Goiânia, 03 de setembro de 2010 (5:17)
De: 04 a 10 de outubro de 2009

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  Direto do Oriente Médio

Herbert Moraes Jr.

Um inverno mais frio do que o esperado

O início do diálogo entre o Irã e a comunidade internacional ainda é uma incógnita. Não menos é a possibilidade real do país dos aiatolás conseguir de fato construir uma bomba nuclear, que pode mudar de vez os rumos da história no Oriente Médio, e coloca Israel num momento de ambiguidade: como impedir outro país de possuir tecnologia nuclear se o Estado judeu já possui há mais de 50 anos?

HERBERT MORAES é correpondente da TV Record em Israel.
O pe­di­do fei­to pe­lo pri­mei­ro-mi­nis­tro de Is­ra­el, Ben­ja­min Ne­tanya­hu, du­ran­te a as­sem­bléia ge­ral da ONU, pa­ra que ou­tras na­ções não per­mi­tis­sem que o Irã ob­ti­ves­se ar­mas nu­cle­a­res foi cla­ro e de­ci­si­vo. Sur­tiu efei­to. O Irã fi­nal­men­te foi co­lo­ca­do na pa­re­de. O pre­si­den­te Oba­ma che­gou a di­zer que a pa­ci­ên­cia da ad­mi­nis­tra­ção ame­ri­ca­na tem li­mi­tes. O lobby is­ra­e­len­se deu cer­to, o Es­ta­do ju­deu en­ten­deu que o mo­men­to é de di­á­lo­go e di­plo­ma­cia. E o Irã pa­re­ce dis­pos­to a ne­go­ci­ar.

Mas ao mes­mo tem­po em que Is­ra­el lu­ta pa­ra im­pe­dir um Irã nu­cle­ar, o pa­ís que nun­ca as­si­nou o tra­ta­do de não-pro­li­fe­ra­ção de ar­mas atô­mi­cas vi­ve um mo­men­to de am­bi­gui­da­de. O Es­ta­do de Is­ra­el é a úni­ca po­tên­cia atô­mi­ca da re­gi­ão. Pos­sui a bom­ba há mais de 50 anos, ape­sar de nun­ca ter con­fir­ma­do a in­for­ma­ção. Al­guns es­pe­cia­lis­tas di­zem que são mais de 60 ogi­vas, ca­pa­zes de var­rer não só Ori­en­te Mé­dio, mas boa par­te do mun­do.

En­tão vem a ques­tão da fal­ta de efi­cá­cia. As pa­la­vras de Ne­tanya­hu fo­ram pas­sio­nais as­sim co­mo os dis­cur­so do pre­si­den­te fran­cês, do pri­mei­ro-mi­nis­tro da Grã-Bre­ta­nha e até do pró­prio Oba­ma. Re­su­mo da ópe­ra, to­dos de­ve­ri­am ter re­su­mi­do os ex­ten­sos dis­cur­sos em ape­nas três pa­la­vras: “Es­ta­mos com me­do”.

To­dos sa­bem que mes­mo de­pois de tan­tas de­cla­ra­ções, o en­con­tro de Ge­ne­bra es­ta se­ma­na e as san­ções, o Irã vai ter a bom­ba. E em al­guns pou­cos anos ou­tros paí­ses da re­gi­ão tam­bém te­rão a sua ogi­va nu­cle­ar, de­pois, gru­pos até mes­mo ter­ro­ris­tas cer­ta­men­te vão con­se­guiu ar­te­fa­tos pa­re­ci­dos se­não até mais avan­ça­dos. E vai che­gar o mo­men­to, tal­vez em uma dé­ca­da ou du­as, que mui­tos mi­li­o­ná­rios pa­ra­noi­cos tam­bém po­de­rão ter a sua bom­ba par­ti­cu­lar nos sub­ter­râ­ne­os de ca­sa.

O?primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu: pedido passional surtiu efeito na ONU, mas não esconde a contradição nuclear de seu país
Nos úl­ti­mos di­as o as­sun­to prin­ci­pal nas TVs, rá­di­os, jor­nais e bo­te­quins aqui em Is­ra­el foi a “ame­a­ça ira­nia­na”. To­dos fa­la­vam a mes­ma coi­sa: da op­ção mi­li­tar. Uma ação do Exér­ci­to is­ra­e­len­se que neu­tra­li­zas­se a pos­si­bi­li­da­de do apo­ca­lip­se re­al­men­te acon­te­cer por aqui. Em um dos vá­rios de­ba­tes so­bre o as­sun­to que acom­pa­nhei, o apre­sen­ta­dor de um pro­gra­ma de rá­dio dis­se que Is­ra­el de­ve­ria pa­rar de per­der tem­po com o ine­vi­tá­vel. Ele fi­na­li­zou sua fa­la as­sim: “Pa­re de se pre­o­cu­par e sai­ba con­vi­ver com a bom­ba, se­não, até amá-la”.

Um “in­ver­no nu­cle­ar” na ver­da­de tem mui­to mais van­ta­gens do que a ame­a­ça re­al de mís­seis con­ven­cio­nais que po­dem atin­gir al­vos es­pe­cí­fi­cos. Uma bom­ba ra­dia­ti­va, es­pe­ci­al­men­te num pa­ís tão pe­que­no co­mo Is­ra­el, ga­ran­te mui­to mais de­vas­ta­ção e mor­tes, e não es­co­lhe nin­guém. To­dos é o al­vo.

O que foi di­to nes­se pro­gra­ma de rá­dio que não só eu, mas mui­ta gen­te por aqui es­cu­tou e con­cor­da, é que nem tu­do é um bi­cho-pa­pão co­mo a co­mu­ni­da­de in­ter­na­ci­o­nal ten­ta mos­trar. Fra­ses de efei­to em dis­cur­sos in­fla­ma­dos co­mo “mu­dan­ça de es­tra­té­gia” ou um “ba­lan­ço do ter­ror” não ca­em bem pa­ra um pa­ís que há mais de meio sé­cu­lo pos­sui a bom­ba e o ou­tro la­do (não só o Irã) nun­ca te­ve na­da.

O mun­do não dei­xou de exis­tir du­ran­te os 40 anos que vi­veu so­bre a som­bra do ter­ror, quan­do as mai­o­res po­tên­cias atô­mi­cas (a an­ti­ga Uni­ão So­vi­é­ti­ca e EUA) se ame­a­ça­vam. Aqui no Ori­en­te Mé­dio, uma guer­ra fria cer­ta­men­te vai pro­vo­car mu­dan­ças, pa­ra co­me­çar pe­lo es­ti­lo de con­fli­to ao qual a re­gi­ão es­tá acos­tu­ma­da.

Os is­ra­e­len­ses di­zem que os ira­nia­nos são lou­cos, mas quan­do es­ti­ve no Irã, em ju­nho des­te ano, ou­vi a mes­ma coi­sa so­bre Is­ra­el. Ame­ri­ca­nos e rus­sos pen­sa­vam da mes­ma ma­nei­ra so­bre o ou­tro. Mas is­so por­que ha­via al­guém por lá que os con­ven­cia a pen­sar des­se jei­to.

Se ana­li­sar­mos bem o mai­or es­tra­go pro­vo­ca­do pe­la guer­ra fria não foi de ba­ta­lha ne­nhu­ma, mas pu­ra e sim­ples­men­te pa­ra­noia. Tal­vez os is­ra­e­len­ses che­guem a es­sa con­clu­são. O pro­ble­ma é que vi­ver sob o me­do de um ata­que faz par­te da cul­tu­ra lo­cal. A ame­a­ça re­al tal­vez não ve­nha do Irã, mas de den­tro do pró­prio pa­ís. Es­tá na ho­ra de Is­ra­el tam­bém olhar pa­ra si mes­mo e ex­pli­car ao mun­do, de uma vez por to­das, por­ que nun­ca as­si­nou o tra­ta­do de pro­li­fe­ra­ção de ar­mas nu­cle­a­res e por­ que ne­ga pos­su­ir a bom­ba que tan­to com­ba­te. Tal­vez a res­pos­ta es­te­ja nu­ma dou­tri­na que faz par­te da po­lí­ti­ca do pa­ís. Mas is­so é as­sun­to pa­ra a se­ma­na que vem. Até.



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