seus conjuntos e veículos e tem previsão de rodar 1,5 milhão de quilômetros no autódromo.
O detalhe que mais chamou a atenção dos técnicos do Geconi é sobre o desconto. A Faugo realmente tem direito a esse desconto para promover atividades esportivas, como treinos e corridas de carros. Só isto. O que existe entre a Fiat e a Faugo está muito longe de ser atividade esportiva, como concordou o gerente de Comunicação da Fiat, Carlos Henrique Ferreira. "Nossa relação é essencialmente comercial e financeira. Nós utilizamos o circuito mediante o contrato da federação com quem administra o autódromo e pagamos por isso."
O presidente da Faugo, quando procurado pela reportagem ainda tentou justificar uma possível regularidade no desconto sob a justificativa de que "testar carros é uma atividade esportiva, ora essa". Mesmo sabendo que atividades envolvendo interesse público devem obedecer ao princípio da publicidade, José Ney se negou a informar qual é o clube de automobilismo que recebe da Fia e prestar contas do que recebe e quanto repassa para os cofres públicos.
A reportagem descobriu que no mês de setembro a Faugo recebeu da Fiat quase R$?60 mil e pagou para o Estado míseros R$?8 mil a título de utilização do autódromo. Desse valor que a montadora paga para a Faugo ninguém tem a menor idéia de uma prestação de contas. Agora tudo deverá ser feito mediante contrato público e a renda entrará para os cofres do Estado.
A Goiás Turismo, que pela reforma administrativa recebeu a incumbência de administrar o autódromo, deverá fiscalizar a partir de agora também a utilização do circuito. Nos últimos meses somente um preposto da Faugo ficava no lugar zelando pelos interesses da federação e cuidando de afastar quem buscava informações sobre o contrato. O Estado não sabia quantos dias o circuito era utilizado pela Fiat e tudo ficava a cargo da Faugo informar.
Continuidade — A reportagem informou ao diretor da Fiat na sexta-feira sobre a decisão do Estado de cancelar o contrato com a Faugo, com a ressalva de deixar facultado à montadora a prerrogativa de continuar a utilizar o circuito, desde que o contrato seja repactuado e feito de forma correta. Carlos Henrique informou que a empresa tem interesse em continuar com os testes e tudo o que é pago para a Federação pode ser pago para o Estado de Goiás de forma limpa e transparente.
Esse é também o objetivo de outros praticantes do automobilismo: fazer com que o esporte em Goiás seja transparente e sem as dúvidas levantadas sobre a instituição que congrega aficionados pelo esporte. Integrantes de clubes de automobilismo pretendem recorrer ao Ministério Público pedindo que a Curadoria de Fundações faça uma auditoria completa na Federação Goiana de Automobilismo e nos clubes que a compõe.
Fontes do Ministério Público informaram que já existe uma investigação em andamento sobre o contrato do autódromo com a Faugo e que o destino do dinheiro que entrou nos cofres da entidade deverá ser totalmente rastreado. "Se pairar alguma dúvida sobre a possibilidade de alguém ter enriquecido com o uso de um bem público esses valores precisam ser devolvidos para inibir novas tentativas", comentou um promotor.
Outros detalhes da federação que clubes excluídos pela atual gestão pretendem tornar claros são quem compõe esses clubes, onde eles funcionam e o quanto arrecadam com suas atividades; além da forma pouco democrática das eleições na federação e também na Confederação Brasileira de Automobilismo.
A reportagem tentou ouvir o presidente da Faugo, José Ney Lins Rocha, e foi informada que ele esteve durante toda a semana na cidade de Itumbiara preparando uma corrida nacional de kart que será ralizada neste final de semana. |