Goiânia, 09 de fevereiro de 2010
De: 07 a 13 de maio de 2006

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MAGUITO VILELA
 

O herdeiro do irismo

O senador luta para sair da sombra de Iris Rezende, mas não consegue se desvencilhar de sua imagem

ANDRÉIA BAHIA

O senador Maguito Vilela (PMDB) lidera todas as pesquisas com mais de 50 por cento das intenções de votos, um percentual que não deve ser lido de forma linear, segundo o consultor de marketing político Roberto Lima. Isso porque as pesquisas espontâneas indicam que cerca de 70 por cento dos eleitores ainda não decidiram em quem vão votar em outubro, ou seja, Maguito Vilela tem 52 por cento das intenções de votos dos cerca de 30 por cento dos eleitores que já definiram o voto. “Isso representa aquele patrimônio eleitoral que o PMDB tem em Goiás, que varia entre 15 e 20 por cento dos votos”, avalia Roberto Lima.

Esta será a terceira eleição para governador que Maguito Vilela disputa em Goiás. Foi eleito governador em 1994, quatro anos depois foi obrigado a abrir mão da reeleição em favor de Iris Rezende e acabou disputando uma cadeira no Senado, para qual foi eleito, e, em 2002, foi derrotado por Marconi Perillo, que disputava a reeleição. Maguito Vilela é hoje um político diferente daquele que chegou ao governo em 1994 pelas mãos de Iris Rezende. Conquistou independência e autonomia em relação ao seu padrinho político. A prova disso é que derrotou Iris Rezende na disputa interna pela vaga de candidato a governador e, mesmo diante da resistência do prefeito de Goiânia, vem impondo o nome de Frederico Jayme para compor a chapa no cargo de vice-governador.

Segundo a professora de ciência política do Departamento de Ciências Sociais da UFG Silvana Krause, a consolidação da liderança de Maguito Vilela foi possível porque, apesar de Iris Rezende canalizar muito a identidade do partido no Estado, especialmente no interior, o PMDB em Goiás não ficou associado apenas a Iris Rezende. “Mesmo o PMDB tendo uma tradição ligada à pessoa de Iris Rezende, o partido não se restringiu a isso e construiu uma organização partidária.” Tanto que logo após a derrota para Marconi Perillo, em 1998, nas eleições municipais de 2000 o PMDB conseguiu manter sua expressão eleitoral, “mostrando que não é uma força desprezível”. Mas foi a derrota de Iris Rezende, em 1998, que abriu espaço dentro da organização do partido para o surgimento de outras lideranças, inclusive de Maguito Vilela, que havia sido governador do Estado e tinha saído do governo com uma boa avaliação popular. “Em 1998, a resistência era em relação a Iris Rezende e não a Maguito e ali já começa a nascer o embrião de uma liderança que, apesar de ter sido incentivada por Iris Rezende, tem um caminho próprio.”

Segundo a professora da UFG, a vitória de Iris Rezende na capital não o credenciou a ser o candidato ao governo do Estado, porque a eleição em Goiânia foi atípica. “E ele não foi o candidato do PMDB porque não demonstrou o mesmo potencial de Maguito, o que prova que Maguito teve uma construção de liderança paralela que não se reduz ao incentivo de Iris Rezende.” Silvana Krause observa que Iris e Maguito têm perfis políticos diferentes. “Iris construiu seu perfil político em função de sua personalidade e de seu carisma. Já Maguito não tem um caráter tão personalista, é mais orgânico e construiu sua influência não em função do carisma pessoal.”

Nesse processo, Maguito Vilela não confrontou a liderança de Iris Rezende dentro do partido, como outras lideranças peemedebistas haviam experimentado no passado e, por isso, foram alijadas da legenda, a exemplo de Henrique Santillo e Nion Albernaz. “Essa foi uma atitude diferenciada de Maguito em relação à liderança histórica de Iris em Goiás, e essa integração fez com que ele conseguisse ocupar espaços que não necessariamente eram apenas dele dentro do partido.”

Para o cientista político e professor do Departamento de Ciências Sociais da UFG Robinson de Sá Almeida, Maguito Vilela é uma pessoa volúvel e um político sem uma posição ideológica clara, mas que saiu das asas de Iris Rezende e encontrou espaço para se tornar uma liderança do PMDB de Goiás. “Alguém que tem competência para encontrar seu espaço e consegue essa projeção não pode ser menosprezado. Mas não me parece que ele seja um estadista no sentido de alguém que tenha um projeto em determinado momento da história e que busca se afirmar e alcançar o seu espaço e a sua projeção para realizar determinada tarefa histórica.” Segundo o professor, Iris Rezende, “bem ou mal”, conseguiu se colocar dessa maneira e Marconi Perillo também. “Maguito Vilela foi crescendo na medida em que foi encontrando espaços apropriados, ou seja, nos espaços abertos pela decadência de Iris Rezende.”

Projeção política — Na opinião de Robinson Almeida, Maguito Vilela se projetou como liderança política dentro e fora do PMDB menos por competência própria e mais pelos percalços do PMDB e de Iris Rezende mais especificamente, que era a grande liderança do partido. Imagem que é reforçada pela atuação de Maguito Vilela no Senado. “Não me parece uma atuação coerente e consistente em defesa de uma linha de política específica, mas de um político oportunista que busca aparecer quando surge uma janelinha.” Segundo o professor, ao longo de sua trajetória Maguito Vilela não se tornou um político mais denso, no sentido de encarnar um projeto histórico ou algum projeto de mudança, mas adquiriu certa densidade como cacique político. “O político pode ser denso no sentido de ser um estadista e no sentido de se projetar como uma liderança, ainda que de mentalidade tacanha, mas importante partidariamente.” Robinson Almeida explica que, para se tornar uma liderança regional de um partido, contribui muito o fato de o político conseguir se projetar como estadista. “E se ele não se projetar como estadista e não alcançar essa identidade, pode acabar resultando no esvaziamento dessa liderança partidária mais à frente”, explica o professor. Isso porque as situações históricas passam a exigir que o líder político seja não apenas um cacique partidário, mas um estadista. “Se essa situação histórica não colocar essas demandas, pode ser que um cacique se prolongue no poder e vire um coronel, aquela coisa de panelinha.” Robinson Almeida sustenta que o processo de crescimento econômico e de modernização do Estado de Goiás aponta para uma situação de demandas em que o líder aja como estadista. “E quem não conseguir vai ter dificuldades de se manter como uma grande liderança partidária no Estado”, prevê.

Maguito Vilela tem, na análise de Robinson Almeida, um diferencial favorável: o discurso, que já é empregado e vai ser empregado repetitivamente na campanha, de que a modernização e o crescimento econômico do Estado começaram com ele e que Marconi Perillo foi beneficiado por um processo instalado na administração Maguito Vilela. Esse discurso tem eco em certos setores do eleitorado e, mais que isso, descola Maguito Vilela da imagem da panelinha e do tempo velho, que pegou na campanha de 1998. “Maguito Vilela, pelo menos para uma parcela da sociedade, representaria uma novidade no cenário político de Goiás.” Seu adversário, Alcides Rodrigues, vai enfatizar que Maguito Vilela é cria do PMDB irista, que seu governo foi um prolongamento do tempo de domínio de Iris Rezende e que o senador faz parte da velha panela. Essa vai ser, segundo o professor, uma das tônicas da campanha eleitoral.

Carismático — Na análise do historiador e coordenador da área de ciência política da UCG Walmir Barbosa, Maguito Vilela tem uma característica que marca profundamente sua biografia e sua trajetória, que é o fato de ser um político carismático. “Que não configura aquele estilo carismático populista dos anos 50 e começo dos anos 60. É carismático sem necessariamente transitar em direção ao populismo demagógico.” É também, segundo o professor, alguém que possui experiência como homem público pelo fato de ter sido governador e agora ser senador. “É alguém que possui uma leitura da máquina administrativa do Estado, das possibilidades e dos limites dessa máquina, devido à sua experiência como governador, e, como senador, pode ter também uma leitura das relações políticas em termos nacionais e das implicações destes dois campos, das relações políticas e da gestão pública.”

Maguito Vilela ocupa, segundo Walmir Barbosa, espaço no campo do liberalismo, todavia é um político que não tem uma referência ideológica ou política no âmbito do liberalismo que o transforme em um político mais veemente, com objetivos, sejam políticos, sejam de projetos sociais, ou perspectivas ideológicas muito definidas. É, na avaliação do professor da UCG, um político que está no campo do liberalismo, mas é eminentemente pragmático e cujo pragmatismo é muito susceptível aos problemas e muito sujeito às pressões político-partidárias que uma eventual composição de governo acarretaria. “Alguém que não tem uma referência político-ideológica muito precisa, não tem uma veemência política e é muito sujeito a essas conjunturas de pressões.”

Robinson de Sá Almeida: “Maguito é um político oportunista que busca aparecer”
Ao longo de sua trajetória, Walmir Barbosa observa que Maguito Vilela conquistou um nível de autonomia e de liberdade pessoal muito maior do que no passado. Segundo ele, é uma liderança política que surge no campo do irismo em Goiás, mas seguramente conseguiu se desvencilhar do próprio irismo e dos políticos tradicionais do PMDB que se alinham a ele. “Não há muita possibilidade de um enfrentamento com as forças que hoje estão à frente do Estado que não tenha Maguito Vilela pilotando essa coligação.” Ou seja, na concepção do professor, para que o próprio irismo assuma uma fluência política e um eventual novo governo vitorioso, ao qual o PMDB se apresente como força política dominante, não há muitas possibilidades que não sejam com Maguito Vilela à frente.

O senador peemedebista já extrapola o grupo mais identificado com Iris Rezende. “Ele inclusive conseguiu derrotar esse grupo no âmbito do próprio PMDB, e embora essas contradições e essa luta não tenham se precipitado para a mídia, sabemos que não foi um processo tranqüilo e houve uma vitória. De certa maneira, Maguito Vilela transcende o irismo e, ao mesmo tempo, o obriga a fechar em torno de sua candidatura.” Situação que lhe dá uma vitalidade, uma autonomia e uma liberdade muito maior no âmbito dessa composição.

O que não o priva do ônus de seu governo anterior. “O ônus do alinhamento incondicional ao irismo.” Walmir Barbosa cita como exemplo a privatização de Cachoeira Dourada, com o objetivo de arrecadar recursos para viabilizar uma candidatura que não era a dele. “De um lado Maguito se liberta, mas de outro carrega o ônus de ter pilotado algumas ações com as quais, talvez, não se identificasse. Todavia, ele era o governador e assinou aquelas iniciativas que representam um certo nível de constrangimento para sua candidatura, especialmente quando a competição político-eleitoral assumir uma agressividade muito maior.”

Walmir Barbosa: “Maguito Vilela não tem uma referência político-ideológica muito precisa”
Fortalecido como político, Maguito Vilela assumiu a articulação política de sua candidatura, o que Walmir Barbosa avalia como natural. “À medida que consegue fortalecer-se enquanto político diante do grupo irista, Maguito assume naturalmente papel de liderança nessas articulações, e o governo municipal se transforma em cabo eleitoral dele.” O que vem facilitando o diálogo com as outras forças políticas do Estado, a exemplo do PT, PSB, PDT e PL, é, segundo o professor, o fato de Maguito Vilela não estar identificado e efetivamente vinculado a um grupo político oligárquico. “Ele assume uma autonomia e uma independência muito maior e, ao mesmo tempo, não tem aquele núcleo duro de pessoas, de trajetória e de prática ao seu redor como Iris tem.”

O professor observa que o senador tem também se fortalecido fora do campo político-partidário, principalmente junto às elites econômicas, que tendem também a ser as elites políticas, de diversas regiões do Estado. Walmir Barbosa se refere precisamente ao médio produtor agropecuário, que, segundo ele, não recebeu atenção do governo Marconi Perillo. “O governo Marconi apostou na modernização da infra-estrutura do Estado, atuou no sentido de trazer grandes empresas agropecuárias e montadoras, mas esse setor ficou desassistido e Maguito tem mantido contato com esses segmentos.”

Para Walmir Barbosa, Maguito Vilela tem a vantagem de não despertar o temor e a resistência que Iris Rezende desperta na tentativa de construir alianças e dialogar com os partidos e grandes lideranças políticas e, por outro lado, tem conseguido ampliar sua influência junto a determinados segmentos da sociedade, em especial ao médio e pequeno empresariado do meio rural, “que, seja do ponto de vista do governo federal ou do governo estadual, ficaram bastante prejudicados nesses quatro anos”.

Diante da possibilidade de uma comparação entre os governos do PMDB e de Marconi Perillo, o professor da UCG afirma que a eleição pode assumir um caráter plebiscitário. “É uma estratégia que interessa ao PSDB e ao PFL, mas não a Maguito.” Walmir Barbosa acredita que a candidatura de Maguito Vilela não vá confrontar diretamente com os dois governos de Marconi Perillo, até porque, observa, seria uma “grande tolice”, visto que os governos de Marconi, do ponto de vista histórico das suas realizações, foram, dentro de uma concepção de gestão tradicional e de uma eficácia administrativa tradicional, bastante exitosos. “A estratégia deve ser não colidir e fortalecer a idéia de que o processo de modernização não teria nascido de 1998 para cá, mas que teria sido anterior, a partir dos governos do PMDB.” E também tentar explorar a idéia de que Maguito Vilela apresenta melhores condições político-administrativas para dar continuidade ao que os governos do PMDB e os últimos governos alcançaram em termos de desenvolvimento econômico e integração infra-estrutural do Estado.

Segundo Walmir Barbosa, Maguito Vilela soube explorar sua trajetória como senador e teve uma boa exposição compondo diversas comissões de trabalho dentro do Senado, o que deu uma exposição de mídia muito importante ao seu projeto pessoal. “Se ele não explorou mais, não foi devido à sua trajetória, mas ao próprio posicionamento ambíguo e indefinido que o PMDB assumiu em relação ao governo Fernando Henrique e, mais recentemente, ao governo Lula.” O professor aponta que o governador Alcides Rodrigues sempre esteve à sombra de Marconi Perillo. “A centralização que Marconi exerceu no seu governo colocou o vice-governador em uma posição menor, com muito pouca visibilidade, e agrega-se a isto as próprias características pessoais; Alcides não é uma personalidade que tem carisma, que tem uma desenvoltura. Tudo isto parece fragilizá-lo diante do posicionamento incisivo e muito mais comunicativo de Maguito, que teve uma presença na mídia muito maior como senador do que Alcides como vice-governador.”

Um líder em busca de personalidade política

Reginaldo Aquino: “Maguito não conseguiu criar uma personalidade política própria”
O historiador e mestre em história pela UFG Reginaldo Lima de Aquino observa que o PMDB goiano se caracteriza principalmente pela concentração de poder em torno de seu principal líder político, Iris Rezende. “Era do colete de Iris de Rezende que saía o nome do candidato que deveria ser escolhido pelo partido para disputar as eleições para governador.” Dono de um carisma marcante e de um patrimônio eleitoral invejável, Iris Rezende parecia ser imbatível nos pleitos eleitorais que ocorreram de 1982 a 1998. O PMDB goiano parecia ser invencível, e a figura de Iris Rezende foi reconhecida pelos seus correligionários como o principal fator dessa invencibilidade. “Contudo, o reconhecimento da influência eleitoral do grande cacique não se faria de forma impune. O PMDB goiano teve de pagar um preço político que se materializou na concentração de poder em uma liderança que reagia ao menor sinal de ameaça à sua hegemonia no interior do partido”, analisa Reginaldo Aquino. Isso porque Iris Rezende jamais aceitou que qualquer estrela brilhasse mais do que a sua.

Na eleição governamental de 1994, Maguito Vilela foi o candidato escolhido por Iris Rezende “e, portanto, pode-se afirmar que Maguito surgiu enquanto cria de Iris”. Naquele ano, lembra o historiador, o desempenho eleitoral de Iris Rezende ainda não estava sequer arranhado, conseguindo inclusive eleger seu candidato ao Senado, Mauro Miranda, e, beneficiado também pelo apoio de Iris Rezende, Maguito Vilela conseguiu facilmente se eleger governador do Estado. “No entanto, tal apoio não ocorreria impunemente”, afirma Reginaldo Aquino. Porque a partir daquele momento Maguito Vilela teria de carregar consigo a sombra de Iris Rezende Machado e sua figura estaria eternamente relacionada à de seu promotor político. “Foi Iris quem promoveu Maguito Vilela a governador, este é um fato que nem ele mesmo pode negar. A partir de então, Maguito passou a ser considerado como um continuador e herdeiro de Iris Rezende, reputação que ainda carrega consigo.”

Clever Fernandes: “O contraponto de Maguito Vilela é a sombra de Iris Rezende”
Segundo o historiador, sempre que se fala em Maguito Vilela o eleitor logo se lembra de Iris Rezende. “Maguito Vilela não conseguiu, ao longo de seu governo, estabelecer uma personalidade política que lhe fosse própria”, afirma. Segundo ele, Maguito tinha, obrigatoriamente, que ter realizado um governo diferente de seu antecessor, conseguindo desta forma a sua emancipação política, mas não foi isso que aconteceu. “Todo líder político que deseja se consolidar enquanto liderança política tem a obrigação de realizar um governo diferente de seu antecessor. Marconi Perilo teve coragem de ousar e realizar um programa de governo que o diferenciava de Iris Rezende e que registrasse sua marca na memória política do eleitor.” Mas não foi o caso de Maguito Vilela, que, segundo Reginaldo Aquino, perdeu a grande oportunidade de realizar uma gestão diferente e empreender a sua marca administrativa no Estado em seu primeiro mandato como governador. “Para Maguito, o fato de ter sido promovido por Iris Rezende foi um benefício, contudo, também lhe impôs limites, pois tinha de ter o cuidado de não brilhar mais do que a grande estrela do PMDB goiano. O resultado foi que Maguito não realizou uma administração personalista que deixasse a sua marca na história política de Goiás.”

Segundo o historiador, Maguito Vilela seguiu a estratégia política de Iris Rezende, que pretendia retornar ao Palácio das Esmeraldas nas eleições de 1998. “Portanto, Maguito não ascendeu ao poder para se consolidar enquanto grande liderança do PMDB, mas para garantir o retorno tranqüilo do grande líder.” Maguito Vilela tinha duas opções, na opinião de Reginaldo Aquino: realizar um governo personalista e romper com Iris Rezende, o que implicava uma série de riscos políticos, pois poderia ter sua carreira política comprometida, ou então se acomodar, terminar o seu mandato e ganhar a eleição para o Senado com o apoio de Iris Rezende. “Aparentemente, Maguito Vilela preferiu a segunda opção.”

Carlos Debrey: “A improvisação foi a principal marca do governo Maguito Vilela”
Personalidade — Para o filósofo, mestre em história e professor da Faculdade Padrão Clever Luiz Fernandes, nas eleições de 1998, quando Iris Rezende perdeu a eleição para Marconi Perillo, Maguito Vilela parecia estar próximo de sua emancipação política com relação a Iris Rezende. “A sociedade goiana foi tomada por uma antipatia ao irismo, fato que foi materializado na primeira eleição para governo do Estado em que Iris Rezende não conseguiu uma vitória esmagadora.” Segundo Clever Fernandes, a campanha de Iris Rezende foi interpretada pelo eleitor como sinal de arrogância. “Mesmo com sua imagem ligada intimamente a Iris Rezende, que perdeu a eleição para o governo, Maguito conseguiu se eleger ao Senado. Aparentemente, o desgaste político de Iris Rezende não havia contaminado a candidatura de Maguito Vilela, que acabou se tornando o político que detinha o cargo político mais importante do PMDB goiano.” Segundo o filósofo, foi a partir daí que Maguito Vilela começou a construir uma carreira política própria, tentando criar uma personalidade distinta da de Iris Rezende.

Para Clever Fernandes, não há dúvida que o poder de Iris Rezende está arranhado, “tanto é verdade que não conseguiu sequer apresentar seu nome para concorrer à eleição governamental deste ano”. E Maguito Vilela apresenta-se como a nova liderança no interior do PMDB que vai substituir Iris Rezende. “Resta saber se Maguito vai conseguir se desvencilhar do espectro irista.” Segundo o professor, o grande adversário de Maguito Vilela não é Alcides Rodrigues. “Assim como Alcides Rodrigues tem como contraponto a figura dinâmica de Marconi Perillo, o contraponto de Maguito Vilela é a sombra de Iris Rezende.” O desafio de Maguito Vilela será, na opinião de Clever Fernandes, convencer o eleitor de que ele é um candidato de alma própria e não a reencarnação daquele que foi o alavancador de sua carreira política. “Nas próximas eleições seus adversários vão apostar no retorno do fenômeno da antipatia irista; resta saber se Maguito ficará imune a este dado. Caso isto ocorra, a presença de Iris Rezende pode tornar-se incômoda para Maguito Vilela.” Segundo ele, este é um fato que deve influenciar decisivamente na campanha eleitoral do PMDB em Goiás e vai servir de termômetro eleitoral para aferir o grau de rejeição ou aceitação do eleitorado acerca da personalidade de Iris Rezende. “Se for detectada a antipatia, Maguito terá de realizar uma campanha eleitoral explorando traços que não o relacionem a Iris Rezende, caso contrário, corre o risco de cair em um desastroso desgaste eleitoral.”

Na opinião de Clever Fernandes, a oposição vai concentrar seus esforços em apontar falhas em sua atual gestão como prefeito de Goiânia. “A estratégia vai ser a de desgastar politicamente Iris Rezende e, por tabela, Maguito Vilela.” Segundo ele, daí a necessidade de Maguito Vilela conseguir a sua emancipação política demonstrando para o eleitor que uma coisa é Iris Rezende e outra é Maguito Vilela. Contudo, observa o professor, tal atitude pode também representar riscos para Maguito Vilela. “Resta saber se Maguito está disposto a sair debaixo do guarda-chuva irista, assumindo o risco de sair na chuva e se molhar.”

Experiente — O historiador, professor de ciência política da UCG e doutorando em educação pela UFG Carlos Debrey considera Maguito Vilela um político experiente e popular, de uma sigla que está enraizada na história política de Goiás. Todavia ele ressalta que não basta popularidade para vencer uma eleição. “Popularidade não significa prestígio junto à sociedade civil nem mérito político na gestão pública.” Na opinião de Carlos Debrey, a candidatura do senador apresenta vários pontos vulneráveis, como o fato de ser movida por conselheiros políticos comprometidos com a trajetória política anacrônica de estagnação econômico-social, e mediocridade, contrapondo-se à concepção republicana e democrática do governo. “A improvisação foi a marca do governo Maguito Vilela.”

Além disso, aponta o professor, o governo de Maguito Vilela foi marcado pelo caos administrativo. “A ‘privataria’ de Cachoeira Dourada prejudicou 5 milhões de goianos, que tiveram que pagar uma tarifa de energia mais cara, e deixou o Estado sem sua base de desenvolvimento econômico-social.” Carlos Debrey afirma ainda que, entre 1994 e 1998, não houve desenvolvimento na qualidade da educação nem melhoria nas condições de trabalho dos professores, porque Maguito Vilela não prestigiou a política educacional. Houve ainda, segundo o professor, um desprezo total à política do funcionalismo público, que teve o salário achatado e recebia sistematicamente atrasado. “Além da falta de transparência e democratização da coisa pública e dos escândalos de corrupção, como o caso Astrográfica e a quebra do Beg, banco público importante para o fomento do desenvolvimento de micros, pequenas e médias empresas.” Carlos Debrey ressalta ainda a dificuldade que Maguito Vilela teve em seu governo para respeitar os direitos de cidadania. “Ele não consegue conviver com a liberdade de imprensa e suas críticas.”

Por todas estas vulnerabilidades, o professor coloca em xeque os mais de 50 por cento das intenções de voto que Maguito Vilela tem nas pesquisas. “Esse é um fato extemporâneo à campanha, que não tem sustentabilidade no real.” Sua análise parte do pressuposto de que a realidade política não é retilínea, mas processual e contraditória. “A disputa das urnas só ocorre daqui a cinco meses e apenas a partir de julho vamos ver o contraditório eleitoral nos debates de idéias e projetos, na teoria e na prática, nos meios de comunicação e em praça pública.”

Incerteza produz interesse pelo antigo

Nildo Viana: “Proximidade com Iris Rezende dá a Maguito um caráter semi-populista”
Marcus Vinícius Queiroz: “Maguito não pode cair, visto que a queda tem um efeito psicológico ruim”

Segundo o professor da UEG Nildo Viana, especialista e mestre em filosofia política pela UFG e mestre e doutor em sociologia pela UnB, Maguito Vilela é herdeiro do PMDB que fez oposição ao regime militar, apesar de ter surgido primeiro na Arena. A proximidade com Iris Rezende dá a ele um caráter semi-populista, o que explica o programa de cesta básica e a política habitacional implementadas em seu governo — projetos semelhantes aos de Iris Rezende. Com isso, ele passa uma imagem de político preocupado com as questões sociais e, segundo o professor, até seu jeito de falar, simples e até errado, aproxima o político do povo. “A mesma estratégia é usada por Joaquim Roriz.” Maguito Vilela explora também o discurso da honestidade, outra característica do político que busca o apoio das massas. Nildo Viana observa que Maguito Vilela é favorecido e, ao mesmo tempo, prejudicado pela visão que o PMDB tradicional tem no imaginário popular. Ganha quando é vinculado à força eleitoral do PMDB no passado e perde quando é ligado à imagem assistencialista do PMDB tradicional. “Para uns a imagem do PMDB é positiva, para outros, negativa.”

O consultor em marketing político Roberto Lima explica que Maguito Vilela carrega o bônus e o ônus de ter sido governador. Do governo passado vêm suas restrições e resistências, mas por outro lado, diante de um quadro de incerteza, o eleitor tende a escolher aquele que já conhece. “O novo traz insegurança e o antigo um mínimo de segurança.” Segundo o consultor, Maguito Vilela terá o desafio de superar as críticas do adversário especialmente com relação à venda de Cachoeira Dourada e o caso Astrográfica.

Para o publicitário Marcus Vinícius Queiroz, da Agência Central do Brasil, a situação de Maguito Vilela neste período de pré-disputa eleitoral é a mais confortável devido a algumas vantagens: foi governador, teve uma boa avaliação popular no cargo, boa presença na mídia, autonomia e um bom currículo. Mas essa vantagem nas pesquisas é também seu calcanhar-de-aquiles, porque ele se torna o principal alvo dos adversários. “Enquanto os outros têm que trabalhar para crescer, Maguito tem que se esforçar para manter essa diferença, visto que de qualquer queda tem um efeito psicológico ruim.”



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