Walter Longo, presidente do Grupo Abril, diz que jornais e revistas estão se suicidando

Executivo da Veja e da Exame afirma que a imprensa tem um futuro muito grande se parar de pensar que está no fim

Walter Longo: “Neste momento de fake news, a imprensa deveria
estar ainda mais imbuída de
separar a verdade da mentira” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Em­pre­sas em Goiás (Se­brae-Go) promoveu, na terça-feira, 1º, um circuito de palestras voltado para o público empreendedor. Dentre os palestrantes, fez-se presente Walter Longo, presidente executivo do Grupo Abril desde março de 2016. O executivo abordou o impacto das tecnologias digitais nos pequenos negócios.

Com exclusividade, Walter externou ao Jornal Opção a sua opinião acerca das ferramentas digitais, cada vez mais em evidência na mídia. Para ele, o papel continuará desempenhando uma importante função e os jornais e revistas devem parar de pensar que estão no fim. Segundo Walter, as empresas provedoras de conteúdo tendem a firmar parcerias com Google e Facebook a fim de equilibrar a balança do faturamento com propaganda.

Demais temas atuais, como as fake news, também foram tratados na entrevista. “Nesse momento, a imprensa deveria estar mais imbuída de separar a verdade da mentira e o relevante do irrelevante”, argumenta o publicitário. O homem por trás das revistas “Veja” e “Exame” diz estar otimista com o Brasil, pois, na sua visão, está surgindo um novo país: o dos honestos. E ele promete continuar vigiando o poder, independentemente de quem estiver no comando.

Google e Facebook são dois grandes faturadores de publicidade, mas não produzem conteúdo próprio. Como resolver este problema?
Esse é, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade. A cada dia que passa, fica mais claro para o Google e o Facebook a importância das empresas que produzem conteúdo e vice-versa. Estamos conversando sobre como tornar possível uma aliança e não uma disputa entre as armas digitais e os provedores de conteúdo. Já temos tido experiências muito ricas e esperançosas. Diria que o balanço está pendendo para Google e Facebook porque eles estão ganhando mais dinheiro, mas tenho certeza de que vamos encontrar formas para chegar a um equilíbrio bom para todos.

A Amazon se surpreendeu recentemente com a maior quantidade de venda de livros tradicionais do que digitais. O sr. também se surpreende com isso?
Não me surpreendo. Eu sabia que isso ia ocorrer e vai ocorrer cada vez mais. A “Scientific American” fez uma pesquisa recente mostrando que tudo que você lê no papel tem seis vezes e meia mais capacidade de apreensão e compreensão do que no digital. A ra­zão disso é que leitura é uma du­pla decodificação. Primeiro, é en­vi­a­da uma imagem ao cérebro e as le­tras se transformam em um significado, passando a ter uma informação adicional na cabeça. Por isso, quando se lê uma revista, jornal ou livro, para recordar alguma coisa, lembra-se se estava à esquerda em cima ou à direita embaixo, no começo ou no fim do livro. Essa capacidade espacial de lembrança tem a ver com a forma como o cérebro decodifica a leitura. Em um mundo digital, com o scrolling, não se tem a menor no­ção do que se viu. Além disso, há um segundo desafio que é o fato de se fazer hiperlink. Você está lendo alguma coisa, clica ali, vai para ou­tro lugar e se desvia. A capacidade de focar que um livro te dá é perdida no digital. Fora as interrupções que acabam entrando, como mensagens de WhatsApp. A leitura no mundo digital é superficial, di­ver­siva e, no máximo, empática. A lei­tura mais epistêmica tem de conti­nuar no papel e é isso que as es­colas dos Estados Unidos estão no­tando. Algumas, inclusive, eliminaram o iPad e retornaram para o livro.

Em termos financeiros, como o sr. avalia o atual momento dos jornais e revistas no Brasil?
Jornais e revistas não estão morrendo, e sim se suicidando. Eles estão o tempo todo pensando que vão acabar e, assim, pioram a qualidade do papel, reduzem tiragem e “juniorizam” as redações. É uma atitude absolutamente equivocada. Tenho a convicção de que o papel continuará tendo uma função importante. Na minha opinião, jornais e revistas possuem ainda um futuro muito grande se pararem de pensar que estão no fim. Nesse momento, há uma grande divisão. Cabe ao mundo digital responder “ok” e “quando” e, ao papel, “por que” e “como”. Sem dúvidas, é muito melhor ler algo com mais profundidade no papel. Por outro lado, a novidade foi para o digital. Temos de conseguir dividir as tarefas e nós na Abril estamos buscando essa harmonia. As empresas de mídia que sofrerem um processo de desinvestimento da qualidade editorial estão próximas do fim. As que investirem na qualidade vão, aos poucos, ser reconhecidas por isso. Basta ver que a “Veja”, que tinha 1 milhão de assinantes há cerca de três anos, agora já tem 1 milhão e 200 mil. Um aumento de assinantes no papel — algo que parecia ser inconcebível — ocorre em função deste investimento que está sendo feito.

E qual é a sua avaliação em termos de qualidade jornalística?
A cobertura jornalística hoje está emocional. Poucas vezes tenho visto análises que sejam desprovidas de um viés, que, para mim, é perigoso tanto para um lado quanto para o outro — isso quando não estão inventando informações falsas. No jornalismo de paixão da atualidade, as pessoas estão colocando as suas convicções adiante do fato. Esse exagero faz com que se perca a razão e, consequentemente, a credibilidade. Penso que a imprensa, neste mo­mento em que o fake news surgiu com toda a força, deveria estar ainda mais imbuída de separar a verdade da mentira e o relevante do irrelevante, posicionando-se como anti-fake news. Quando começa a exagerar e a inventar, fica difícil conseguir ver aquilo que espero: um porto seguro para a informação confiável.

O sr. acredita em jornalismo isento e independente?
Em uma pesquisa, a resposta normalmente é a de que jornalismo independente ou isento é aquele que concorda com as minhas ideias, ou seja, sempre haverá um viés. Mas há uma grande distância entre a tendência ao exagero dos fatos. Ao ler a “The Economist”, você sabe que o que está escrito é verdade, mas sob um viés voltado para o empreendedorismo e a livre iniciativa. Da mesma maneira em um veículo de esquerda. E não é por causa desse viés mais à esquerda que se deva gerar um texto apaixonado desprovido de um conteúdo verdadeiro. O viés sempre existirá e ele é bom. Adoraria ouvir um jogo do Co­rin­thians narrado por um co­rintiano, mas quando for pênalti, eu quero que ele diga que foi pênalti, e não que o juiz é ladrão. Tenho de entender que aquela pessoa está torcendo, desde que não falte com a verdade. Eu acho que nós estamos perdendo um pouco disso e exagerando na invenção mais do que nos aspectos factuais.

Há quem diga que a “Veja” vem adotando um tom mais moderado ultimamente. Isso procede?
A “Veja” sempre adotou um tom mais ponderado. Se fizer uma viagem regressiva, vai ver que a “Veja” estava contra o Collor, depois contra o Lula e, agora, parece estar contra o governo atual. A revista está, na verdade, a favor do Brasil. Nossa posição é a de vigiar o poder, custe o que custar, principalmente se custar. Independentemente de quem estiver no poder, vamos vigiar. Se houver alguma coisa equivocada, vamos cobrir.

Como o sr. analisa o mercado para correspondentes internacionais? A Abril tem investido nisso? Há correspondentes em países como a China, por exemplo, que é um grande parceiro econômico do Brasil?
Há correspondentes sim e o mundo digital possibilitou muito mais economia de escala para se fazer isso. Antigamente, você tinha que mandar uma pessoa para um país de maneira exclusiva. Hoje, trabalhamos mais de maneira colaborativa. Eu posso ter um correspondente na China, que, por um acaso, trabalhe para um jornal chinês. E eu falo com ele o dia inteiro por Skype sem custo. Há muitas facilidades que o mundo digital trouxe e essa visão global é, sem dúvidas, cada vez mais fundamental.

Para encerrar, gostaria de saber se, apesar da corrupção, o sr. ainda acredita no Brasil.
Estou muito otimista, mesmo com toda essa dificuldade. Estamos sofrendo hoje as dores de parto de um novo país. Não sabemos se vai ser cesariana, parto natural ou com fórceps, mas seguramente nós estamos vendo um novo país surgindo. O que está tomando conta das manchetes já existe há muito tempo e a possibilidade de denunciar neste momento é fundamental para termos esperança em um novo país que vem por aí. Estamos trocando o país dos espertos pelo país dos honestos. Isso tem um preço e é o que estamos pagando agora. l

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Parabéns ao repórter Marcelo Mariano pela entrevista. Muito boa, mesmo.
Gostei de tudo, principalmente, de saber que da imprensa só podemos esperar suicídio e não morte natural. Também, confirmar o que o Opção, via Euler Belém, já havia afirmado semanas atrás: “A lei­tura mais epistêmica tem de conti­nuar no papel e é isso que as es­colas dos Estados Unidos estão no­tando. Algumas, inclusive, eliminaram o iPad e retornaram para o livro.”

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