|
 |
| Direto do Oriente Médio |
|
|
Herbert Moraes Jr.
Um inverno mais frio do que o esperado
O início do diálogo entre o Irã e a comunidade internacional ainda é uma incógnita. Não menos é a possibilidade real do país dos aiatolás conseguir de fato construir uma bomba nuclear, que pode mudar de vez os rumos da história no Oriente Médio, e coloca Israel num momento de ambiguidade: como impedir outro país de possuir tecnologia nuclear se o Estado judeu já possui há mais de 50 anos?
|
|
HERBERT MORAES é correpondente da TV Record em Israel.
| O pedido feito pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante a assembléia geral da ONU, para que outras nações não permitissem que o Irã obtivesse armas nucleares foi claro e decisivo. Surtiu efeito. O Irã finalmente foi colocado na parede. O presidente Obama chegou a dizer que a paciência da administração americana tem limites. O lobby israelense deu certo, o Estado judeu entendeu que o momento é de diálogo e diplomacia. E o Irã parece disposto a negociar.
Mas ao mesmo tempo em que Israel luta para impedir um Irã nuclear, o país que nunca assinou o tratado de não-proliferação de armas atômicas vive um momento de ambiguidade. O Estado de Israel é a única potência atômica da região. Possui a bomba há mais de 50 anos, apesar de nunca ter confirmado a informação. Alguns especialistas dizem que são mais de 60 ogivas, capazes de varrer não só Oriente Médio, mas boa parte do mundo.
Então vem a questão da falta de eficácia. As palavras de Netanyahu foram passionais assim como os discurso do presidente francês, do primeiro-ministro da Grã-Bretanha e até do próprio Obama. Resumo da ópera, todos deveriam ter resumido os extensos discursos em apenas três palavras: “Estamos com medo”.
Todos sabem que mesmo depois de tantas declarações, o encontro de Genebra esta semana e as sanções, o Irã vai ter a bomba. E em alguns poucos anos outros países da região também terão a sua ogiva nuclear, depois, grupos até mesmo terroristas certamente vão conseguiu artefatos parecidos senão até mais avançados. E vai chegar o momento, talvez em uma década ou duas, que muitos milionários paranoicos também poderão ter a sua bomba particular nos subterrâneos de casa.
|
|
O?primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu: pedido passional surtiu efeito na ONU, mas não esconde a contradição nuclear de seu país
| Nos últimos dias o assunto principal nas TVs, rádios, jornais e botequins aqui em Israel foi a “ameaça iraniana”. Todos falavam a mesma coisa: da opção militar. Uma ação do Exército israelense que neutralizasse a possibilidade do apocalipse realmente acontecer por aqui. Em um dos vários debates sobre o assunto que acompanhei, o apresentador de um programa de rádio disse que Israel deveria parar de perder tempo com o inevitável. Ele finalizou sua fala assim: “Pare de se preocupar e saiba conviver com a bomba, senão, até amá-la”.
Um “inverno nuclear” na verdade tem muito mais vantagens do que a ameaça real de mísseis convencionais que podem atingir alvos específicos. Uma bomba radiativa, especialmente num país tão pequeno como Israel, garante muito mais devastação e mortes, e não escolhe ninguém. Todos é o alvo.
O que foi dito nesse programa de rádio que não só eu, mas muita gente por aqui escutou e concorda, é que nem tudo é um bicho-papão como a comunidade internacional tenta mostrar. Frases de efeito em discursos inflamados como “mudança de estratégia” ou um “balanço do terror” não caem bem para um país que há mais de meio século possui a bomba e o outro lado (não só o Irã) nunca teve nada.
O mundo não deixou de existir durante os 40 anos que viveu sobre a sombra do terror, quando as maiores potências atômicas (a antiga União Soviética e EUA) se ameaçavam. Aqui no Oriente Médio, uma guerra fria certamente vai provocar mudanças, para começar pelo estilo de conflito ao qual a região está acostumada.
Os israelenses dizem que os iranianos são loucos, mas quando estive no Irã, em junho deste ano, ouvi a mesma coisa sobre Israel. Americanos e russos pensavam da mesma maneira sobre o outro. Mas isso porque havia alguém por lá que os convencia a pensar desse jeito.
Se analisarmos bem o maior estrago provocado pela guerra fria não foi de batalha nenhuma, mas pura e simplesmente paranoia. Talvez os israelenses cheguem a essa conclusão. O problema é que viver sob o medo de um ataque faz parte da cultura local. A ameaça real talvez não venha do Irã, mas de dentro do próprio país. Está na hora de Israel também olhar para si mesmo e explicar ao mundo, de uma vez por todas, por que nunca assinou o tratado de proliferação de armas nucleares e por que nega possuir a bomba que tanto combate. Talvez a resposta esteja numa doutrina que faz parte da política do país. Mas isso é assunto para a semana que vem. Até.
|
|
|
|
|